«O meu possuidor reconhecera, desde o primeiro momento, que eu não
estava vasia, mas ainda se não dera ao trabalho de verificar a quanto
montava a sua nova riqueza. Finalmente, depois de estar saciado de
laranjas, cançado de trepar ás arvores, entendeu que era já tempo de
attender aos negocios do thesouro. Sentou-se por conseguinte n'uma pedra
da estrada, abriu-me com toda a gravidade, e tirou de dentro
triumphalmente a moeda de cinco tostões.
--«Olá! um _caiado_!--bradou elle com alegria, e para demonstrar melhor
o seu regosijo entoou a aria da _Saloia_, e atirou comigo ao ar a uma
distancia immensa, com grande desespero meu, porque vim assustadissima,
aos trambolhões pelo espaço, cair na mão aberta do garoto.
«Este não ficou em contemplação diante do seu thesouro; metteu o outra
vez no sitio em que estava, levantou-se, e continuou o seu caminho,
cantando com uma voz de Stentor, atirando comigo ao ar, e tomando, para
me receber, attitudes de tambor-mór.
«A estrada, que se ia approximando da cidade, ia sendo tambem mais
frequentada. Os caminhantes multiplicavam-se, e as casas começavam a
apparecer. Nem por isso o gaiato deixou de cantar a _Saloia_ a plenos
pulmões, com grande escandalo das velhas sentadas nos degraus das
portas, que acompanhavam cada estrophe da aria popular com um
desafinadissimo côro de imprecações.
--«Valdevinos!--Bregeiro!--Gaiato sem emenda!--D'onde vens tu,
maroto?--Ah! boa sova!--Fosse eu tua mãe que te havia de moer o corpo
com pancadas!--Só se perdiam as que caissem no chão!--D'onde vens tu,
desavergonhado, vens de roubar laranjas?--Tu vaes direitinho para o
inferno!--_Berzabum_ te valha, démo pequeno!--O descarado vem a cantar
para quebrar a cabeça ás almas christãs!--Quem te puzesse uma farda ás
costas!
«E outras amabilidades de egual jaez, a que elle só respondia, grave e
serenamente, com esta invariavel apostrophe:
--«Eh! bruxas!
«Quiz o acaso que passasse ao nosso lado um sujeito gordo, com umas
barbas de phariseu, uns olhos esgazeados e orlados de vermelho, uma
d'estas physionomias baixamente orgulhosas, onde se lê ao mesmo tempo o
servilismo para com os poderosos, o desabrimento para com os humildes.
Desbarretava-se até ao chão quando passava alguma carruagem, onde ia
pessoa conhecida d'elle, e correspondia ligeiramente á saudação dos
pobres trabalhadores, que levantavam o chapéo, com aquelle ar gravemente
cortez dos homens do campo, para lhe dizerem:
--«Guarde-o Deus, senhor Domingos Gil.
«Para o meu gaiato, vel-o, e conceber a idéa de lhe fazer alguma, foi
acto simultaneo. Com um sorriso malicioso nos labios enrolou-me na mão
muito bem enrolada, de sorte que só ficasse de fóra o sitio onde estavam
os cinco tostões, e approximando-se, pé ante pé, do empavezado
passeiante, ergueu a mão, vibrou-me com toda a força, e fez-me desabar,
indo a meia corôa de esquina, na copa do chapéo do gorducho.
«A _gebada_ foi magistral; o chapéo enterrou-se até aos olhos; e em
quanto o dono d'elle, espumante de raiva, procurava desembaraçar a cara
d'aquelle inesperado invólucro, o rapaz pôz-se fóra do seu alcance, e,
já lá muito ao longe, ouviu as exclamações furiosas da sua victima, que
ameaçava prendel-o, matal-o, enforcal-o, esquartejal-o.
«O homem ficára desesperado. Pois não tinha rasão; o seu chapéo, como
sempre, tinha-se curvado ao dinheiro.
X
«Livre de perigo, o meu dono, reflectindo no caso, houve por bem rir-se
ás gargalhadas do que praticára. Com effeito merecia a pena. Eu, apesar
de ter padecido, não desgostei da correcção.
«Depois de se rir á vontade, entendeu o auctor da _gebada_ que não
poderia ser completa a sua satisfação se não visse a cara do paciente
depois do castigo. Reflectiu como poderia conseguir vêl-o sem ser visto,
e como afim de reflectir melhor, quando olhava para o céo a procurar
inspiração, deu com a vista n'uma arvore que se erguia mesmo ao seu
lado. Vêl-a, e trepar a ella, foi uma e a mesma coisa. O mirante era
optimo, bem arejado, completamente resguardado da curiosidade dos
profanos, proporcionando ao seu habitador provisorio um delicioso
panorama para se entreter emquanto não passasse aquelle a quem esperava.
Attendendo, pois, ao merecimento e mais partes que concorriam na pessoa
da dita arvore, estabelecemo nos n'ella sem cerimonia, eu n'uma caminha
de folhas, elle encostado a uma especie de janella verdejante, d'onde
via optimamente tudo quanto se passava na rua.
