(CONTO PARA CREANÇAS)
I
Agora que a noite começa a desenrolar o seu manto azul, onde essas fadas
luminosas, que se chamam estrellas, dançam em torno da sua branca
rainha, que percorre o firmamento no seu argenteo carro, umas solitarias
e pensativas, como a scismadora Venus, outras formando immensa e jovial
choréa como as brancas estrellinhas da via lactea; agora que principia a
ouvir-se ao longe o grave som das Trindades, perfume de harmonia que
parece exhalar-se das urnas gigantes dos campanarios, vinde, meus
meninos, vinde agrupar-vos em torno de mim, e ouvir as historias
maravilhosas que eu tenho para vos contar.
Arredae da fronte os loiros anneis dos vossos cabellos, doirados fios
que enreda, teimosa, a brisa folgazã, como que para vos desafiar para
novos brinquedos, e fitae-me bem com esses olhos azues, transparentes
como o lago limpido, puros como o céo ridente, que vos quero povoar os
sonhos de imagens luminosas d'esse mundo loução de fadas e duendes!
Ó sonhos infantis! Quem poderá jámais saber quanto esvoaçar de azas
brancas, quanto rescender de ignotos perfumes, quanto desabrochar de
lindas flôres, quanto lampejar de suavissimos clarões nos revela aquelle
innocente sorriso que volteia nos labios da creança adormecida!
Que deliciosos colloquios não haverá entre essa almazinha gentil, que
aspira ao céo, e os anjos, que se debruçam meigamente do azulado
Empyreo, que a tomam nos braços, que a embalam e lhe sorriem!
E eis o motivo porque sempre despertaes chorando: é porque os anjos vos
poisam no berço, vos beijam na fronte; porque vêdes as suas azas
candidas transporem n'um vôo o espaço, e cerrarem-se com fragor as
doiradas portas do Empyreo.
E só vos aplaca o choro o meigo sorrir das mães; porque, se ha anjos na
terra, onde se abrigariam elles se não fosse no brando seio maternal?
Onde encontrariam imagem mais perfeita do seu Paraizo?
Mas entre o céo e a terra ha outro mundo de encantos, onde esvoaçam as
fadas travessas, os maliciosos duendes, que são tambem amigos das
creancinhas e as vão poisar, ás vezes, no purpureo regaço das rosas, ou
nas rendas prateadas do immenso véo do luar.
De dia dormem escondidas no calice das flôres, ou no seio dos lagos, ou
nas folhas das arvores; mas, quando soam Trindades, eil-as a esvoaçar no
ambiente, e é o bater das suas azas, o chilrear das suas vozes, que
produzem esses ineffaveis murmurios que vos encantam e que vos fazem até
cair, sem saberdes por quê, n'uma doce melancolia.
São ellas quem ensinam aos rouxinoes esses maviosos gorgeios, esses
deliciosos trinados, que toda a natureza escuta embevecida n'um vago
extase.
São ellas quem accendem nos pyrilampos, esse phantastico fulgor que
vagueia nos prados, e matiza de oiro o fundo verdejante da relva.
São ellas quem desentranham do seio das flôres as nuvens de perfumes,
que espalham depois, rindo, na atmosphera.
É o seu bafo a brisa voluptuosa e leve, que faz correr um vago
estremecimento pelas corollas gentis das rosas e dos lirios.
Por isso a noite é mais formosa do que o dia; porque o dia pertence aos
homens, e durante a noite imperam os espiritos subtis.
A natureza vê passar com indifferença, e até com odio, o homem que se
diz seu rei, e cuja realeza é uma verdadeira tyrannia.
Porque o homem decepa as arvores frondosas; colhe as flôres que viçavam
alegres, e que vão finar-se em ramalhetes; acorda os echos doridos com o
estrondear das suas espingardas; e a toda a parte, onde estabelece o seu
dominio, leva comsigo a destruição e a morte.
Nunca viram, meus meninos, arder uma floresta? É horrivel! As arvores
contorcem-se na agonia, erguem ao céo os ramos esbrazeados, soltam
gritos de desesperação. Não é a vegetação inerte que se reduz ao nada, é
a vida que fenece em convulsões.
E quem incendiou a floresta? Quem brandiu o facho assolador entre a
folhagem lustrosa? Foi o rei da natureza! Foi o monarcha da creação!
As fadas e os duendes não destroem assim esses mysteriosos sanctuarios,
onde se abrigam tantos amores, tantas vidas, tão incessante trabalho de
renovação! Tem, pelo contrario, com elles mil desvelos; são ellas quem
descerram a pouco e pouco os verdes botões das rosas do matto; são ellas
que penetram nos troncos, e fazem girar a vivificante seiva em todos os
pontos da arvore caduca; são quem a ajudam depois a desabrolhar em
pimpolhos, em flôres e em fructos.
Por isso, quando á noite dançam e folgam nos ares, toda a natureza se
compraz em lhes adornar os festejos; as brisas volteiam com as suas
urnas cheias de aromas; os rouxinoes descantam as suas arias; a
orchestra immensa dos pinhaes, das carvalheiras e dos salgueiraes
entrega aos arcos invisiveis do vento as frementes cordas das suas
franças, ou deixam que mão ignota doideje vagamente nas teclas das suas
frondes! E tudo canta, ri e folga, porque são as fadas que dançam, as
fadas aéreas, os travêssos duendes.
E o homem entretanto, encerrado nas suas mesquinhas moradas, respira uma
atmosphera corrompida, sente o suor a borbulhar-lhe na fronte depois de
dar um giro na sala abafadiça, e cerra cuidadosamente as janellas, para
que lhes não chegue nem um murmurio, nem um effluvio, nem um raio de
luz.
E a natureza aproveita a ausencia do rei da creação, e canta, e folga, e
ri, porque são as fadas que dançam, as fadas risonhas, os duendes
maliciosos.