Estava a côrte em Aranjuez. Passeiavam o rei, sua prima Merc

E-text prepared by Pedro Saborano

O ROMANCE DA RAINHA MERCEDES

PORTO--TYP. OCCIDENTAL--PICARIA, 54.

A. PIMENTEL

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O ROMANCE DA RAINHA MERCEDES

PORTO

LIVRARIA PORTUENSE--EDITORA

121--Rua do Almada--123

1879

_... et erunt duo in carne una_

GENESIS, cap. II, V. 21.

OS REIS

I

OS REIS

Que secreto mobil determina as evoluções da humanidade atravez dos

tempos? Que mysteriosa lei regula os destinos das sociedades no

discorrer dos seculos? Eis o grande problema que ha duzentos annos

preoccupa o espirito humano. É a Providencia: diz Bossuet. As nações

teem uma natureza commum; a humanidade é obra de si mesma: sustenta

Giambattista Vico. É a influencia do clima: propõe Montesquieu. É a

fatalidade cega: proclama Voltaire. É Sua Magestade o Acaso: teima

Frederico II. É a situação geographica: aventa, por sua vez, Herder, o

philosopho allemão. E todavia o problema ainda não está resolvido, a

grande duvida permanece não obstante os incontestaveis progressos da

philosophia cada vez mais pejada de systemas...

Os acontecimentos succedem-se n'uma variedade caprichosa, que parece

intencionalmente destinada a desorientar os philosophos da humanidade e

da historia.

Hontem os reis eram personalidades sagradas, representavam na terra o

poder divino. D'esta alliança do céo com o throno nasceu a corôa

encimada pela cruz. O montante real estava ao serviço da religião;

dizimava, como um vendaval de morte, os exercitos dos que não tinham a

mesma crença religiosa. Beijava-se a mão dos reis como ainda hoje se

beija a fimbria do vestido de uma santa. Elles eram recebidos, por toda

a parte, debaixo do pallio, como uma reliquia. Os que os viam,

ajoelhavam, como se faz para orar.

Hoje... Hoje os reis, no mesmo dia em que sobem ao throno, sonham com a

via dolorosa do exilio. Sobre os almadraques do aposento real estão os

preparativos indispensaveis para a jornada do desterro: o bordão do

peregrino, e o chapeu do romeiro. No meio dos saraus da côrte ou nas

horas silenciosas da meditação, elles ouvem, como um rumor sinistro,

como uma voz presaga, o echo da revolução que se aproxima, como uma onda

enorme, ameaçadora. Olhando para seus filhos, estremecem de horror,

porque se lembram de que talvez um dia aquellas mimosas creanças terão

de sentar-se á mesa do sapateiro Simão. Muitas vezes, contemplando o

perfil melancolico da mulher que com elles comparte os cuidados da

realesa, julgarão talvez que ella está já sob a pressão de uma loucura

saudosa, como a viuva de Maximiliano. Um dia, d'entre o povo que

outr'ora os abençoava, ergue-se um braço regicida, o de H½del ou de

Nobiling, de Moucosi ou Passavante. Até a vida dos reis principia a ser

disputada nos clubs secretos, como se fosse de uma fera. As arvores das

alamedas publicas sacodem ao vento umas folhas crestadas e crivadas,

como na _Avenida das tillias_; passou por ellas o fogo que devia

fulminar o rei. Transformação completa!

Cesar Cantu deu por base á Historia as ruinas. Assim é com effeito. Esta

pyramide, que memóra os seculos, e que se chama a Historia, é feita

d'escombros. A hora em que desabam os thronos, sobram portanto os

materiaes para historiar, a não ser que alguem os queira aproveitar para

levantar cadafalsos como no tempo de Luiz XVI.

Nós temos pelos reis, n'esta hora tão açoitada de paixões politicas, um

respeito melancolico, uma consideração dolorida. Vemos n'elles,

desde que nascem, os escravos de uma corôa. Muitas vezes quizeramos

repartir com elles a nossa obscura liberdade de fallar, de trabalhar, de

viver. Desejavamos dar-lhes o nosso direito de se desafrontarem pela

penna, pela palavra, pela espada. Folgavamos de lhes poder pôr no peito

um coração para amar, para eleger esposa, como todos nós fazemos--menos

elles. Depois, quando os vemos partir para o exilio, já velhos como

Napoleão III, ainda creanças como Affonso XII, assistimos pela

imaginação aos mais intimos episodios da vida de familia, que para elles

deve de ter ao mesmo tempo o encanto da surpresa e o travor da amargura,

o que faz com que nem no exilio sejam inteiramente felizes os reis.

Affonso XII offerece, na historia das monarchias modernas, um exemplo

notavel: principiou por onde os outros acabam,--pelo exilio. Conheceu-o,

sendo ainda principe. O seu coração formou-se lentamente na saudade

confusa da patria, e no habito de ouvir pronunciar a palavra--destêrro.

Ao passo que os mais obscuros collegiaes da provincia fallavam, no

collegio de Theresianaw, em Vienna, nos bosques e nos campos da sua

terra natal, o filho da que havia sido rainha de Hespanha olhava

melancolicamente para as arvores que a Austria lhe emprestava por

compaixão, e não tinha siquer uma recordação da infancia para

acrescentar áquelle poema de saudade que os seus condiscipulos estavam

devaneiando.

Mas o principesinho hespanhol pôde, sem o suspeitar decerto, tirar do

exilio um grande ensinamento: que um rei deve preparar-se para o exilio.

Como? Obstinando-se em amar livremente. Escolhendo noiva, em vez de

acceitar a que lhe escolheram. Procurando uma mulher que, pelo amor,

possa supprir a patria, quando a rainha desappareça.

Por isso, depois que o golpe de estado de Martinez Campos o chamou ao

throno onde porventura encontraria ainda alguma pallida flôr desprendida

das tranças de uma bella italiana, a rainha Maria Victoria, e quando de

repente, no meio das pompas da acclamação, cuidou ler mais uma vez

n'essa flôr desbotada a triste verdade da instabilidade das monarchias

modernas, Affonso XII lembrou-se de que se devia preparar para o exilio,

sem mesmo poder ter a certeza de que as petalas que encontrava esparsas

sobre o throno de Hespanha fossem os despojos de uma grinalda da

princeza de Aosta ou da rainha Izabel, sua mãe...

