panthéon provisorio que devia receber as cinzas mortaes da rainha.
Encantadora simplicidade a d'esse tumulo!
Seis columnas de marmore branco sustentam o sarcophago, em cujas faces
foram insculpidas sentenças biblicas, que relembram o passamento
prematuro da rainha. Este singelo monumento occupa a primeira capella do
corpo central da egreja, á esquerda do altar-mór, e junto á parede
interior. Sobre o altar da capella, uma tela notavel, attribuida a
Zurbaran, representa a imagem de Nossa Senhora das Mercedes. Defronte
d'este quadro, encimando quatro grandes sustentaculos de prata, relevam
as corôas que outr'ora ornavam o sumptuoso tumulo de S. Francisco, o
Grande.
Tal é, no vasto e sombrio templo do Escurial, a camara mortuária da
noiva do rei de Hespanha.
Poucos dias transcorridos após o funeral, D. Affonso XII sahiu de
Madrid. Seguiu o mesmo caminho que o feretro da rainha percorrera. Um
rastro de lagrimas o guiava para o Escurial. E um discreto segredo
guarda ainda hoje a confidencia das angustias do rei n'essa primeira
entrevista, depois da morte, com a doce companheira do seu ninho de
amor.
* * * * *
LUCTO
XIV
LUCTO
Episodio encantador:
«Um cego, de apparencia decente,--contáram os jornaes,--costuma
postar-se todos os dias na Porta do Sol, em Madrid, tocando flauta e
permanecendo descoberto, mesmo nas estações mais rigorosas.
«Assim que circulou em Madrid a noticia do fallecimento de sua magestade
a rainha D. Mercedes, o pobre cego envolveu a flauta n'um pedaço de
_gaze_ preta, e foi collocar-se no mesmo sitio, sem tocar.
«Nem por isso foi menos farta a colheita das esmolas. A caridade publica
soube comprehender e recompensar aquella commovente delicadeza.»
* * * * *
VIUVEZ
XV
VIUVEZ
Quando ao sol-pôr, n'uma suave tarde de primavera, nos vamos sentar,
profundamente melancolicos, sobre o fraguedo que domina o horizonte,
onde os longinquos resplendores do occaso fazem lembrar os reflexos de
um palacio aereo illuminado para um sarau cavalheiresco, o nosso olhar
tem o condão de não vêr atravez do florido scenario da natureza e do
fundo auriluzente do céo mais que o ideial da sua melancolia.
Assim tambem o rei Affonso, atravessando com o seu pensamento maguado as
festas ante-nupciaes do archiduque Frederico de Austria, o companheiro
querido de collegio, só tinha presente a imagem saudosa de
Mercedes, a solidão immensa da sua viuvez inconsolavel.
Por isso escrevia:
_Meu querido Frederico._
«A rainha Mercedes morreu. Que Deus te conceda no matrimonio a
felicidade que me negou. Nas tuas proximas horas de felicidade,
recorda-te das horas de martyrio e de dôr que estou soffrendo.
_Affonso._»
Dôr profunda, que uma mulher, tambem rainha, e tambem viuva,
comprehendia chorando. A rainha Victoria enviava ao rei de Hespanha
estas eloquentes palavras:
«O meu coração está profundamente ferido pela vossa desdita, meu querido
irmão. Que espantosa desgraça quiz Deus enviar-vos! Que Elle vos dê a
força necessaria para supportar tão terrivel perda.»
* * * * *
A BAZILICA
XVI
A BAZILICA
N'uma deliciosa novella de Octavio Feuillet, que toda a gente conhece,
_Le roman d'un jeunne homme pauvre_, avulta, entre outras, uma nobre
figura de velha fidalga, a snr.ª Porhoet, que, atravez dos gelos dos
seus oitenta annos, entreve os caprichos architectonicos d'uma sonhada
cathedral, em cuja edificação consumirá os fabulosos haveres a que se
habilita por um antigo pleito.
