XIX

Assim fallou a bolsa, e eu, secretario fiel, fui escrevendo textualmente

o que ella me dictou.

Tiro de cima dos meus hombros toda e qualquer responsabilidade.

A aurora começava a apontar no horisonte. Ao passo que a deusa dos

roseos dedos abria as portas do Oriente, a bolsa a pouco e pouco ia

perdendo a animação ficticia, que um poder sobrenatural lhe emprestára,

e ia-se deixando cair em cima da meza.

Eu, ingrato, não me importei com isso. Em quanto ella ia voltando ao seu

estado normal, contemplava satisfeito o papel inundado de garatujas,

cuja perpetração principal não fôra commettida por mim, e escrevia no

fundo da ultima pagina, as seguintes palavras sacramentaes:

_Finis, laus Deo_.

* * * * *

Quando Lucio Valença acabou a sua longa leitura, o visconde da Fragosa

resonava maravilhosamente, e o conselheiro Madureira formava com elle um

duetto mais ou menos parlamentar. Henrique e Leonor applaudiam

calorosamente; Roberto Soares fazia as suas reservas; Isaura lançava

olhares assassinos ao auctor, que na febre da vaidade litteraria nem

reparava n'essas amaveis provocações. O doutor Macedo indignou-se.

--O Lucio, bradou elle, saíu fóra do meu programma. Inpingiu-nos um

romance humoristico debaixo da bandeira de conto da meia-noite. Lavro um

protesto, e peço que se lance na acta.

--Apoiado! exclamou o visconde da Fragosa, acordando.

--Mas, doutor... acudiu Valença, rindo.

--Qual mas nem meio mas! Então isto é conto phantastico? Você nunca leu

Hoffman? Você nunca leu Carlos Dickens? Leu, sim senhor, mas tinha o

romance fechado na sua gaveta, apanhou auditorio benevolo, e impingiu-o.

Quer editor! Não é outra coisa, minhas senhoras, quer editor! Então onde

ha aqui espectro? onde ha visão? onde ha os terrores legendarios da

meia-noite?

--Peço a palavra, interrompeu Lucio, rindo.

--Sobre a ordem ou sobre a materia? perguntou gravemente o visconde da

Fragosa.

--Sobre o espirito, redarguiu Lucio.

--Não é parlamentar, tornou o visconde.

--Deixe-o fallar, visconde, deixe-o fallar que eu já o esmago.

--Veremos, tornou Lucio. Qual era o nosso fim, doutor? Matar a

meia-noite... Matou-se. Tres noites a fio se contaram coisas medonhas,

coisas de arripiar os cabellos, vieram aqui á praça defunctas que vão a

S. Carlos, phantasmas da meia edade, egrejas submarinas que se illuminam

mysteriosamente á meia-noite. Algum de nós trepidou? Não; pelo

contrario. A meia-noite hoje passou, e ninguem deu por tal. Queriam que

eu abusasse da victoria? A meia-noite morreu. _Parce sepultis?_

--Sophismas! sophismas vãos!

--Appéllo para o _claro auditorio meu_.

--Ó vaidoso! bradou o doutor Macedo, isso é de Bocage, sabes tu,

profano? ousas comparar-te ao gigante?

--Eu por mim gostei, exclamou Leonor.

--Eu tambem! tornou Henrique, trocando uma vista d'olhos com a gentil

filha dos viscondes da Fragosa, ainda que me parece que os arrufos de

Eduardo e de Camilla duraram mais do que seria de rasão.

--Tu cheiras-me a noivo, Henrique! disse o doutor. Exhalas um vago

perfume de flôr de larangeira.

--Eu, exclamou logo Isaura, requebrando-se toda, declaro que ainda aqui

não ouvi coisa de que mais gostasse.

--Oh! minha senhora, tornou Lucio, desfazendo-se em agradecimentos.

--Percam-n'o com as lisonjas, percam, acudiu o doutor Macedo. E agora

deixem-me pronunciar a dissolução da sociedade _Inimiga da meia-noite_.

Está a terminar o tempo da _villeggiatura_. Depois de ámanha é a ultima

caçada. Está dissolvida a associação.

--Doutor, antes d'isso tenho que lhe apresentar um requerimento, disse a

doce voz de Leonor.

--Mandar para a meza, emendou o visconde da Fragosa.

--Que requerimento é? perguntou Macedo.

--A Juliasita e o Alvaro tem sabido que se contam aqui, depois d'elles

se deitarem, historias pavorosas, e as criadas vêem-se gregas com elles

para os despirem quando chega a hora de os deitarem, porque não é senão

dizerem que querem ficar a pé para ouvirem as historias. Prometti-lhes

que uma noite d'estas assistiriam á entrevista. Como decididamente já

ninguem pensa na meia-noite, como hoje se abriu o exemplo de não se

esperar a hora fatidica, não podiamos ámanhã, ao anoitecer, abrir a

sessão para os pequenitos assistirem?