Desde esse momento a imagem adorada de Mercedes, a neta de um rei

desthronado, fixou-se no seu coração. A imaginação peninsular do rei

idealisou a desgraça do exilio, como se nunca a houvesse conhecido,

tendo aquella mulher ao pé de si. Com ella, levaria a familia, para onde

quer que fosse, e a patria, porque ella tambem era hespanhola. Então

principiou a desdobrar-se aos olhos da Europa o formoso poema da

resurreição dos grandes amores antigos e cavalheirescos.

Como nos romances da idade media, o braço descarnado da morte imprimiu

n'esse poema escripto em folhas de rosa o sêllo de uma fatalidade

mysteriosa, extranha. O lucto da viuvez envolveu de repente o throno de

Hespanha e o coração do rei amantissimo.

É a historia d'esse grande amor e d'essa grande fatalidade o que nós

intitulamos, aproveitando o doloroso colorido dos factos, _O romance da

rainha Mercedes_.

* * * * *

ELLE

II

ELLE

O rei de Hespanha faz lembrar estas plantas mimosas que, nascendo no

topo de um outeiro batido dos ventos, se tornam fortes. Creado nos

regalos da côrte, educado sob a influencia da tradição religiosa do seu

paiz, parecia unicamente destinado a ser algum dia um simples rei

catholico e constitucional, como os seus antecessores. Como elles,

seguindo as praxes da primogenitura, depôz o seu vestido branco no altar

da Virgem da Atocha, e vestiu um uniforme militar para cumprir o velho

estylo tradicional, que, desde os primeiros annos da existencia, rouba

toda a originalidade, annulla todas as disposições naturaes aos

principes destinados ao throno.

O sentimento poetico, que tanto dulcifica os costumes, e que prepara a

alma para a concepção do bello, bebeu-o certamente com o leite da

robusta camponeza das Asturias, a quem a sua amamentação foi confiada.

Mas esse germen de poesia, tão necessario á alma de todos os homens,

especialmente de um rei, devia aniquilar-se na atmosphera dos paços

reaes, na temperatura abafadiça das pragmaticas anachronicas, longe do

espectaculo da natureza, e das grandes correntes do pensamento humano.

Um rei, como uma flôr muito resguardada, é um producto meio artificial,

por um vicio de educação, que já seria tempo de banir. Faltam-lhe as

commoções profundas, as eloquentes lições da sociedade, a aprendizagem

casual que robustece o espirito e o torna apto para a lucta. Recebe a

instrucção como recebe a luz, o sol, e o ar: em pequenas doses regradas,

systematicamente, para que o não molestem. Podia ser um bello espirito,

mas a tradição faz d'elle um espirito vulgar. É pouco mais ou menos como

seu pai; seu filho será como elle.

Mas ao rei Affonso estavam reservados acontecimentos que deviam

modificar completamente a acção enervadora da educação palaciana. Passou

os primeiros annos da vida no exilio, para onde a revolução arrojou

sua mãe. Não viajou como um principe, como o futuro rei de Hespanha, sob

as vistas de aulicos vigilantes e aduladores. Era então um simples

particular, uma creança que podia vêr e ouvir, mediar e fallar, viver,

n'uma palavra. Passando de paiz em paiz, esteve n'um collegio de França,

depois n'outro de Vienna, por ultimo no de Sandhurst, em Inglaterra.

Tratou de perto, deixem-me assim dizer, muitas ideias differentes,

porque é forçoso convir em que as ideias da França não são precisamente

como as da Austria, e as da Austria justamente como as da Inglaterra. A

natureza, variando de contornos de paiz para paiz, varia tambem a sua

lição. As creanças, que são, no fundo, a mais completa manifestação da

natureza, porque são a natureza n'um estado de puresa immaculada, como

que impregnam quem as conversa do espirito das nacionalidades que

representam, sobretudo se quem as conversa é igualmente creança, porque

n'esse caso a sua alma recebe profundamente as impressões, que ficam

gravadas como caracteres alphabeticos sobre uma camada de cera. Ora o

moço Affonso, em qualquer dos tres collegios, viveu sempre entre

creanças, que não só representavam ideias differentes, mas tambem genios

e classes differentes. Magnifica lição para qualquer principe que

tivesse de occupar um throno! Ao pé do alumno fidalgo, o alumno burguez:

ao pé do pergaminho, a riquesa; o alumno estudioso ao pé do alumno

madraço: a força ao pé da inercia; o alumno intelligente ao pé do alumno

estupido: a gloria ao pé da indifferença. Cada classe e cada genio

equivalia a uma nova lição, porque, por mais estupida que seja uma

creança, ella sabe sempre encontrar argumentos para desculpar o estado

do seu espirito. «Não sou eu que não aprendo; é o professor que ensina

mal; são os livros que não prestam.» O joven filho da rainha exilada

habituou-se, portanto, a conhecer as individualidades atravez de todos

os veus. Estudou os homens nos homens, o que é muito differente de

estudal-os nos cortezãos, que são uma contrafacção. Não aprendeu

exclusivamente para rei; aprendeu a sciencia da vida, praticamente, como

se fosse um simples vassallo, porque o throno era para elle uma coisa

muito incerta...

Foi assim que os vendavaes do exilio fortaleceram a planta mimosa. O que

nascêra principe fizera-se homem. Teve, portanto, razão o duque de

Miranda, quando photographou Affonso XII com uma simples phrase: _É um

homem._

O maior elogio dos reis está precisamente em serem homens. Assim

pensava uma antiga rainha de Castella, quando, fallando de D. João

II de Portugal, dizia que elle havia sido _um homem_. E foi.

Mais do que qualquer outro throno da Europa, o de Hespanha precisa de

reis que sejam homens. Ser rei em Hespanha é luctar. A historia falla

eloquentemente. Carlos IV morreu no exilio; Fernando VII atravessa vinte

annos de revolução; Izabel II é ainda hoje uma illustre exilada; Amadeu

I deve conservar, como a vaga lembrança de um sonho, a ideia de ter

reinado em Hespanha. N'esta serie de reis falta ainda uma nodoa de

sangue entre Carlos IV e Fernando VII: É José Bonaparte. O herdeiro de

tão revolta monarchia precisava ser um espirito forte, um homem

perseverante, energico, mesmo audacioso. «_Io no soy de los reyes que se

van. De muerte natural ó violenta moriré sobre el trono._» Estas

palavras de Affonso XII dão a medida da justa comprehensão que elle tem

do seu dever. Cesar morreu em pleno senado; Molière agonisou sobre o

palco. Cada um no seu logar. A vida é uma batalha; cada soldado no seu

posto.

