II

Em toda a parte ha fadas, meus meninos; mas, como podem suppôr, não tem

o mesmo genio, a mesma indole nos differentes sitios. N'uns pontos

persegue-as o infortunio, n'outros sorri-lhes a ventura.

Na nossa terra abençoada, em que temos o céo de veludo, aguas de

crystal, sol de oiro vivo; onde nos ares limpidos parecem brotar por

encanto musicas suavissimas; onde viçam flôres com profusão; onde as

brumas são véo ligeiro que touca as cumiadas dos montes, e não gélido

manto que envolve as planicies, folgam as fadas de viver. É este o paiz

dos seus sonhos, este e a Hespanha, e a Italia e a Grecia, onde viveram

por tanto tempo as nymphas, as naiades e as dryades, que eram as fadas

dos pagãos.

Livres no ar, alimentando-se de perfumes que nunca lhes faltam,

abastecendo-se nas madre-silvas e nas magnolias, aquentando-se nos

ninhos das avesitas, viajando n'um raio da lua, não tendo mais em que

cuidar senão em pentear os seus lindos cabellos, em mirar-se e em

banhar-se nas aguas transparentes, apenas uma vez por anno, na bemdita

noite de S. João, tem de ser oraculos das donzellinhas, que lhes vem

perguntar qual o porvir dos seus amores.

Donosa occupação! Sair do asylo da folhagem e entrar na alma ingenua da

donzella, é apenas mudar de ninho, e não sei qual será mais suave, mais

macio, mais delicioso e mais immaculado.

Estava com passarinhos, com passarinhos vae estar! Pois o que são os

amores? E se escutavam deliciosos -----File:

195.png---\rita_marreiros\ArturPires\ichigochi\Manela\luisa\----gorgeios,

finas trovas, podiam nunca ser tão mimosos esses cantares como o poema

seductor, cujas estrophes resoam n'um coração de vinte annos?

Mas ai! nem sempre é assim. Nos frios paizes do norte, na nevoenta

Inglaterra, na verde mas tristonha Irlanda, não encontram as fadas e os

duendes as doçuras d'estes ares, os esplendores d'estes céos, a

suavidade d'estas brisas. Mal que chega o inverno, gelam-se as aguas,

morrem de frio os passarinhos implumes nos pobres ninhos devastados pela

procella, a neve mata as flôres, embacia-se o clarão da lua, desmaia a

luz e affrouxa o almo calor do sol, não ha perfumes nem galas, e ai de

quem intentasse dançar nos ares quando o graniso cae!

Coitados dos pobres duendes! Coitadas das gentís fadas! Elles, que

adoram a liberdade, vêem-se obrigados a refugiar-se nos quentes curraes,

na cinza do lar, e até na chaminé! Ah! como os seus irmãos dos paizes do

sul teriam dó d'elles se os vissem com as azas brancas maculadas de

fuligem, a não ser que estejam expostos ao frio e á neve á porta de casa

pouco hospedeira, onde não lhes abram sequer uma fisga por onde possam

metter os corpinhos enregelados.

Mas os homens são crueis e egoistas, e não concedem um favor sem mirarem

a galardão; estão promptos a acolher os pobresinhos dos espiritos, com a

condição que estes os hão de servir. E aqui temos os nossos duendes e as

nossas fadas, fieis á sua palavra, a ordenhar as vaccas, a guardar as

ovelhas, a tratal-as nas doenças, a evitar-lhes o mau-olhado, a proteger

os donos da casa, emfim, a fazer o que dez criados não fariam.

Mas, meus meninos, os homens, não contentes com isso, traçam muitas

vezes fazer-lhes mal, livrar-se d'elles, descumprir a sua palavra, e

isso tudo exacerba-os, e fal-os tambem, ás vezes, maus e vingativos.

Ah! meus meninos, a miseria é a mãe terrivel do mal, tanto nos homens

como nos duendes. A miseria, e a escravidão, e a ausencia da luz! Ah!

quando virdes um criminoso, não o anathematiseis, mas vêde primeiro em

que atmosphera viveu, quaes foram as primeiras idéas que teve, qual o

estado da sua intelligencia. E vereis sempre a miseria, o embrutecimento

e as trevas.

Por isso, quando fôrdes homens, dedicae-vos á grande obra da regeneração

dos vossos similhantes, ao seu esclarecimento e á sua educação moral.

E assim tereis cumprido a vossa missão na terra, assim tereis cumprido o

grande preceito da nossa religião «a caridade», preceito que encerra em

si todos os outros, raio de luz que, em se espraiando pelo mundo, basta

para dissipar as sombras mais cerradas.

Mas voltemos aos nossos duendes, de que já nos iamos afastando tanto.

A Lenda da Meia-Noite · 第 41 / 56 题