XII

«Tremulo de alegria, subiu o velho os ingremes degraus de uma escada

tortuosa e escura, que conduzia á agua-furtada onde habitava. Quando

chegou ao ultimo patamar parou para respirar. O coração batia-lhe com

alegria. Pensára tanto em subir aquella escada lentamente, como um homem

que leva sobre os seus hombros o peso enorme do infortunio; pensára

tanto no soffrimento que o havia de dilacerar quando chegasse com o

desespero na alma ao mesmo sitio onde parára ebrio de alegria; pensára

tanto no triste espectaculo que se lhe havia de deparar, no desgosto

profundo que havia de sentir; pensára tanto em tudo isso, que chegára

quasi a costumar-se a essa idéa, e que a felicidade encontra-o armado

para a desgraça e desprevenido para a ventura.

«Finalmente entrou.

«Que espectaculo tão novo para mim foi esse que eu divisei! Das trevas,

que envolviam a casa, saiam gemidos abafados, soluços horrendos,

murmurio dilacerante, reflexo pavoroso do sussurro dos condemnados do

inferno accumulados na tenebrosa _géhenne_ que Dante visitou. O meu

dono, depois de abrir a porta, ficou um instante parado, e

involuntariamente as lagrimas inundaram-lhe as faces, parando nos

labios, que sorriam com um sorriso de consolação.

«Quando o meu olhar se costumou ás trevas, pude então vêr no fundo do

quarto, e deitadas em cima de uma pobre enxerga, duas creanças de nove

para dez annos, pallidas, magras, com os seus corpinhos quasi nús,

tremendo de frio n'aquelle recinto humido. Choravam, e choravam de fome!

Mais ao fundo, n'um pobre catre, que era ainda assim o unico traste da

casa, jazia a filha mais velha, rapariga dos seus vinte e tantos annos,

a quem o soffrimento arrancava gemidos. Uma pobre coberta esfarrapada

mal a resguardava. E comtudo, a pobre rapariga estava com uma febre

violentissima; o delirio apoderára-se d'ella. Murmurava phrases

incoherentes, gemia, soluçava. E as trevas, a escuridão atroz a

suffocal-a! E lá ao fundo, na sombra, a fulgirem sinistramente as garras

do demonio livido da fome!

«Uma toada de musicas alegres entrava pelo quarto. No primeiro andar

havia baile. A dois passos do risonho turbilhão das walsas o horrido

vendaval do infortunio!

«Ó destino!

«O velho, silencioso, accendeu uma véla. Depois pôz na chaminé a lenha

que trouxera, e accendeu o lume. Espalhou-se no quarto um doce calor.

«Os pequenos tinham-se levantado na cama, estupefactos!

«Depois, sempre silencioso, pegou n'um braçado de couves, migou-as,

tirou um pão, fel-o em sopas, deitou tudo dentro de um pobre tachinho de

barro, e pôl-o ao lume. Os pequenos tinham-se approximado d'elle.

«O velho voltou-se. A sua cabeça, coroada de cãs, inclinou-se meigamente

para as loiras cabecinhas que o rodeavam.

«E, vendo-os tremulos, mal se podendo suster em pé, abraçando-lhe os

joelhos, as lagrimas saltaram-lhe de novo dos olhos, a voz

embargou-se-lhe na garganta, e só pôde dizer:

--«Meus filhos!

--«Pão!--foi a resposta das creanças.

--«Sim, meus filhos, esperem, esperem um instante. Haveis de ceiar,

haveis de ceiar, meus pobres pequeninos, e haveis de dormir depois o

somno de innocentes, que a fome repelle ha tanto tempo de cima das

vossas gentis cabecinhas! Deixae-me, deixae-me ir tratar de vossa irmã,

da minha querida filha, que tanto soffre por nossa causa.

«E o velho approximou-se da pobre doente, que olhava para elle com uns

olhos desvairados, coou-lhe por entre os dentes um calmante, que

comprára n'uma botica, porque o pobre do homem gastára até aos ultimos

cinco réis, e comtudo quantas coisas de primeira necessidade tinham

ficado ainda por comprar!

«O calmante produziu um bom effeito. Ao delirio succedeu a prostração, e

a costureira adormeceu com um somno pacifico e reparador.

«Então o resto da familia agrupou-se em torno da enxerga, meza

improvisada, para onde foi trazido em triumpho o tacho das couves. Os

pequenos lançaram-se sofregamente á comida, e em poucos minutos

desappareceram as couves e as sopas, sem omissão de um talo, sem

esquecer uma migalha.

«O velho mal tinha bebido um golo de caldo. Embevecido na contemplação

de seus filhos satisfeitos, nem pensára na sua propria fome. De vez em

quando levantava ao céo os olhos arrazados de agua, e murmurava palavras

incomprehensiveis. É essa a oração que a Deus mais agrada; porque é a

effusão sincera, e livre de preceitos, de um coração que trasborda de

reconhecimento.

«Quando terminou a ceia frugal, o bom do velho chamou as creanças para

junto de si, e fazendo-as ajoelhar, e unindo-lhes as tenras mãosinhas,

disse-lhes com voz grave:

--«Meus filhos, agora que por uma esmola divina saciaram a fome, é justo

que se não esqueçam d'Aquelle que se amerceou de vós. Vinde, e repeti

comigo:

--«Pae do céo, Vós que, apesar da vossa omnipotencia, vos não esqueceis

dos vossos filhinhos, que déstes pão a quem tinha fome, e consolações a

quem estava afflicto! Vós que, por um milagre da vossa infinita bondade,

nos salvastes da morte, e a nosso pae do desespero! Vós que sois todo

misericordia, tende compaixão de nossa pobre irmã! E vós, nossa mãe

querida, que sois agora uma santa no céo, rogae tambem a Deus que dê

saúde a quem é o nosso amparo! Nós vos damos graças, Deus todo-poderoso,

e promettemos sempre ser dignos da vossa affeição, e conservarmo-nos no

caminho da virtude, para que a alma da nossa mãesinha se não afflija de

nos vêr peccadores.»

«E as creancinhas repetiam com a sua voz argentina aquellas singelas

palavras, pronunciadas pelo velho, commovido, que estendia as mãos

tremulas sobre essas cabeças innocentes, e erguia para o céo os olhos

humedecidos.

«Depois beijou-as na fronte com ternura, e mandou-as deitar. Elle apagou

a luz e o lume; sentou-se á borda da enxerga, e, encostando a cabeça nas

mãos, meditou.

«Porém o dia fôra agitadissimo; a natureza foi mais forte do que elle, e

d'ahi a pouco tempo o velho, cerrando a pouco e pouco as palpebras,

adormeceu.

«As trevas encheram de novo o quarto. Mas o horror fugira. Á porta, um

anjo do Senhor, com um dedo nos labios, velava meigamente sobre o somno

da innocencia.

A Lenda da Meia-Noite · 第 32 / 56 题