Quando Affonso XII entrou em Hespanha para reinar, tinha aproximadamente

vinte annos. Veio por mar, entregue aos caprichos da onda, porque um

rei, desde que principia a sel-o, precisa de se entregar cegamente

ao destino. Mas, logo que desembarcou em solo hespanhol para tomar o

caminho de ferro de Madrid, em vez de uma chuva de flôres, esperava-o

uma chuva de balas. O desespero carlista queria enviar a D. Affonso XII

uma saudação de morte. Mas o rei passou impunemente, e o carlismo

continuou a debater-se nas vascas da agonia. Era uma serpente que se

revolvia entre chammas.

Então a Hespanha viu sobre o throno um rei profundamente hespanhol--no

animo e na physionomia. Um dextro _torero_, um valente caçador, um

cavalleiro eximio. Figura esbelta, _salerosa_, rosto moreno, cabellos

pretos, bocca expressiva, dentes alvissimos. Um adolescente de

_serenata_, um trovador de vinte annos sobre um throno de seculos.

Para completar o typo peninsular, um coração amante. Toda a vida de um

hespanhol está no amor ou no ciume. O rei amava. Facto verdadeiramente

extraordinario e ousado: um rei amar! Para um principe de vinte annos,

uma princeza de dezesete. Mercedes, sua prima, era uma creança

idealisada pela formosura. O rei amava-a em segredo, com um culto

sagrado. Adorava-a.

* * * * *

ELLA

III

ELLA

A princeza Maria de las Mercedes, filha do duque de Montpensier, Antonio

de Orleans, e da infanta hespanhola Maria Luiza, irmã de Izabel II,

realisava, pelo nascimento, uma seductora consubstanciação, o enlace de

duas fascinações. Por seu pae, francesa, por sua mãe, hespanhola, ella

reunia em si as duas nacionalidades que maior relevo dão aos encantos

femininos. Juntai a graça _francesa_ ao salero hespanhol, a alegria da

França á vivacidade da Hespanha, juntai Pariz a Madrid, e tereis uma

figura encantadora: Mercedes.

Ide aos _parterres_ das Tulherias, que foi um jardim de principes,

colhei uma rosa d'aquellas com que outr'ora a imperatriz Eugenia

enflorava os seus bellos cabellos, e deponde-a sobre uma fina jarra de

Triana n'um palacio de Sevilha: havereis conseguido copiar a graciosa

individualidade de Mercedes.

A França e a Hespanha começaram a disputar, á beira do berço da

princeza, o direito de lhe conceder dons. Dou-lhe um raio de sol para os

cabellos, disse a França. E eu os reflexos sombrios do azeviche,

accrescentou a Hespanha. E da reunião d'estas duas dadivas nasceu a côr

das tranças castanho-claras de Mercedes. Tratou-se de colorir-lhe as

faces. Que façam inveja á perola, disse a França. Sim, mas os olhos

pertencem-me, replicou a Hespanha; eu quero que os olhos sejam

hespanhoes. Faces côr de mate; os olhos como os de Affonso, côr de noz.

Era preciso animar a bella estatua. A França chamou Pariz, e disse-lhe:

Derrama sobre o corpo d'essa gentil princeza as ondas d'esse fluido

mysterioso a que em toda a parte se chama--a graça pariziense. A

Hespanha chamou Madrid e disse-lhe: Temos n'uma só mulher uma princeza e

uma hespanhola; extrae a mais fina essencia do teu _salero_ e

concede-lh'a. Animada a formosa esculptura, disse a França: Pertence-me;

é neta de um rei francez. Perdão, contestou a Hespanha, é neta de um rei

hespanhol.

Quanto a educação, Mercedes havia sido creada como seu primo: no meio da

sociedade. Os habitos democraticos de Luiz Filippe fizeram impressão em

França; o rei quiz que seus filhos frequentassem as escholas publicas.

D. Antonio de Orleans seguiu, n'este ponto, a tradição paterna. Como seu

primo, Mercedes foi uma simples collegial. Usava, como as outras

creanças, chapéu de palha com grandes abas, vestidos curtos, botinas sem

saltos. Como as suas condiscipulas, associava-se ás pequenas rebelliões

de classe; como as outras, soffria castigos, os enormes castigos

femininos, passeiar meia hora n'um corredor, para que quem passasse a

visse... Tambem como as outras, ou talvez mais do que as outras,

brincava no _recreio_. Faltava ás suas companheiras a vivacidade

hespanhola que a animava a ella, a pujança com que annos depois havia de

fatigar ao _crocket_ um dos mais destros jogadores, o duque de Baños.

N'outra coisa se distinguia ainda: tratavam-n'a por _madame_. Achou a

superintendente do collegio que seria desarrasoado chamar menina a uma

princeza, e princeza a uma menina. Cortou-se o nó gordio dando-lhe um

tratamento que representasse uma certa superioridade moral: _madame_. Os

quatorze annos da princesa, que os tinha então, riam-se alegremente

por entre as velhas arvores da cerca, quando ouviam gritar: _Madame!_

Mas o que é certo é que _madame_ atravessando o collegio, como o

principe das Asturias, adquiriu o conhecimento pratico da sociedade,

aprendeu principalmente o valor que teem as lagrimas, porque as chorou

nas horas de correcção ou de saudade pela sua familia, em particular por

seu primo, e porque as viu chorar em circumstancias identicas. Ora uma

boa rainha, para que não deixe de amparar os desgraçados, precisa de

saber quanto custa o chorar. Tambem o collegio lhe deu por ventura uma

exacta comprehensão do amor. Quasi todas as collegiaes tinham um primo

ausente, idealisado pela saudade da terra natal e do tecto paterno; um

companheiro de jogos infantis, um Paulo que, por sua vez, pensava

áquella mesma hora em Virginia... Por elle choravam, fallavam d'elle

baixinho, umas com outras. N'essas horas de intimidade desapparecia a

_madame_. «Ó Mercedes, tu tambem tens um primo da tua idade...» «Tenho».

E córava, e sorria.

Era o principe das Asturias.

De repente apparecia a preceptora. Então as dissimuladas confidentes

modificavam-se: _Madame_ d'aqui; _madame_ d'alli.

E a gentil _madame_ de vestidos curtos afugentava com uma alegre risada

sonora a lembrança saudosa do nobre priminho, e agitava os seus pequenos

braços para suster na queda uma folha solta que vinha descendo do

arvoredo, ou para cortar o vôo a uma borboleta iriada.