Ha uma doce poesia religiosa n'esta veneranda figura de mulher, em cujos
sonhos se lhe entremostra a esplendida cathedral, arremessando para
o azul os seus corucheos phantasticos, as suas agulhas floreadas, que se
enlabyrintham n'uma aerea floresta de marmore.
Este templo que a pouco e pouco se vai erguendo na sua phantasia senil,
porque todos os dias a snr.ª Porhoet modifica a direcção de uma linha, a
architectura das longas naves magestosas, os finos labores dos ornatos,
resume todo o seu pensamento, é a sua ideia fixa, a sua vida.
Similhantemente á snr.ª Porhoet, o moço rei de Hespanha principiou a
planear, na solidão da sua alma, uma bazilica não menos grandiosa, cujo
phantasioso zimborio cobrisse ao mesmo tempo o altar de Nossa Senhora e
o sarcophago definitivo de Mercedes.
N'esse vasto templo, sonhado pelo rei de Hespanha, o amor e a saudade
entralaçarão os longos cordões de pedra que formarão as columnas,
tecerão as formosas rendas de marmore que se recortarão em ondulações
caprichosas, elles ambos architectarão as abobadas, levantarão os
altares, guardarão, como dois anjos lacrimosos, o cinerario de Mercedes.
Será esse o mais formoso poema que a saudade concebeu até hoje;
poder-se-ha chamar á projectada bazilica de Santa Maria de Almodena
o templo christão do amor, como a Batalha é o templo christão da victoria.
O vento ao perpassar pelas flechas da bazilica suspirará elegias á bella
rainha que alli dorme, sob as azas de Maria; e o sol, o sol formoso da
peninsula, procurará reanimar, com os seus beijos de luz, o cadaver da
noiva mallograda.
Todos os annos sahirá da lista civil um milhão de reales para a
edificação do templo grandioso. Annualmente, o duque de Montpensier e a
princeza das Asturias auxiliarão com duzentos mil reales cada um a
realisação d'esse religioso sonho do rei. Os diamantes e joias
existentes na egreja da Atocha, que pertencem á mãe de Affonso XII,
foram por ella cedidos, a pedido do filho, em favor do esplendido
monumento projectado. A carta de cedencia diz assim:
«Filho da minha vida. Acabo de abraçar o duque de Montpensier, que me
entregou as tuas cartas. Vendo-as, vejo que como rei catholico e como
gentilhomem sentes as tuas dôres e pensas em Mercedes, refugiando-te em
Deus, e querendo fazer bem á tua capital; queres sobretudo depôr
aquelles restos queridos aos pés da Virgem, n'um grandioso templo.
«A tua mãe, meu filho, não só consente que as joias da Atocha sejam
vendidas, mas ainda te abençôa, e se associa ao teu projecto digno de um
rei, de um christão, e de um bom esposo.
«Para isto como para tudo o mais conta sempre, Affonso, com o immenso
amor, e com a cooperação de tua mãe, que deseja tornar bem conhecido que
de longe é e será sempre a mesma para Madrid, para a Hespanha, e para o
seu rei.
«Recebe mil beijos, bem como os filhos da minha alma, e para todos vós a
benção da tua affectuosa mãe
_Isabel_.»
Será, pois, a bazilica de Santa Maria de Almodena, levantada sobre
columnas de lagrimas e de diamantes, um novo e maravilhoso templo de
Salomão, cujos esplendores deslumbrarão a phantasia dos artistas e dos
poetas. Mais feliz do que a velha snr.ª Porhoet, o moço rei de Hespanha
logrará vêr realisado o seu ideal. E esta bazilica assombrosa será, para
assim dizer, a ultima pagina do melancolico romance da rainha
Mercedes. A arte escreverá a palavra final n'este grande poema que o
amor concebeu e que a saudade rociou de uma dôce chuva de lagrimas.