XIV

«Quando cheguei ao alojamento do meu novo dono, percebi que a minha

posição não melhorára consideravelmente. A mobilia da casa não era muito

mais numerosa, do que a da miseravel agua-furtada, d'onde eu saíra

n'esse mesmo dia. Uma estante de pinho, vergando ao peso dos livros, e

uma meza cuja superficie desapparecia debaixo de uma triplice camada de

papeis, ahi tem quaes eram os moveis principaes d'aquella casa.

«O resto da mobilia, se o meu amigo quizer absolutamente uma descripção

á Balzac, compunha-se de um leito de ferro, e de duas cadeiras de pinho,

uma das quaes se distinguia pela ausencia de um pé, o que lhe dava as

prerogativas de tripode, e a outra primava na singular docilidade com

que se domava a todo o corpo que se lhe pozesse em cima; porque se

prostrava immediatamente no chão em signal de obediencia. Confesso que,

quando o meu generoso possuidor atirou comigo para a tal cadeira

nimiamente flexivel, receei que apesar da minha leveza, obrigasse o

pobre movel a dar provas da sua habilidade gymnastica.

«O meu proprietario, assim que entrou, despiu o casaco e atirou com elle

irreflectidamente para cima da cadeira cortez, onde eu, por minha

desgraça, estava tambem collocada. Receber o casaco, fazer um _plié_ com

toda a habilidade de um mestre de dança, e ir parar ao chão

arrastando-me na quéda, foi uma e a mesma coisa para a cadeira. O meu

dono nem reparou em tal, e, dirigindo-se logo para a outra, sentou-se á

meza, pegou n'uma penna, molhou-a no tinteiro, e começou a escrever com

uma rapidez incrivel.

«Eu entretanto não estava lá muito á vontade. Litteralmente esmagada

debaixo do casaco, tinha, para cumulo de desventuras, mesmo encostado a

mim um grosso caderno de papel, que saía de uma das algibeiras, e que me

pregava no chão, comprimindo-me atrozmente. Eu ficára embirrando com

papeis, desde o momento em que, por causa d'elles, fôra expulsa

irrevogavelmente da casa dos meus primeiros donos, e ai! sem esperança

de para lá voltar.

«Mas, ainda que eu não tivesse essa justificadissima prevenção contra a

papelada, bastava a attitude aggressiva, que este caderno tomára para

comigo, para eu ficar odiando mortalmente a sua raça. Debalde eu

gritava, ralhava, resmungava, fazia esforços inauditos para me

desembaraçar do peso que me opprimia, tudo era inutil. O caderno era

inflexivel, e o casaco ainda mais. Não tive remedio senão resignar-me.

«Vendo-me socegada, o caderno de papel começou a entabolar umas taes ou

quaes relações comigo. Percebendo que, por fim de contas, a melhor

resolução, que eu podia tomar, era corresponder á amabilidade com que me

tratavam, troquei algumas palavras com elle, primeiro n'um tom bastante

sêcco, e a pouco e pouco mais agradavelmente. Emfim, d'ahi a cinco

minutos estavamos os melhores amigos d'este mundo.

«Foi então que elle me disse que o seu dono era litterato, como quem

diz, não tinha officio nem beneficio. Andava sempre abundantemente

provido de idéas e de dividas. As idéas eram sublimes, as dividas eram

pasmosas. Nem por umas nem por outras havia quem désse dez réis. Tinha

por costume confiar ao papel os seus pensamentos; mas por mais empenhos

que o papel almasso mettesse com o papel de imprensa, nunca tinha

conseguido que este se encarregasse de repartir com elle as honras da

confidencia. Não porque o litterato não tivesse talento; pelo contrario,

asseverava o papel que tinha muito; mas infelizmente, como ainda não se

descobrira o meio de se começar a escrever pela segunda obra, e os

editores queriam unicamente imprimir os seus escriptos se elle já fosse

conhecido, o homem estava sériamente ameaçado de nunca os vêr em lettra

redonda.

«Em compensação, um editor Mecenas, um protector das lettras com loja de

livros n'uma escada, offerecera-lhe o honroso logar de traductor dos

romances de Paulo de Kock, e de outros notaveis escriptores francezes,

com o pingue ordenado de tres mil réis por mez. Este homem era tido

pelos seus collegas como um perdulario.

«Outro editor, ainda mais estroina ou mais inexperiente, concebêra a

atrevida idéa de tentar fortuna imprimindo as obras do pobre diabo.

Pedira-as para as vêr, pedido que ia dando com o escriptor em doido...

de alegria, e mostrou-as a um entendedor seu amigo. Este folheou os

differentes cadernos por espaço de cinco minutos, e devolveu-os ao

livreiro, asseverando que o rapaz tinha uma lettra tão boa, que não

podia chegar a ser um grande escriptor, o que fez com que o bom do

emprezario de litteratura devolvesse os cadernos a quem os escrevêra,

offerecendo-lhe ao mesmo tempo um logar de caixeiro.

«O litterato atirára com os cadernos á cara do editor, depois com os

livros que achou á mão, e já baloiçava a cadeira gymnastica para lhe

fazer tomar o caminho que haviam tomado os livros e os papeis, quando o

bom do editor descia os ultimos degraus da escada, e sacudia o pó das

suas sandalias á porta de casa tão pouco hospitaleira.

O que o caderno meu visinho me affirmou (e devo dizer de passagem, que

fôra elle um dos projectís de que o seu dono se servira, um dos navios

encarregados de operarem um reconhecimento nas costas editoraes), o que

elle me affirmou foi que, se o nosso homem não sacudisse tão depressa o

pó das suas sandalias, o escriptor vinha-lhe a sacudir mas era o pó da

sobrecasaca.

«Aqui está em resumo o que me narrou o meu officioso visinho.

«Não tentarei descrever a vida que eu passei durante dois ou tres mezes

em casa d'esse seu collega. Póde imaginar qual era; repouso completo,

enercia absoluta. Collocada na estante, alli passei todo o tempo, sempre

socegada, sempre vasia, conversando muito com os lívros meus visinhos,

que me ensinaram tudo quanto eu sei, e me fizeram adquirir a erudição

que tanto o admirou, e vendo o meu dono passeiar no quarto, sempre

agitado, e sempre procurando alguma coisa, ou uma rima, ou um lenço de

assoar, ou um editor.

«Rimas encontrava elle quasi sempre, lenços de assoar algumas vezes,

editores nunca!

«A traça fôra o editor unico d'aquelles papeis.

«Um dia foi elle tambem procurado por uns sujeitos, que lhe apresentaram

um papel sellado, e que lhe disseram serem elles os encarregados pelo

sr. Bartholomeu Nunes, de proceder a uma penhora por causa de não sei

quantos mil réis que elle devia ao dito senhor.

«O meu dono não fez a minima objecção, pegou no chapeu e saiu, dizendo:

--«Escolham o que quizerem.

«Coisa que elles não o obrigaram a repetir. Percorreram minuciosamente

todos os cantos e recantos. Nada lhes escapou. Tudo inventariaram, tudo

levaram. Eu, já se vê, não escapei ao desastre; lá fui envolvida com os

livros, e sabe quem eu vi tambem no frete?

«A celebrada cadeira das mesuras. Até isso lhes servira!

A Lenda da Meia-Noite · 第 34 / 56 题