Quando o duque de Montpensier residiu em Lisboa, Mercedes, com suas

irmãs, continuou a viver na sociedade, que era a primeira de Portugal, a

gozar, no meio das regalias fidalgas, a desoppressão das etiquetas

cortezãs. Ao mesmo tempo ia estudando o mundo atravez da sua ventarola

sevilhana. E quem sabe? quem sabe se este céo de Portugal, este bello

céo que é naturalmente quem nos faz amorosos, tão amorosos que até no

extrangeiro temos fama de o ser, quem sabe se elle não emprestou para os

idyllios de Mercedes os seus reflexos azues e as suas aureas radiações,

se elle não contribuiu para divinisar na alma da gentil princesazinha a

imagem adorada de seu primo?!

* * * * *

O AMOR

IV

O AMOR

A diplomacia moderna annullou o coração dos reis. Não é o amor a base

das familias reaes; a diplomacia aconselha os principes reinantes a

procurarem esposa segundo as conveniencias da politica internacional.

Todo o homem tem o direito de escolher a mulher que mais o captivou

pelos encantos ardentes da formosura ou pela serena attracção da

virtude; de preparar o seu ninho conjugal com a doce phantasia de quem

estivesse alfaiando um templosinho para uma divindade adorada; de

antegostar pela imaginação as delicias de uma vida cheia de remanço e

conforto, chilreada de palavras meigas, estrellejada com os reflexos

luminosos dos sorrisos leaes e honestos; quer dizer, todos podem

conquistar pela familia a immortalidade do coração, reviver pelo

amor no futuro dos filhos idolatrados, todos--menos os reis. O que se

exige dos monarchas não é, em primeiro logar, que constituam familia, é

que constituam dynastia; em segundo logar o que se exige não é que

simplesmente pensem na familia a que vão dar origem, mas que ponderem

reflectidamente se a familia a que a princeza escolhida pertence reune

as condições de riquesa e poderio que, segundo a politica, convém ter em

vista. De modo que um rei não desposa uma mulher; casa com uma nação.

Não é uma alliança individual; é uma alliança internacional. Depois que

a diplomacia intendeu nos casamentos dos reis, são vulgares na historia

de todos os povos os tristes romances em que as rainhas dissolutas

perturbam a vida de uma nação inteira por um capricho do coração,

sedento de amar. Dos casamentos diplomaticos resultam escandalos

tamanhos como aquelle a que Portugal assistiu no tempo de Affonso VI.

Ora os exemplos são tanto mais prejudiciaes quanto mais d'alto partem;

parecem-se n'isto com as torrentes: quanto maior é o despenho, tanto

maior é o impeto da agua. Os escandalos que se exhibem nos thronos teem

um publico numeroso, a nação. Portanto, contaminam muita gente.

No velho codigo indiano de Manú, os casamentos de inclinação são

chamados da _musica celeste_. N'esses casamentos de Deus, como diz ainda

o nosso povo, ha com effeito uma harmonia santa, celeste. Sob a bençam

da Egreja reunem-se dois corações em flôr, cheios de esperança e de

alegria, de sonhos e de sorrisos. São duas primaveras que se enlaçam, e

é certo que não ha primavera que não deixe vêr a Providencia por detraz

do véo transparente dos seus jubilos. Aqui está, pois, explicada a

expressão de Manú.

Affirma Lichtenstein que entre os cafres koussas não preside ao

casamento o menor sentimento affectuoso. Pois a diplomacia parece tambem

apostada em asselvajar os reis, em tornal-os á barbarie. Culpa da

politica, quasi se poderiam comparar aos algonquinos, em cujo

vocabulario falta um verbo que signifique _amar_; e dizemos quasi,

porque nos lembrou que os reis costumam dizer officialmente: _Minha

muito amada esposa_: existe a palavra, mas falta, as mais das vezes, o

sentimento que ella exprime. O que é muito peior, porque representa uma

falsidade, que as civilisações toleram.

Os vocabularios algonquinos são n'esse ponto mais sinceros...

Michelet disse n'um dos seus livros historicos que a Hespanha pendia

para barbara, apezar do estreito; _l'Espagne tient à la barbarie, malgré

le detroit._ Pois justamente á hora em que nos paizes mais civilisados

os reis casavam obrigados pelos seus ministros, e nos paizes mais dôces,

em que o céo e a terra parece deverem embalar a alma em branduras

amorosas, não eram mais felizes nem mais livres; na Hespanha, apezar de

barbara, como disse Michelet, um rei, que subia a um throno em que não

estava ainda firmado, teve a coragem de repartir o seu coração entre a

patria e uma mulher.

Affonso XII comprehendeu, em plena mocidade, a verdadeira missão do

homem. Realmente, por mais brilhante que seja um espirito, por mais

perseverante que seja uma vontade, sempre a vida de qualquer homem ha de

derivar por entre duas religiões: a da familia e a da patria. São duas

prisões que aferram toda a existencia: preso á familia pelo amor; preso

á patria pelo trabalho. Aos reis, apezar da sua elevada posição, não

cabe menor quinhão de trabalho do que aos vassallos; por isso já um

monarcha portuguez, que tinha uma perfeita comprehensão dos seus

deveres, chamou aos encargos de um rei o _officio de reinar_.

Mas o amor de um rei era facto tão raras vezes presenciado, que

precisava ser tractado com recatos. Atirai bruscamente com uma flôr

delicada, e vel-a-heis desfolhar. Ora nada ha mais delicado do que o

amor, sempre que elle mereça este nome. Se D. Affonso XII houvesse feito

alarde do seu amor, corria risco de vêr maltratada a pura flôr do seu

coração. Um rei da Europa, em pleno seculo XIX, precisava ser cauteloso,

embora perseverante, nas expansões do amor. Importava que a politica e o

paiz se fossem habituando lentamente a vêr amar um rei.

Era em verdade para receiar que a interposição de uma corôa fosse

obstaculo insuperavel á ardente paixão dos dois primos. Portanto, o

joven rei de Hespanha quiz tranquillisar o animo de Mercedes. Mas, como

poder dizer-lh'o livremente, no meio da côrte--a côrte, a eterna sombra

dos reis? Era preciso aproveitar o menor incidente; sobretudo, era

preciso sabel-o aproveitar.