--Ora... para quê, Leonor? acudiu a viscondessa, os teus irmãos caem de

somno ás primeiras palavras.

--De certo, se se lhes não escolher coisa de que elles gostem. A

_Julieta_ de certo a não perceberiam, acudiu Leonor, sorrindo

maliciosamente para Henrique.

--Não eram só elles, resmungou Henrique Osorio.

Isaura não ouviu; estava toda embebida n'uma larga conversação com Lucio

Valença.

--Ah! eu me encarrego d'elles; pago ámanhã a minha quota, aproveito o

precedente de Lucio.

--O quê? o quê? acudiu Lucio, que ouvira pronunciar o seu nome.

--Falla se por aqui no teu precedente, ou no teu predecessor, que é a

mesma coisa. Julgavas que o não tinhas?

Leonor desatou a rir, Henrique fez-se ligeiramente córado, Isaura não

comprehendeu.

--Invocando, pois, o precedente de Lucio, continuou o doutor,

apresentarei ámanhã, em obsequio ao Alvaro e a Julia, uma _lenda da

meia-noite_, que não será lenda e que não será á meia-noite, o que dará

a Roberto Soares assumpto para um estudo intitulado: _De como degeneram

as lendas_.

Dispersou-se a companhia, porque era já tarde, mas Henrique e Leonor

tinham aberto uma janella e conversavam animadamente.

Ao passar junto d'elles, Isaura, a quem Lucio dava o braço, não pôde

eximir-se a dizer-lhe:

--Veja se se transforma em espectro essa nova Julieta.

--Minha senhora, acudiu Henrique, transformam-se em espectros ou em

nada, que é a mesma coisa, as loucas visões que sonha a phantasia

enferma. Esses sonhos, quando se desperta, deixam apenas uma impressão

pesada e morbida. E quando se acorda é que se percebe que as Julietas

nunca foram amadas com o coração, foram sempre um pretexto para as

divagações de uma imaginação desnorteada.

--E encontrou a bussola, Henrique? acudiu Lucio, motejador.

--Encontrei, sim, meu amigo.

--Procurou-a por muito tempo?

--Estava ao meu lado. Somos tão loucos que nunca pensamos em reparar se

nas pedras do nosso jardim habitualmente não se encontrará alguma que

tenha as qualidades maravilhosas do magnete, e deixamo nos attrahir

tolamente por umas pedras que brilham, que julgamos diamantes e que são

apenas...

--O quê?

--Pedaços de vidro que brilham ao sol; o fulgor era do sol e não

d'elles.

Os dois companheiros de serão trocavam já olhares inflammados, e nas

suas vozes havia um tom ameaçador. Isaura assistia olympicamente

desdenhosa a esse torneio de espirito. Leonor, inquieta e magoada,

sentia os olhos marejarem-se-lhe de lagrimas.

--Se não se vão deitar, apago eu mesmo as luzes, exclamou o doutor

Macedo intervindo de subito e separando bruscamente os quatro

personagens da scena. Olhem que massadores!

E, emquanto o grupo se dispersava, trocando despedidas um pouco frias, o

doutor Macedo fechava a janella murmurando:

--_Cherchez la femme_.

* * * * *

Na noite seguinte assistiam dois novos ouvintes á leitura. Eram Alvaro e

Julia, os dois filhos mais novos dos viscondes da Fragosa. As creanças

estavam radiantes de alegria; emquanto Alvaro, loira creança de seis

annos, cravava os grandes olhos azues, com infantil curiosidade, no

doutor Macedo, Julia, uma menina de nove annos, toda elegante, e que era

o retrato de sua irmã mais velha, ouvia, rindo ás gargalhadas, as

historietas de Henrique Osorio que a tinha no collo, e que,

prodigalisando-lhe as caricias, esperava assim reconquistar as boas

graças de Leonor, que ficára um pouco ferida pela scena da vespera, em

que lhe parecêra vêr um resentimento que mostrava que Isaura não fóra de

todo esquecida.

--Meus meninos, disse o doutor Macedo desenrolando o seu manuscripto, é

só cá para nós este conto. A mana, o Henrique e os outros que riam ou

durmam, se quizerem. Nós cá é que nos vamos entreter. Este conto é só

para nós, e intitula-se...

Lucio Valencia, que estava collocado defronte de uma janella aberta,

interrompeu com um espirro o discurso de Macedo.

--_Dominus tecum_, concluiu o doutor.

--Obrigado, disse Lucio.

--Não é obrigado, é o titulo do conto. Mas vejam o que é ser-se

litterato. Espirramos, diz-nos alguem _Dominus tecum_; é o que basta,

saiu um conto!

Todos desataram a rir, e o doutor, com a sua voz admiravel, com a rara

sciencia de recitação que possuia, começou a lêr, no meio de profunda

attenção das duas creanças, o seu _Dominus tecum_.

A Lenda da Meia-Noite · 第 39 / 56 题