XIII

«Cinco tostões não duram eternamente, e a prova d'isso é que já tinham

desapparecido. A miseria, que fugira um instante espavorida, voltava de

novo a bater á porta. Que remedio senão abrir-lh'a!

«Não era feliz no mendigar o meu pobre dono. Raras vezes obtinha o

dinheiro sufficiente para comprar o necessario. Sua pobre filha

melhorára sim, por um prodigio da natureza completamente desajudada da

sciencia; mas a sua convalescença, desprotegida d'aquelle conforto,

d'aquelles cuidados tão indispensaveis para o restabelecimento da saude,

prolongava-se, apesar de todos os esforços que a animosa rapariga fazia

para resumir, e que, como é facil de suppôr, só contribuiam para a

accrescentar. Queria pegar em trabalho, mas estava tão fraca, tão fraca,

que, apenas dava dois ou tres pontos, caía desmaiada sobre a costura, e

assim passava os dias em continuados desfallecimentos.

«Seu pae tambem estava completamente impossibilitado de trabalhar. Eu

chamei-o velho, porque com effeito os desgostos e as privações essa

apparencia lhe haviam dado; mas não o era effectivamente. Ainda não

contava cincoenta annos, e já não tinha na cabeça um só cabello preto.

«Despedido da fabrica de oleados em que trabalhava, porque a sua nimia

fraqueza o tornava completamente improprio para os rudes trabalhos

manuaes da fabrica, vira-se só com tres filhos, sem recursos, sem poder

obter, n'um outro emprego mais suave, o pão para si e para elles.

«A sua completa ignorancia tornava-o improprio para qualquer trabalho

que não fosse manual.

«Ó ignorancia, negra irmã da livida miseria!

«Como eu ia dizendo, eram poucos ou nenhuns os proventos que o pobre

homem tirava da mendicidade. As comidas iam sendo cada vez mais frugaes,

e a pobre rapariga, debilitada, enfraquecida, ia-se tornando cada vez

mais incapaz de trabalhar.

«Admira-se de certo de eu continuar a existir n'uma casa onde reinava

tão profunda miseria! Espanta-se de que me não tivessem vendido no dia

immediato áquelle em que tinham gasto os cinco tostões. Eu lhe explico

esse facto na apparencia incomprehensivel, eu lhe dou a chave d'esse

enigma.

«O meu dono considerava-me, para assim dizer, como uma enviada de Deus,

e não estava muito longe de imaginar que existisse no meu seio um anjo

occulto. Tocar-me era quasi uma irreverencia, vender-me seria de certo

uma profanação.

«Candidamente supersticioso, o bom velho tinha lá de si para si que eu,

como mensageira que fôra de uma esmola providencial, não podia deixar de

fazer a felicidade d'aquelles que me possuiam. Vender-me ser-lhe-hia tão

difficil, como aos romanos cederem, em troca dos mais enormes thesouros,

o palladio que fazia a republica invencivel. Eu era a égide da casa,

emfim.

«Mas um dia o pobre pae de familias voltou mais triste e amargurado do

que nunca. O dia correra-lhe como aquelle em que eu o tinha visto pela

primeira vez, com a differença que nenhum garoto compassivo, enviado

pela Providencia, se fôra esconder na ramaria de uma arvore protectora.

O velho entrava, pois, em casa, sombrio, triste, como entraria uns

poucos de dias antes, se não fosse eu apparecer-lhe inopinadamente.

«Entrou, sem dizer palavra. Dirigiu-se logo a um armario que havia na

parede, onde eu habitava, e, tirando-me para fóra, disse-me, depois de

me ter contemplado lugubremente alguns instantes:

--«Vae, pobre bolsinha, que me trouxeste momentos de allivio, e cuja côr

suave me aconselha a esperança. A esperança?! não a posso ter já! Ai! a

minha sina fatal é mais forte do que a tua benefica influencia! Ramo

verde que uma pomba do céo trouxe no bico a esta pobre arca, que vae sem

rumo nas aguas de um diluvio de infortunios, enganaste-me

involuntariamente! Não parou a tempestade! Nem ha de parar talvez! Vae,

não procures luctar mais contra a minha má estrella! Vae, e que a tua

mesma partida nos seja ainda bemfazeja! Os anjos de Deus, ou quando

descem ao mundo, ou quando voltam ao paraizo, sempre enviam adiante, ou

deixam após si, um rasto luminoso!

«E beijando-me com fervor, metteu-me no seio, e saiu.

«Foi triste a sua peregrinação á procura de um comprador que se

resolvesse a dar por mim um preço razoavel. Todos, vendo-o assim pobre,

mostrando no rosto livido a fome que o impellia a vender-me, offereciam,

depois de me terem mirado com desdem, um preço tão baixo, que, fosse

qual fosse a extrema necessidade que o meu dono tivesse de dinheiro,

entendeu que me não devia deixar ir assim.

«Comtudo, percorriamos lojas e lojas, e nenhum dos donos d'ellas se

resolveu a comprar-me. Pois eu não valia tão pouco como isso, e estou

convencida que muitas das pessoas, a quem o velho mendigo me

apresentava, desejariam ficar comigo. Rebaixavam-me muito, mas, segundo

depois vim a saber, isso é trica de negociante para especular com a

miseria. Sabem que ainda que a sua primeira proposta repilla o vendedor,

este, por fim de contas, sempre volta ou a acceital-a ou a diminuir

muito o preço que estabelecera.

