Tudo era festa e riso em casa de Jenny. Brindes sem conta soavam a cada
instante, as violas desprendiam os seus alegres epithalamios, e a meza,
servida á farta, ostentava-se com a alvissima toalha no meio da casa.
A noiva era realmente galante a mais não poder ser. Nos olhos tão azues
e tão meigos parecia que se refugiára a côr do céo, expellida do
firmamento pelas nuvens, e com a côr do céo a doçura dos anjos.
Os cabellos tinham o colorido das espigas de trigo; na bocca pequenina
esvoaçava um sorriso de amor, como borboleta em rosa. As faces eram tão
brancas, tão brancas, que desmaiaria junto d'ellas a neve das montanhas
de Erin; mas n'esse momento incendia-as o prazer e tingiam-se de
reflexos roseos, como a nivea toalha dos pincaros, quando o sol a
illumina ao descair no occaso.
O noivo era um rapaz esbelto e varonilmente formoso. O olhar ardente com
que, para assim dizermos, enlaçava Jenny, mostrava o immenso amor que
lhe tinha; a meiguice dos raios de luz, que emanavam dos olhos da gentil
irlandeza, revelava que a voz d'esse amor encontrára um echo no coração
da formosa que o duende cubiçava para noiva.
Os convivas agrupavam-se em torno da meza, e no logar de honra, campeava
o gordo padre prior, que fazia frente a um magnifico prato de cabeça de
porco, flanqueada de feijões, que lhe levava os olhos, como a formosa
physionomia de Jenny enlevava o enamorado esposo.
O duende e o seu criado entraram sem ninguem dar por elles, e foram
sentar-se commodamente n'uma das traves do tecto. Os cavallos haviam
ficado no telhado fóra do alcance das outras cavalgaduras, que seriam
muito capazes de as devorar, sem respeitarem por fórma alguma a
confraternidade que as pobres folhas de couve allegariam.
Empoleirado alli assim, Patricio estava talvez um tanto incommodado,
principalmente porque lhe chegava o cheiro dos bons manjares que ufanos
campeavam em cima da meza, e o seu estomago segredava-lhe que seria
muito melhor fartal-o a elle do que fartar os olhos com as saborosas
iguarias.
Mas o bom irlandez bem sabia que o seu duende nunca lhe consentiria
mostrar-se, e, portanto, consolava-se pensando que talvez a ceia das
bodas do seu amo fosse ainda melhor do que essa que o estava namorando.
Depois relanceou os olhos para a noiva, e em seguida para o seu
companheiro da trave, e pensou que era realmente uma barbaridade ligar
assim tão donosa primavera a tão encarquilhado inverno.
N'isto a noiva espirrou.
Um espirro não é coisa que envergonhe ninguem, mas o espirro de Jenny
fez tanta bulha, que a pobre menina corou muito, sentindo que todas as
vistas se haviam voltado para ella.
Excepto, ainda assim, as do padre prior; o anafado sacerdote empunhava o
garfo e a faca, e com os olhos cravados na cabeça de porco, a nada mais
dava attenção.
Era natural, meus meninos, que dissessem á formosa Jenny o consagrado
_Dominus tecum_; ninguem, effectivamente, queria faltar a esse dever;
mas a cortezia ordenava que se deixasse o padre prior tomar a
iniciativa, e, por conseguinte, todos esperaram.
O padre prior tomava n'esse instante a iniciativa, mas era de se deitar
á cabeça de porco; cravou o garfo destramente, vibrou com certeza rara a
faca a um bom tassalho, e transportou-o do prato geral para o seu prato
particular.
Terminada essa difficil operação, o padre prior poisou as armas
triumphantes ao lado do prato, travou gravemente da colhér, e, em tres
ou quatro viagens, fez mudar de gasalhado, e erigiu, em enorme acervo,
uma respeitavel quantidade de feijões.
Ninguem ousou advertil-o do seu esquecimento, e, depois d'esse pequeno
incidente, a festa continuou com o mesmo estrondo e enthusiasmo.
A bulha dos queixos do padre prior superava o tumultuoso acompanhamento.
Mas o duende é que dava pulos de contente na trave, e dizia a Patricio:
--Se ella dá mais dois espirros e ninguem lhe diz _Dominus tecum_, é
minha; foi isso o que Satanaz me prometteu.
O pobre Patricio enfiou; decididamente, o nosso irlandez tinha boa alma:
se não fosse a tal avareza...
Emfim, ninguem póde ser perfeito.
D'ahi a instantes Jenny espirrou de novo, mas a pobre menina ficára tão
envergonhada da primeira vez, que o segundo espirro comprimiu-o por tal
fórma, que ninguem o ouviu, nem mesmo o seu noivo, que se via obrigado
n'esse instante a escutar uma enorme dissertação de seu sogro sobre o
cultivo da batata.
O padre prior comia.
Por conseguinte, ainda d'essa vez passou o espirro sem o competente
_Dominus tecum_.
O duende pulava, dava cabriolas, fazia bulha tal, em fim, que por mais
de uma vez um ou outro conviva olhou para o tecto, mas, não vendo coisa
alguma, julgou que seriam ratos e continuou a divertir-se.
Patricio scismava; era realmente uma dôr d'alma vêr tão gentil menina
cair em poder d'aquelle espirito malicioso; pensava que talvez a podesse
salvar, mas lembrava-se das iras de seu amo, que podiam cair sobre elle,
e abanava a cabeça deixando-se ficar mudo e quêdo.
Finalmente, soou o terceiro espirro da menina, ainda mais comprimido que
os dois primeiros.
