Em toda a parte ha fadas, meus meninos; mas, como podem suppôr, não tem
o mesmo genio, a mesma indole nos differentes sitios. N'uns pontos
persegue-as o infortunio, n'outros sorri-lhes a ventura.
Na nossa terra abençoada, em que temos o céo de veludo, aguas de
crystal, sol de oiro vivo; onde nos ares limpidos parecem brotar por
encanto musicas suavissimas; onde viçam flôres com profusão; onde as
brumas são véo ligeiro que touca as cumiadas dos montes, e não gélido
manto que envolve as planicies, folgam as fadas de viver. É este o paiz
dos seus sonhos, este e a Hespanha, e a Italia e a Grecia, onde viveram
por tanto tempo as nymphas, as naiades e as dryades, que eram as fadas
dos pagãos.
Livres no ar, alimentando-se de perfumes que nunca lhes faltam,
abastecendo-se nas madre-silvas e nas magnolias, aquentando-se nos
ninhos das avesitas, viajando n'um raio da lua, não tendo mais em que
cuidar senão em pentear os seus lindos cabellos, em mirar-se e em
banhar-se nas aguas transparentes, apenas uma vez por anno, na bemdita
noite de S. João, tem de ser oraculos das donzellinhas, que lhes vem
perguntar qual o porvir dos seus amores.
Donosa occupação! Sair do asylo da folhagem e entrar na alma ingenua da
donzella, é apenas mudar de ninho, e não sei qual será mais suave, mais
macio, mais delicioso e mais immaculado.
Estava com passarinhos, com passarinhos vae estar! Pois o que são os
amores? E se escutavam deliciosos -----File:
195.png---\rita_marreiros\ArturPires\ichigochi\Manela\luisa\----gorgeios,
finas trovas, podiam nunca ser tão mimosos esses cantares como o poema
seductor, cujas estrophes resoam n'um coração de vinte annos?
Mas ai! nem sempre é assim. Nos frios paizes do norte, na nevoenta
Inglaterra, na verde mas tristonha Irlanda, não encontram as fadas e os
duendes as doçuras d'estes ares, os esplendores d'estes céos, a
suavidade d'estas brisas. Mal que chega o inverno, gelam-se as aguas,
morrem de frio os passarinhos implumes nos pobres ninhos devastados pela
procella, a neve mata as flôres, embacia-se o clarão da lua, desmaia a
luz e affrouxa o almo calor do sol, não ha perfumes nem galas, e ai de
quem intentasse dançar nos ares quando o graniso cae!
Coitados dos pobres duendes! Coitadas das gentís fadas! Elles, que
adoram a liberdade, vêem-se obrigados a refugiar-se nos quentes curraes,
na cinza do lar, e até na chaminé! Ah! como os seus irmãos dos paizes do
sul teriam dó d'elles se os vissem com as azas brancas maculadas de
fuligem, a não ser que estejam expostos ao frio e á neve á porta de casa
pouco hospedeira, onde não lhes abram sequer uma fisga por onde possam
metter os corpinhos enregelados.
Mas os homens são crueis e egoistas, e não concedem um favor sem mirarem
a galardão; estão promptos a acolher os pobresinhos dos espiritos, com a
condição que estes os hão de servir. E aqui temos os nossos duendes e as
nossas fadas, fieis á sua palavra, a ordenhar as vaccas, a guardar as
ovelhas, a tratal-as nas doenças, a evitar-lhes o mau-olhado, a proteger
os donos da casa, emfim, a fazer o que dez criados não fariam.
Mas, meus meninos, os homens, não contentes com isso, traçam muitas
vezes fazer-lhes mal, livrar-se d'elles, descumprir a sua palavra, e
isso tudo exacerba-os, e fal-os tambem, ás vezes, maus e vingativos.
Ah! meus meninos, a miseria é a mãe terrivel do mal, tanto nos homens
como nos duendes. A miseria, e a escravidão, e a ausencia da luz! Ah!
quando virdes um criminoso, não o anathematiseis, mas vêde primeiro em
que atmosphera viveu, quaes foram as primeiras idéas que teve, qual o
estado da sua intelligencia. E vereis sempre a miseria, o embrutecimento
e as trevas.
Por isso, quando fôrdes homens, dedicae-vos á grande obra da regeneração
dos vossos similhantes, ao seu esclarecimento e á sua educação moral.
E assim tereis cumprido a vossa missão na terra, assim tereis cumprido o
grande preceito da nossa religião «a caridade», preceito que encerra em
si todos os outros, raio de luz que, em se espraiando pelo mundo, basta
para dissipar as sombras mais cerradas.
Mas voltemos aos nossos duendes, de que já nos iamos afastando tanto.