«Chamam elles a isso esperteza no negocio. E quem não quer não venha cá,

accrescentam, terminando com a phrase pittoresca: «Eu não lhe puz a faca

aos peitos.» É regra estabelecida que o vendedor peça um preço

exorbitante, e o comprador offereça um preço diminutissimo. Que venha á

discussão, mesmo por acaso, o valor real do objecto, isso é raro. Um

negocio de compra e venda é um jogo de azar em que dois jogadores

trapaceiam. Vêr qual dos dois ha de roubar o outro, _that is the

question_. Nunca um só vendedor se lembrou de calcular: «Este objecto

custou-me tanto, devo tirar o juro razoavel de tanto, logo vendo-o por

tanto, e nem um real de mais, nem um real de menos»; e o comprador de

pensar: «Posso gastar tanto, se o objecto valer mais, não compro.» Isso

nunca: sem uma discussão preliminar, é sensabor o negocio. Se a invenção

da moeda simplificou as relações mercantis, quanto as não simplificaria

a invenção d'esta moeda dos corações nobres, que se chama «boa fé!».

«A antiguidade, que fez Mercurio o deus dos ladrões e dos negociantes,

acertava devéras se accrescentasse--e dos consumidores.

«Desculpe estas reflexões um pouco prolixas; mas eu sou o Nestor das

bolsas, e desde o celebre ancião homerico, cujas palavras eram doces

como favos de mel, e que talvez por isso eram prodigalisadas por tal

fórma pelo rei de Pylos, que não sei como os gregos não tomaram uma

indigestão de melaço: desde esse vulto epico, todos os Nestores gostam

de pregar grandes massadas. Eu não me podia esquivar á regra geral.

«Agora vou continuar.

«O meu dono luctou muito tempo contra a avidez dos compradores, e

fez-lhes falhar os calculos. Saía das lojas com o desespero na alma, o

rubor da indignação na fronte, e não voltava.

«Assim se passaram duas horas.

«O preço, que lhe offereciam, ia sempre diminuindo: porquê? Porque de

cada vez a physionomia do mendigo se tornava mais livida. A anciedade

pintava-se-lhe nas feições. Cada ruga de mais, que se lhe cavava na

fronte angustiada, traduzia-se immediatamente em cinco réis de menos no

preço que lhe offereciam.

«Finalmente, exhausto, prostrado, desfallecido, entrou n'uma ultima

loja, e, quando entrou, deixou-se cair em cima de uma cadeira. As pernas

recusavam-se a sustental-o mais tempo.

«Na loja estavam o mercador, e um freguez escolhendo não sei o quê. Sei

apenas que era um rapaz de uma physionomia sympathica.

«Ambos olharam espantados para o pobre velho, mas o espanto do primeiro

era um espanto encolerisado, o do segundo um espanto compadecido.

«O dono da loja receiava para as suas cadeiras o contagio da miseria.

Que um cão se estirasse em cima d'ellas, passe; mas um mendigo!

«O meu dono estendeu-me com mão tremula para o logista, e disse com voz

que mal se ouviu:

--«Eu desejava vender esta bolsa. Quanto me dá o senhor por ella?

--«Que diz vossê?--tornou o dono da loja com modos irritados. Falle de

maneira que se entenda! Julga que tenho ouvidos de tisico? Graças a Deus

sempre gozei de boa saude.

--«Desculpe-me, senhor, respondeu o meu dono fazendo um esforço sobre si

mesmo para fallar com voz mais intelligivel, é porque estou muito fraco.

Desejava saber quanto o senhor me dá por esta bolsa.

--«Ah! até que emfim! Não seria mau que vossê se levantasse, porque este

senhor talvez se queira sentar.

--«Deixe estar o pobre homem,--interrompeu o freguez com vehemencia, não

vê que mal se póde ter em pé. Coitado!

--«Pois sim, sim!--resmungou o logista, se toda a gente que não póde

andar se me viesse pespegar nas cadeiras, estava eu arranjado. Mas vamos

lá a vêr a bolsa. Ah! está toda esfarrapada! que trapo! isto não vale

cinco réis. Quanto quer vossê por isto!

--«V. s.^a dirá quanto quer dar por ella!

--«Eu! olhe, já lhe digo que não lhe dou mais de quatro vintens. Nem um

real. Serve-lhe?

--«Quatro vintens por uma bolsa de seda, senhor!--tornou o meu dono com

uma profunda accentuação de amargura na voz.

--«Sim! que ella está muito bonita. E quem me assevera que vossê não

roubou isto? Nada, parece-me que nem os quatro vintens lhe dou.

--«Roubar! eu?--bradou o meu bom velho, erguendo-se indignado da

cadeira.

--«Sim! sim! Eu já conheço essas capas de santidade. O senhor não póde

imaginar, continuou elle, voltando-se para o freguez, quanto esses

malandros são finos! Olhe, um dia d'estes...

--«Este homem não tem cara de ladrão, interrompeu bruscamente o

desconhecido.

--«Muito obrigado, senhor, muito obrigado!--exclamou o meu dono.

Sirvam-me de consolação as suas palavras! Faz-me bem ouvil-as! Partem de

um coração nobre.

--«Emfim, tornou o logista um pouco despeitado, se me quer dar a bolsa

ahi tem os quatro vintens.

--«Que remedio, senhor! A necessidade é má conselheira! ahi tem a bolsa!

Sempre meus filhos não morrerão hoje de fome!

--«Não, interrompeu ainda o generoso rapaz, agarrando no braço do

mendigo, não consentirei que se pratique um roubo assím na minha

presença. Sou eu quem lhe compra a bolsa. Ahi tem dez tostões, é tudo

quanto tenho comigo. Creio que a bolsa não valerá muito mais.

«E, pondo na mão do mendigo duas meias corôas, saiu levando-me comsigo,

deixando o logista estupefacto, e sendo acompanhado pelas bençãos do

velho.

A Lenda da Meia-Noite · 第 33 / 56 题