Mas ao mesmo tempo retumbou no tecto um formidavel _Dominus tecum_, que
fez tintinar os vidros e tremer os convidados.
E logo um corpo humano veiu, aos rebolões pelo espaço, baquear em cima
da meza, entornando o prato do padre prior, que soltou um grito de
desespero, e apanhou na batina o naco de cabeça de porco, antes que um
mastim faminto, que andava rondando os pés das cadeiras, désse com tão
boa fatia.
Era Patricio que, vencendo as suas indecisões, reunira todas as suas
forças e coragem, e salvára d'essa fórma a formosa Jenny.
Ao mesmo tempo ouviu-se uma voz que dizia:
--Despeço-te do meu serviço, mas ahi tens o ordenado.
Não era mau, effectivamente; o irlandez esteve tres mezes em lençoes de
vinho, e ficou toda a vida com uma dôr nas costellas.
Mas os dois noivos, a quem elle contára o que estivera para lhes
succeder, foram-lhe eternamente gratos, ajudaram-n'o muito na sua vida,
e, quando envelheceu, levaram-n'o para casa, onde teve sempre uma boa
cadeira, onde se sentava a apanhar a sua restea de sol, e onde
entretinha os filhos de seus hospedes, contando-lhe as suas viagens
aérias, e a historia dos tres espiritos.
V
Cerrou-se a noite de todo, meus meninos, e o sereno esplendor da lua
branqueia-vos as rosadas faces; desperta a natureza quando adormece o
homem; as flôres entreabrem os seus thuribulos; a fonte desdobra o
transparente crystal das suas aguas, e as naiades chorosas entoam os
seus lamentos.
Já o somno começa a fazer-vos pender a fronte; brincastes, correstes
durante o dia á luz do sol, chega a hora do repouso, depois, quando
fôrdes crescidos, gostareis de ficar, como eu fico, a contemplar o
estrellado docel do firmamento, e a perguntar ás vozes mysteriosas da
natureza qual é o segredo que faz palpitar tantos mundos na abobada
estrellada; gostareis de vêr os campos onde o luar se espraia, as
infindas maravilhas da creação! mas oh! nunca vereis panoramas como os
que vos sorriem agora nos meigos sonhos da infancia.
Ide, pois; esperam-vos os anjos escondidos detraz das cortinas alvas do
vosso leitosinho, e, se algum espirito aéreo se vos entre-mostrar
tambem, não tenhaes medo, porque os habitantes d'estes ares luminosos
são fadas meigas e risonhas, e não duendes malignos.
* * * * *
No dia seguinte áquelle em que o doutor Macedo contára, com grande
gaudio das creanças, a lenda do _Dominus tecum_, uma carruagem parava á
porta do visconde da Fragosa, e apeiava-se d'ella uma senhora edosa de
nobre aspecto e veneranda physionomia, que pedia para fallar ao visconde
e á viscondessa da Fragosa.
Era a mãe de Henrique Osorio, que vinha pedir para seu filho a mão de
Leonor.
Fez algum reboliço em casa dos viscondes este subito pedido feito para
pessoa que sempre vivera em intimas relações com Leonor, e que nunca até
ahi mostrára desejos de a requestar.
Fallando-se n'isso no grupo dos hospedes, o doutor Macedo disse:
--É para que saibam que, quando se semeia sempre se colhe alguma coisa,
ainda que não seja aquillo que se previu. Das nossas lendas da
meia-noite saíu este casamento, o que prova mais uma vez que o casamento
e a mortalha no céo se talha.
--Tanto mais que para Henrique Osorio o casamento e a mortalha devem
estar intimamente ligados... O homem que ama espectros... O auctor de
Julieta!
N'este momento vieram dizer ao conselheiro Madureira que a sua carruagem
o esperava. Despediram-se elle e a filha dos viscondes da Fragosa,
Isaura deu um beijo frio em Leonor, e cumprimentou seccamente Henrique
Osorio.
--Espero tornal-o a vêr no Espinho, disse ella com requintes de
amabilidade a Lucio Valença.
--Ah! de certo, minha senhora, respondeu o escriptor.
Quando partiram, Henrique approximou-se de Lucio e disse-lhe:
--Hontem iamo-nos irritando por frivolidades sem nome. Sabe comtudo,
Lucio, que sou seu amigo, e que não tenho no que vou dizer-lhe o minimo
pensamento reservado. Não se deixe prender nos laços d'aquella formosa
mulher, que é uma _coquette_ sem intelligencia e sem alma.
--Meu amigo, tornou Lucio, rindo, eu estou-a vendo hoje pelo prisma que
você me legou. Hei de dizer mal d'elle talvez d'aqui a algum tempo.
Agora não ha remedio; tenho-o encaixado nos olhos.
Henrique encolheu os hombros.
--Pois meus amigos, disse o doutor Macedo, que vira Leonor entrar a
dirigir-se para o seu noivo, tem a _lenda da meia-noite_ uma conclusão
inesperada; mas isso foi bom para que tivesse alguma.
--Effectivamente, disse Lucio Valença, o nosso fim, confessamol-o, não
se conseguiu. As pessoas nervosas, quando estiverem sósinhas á
meia-noite n'um quarto de lugubre aspecto, hão de continuar a tremer de
espectros. Affrontal-os em boa companhia não torna aguerrido ninguem.
--Eu não posso dizer coisa alguma; na _lenda da meia-noite_ encontrei
eu, disse Henrique, a ventura da minha vida.
--E ainda que outra coisa não se alcançasse, logrou-se passarem-se
algumas noites agradavelmente.
--Assim seja! concluiu o doutor Macedo.
Possam dizer o mesmo os leitores d'este despretencioso livro.