Oiçam pois, meus meninos, esta historia, em que vereis como os duendes
se transformam com a miseria e com o mau exemplo dos homens.
Aqui tem eterna juventude, lá chegam a envelhecer e tem uma velhice
repugnante; aqui não pensam senão nas suas fadas, lá ousam querer raptar
as filhas dos homens.
Ora pois, havia na Irlanda um camponez chamado Patricio, que pedira um
favor a um duende, offerecendo-se a recompensal-o; mas, apenas se viu
servido, fiado no caracter bom d'esses genios benevolos, não pensou mais
em similhante galardão.
O duende, que já era velho e rabugento, e moido de trabalho, enfadou-se
com esta falta de palavra, e condemnou o camponez a servil-o sete annos
e um dia.
Sentença dada por duende irritado inscreve-se no livro do destino, e lá
não é possivel arrancarem-se as folhas, como se fez em Portugal, nem
queimar a casa onde o livro está, como se fez em França.
O pobre Patricio, que não quizera dar uma pequena recompensa, viu-se
obrigado a servir seu amo sete annos, sem ao menos ter a esperança que
teve Jacob, que se viu mettido em eguaes danças, como os meus amiguinhos
sabem, mas a quem fôra promettida em premio a formosa Rachel.
E, ainda assim, Jacob não tinha senão que pastorear os rebanhos de
Labão, o que, por fim de contas, não é uma occupação desagradavel.
Mas o pobre Patricio, esse estava em peiores circumstancias. Além dos
trabalhos habituaes, fazia tambem de escudeiro de seu amo, e tinha de o
acompanhar nas suas excursões nocturnas, excursões que eram sempre
feitas a cavallo.
Mas a cavallo em quê? Imaginam que iam montados em guapos corceis, como
esses em que os seus papás montam, ou em pacatos burrinhos, como esses
em que os meus meninos vão tambem dar os seus passeios?
Pois não; as coudelarias do nosso duende tinham outra casta de
cavalgaduras; eram immensas porque abrangiam toda a natureza, e porque,
a fallarmos verdade, os cavallos não occupavam muito espaço. Chegavam,
por exemplo, ao meio de um campo, viam duas feveras de palha, o duende
pegava n'uma, dava outra a Patricio, e dizia-lhe: «Monta».
Montar era facil de dizer, mas de fazer? Parece-me, realmente, que o
mais perito mestre de equitação se havia de vêr seriamente embaraçado.
Patricio arrancava os cabellos, amaldiçoava a sua avareza, que o levára
áquelle misero estado; mas como arrancando os cabellos ficava calvo, e
não transformava a palhinha nem em burro nem em corcel, não tinha
remedio senão montar, e lá ia elle por esses ares fóra atraz de seu amo,
que cavalgava tão ufano como se montasse no celebre Bucefalo de
Alexandre, em que os meus meninos talvez já ouvissem fallar.
De que elle tinha medo principalmente era que os seus visinhos o vissem
n'aquella figura, mas d'isso não havia perigo; o duende, sendo invisivel
para olhos profanos, tornava-o invisivel tambem a elle.
Outras vezes não eram feveras de palha, mas juncos e cannas os corceis
escolhidos; o bom do Patricio quiz vêr se conseguia que seu amo
acceitasse dois paus de vassoura, que sempre seriam, emfim, cavalgaduras
mais commodas; mas, apenas elle abriu a bocca, o duende respondeu-lhe
com tanta dignidade que isso era bom para as bruxas, que o pobre
irlandez não ousou insistir, e tratou de vêr se aprendia as regras da
picaria aeria, e de escolher a posição mais commoda que podesse na tal
fevera de palha que o transportava pelos ares.
Ora um dia, ou antes uma noite, o duende chamou Patricio e disse-lhe com
modo benevolo:
--Meu amigo, determinei casar. Estou a fazer mil annos, e parece-me que
é tempo de tomar estado e familia. Escolhi para minha noiva a formosa
Jenny, e vamos esta noite buscal-a.
Patricio bem desejaria responder que os olhos azues, as tranças loiras,
a rosea bocca e as faces nevadas da formosa Jenny não deviam ser para um
velhote como elle, e que um noivo de mil annos, a querer tomar estado,
devia escolher uma centenaria, e não uma rapariga na flôr dos seus vinte
annos, e que, além d'isso, rasão de todas a mais forte, Jenny casára
n'esse mesmo dia, e n'esse instante devia-se estar celebrando a boda em
casa do noivo. Mas Patricio bem sabía que o duende não gostava de
reflexões, e portanto, sem tugir nem mugir, montou a cavallo n'uma folha
de couve, que era o corcel de gala, e seguiu seu amo pelos ares fóra.