«Tremulo de alegria, subiu o velho os ingremes degraus de uma escada
tortuosa e escura, que conduzia á agua-furtada onde habitava. Quando
chegou ao ultimo patamar parou para respirar. O coração batia-lhe com
alegria. Pensára tanto em subir aquella escada lentamente, como um homem
que leva sobre os seus hombros o peso enorme do infortunio; pensára
tanto no soffrimento que o havia de dilacerar quando chegasse com o
desespero na alma ao mesmo sitio onde parára ebrio de alegria; pensára
tanto no triste espectaculo que se lhe havia de deparar, no desgosto
profundo que havia de sentir; pensára tanto em tudo isso, que chegára
quasi a costumar-se a essa idéa, e que a felicidade encontra-o armado
para a desgraça e desprevenido para a ventura.
«Finalmente entrou.
«Que espectaculo tão novo para mim foi esse que eu divisei! Das trevas,
que envolviam a casa, saiam gemidos abafados, soluços horrendos,
murmurio dilacerante, reflexo pavoroso do sussurro dos condemnados do
inferno accumulados na tenebrosa _géhenne_ que Dante visitou. O meu
dono, depois de abrir a porta, ficou um instante parado, e
involuntariamente as lagrimas inundaram-lhe as faces, parando nos
labios, que sorriam com um sorriso de consolação.
«Quando o meu olhar se costumou ás trevas, pude então vêr no fundo do
quarto, e deitadas em cima de uma pobre enxerga, duas creanças de nove
para dez annos, pallidas, magras, com os seus corpinhos quasi nús,
tremendo de frio n'aquelle recinto humido. Choravam, e choravam de fome!
Mais ao fundo, n'um pobre catre, que era ainda assim o unico traste da
casa, jazia a filha mais velha, rapariga dos seus vinte e tantos annos,
a quem o soffrimento arrancava gemidos. Uma pobre coberta esfarrapada
mal a resguardava. E comtudo, a pobre rapariga estava com uma febre
violentissima; o delirio apoderára-se d'ella. Murmurava phrases
incoherentes, gemia, soluçava. E as trevas, a escuridão atroz a
suffocal-a! E lá ao fundo, na sombra, a fulgirem sinistramente as garras
do demonio livido da fome!
«Uma toada de musicas alegres entrava pelo quarto. No primeiro andar
havia baile. A dois passos do risonho turbilhão das walsas o horrido
vendaval do infortunio!
«Ó destino!
«O velho, silencioso, accendeu uma véla. Depois pôz na chaminé a lenha
que trouxera, e accendeu o lume. Espalhou-se no quarto um doce calor.
«Os pequenos tinham-se levantado na cama, estupefactos!
«Depois, sempre silencioso, pegou n'um braçado de couves, migou-as,
tirou um pão, fel-o em sopas, deitou tudo dentro de um pobre tachinho de
barro, e pôl-o ao lume. Os pequenos tinham-se approximado d'elle.
«O velho voltou-se. A sua cabeça, coroada de cãs, inclinou-se meigamente
para as loiras cabecinhas que o rodeavam.
«E, vendo-os tremulos, mal se podendo suster em pé, abraçando-lhe os
joelhos, as lagrimas saltaram-lhe de novo dos olhos, a voz
embargou-se-lhe na garganta, e só pôde dizer:
--«Meus filhos!
--«Pão!--foi a resposta das creanças.
--«Sim, meus filhos, esperem, esperem um instante. Haveis de ceiar,
haveis de ceiar, meus pobres pequeninos, e haveis de dormir depois o
somno de innocentes, que a fome repelle ha tanto tempo de cima das
vossas gentis cabecinhas! Deixae-me, deixae-me ir tratar de vossa irmã,
da minha querida filha, que tanto soffre por nossa causa.
«E o velho approximou-se da pobre doente, que olhava para elle com uns
olhos desvairados, coou-lhe por entre os dentes um calmante, que
comprára n'uma botica, porque o pobre do homem gastára até aos ultimos
cinco réis, e comtudo quantas coisas de primeira necessidade tinham
ficado ainda por comprar!
«O calmante produziu um bom effeito. Ao delirio succedeu a prostração, e
a costureira adormeceu com um somno pacifico e reparador.
«Então o resto da familia agrupou-se em torno da enxerga, meza
improvisada, para onde foi trazido em triumpho o tacho das couves. Os
pequenos lançaram-se sofregamente á comida, e em poucos minutos
desappareceram as couves e as sopas, sem omissão de um talo, sem
esquecer uma migalha.
«O velho mal tinha bebido um golo de caldo. Embevecido na contemplação
de seus filhos satisfeitos, nem pensára na sua propria fome. De vez em
quando levantava ao céo os olhos arrazados de agua, e murmurava palavras
incomprehensiveis. É essa a oração que a Deus mais agrada; porque é a
effusão sincera, e livre de preceitos, de um coração que trasborda de
reconhecimento.
«Quando terminou a ceia frugal, o bom do velho chamou as creanças para
junto de si, e fazendo-as ajoelhar, e unindo-lhes as tenras mãosinhas,
disse-lhes com voz grave:
--«Meus filhos, agora que por uma esmola divina saciaram a fome, é justo
que se não esqueçam d'Aquelle que se amerceou de vós. Vinde, e repeti
comigo:
--«Pae do céo, Vós que, apesar da vossa omnipotencia, vos não esqueceis
dos vossos filhinhos, que déstes pão a quem tinha fome, e consolações a
quem estava afflicto! Vós que, por um milagre da vossa infinita bondade,
nos salvastes da morte, e a nosso pae do desespero! Vós que sois todo
misericordia, tende compaixão de nossa pobre irmã! E vós, nossa mãe
querida, que sois agora uma santa no céo, rogae tambem a Deus que dê
saúde a quem é o nosso amparo! Nós vos damos graças, Deus todo-poderoso,
e promettemos sempre ser dignos da vossa affeição, e conservarmo-nos no
caminho da virtude, para que a alma da nossa mãesinha se não afflija de
nos vêr peccadores.»
«E as creancinhas repetiam com a sua voz argentina aquellas singelas
palavras, pronunciadas pelo velho, commovido, que estendia as mãos
tremulas sobre essas cabeças innocentes, e erguia para o céo os olhos
humedecidos.
«Depois beijou-as na fronte com ternura, e mandou-as deitar. Elle apagou
a luz e o lume; sentou-se á borda da enxerga, e, encostando a cabeça nas
mãos, meditou.
«Porém o dia fôra agitadissimo; a natureza foi mais forte do que elle, e
d'ahi a pouco tempo o velho, cerrando a pouco e pouco as palpebras,
adormeceu.
«As trevas encheram de novo o quarto. Mas o horror fugira. Á porta, um
anjo do Senhor, com um dedo nos labios, velava meigamente sobre o somno
da innocencia.