D. Affonso triumphou d'esta difficuldade.

Estava a côrte em Aranjuez. Passeiavam o rei, sua prima Mercedes, a

infanta Christina, o duque de Sexto, as damas de honor, sob o arvoredo

da Cintra hespanhola. De repente, pela estrada de Toledo, roda uma

carroça, envolta em turbilhões de poeira. Com uma simples palavra, o

rei faz detel-a. Sobe para ella, quer que sua prima suba. A dama de

honor de Mercedes sobe tambem. Parece a todos um capricho de rei, um

brinco de adolescente. Ah! mas não era só isso... D. Affonso, em pé,

vigoroso e alegre, solta as bridas á parelha, faz estralejar o chicote.

Parte a carroça n'uma carreira doida. Sobresalta-se a côrte com a

imprudencia; gritam, chamam...

O que! Quem póde deter esse vertiginoso vôo do Amor, Phaetonte que

parece ir despenhar-se n'um mar de fogo?!

Era o primeiro momento de liberdade, mas ainda assim incompleta, porque

havia dois ouvidos extranhos. A dama de Mercedes não fallava allemão;

foi justamente por essa razão que os dois primos escolheram essa lingua

para as suas confidencias.

E emquanto as nuvens de pó se enovelavam sob as patas de duas possantes

mulas hespanholas, e o chicote estralejava elegantemente vibrado,

emquanto pareciam correr para um abysmo, n'uma aventura romantica, dizia

a sua prima Mercedes o rei de Hespanha, em puro idioma teutonico: «Deixa

dizer o que disserem, e fazer o que fizerem, has-de ser minha mulher.

Mas guarda segredo.»

Mercedes pôz o dedo sobre a bocca, e sorriu.

Então o rei refreou as bridas á parelha. A carroça começou a rodar

suavemente. A dama de honor agradecia provavelmente a Deus o havel-a

livrado de um perigo, que as palavras mysteriosas do rei lhe fizeram de

certo receiar cada vez mais. E D. Affonso tambem agradecia á Providencia

o presente d'aquella carroça, d'aquelle instante de liberdade.

* * * * *

JUBILOS

V

JUBILOS

O rei D. Affonso XII soube vencer, por um trabalho lento, surdo,

perseverante, as difficuldades que a politica naturalmente havia de

levantar contra um casamento de inclinação, especialmente n'um paiz tão

desorganisado, tão inquieto como a Hespanha. A politica, firme no seu

papel, quereria decerto que o rei casasse ao sabor das paixões

partidarias; cada facção desejava porventura que a nova rainha de

Hespanha representasse no throno as ideias que mais lisonjeassem as suas

ambições. As mulheres são como as flôres; diga-se mais uma vez. Teem

muito do paiz em que nasceram: n'um sorriso feminino revela-se a cada

momento uma nacionalidade. Ora a princeza extrangeira que fosse

sentar-se no throno hespanhol, se pertencesse, por exemplo, a uma forte

nação, profundamente monarchica, agradaria especialmente aos

affonsistas, que veriam n'essa alliança uma ancora capaz de aguentar,

contra os mais rebeldes temporaes, a açoitada nau da monarchia hespanhola.

O rei tinha de vencer, portanto, a obstinação dos seus amigos, o que ás

vezes é ainda mais difficil do que vencer a pertinacia dos inimigos.

Para conseguir a victoria, era mister um grande trabalho de paciencia,

de tenacidade. Apezar de muito novo, o rei soube aplanar o caminho,

vencer os obstaculos, triumphar.

No dia em que fez vinte annos, a sua obra estava realisada; podia já

declarar á Hespanha, e depois á Europa, que elle procurava no amor a

estabilidade do throno, porque nenhum laço ha ahi mais forte do que o amor.

«Quando a minha patria vir, pensava certamente o rei, que a familia real

de Hespanha offerece, como todas as outras, um doce espectaculo de vida

tranquilla e simples, quando reconhecer que somos todos hespanhoes, na

côrte e fóra da côrte, sentir-se-ha cada vez mais identificada com a

monarchia que resuscita em mim, verá na minha familia o espelho da sua,

nos meus filhos uns irmãos, ao passo que eu verei nas familias de

Hespanha como que uma reproducção multipla da minha, porque todos serão

meus filhos.»

Entrincheirado n'estas nobres convicções, havendo vencido pela

perseverança todas as difficuldades politicas, o rei pôde emfim fazer

annunciar o seu casamento pelo ministro dos negocios extrangeiros ás

côrtes da Europa.

Em Portugal, pelo menos, esta noticia foi recebida com profunda

sympathia. Em Lisboa a princesa Mercedes era conhecida, estimada; o rei

D. Affonso tambem. Um casamento por amor chama sempre sobre si as

bençãos dos que teem coração; especialmente quando os noivos deixaram no

nosso animo uma grata impressão.

Portugal abençoou-os pela bocca da sua imprensa, como se em verdade se

não tratasse de um casamento de principes, mas de dois simples primos

enamorados, que, depois de haverem regressado á patria, iam santificar á

beira do altar as suas alegrias da infancia e as suas tristezas do exilio.

Dez dias depois do vigessimo anniversario do rei, partiram para Sevilha

o marquez de Alcañices, o duque de Sexto, o marquez de Frontera, e D.

Fernando de Mendonza a pedir officialmente a mão da bella princeza.

Era, finalmente, o epilogo do gracioso episodio da estrada de Toledo.

Perto de Aranjuez, o ousado conductor da carroça dissera, fustigando a

parelha, _digam o que disserem, e façam o que fizerem, tu has-de ser

minha mulher; mas guarda segredo_. Mercedes soubera ser discreta como a

estatua do silencio. Mas os emissarios do rei de Hespanha, entrando no

palacio de S. Telmo, aclararam o mysterio d'aquella tarde aventurosa.

A dama de honor da princeza aprendeu talvez n'esse momento a traduzir

allemão...

Dias depois, partia para Roma um enviado a solicitar a dispensa de

parentesco. Roma respondia mandando ao mesmo tempo a dispensa, e a

bençam do papa para essa união celestialmente harmoniosa, como diz a

tradição indiana. Affonso e Mercedes iam finalmente casar, segundo a

expressão catholica, com o osculo de Deus.

Então, ao passo que a phantasia do rei se comprazia em povoar de

_bijoux_ encantadores o ninho conjugal, a Hespanha preparava-se para uma

grande festa, a festa do amor. A municipalidade de Madrid abria o seu

thesouro para resuscitar as tradições cavalheirescas da Hespanha, os

torneios, as touradas, os jogos floraes; Sevilha escrevia palavras de

felicitação e encerrava o manuscripto dentro de um cofresinho

delicioso, cravejado de brilhantes; Valencia colhia as mais raras, as

mais mimosas flôres para enviar á rainha um _bouquet_ colossal;

Barcellona preparava os seus mais delicados artefactos para envial-os

aos noivos, como preito da industria á monarchia; finalmente, estas e

outras provincias queriam assistir á festa, e mandavam a Madrid vinte e

cinco grupos de camponezes, que representassem, em toda a puresa do

trajo popular, a individualidade ethnica de cada uma, de modo que os

reis sentissem que tinham a Hespanha inteira á volta de si...

