III

Oiçam pois, meus meninos, esta historia, em que vereis como os duendes

se transformam com a miseria e com o mau exemplo dos homens.

Aqui tem eterna juventude, lá chegam a envelhecer e tem uma velhice

repugnante; aqui não pensam senão nas suas fadas, lá ousam querer raptar

as filhas dos homens.

Ora pois, havia na Irlanda um camponez chamado Patricio, que pedira um

favor a um duende, offerecendo-se a recompensal-o; mas, apenas se viu

servido, fiado no caracter bom d'esses genios benevolos, não pensou mais

em similhante galardão.

O duende, que já era velho e rabugento, e moido de trabalho, enfadou-se

com esta falta de palavra, e condemnou o camponez a servil-o sete annos

e um dia.

Sentença dada por duende irritado inscreve-se no livro do destino, e lá

não é possivel arrancarem-se as folhas, como se fez em Portugal, nem

queimar a casa onde o livro está, como se fez em França.

O pobre Patricio, que não quizera dar uma pequena recompensa, viu-se

obrigado a servir seu amo sete annos, sem ao menos ter a esperança que

teve Jacob, que se viu mettido em eguaes danças, como os meus amiguinhos

sabem, mas a quem fôra promettida em premio a formosa Rachel.

E, ainda assim, Jacob não tinha senão que pastorear os rebanhos de

Labão, o que, por fim de contas, não é uma occupação desagradavel.

Mas o pobre Patricio, esse estava em peiores circumstancias. Além dos

trabalhos habituaes, fazia tambem de escudeiro de seu amo, e tinha de o

acompanhar nas suas excursões nocturnas, excursões que eram sempre

feitas a cavallo.

Mas a cavallo em quê? Imaginam que iam montados em guapos corceis, como

esses em que os seus papás montam, ou em pacatos burrinhos, como esses

em que os meus meninos vão tambem dar os seus passeios?

Pois não; as coudelarias do nosso duende tinham outra casta de

cavalgaduras; eram immensas porque abrangiam toda a natureza, e porque,

a fallarmos verdade, os cavallos não occupavam muito espaço. Chegavam,

por exemplo, ao meio de um campo, viam duas feveras de palha, o duende

pegava n'uma, dava outra a Patricio, e dizia-lhe: «Monta».

Montar era facil de dizer, mas de fazer? Parece-me, realmente, que o

mais perito mestre de equitação se havia de vêr seriamente embaraçado.

Patricio arrancava os cabellos, amaldiçoava a sua avareza, que o levára

áquelle misero estado; mas como arrancando os cabellos ficava calvo, e

não transformava a palhinha nem em burro nem em corcel, não tinha

remedio senão montar, e lá ia elle por esses ares fóra atraz de seu amo,

que cavalgava tão ufano como se montasse no celebre Bucefalo de

Alexandre, em que os meus meninos talvez já ouvissem fallar.

De que elle tinha medo principalmente era que os seus visinhos o vissem

n'aquella figura, mas d'isso não havia perigo; o duende, sendo invisivel

para olhos profanos, tornava-o invisivel tambem a elle.

Outras vezes não eram feveras de palha, mas juncos e cannas os corceis

escolhidos; o bom do Patricio quiz vêr se conseguia que seu amo

acceitasse dois paus de vassoura, que sempre seriam, emfim, cavalgaduras

mais commodas; mas, apenas elle abriu a bocca, o duende respondeu-lhe

com tanta dignidade que isso era bom para as bruxas, que o pobre

irlandez não ousou insistir, e tratou de vêr se aprendia as regras da

picaria aeria, e de escolher a posição mais commoda que podesse na tal

fevera de palha que o transportava pelos ares.

Ora um dia, ou antes uma noite, o duende chamou Patricio e disse-lhe com

modo benevolo:

--Meu amigo, determinei casar. Estou a fazer mil annos, e parece-me que

é tempo de tomar estado e familia. Escolhi para minha noiva a formosa

Jenny, e vamos esta noite buscal-a.

Patricio bem desejaria responder que os olhos azues, as tranças loiras,

a rosea bocca e as faces nevadas da formosa Jenny não deviam ser para um

velhote como elle, e que um noivo de mil annos, a querer tomar estado,

devia escolher uma centenaria, e não uma rapariga na flôr dos seus vinte

annos, e que, além d'isso, rasão de todas a mais forte, Jenny casára

n'esse mesmo dia, e n'esse instante devia-se estar celebrando a boda em

casa do noivo. Mas Patricio bem sabía que o duende não gostava de

reflexões, e portanto, sem tugir nem mugir, montou a cavallo n'uma folha

de couve, que era o corcel de gala, e seguiu seu amo pelos ares fóra.

A Lenda da Meia-Noite · 第 42 / 56 题