A Europa tambem não faltou na festa: as côrtes extrangeiras mandaram

embaixadores. Uma onda de curiosos, de _touristes_ invadiu Madrid.

Entretanto o rei, com a delicada imaginação de um poeta, com o fino

gosto de um amante, dirigia em pessoa a ornamentação da camara nupcial;

e, perdidamente enamorado, aproveitava uma recente invenção de Edisson,

o telephone, a fim de dialogar de Madrid, onde estava, com Mercedes, que

esperava em Aranjuez o dia da ceremonia nupcial.

O casamento realisou-se em janeiro de 1878; pois, não obstante a

estação, fazia em toda a Hespanha um tempo de primavera.

Mas no meio d'esta festa geral, profundamente hespanhola, alguem que

quizesse procurar dolorosos vaticinios, havia de encontral-os atravez

das alegrias nupciaes que atapetavam de flores de laranjeira o solo da

cavalheiresca Hespanha.

* * * * *

PRELUDIOS

VI

PRELUDIOS

De um beijo trocado entre o amor e a elegancia nasceu a ornamentação da

camara nupcial do rei de Hespanha. O amor forneceu as lembranças

delicadas, as apaixonadas galanterias, os objectos symbolicos; a

elegancia, que é tanto maior artista quanto mais desleixada parece,

distribuiu-os sorrindo, lançou-os como ao acaso, dispersou-os como se

tratasse de espalhar uma nuvem de flores: brincando. D'esta allianca

nasceu um idyllio em vez de uma camara, um palaciosinho feito de

maravilhas dentro de um palacio feito de pedra; um ninho tecido de

preciosidades para receber um par enamorado; dirieis que um poeta

omnipotente conseguira realisar um sonho de riquesa e felicidade

architectando aquelles aposentos com pedaços de crystal e raios de sol.

As ideias mais tristes e mais terrenas tomavam alli uma encarnação

phantastica. Nada mais atrozmente positivo que a lembrança de que o

tempo foge com uma velocidade insensivel, de que nem com punhados de

ouro se póde embargar-lhe o passo. Mas o amor, nos aposentos destinados

á rainha Mercedes, até sobre os relogios soube poisar sorrisos, de modo

que o tempo deixou de ser cruel alli. Era o amor quem devia avisar a

rainha de Hespanha das horas que fugiam, mas com tal encanto obrigára o

relogio a fallar, que certamente as horas pareceriam breves, muito

breves. Sobre um pedestal de marmore branco, dois amantes enlaçados n'um

beijo longuissimo, estendidas as mãos para um livro, que um Cupido de

ouro abria, indicando uma phrase--_Para sempre_: esta graciosa pendula

devia recordar a Mercedes, hora a hora, que o tempo fugia mas que o amor

ficava. _Para sempre_, em vez de ser a cruel ameaça da eternidade,

tornava-se uma promessa de felicidade ininterrompida. O leve rumor da

pendula pareceria, de instante a instante, o rumor de um beijo: olhando

para os dois que se beijavam sobre o pedestal de marmore, a rainha

de Hespanha acreditaria facilmente que o esculptor primoroso soubera

animar o bronze.

A França mandára para alli, para aquelle édensinho principesco, quanto

de maravilhoso as artes haviam produzido. O que os reinados de Luiz XV e

Luiz XVI viram de mais assombroso, espalhou-o n'aquelles aposentos a mão

de uma fada. A par das grandes obras da arte, as pequenas coisas

galantes. O amor tem o seu tanto ou quanto de selvagem: quer

engalanar-se com constellações de missangas. Os ramilhetes seccos, uma

luva, um lenço eram alli as missangas do amor. Tudo aquillo pertencera a

Mercedes: portanto era justo que tudo aquillo completasse o idyllio.

Na atmosphera, um suave conjuncto de aromas delicadissimos,

subtis;--este perfume tenue mas penetrante que faz lembrar a respiração

das coisas bellas.

A luz, nitida, mas discreta, sem os tons petulantes com que ella invade

as alcovas burguezas.

O que quer que fosse de branda indolencia, de deliciosa preguiça na luz,

nos moveis, nos perfumes. Quanto alli estava parecia viver, mas dormir.

Era uma alvorada sem canticos, banhando n'uma serenidade narcotica a sua

formosura.

Fóra, a contrastar com esta extranha placidez que esperava alli os

noivos, a anciedade do publico, o rumor das praças, o rodar das

equipagens, o estrepito das fanfarras, o tumultuar de uma cidade em festa.

As damas da primeira sociedade preparando as suas _toilettes_

enormemente ricas: só o vestido da duqueza de Santonia, costurado em

Paris, valia onze contos de reis.

A princeza Mercedes, no palacio de Aranjuez, remirando, n'um

encantamento de felicidade e de surpresa, os brindes maravilhosos que de

toda a parte lhe mandavam: o rei, uma corôa de brilhantes, um _pendant_,

de Froment Maurice, um bello camapheu antigo com uma allusão

mythologica; Izabel II, um manto de velludo, estrellejado de ouro,

acolchoado de arminhos; D. Francisco de Assis, uma corôa real

constellada de diamantes, um raio de sol cinzelado em diadema.

Á volta da formosa hespanhola, que ia ser rainha, as suas novas damas de

honor, as duquezas de Bailen e de Ahumada e a condessa de Villapaterna

acercando-lhe, como n'um sonho féerico, todos esses brindes

encantadores, todas essas maravilhas, que pareciam destinadas a uma

noiva de ballada mediévica.

A bazilica da Atocha aberta de par em par para receber os dois que se

amavam. Deante do portico do templo, um arco de triumpho colossal,

construido pelos invalidos, formado de canhões, de armas, de tropheus de

bandeiras conquistadas, um pensamento cavalheiresco a completar a festa

do amor, que ia ser abençoada por Deus.

Ide. Deus vos espera, noivos.

* * * * *

A BENÇÃO

VII

A BENÇÃO

O cortejo nupcial era imponente, magestoso.

A grandesa das velhas côrtes europêas resuscitou n'aquelle dia sob o céo

da formosa Hespanha.

Houve um momento de silencio e de anciedade quando se avistou a

vanguarda do prestito, quando o cavallo do timbaleiro, ricamente

ajaezado ao antigo estylo hespanhol, constellado de brazões, rompeu a

marcha, seguido por um esquadrão de cavallaria, pelos arautos, e por

vinte corceis arreiados ao tempo de Carlos V.

Depois começou a desdobrar-se a longa fila das carruagens, em numero

superior a duzentas. Na frente, as do conde de Paris, da rainha

Christina, dos fidalgos da casa do rei, dos mordomos de semana, das

infantas irmãs do rei, de D. Francisco de Assis. Empós, o coche

deslumbrante da princesa das Asturias, um antigo coche de tartaruga,

incrustado de ouro, com as arestas cobertas de grinaldas de flôres, que

um artista do seculo XVII pintou; interiormente forrado de setim, com

lavores do tempo de Luiz XVI; tirado por oito cavallos emplumados e

ladeado por officiaes da casa real. Dentro d'esta berlinda encantada

destacava o busto gracioso da princeza, que cingia o manto de côrte

sobre um vestido de velludo vesuvio, bordado a cravos de varias côres.

Esta visão encantadora, que o sol parecia rodeiar de reflexos

phantasticos, não tinha ainda desapparecido, e já outra, verdadeiramente

féerica, attraía o olhar.

Era a carruagem do rei.

As esplendidas librés á Luiz XVI, ostentando as côres dos Bourbons,

quatro parelhas com jaezes cuja riqueza só podia competir com a das

librés, os homens das maças, os picadores, os criados a pé, que se

affiguravam barras de ouro a andar, como disse por esse tempo um

jornalista, eram como que uma muralha transparente, tecida de ouro e de

sol, atravez da qual os procurava com a vista a figura esbelta de rei

dentro da sua carruagem olympica.

Excede tudo o que se possa imaginar esta velha carruagem real, que já

tem dois seculos de existencia, feita de acajú, com ornatos de bronze

dourado, encimada por um grupo de figuras mythologicas, que se

enredemoinham aos abraços n'uma lucta confusa, sob o peso da corôa, que

remata esse zimborio de um trabalho cellinesco. A caixa do trem

arquea-se sobre laminas douradas, á similhanca das carruagens de gala da

côrte portugueza. O interior, acolchoado de setim, cheio de paizagens,

de figuras bordadas, emmoldurava o perfil do rei, que vestia a sua

grande farda de general, com o tosão de ouro sobreposto.

Mais tres carruagens, de um esplendor levantino, completavam o numero

dos coches de gala: uma de ébano e de lapis-lazuli marchetada de ouro;

outra de marfim, e a ultima de crystal de rocha, uma especie de

barquinha de vidro, que tremeluzia ao sol, como se se fosse movendo

sobre uma onda azul do mar Jonio.

Uma escolta numerosa encerrava este cortejo phantastico, que passava

deslumbrando como no fundo de um kaleidoscopio.

Tudo havia sido dirigido em tão exacta conformidade com o programma, que

a carruagem do rei chegou á bazilica da Atocha ao mesmo tempo que a da

princeza Mercedes.

Sob O arco de triumpho, o cardeal Benevides, patriarcha das Indias,

acompanhado pelo nuncio apostolico e por quinze bispos, esperava os noivos.

Affonso XII foi recebido debaixo do pallio de velludo vermelho bordado a

ouro, ondulante de grandes plumas brancas, que faziam lembrar o adejar

de um bando de pombas irrequietas.

Atraz do rei seguia o conde de Paris, que vestia a farda de

tenente-coronel do exercito hespanhol; os duques de Montpensier,

trajando a duqueza um vestido de setim amarello e preto; as infantas

irmãs do rei e da rainha, que levavam mantos de côrte e vestidos de

_faille_ azul celeste, guarnecidos de crepe liso, estrellejados de

perolas finas, e arregaçados por _bouquets_ de rosas brancas e de myosotes.

Empós este coro nupcial que rodeiava Mercedes, este bello grupo de

princezas, e de damas nobres como a duquesa de Sexto, que vestia de

setim vermelho com rendas de Alençon, e a condessa de Guaqui, que

trajava vestido de setim branco guarnecido de pennas de abestruz e

perolas finas, entraram no templo o senado, os deputados, e o corpo

diplomatico.

O rei subiu ao throno, onde a sua gentil figura se conservou de pé

alguns momentos, e desceu depois para ir ao encontro da sua noiva,

que vestia de tafetá branco, bordado com innumeros _bouquets_ de rosas

nevadas, roçagando sobre o tapete do templo, entretecido por cem

senhoras da primeira sociedade hespanhola, a sua immensa cauda.

Então celebrou-se a missa, que foi expressamente escripta pelo

compositor cubano Villate, author da opera _Zilia_, e o patriarcha das

Indias cruzou sobre os noivos a benção nupcial. Este acto foi

acompanhado por uma allocução do patriarcha, depois da qual, subindo a

rainha ao estrado, o patriarcha fez ouvir esta solemne saudação: «A

Egreja sauda-vos rainha de Hespanha.»

Cantado o _Te-Deum_, D. Affonso XII e a eleita do seu coração subiram á

carruagem real. O magnificente cortejo atravessou as ruas de Madrid por

entre nuvens de pombas, que, lançadas das janellas, n'um numero

prodigioso, esvoaçavam ás doidas por sobre as carruagens.

Nos labios do rei desenhava-se um fino, um doce sorriso de felicidade,

cuja expressão se póde traduzir n'uma só palavra: «Emfim!»

* * * * *

FESTAS

VIII

FESTAS

Seguiram-se as festas. Madrid accendeu-se como um só facho phantastico,

cujos largos reflexos prysmaticos e agitados faziam lembrar um enorme

_bouquet_ de luz, osculado pela viração da noite. O Prado affigurava-se

uma montanha de estrellas; as fontes de Neptuno, de Cybele e de Apollo

jorravam scentelhas. Os palacios particulares, entre os quaes avultava o

do marquez de Campos, pareciam feitos de crystal illuminado. Nas ruas, a

multidão fremente ondulava como a superficie de um oceano. Fallava-se,

bailava-se, cantava-se ao som dolente da guitarra. Os trovadores

populares recitavam epithalamios no velho estylo romantico, cheios

de pomposa rhetorica: «Luz que inundas de fulgôres os horisontes da

patria; arco-iris da paz, penhor de felicidade, vive feliz e cumpre a

tua missão.» Na praça de la Armeria seiscentos musicos e quatrocentos

cantores entoavam um côro grandioso. Na Porta do Sol tres focos de luz

electrica conservavam uma claridade metallica, prateada. A transição da

noite para a aurora não se sentiria, se o sol não parecesse pallido, um

sol de noivado, alegremente desbotado e malicioso, a todos os que ainda

tinham os olhos habituados aos esplendores das fontes luminosas do Prado.

No dia seguinte, 24 de janeiro, cantou-se na capella real de Santo

Izidro o _Te-Deum_ que as auctoridades de Madrid e a deputação

provincial tinham resolvido mandar celebrar. Este acto religioso fez

despertar a côrte, recomeçar o movimento das carruagens brasonadas. O

rei e a rainha faltaram a esta festa, demasiadamente matutina, mas

appareceram, radiantes de felicidade, na sala do throno, á hora da

recepção: o rei vestido de capitão-general, com as suas gran-cruzes

traçadas sobre o peito, a rainha em _costume_ de côrte, de côr de rosa,

que é a côr predilecta das noivas.

Na tarde d'esse dia, Luiz Godard, areonauta por hereditariedade,

realisou no campo de Móro, em frente do Palacio Real, a ascenção de um

enorme balão, que media setecentos metros, e que se elevou desdobrando

as alegres côres hespanholas no seu monstruoso bojo de seda.

Na tarde do dia seguinte, uma festa verdadeiramente hespanhola

despertára o mais vivo enthusiasmo. Dezeseis mil espectadores affluiram

á tourada em que um grupo de moços fidalgos, e outro grupo dos mais

famosos espadas de Hespanha, Frascuelo, Angelo Pastor, Gayetano Sanz,

realisaram proezas de ousadia tauromachica.

O rei e a rainha, depois de haverem recebido vinte e cinco pares de

noivos, que se tinham casado no mesmo dia em que o rei casou, e que

vestiam o trajo pittoresco das provincias a que pertenciam, deram

entrada na tribuna real da _Praça dos Touros_, radiantes de uma franca

alegria juvenil, cheia de scintillaçoes e de sorrisos.

Então começou a festa, deslumbrante de grandeza, de magestade. Rodaram

na arena os grandes carros que conduziam os toureiros amadores,

acompanhados pelos seus patronos, grandes de Hespanha. Depois entraram

os _espadas_, impávidos, esculpturaes, preparados para a lucta; os

bandarilheiros, traçadas as capas de côres vivas sobre o braço direito;

por ultimo os arautos vestidos á Henrique III, e o carro de morte, a

tumba, tirada por cavallos que sacudiam cocáres multicores, e fitas

variegadas.

Estava alli a Hespanha, nobremente selvagem, a Hespanha que oppõe Tarifa

a Tanger e Algeziras a Ceuta, a Hespanha que por sobre o estreito

estende um braço para a Africa, como para receber de lá o que quer que

seja de rude; esta grande e bella Hespanha que se diverte applaudindo um

espectaculo de sangue, como se no sangue ainda quente visse apenas, não

a morte, mas a força, a vida dos que morrem pelejando, combatendo; esta

ardente e incomprehensivel Hespanha que n'esse mesmo dia, como sempre,

passou d'esta festa de morte, do circo romano para o theatro da Opera,

da tempestade para a bonança, de Frascuelo e de Pastor, para Chapi, a

musica, e para Borghi-Mamo, o canto, da tourada, uma carnificina, para

_Roger di Flor_, uma partitura.

O _Theatro Real_, n'essa noite em que se cantou o _Roger di Flor_, tinha

um aspecto de grandeza oriental, porque uma facha de diamantes, que

scintillavam sobre o peito das damas da côrte, formava um circulo de

luz verdadeiramente deslumbrante, phantastico.

No dia seguinte, concerto no theatro Apollo; no dia 27, revista militar

em que trinta mil homens tomaram parte; depois... um diluvio de festas

ruidosas, soberbas, e, no futuro--quem sabe?--talvez uma sombra, uma

grande dôr, o reverso d'este quadro maravilhoso...

* * * * *

PRESAGIOS

IX

PRESAGIOS

Por entre o resplendor das festas atravessa não raras vezes uma sombra

fugitiva, que deixa no nosso espirito uma ligeira impressão. É a

desgraça que passa agitando subtilmente a sua grande aza negra;

adivinhando-a, nasce em nós o presentimento.

Por entre as enormes lampadas de ouro, que, no dia da benção nupcial,

illuminavam a bazilica da Atocha, adejou essa terrivel ave presaga, e,

demorando-se um momento sobre uma das capellas lateraes, chamou para

aquelle ponto a attenção de quantos alli tinham mais fina sensibilidade.

Comprehendendo, estremeceram esses que viram isto. N'essa capella,

um monumento de estylo antigo, um sarcophago de ferro com embutidos de

ouro, guarda os restos mortaes do general Prim. Haviam escondido o

tumulo para que elle não fizesse ouvir a sua voz sinistra por entre os

canticos religiosos, e os hymnos da festa. Mas, postoque escondido, o

tumulo fallava, e o presentimento chamou a attenção para o que elle

dizia. Era a ideia da morte, do invencivel poder que tudo derruba, que

desfolha todas as grinaldas, que envenena todas as felicidades:

adivinhava-se tudo isto. Involto em tapeçarias, para que se não deixasse

vêr, o gigante, se não podia bracejar, deixava presentir o seu vulto; de

mais a mais aquelle tumulo era o do general Prim: poisavam sobre aquelle

sarcophago dois vaticinios terriveis.

Quem sabe, ai! quem sabe! se Mercedes, a noiva ditosa, ao inclinar a

fronte deante do patriarcha das Indias para ligar o seu destino ao do

rei de Hespanha tão moço e tão namorado como ella, não relanceara

involuntariamente o olhar para aquella capella que escondia um tumulo, e

não sentira no coração a dôr lancinante de uma punhalada vibrada por mão

invisivel! Quem sabe até se uma lagrima, uma lagrima crystallina e

esquiva, não rociára por momentos a face da bella hespanhola,

refrangendo a luz dos lampadarios! Se alguem viu essa lagrima, se o rei

D. Affonso a surprehendeu, tomal-a-ia por uma d'essas perolas em que a

alegria, quando é profunda e immensa, se desentranha, porque a lagrima é

o verbo mudo de todas as grandes commoções.

O Romance da Rainha Mercedes · 第 1 / 3 段