«Assim, todo escondido, de joelhos, com a sua physionomia curiosa e
maliciosa á espreita por entre os ramos, parecia um macaquinho agil, que
espera occasião propicia para apanhar um fructo que lhe fica distante.
«Por baixo de nós um pobre velho, pallido, magro, macilento, mostrando
no rosto a timidez envergonhada d'aquelles que um soffrer verdadeiro
obriga a pedir esmola, estendia o chapéo a quem passava. Lagrimas
silenciosas lhe deslisavam nas faces encovadas: o sêllo da desventura
estava gravado na sua fronte livida. Os cabellos brancos, que o vento
agitava, cingiam aquelle infortunio de uma aureola de magestade. Era
augusta aquella miseria!
«Comtudo, nenhum dos que passavam deixava cair uma pobre moeda de cobre
n'aquelle chapéo supplicante, que se lhes estendia. Uns seguiam
desdenhosos o seu caminho, sem responderem sequer com um gesto á muda
rogativa do mendigo! Outros, um pouco mais humanos, faziam
distrahidamente um gesto negativo, levando ao mesmo tempo a mão ao
chapéo. Outros, mais caritativos ainda, murmuravam «Tenha paciencia» ou
«Não levo troco», e todos diziam, lá de si para si, a phrase conhecida:
«Este maroto provavelmente tem mais dinheiro do que eu. Desavergonhado!
Abusarem assim da caridade publica! Os que mendigam não são os que
precisam; nas aguas-furtadas é que se aninha a verdadeira pobreza.»
«Ah! miseraveis! que fingís pensar que é um officio divertido o expôr-se
um velho, alquebrado de forças, ao sol, ao vento, á chuva, ás
humilhações, ao desprezo, para fazer uma pobre colheita de dez ou doze
moedas de cinco réis, e ás vezes de nenhuma! E a chuva a inundar os
membros mal resguardados do pobre pae de familias! E o sol a abrazal-o!
E a imagem dos seus filhinhos, lividos e esfomeados, a despertar-se-lhe
na imaginação, e a redobrar-lhe as amarguras!
«Porque vós não sabeis, ou antes fingís não saber, vós que julgaes que
esse homem vem pedir esmola para se ir embebedar na taverna proxima, não
sabeis que ha n'algum canto obscuro e doentio da cidade uma familia de
espectros, que espera anciosamente a volta d'aquelle a quem despedis com
as mãos vasias! Não sabeis, vós que accusaes de falta de resignação, de
falta de animo, o pedinte que vos exora com as lagrimas nos olhos, não
sabeis que lhe foi necessario mil vezes mais valor para se embrulhar na
pobre capinha, sair furtivamente do misero alojamento, e ir collocar-se,
espectro da miseria, ás portas da opulencia, do que lhe seria preciso
para se despenhar da janella da sua agua-furtada e despedaçar a cabeça
nas lages da rua!
«Continuemos.
«Todos passavam, como já disse, e ninguem dava sequer ao pobre velho a
esmola de um olhar de compaixão. O meu gaiato mirava-o de vez em quando.
«Passou finalmente o sr. Domingos Gil. O pobre velho estendeu-lhe o
chapéo, murmurando mansinho:
--«Uma esmola por amor de Deus. Meus filhos morrem de fome.
«O sr. Domingos Gil vinha, como facilmente imaginará, de muito mau
humor. Trazia a _gebada_, para assim dizer, atravessada na garganta. As
sobrancelhas franzidas, o olhar fusilante, a cara fula de raiva,
denunciavam o rancor que o consumia. O chapéo, ainda um pouco amolgado,
tambem mostrava resentir uma nobre indignação.
«A voz do mendigo como que abriu no sr. Gil uma valvula de segurança,
por onde póde sair uma porção de colera, que, mais tempo contida, o
faria rebentar. Evitou-se d'esta fórma uma grave perda para a
humanidade.
«O sr. Gil desabafou, bradando, ao passo que desviava bruscamente o
chapéo do pobre velho:
--«Sucia de mandriões! Estão estes marotos á esquina de todas as ruas,
para nos roubarem o dinheiro que nos custa a ganhar com o suor do nosso
rosto! Vossê não tem vergonha de pedir esmola? Vá trabalhar, ou metta-se
no hospital se está doente, ou vá para o asylo! Está o governo a pagar
um bom par de contos de réis alli em Santo Antonio dos Capuchos, e
pessoas ricas a deixarem quantias avultadas, que bem tolo é quem cae em
tal, não ha de ser nunca o meu dinheiro que elles hão de apanhar; mas
está alli aquelle estabelecimento prompto a receber todo o fiel patife
que não tem eira nem beira, para que? Para andarem estes velhacos a
incommodar-nos. Fosse eu da camara municipal! Rêde para os cães, rêde
para os mendigos. Vá para o demonio! Não lhe dou nem cinco réis!
Canalha!
«E o digno homem continuou magestosamente o seu caminho.
«Uma lagrima caíu das palpebras abrazadas do velho! Fez um gesto de
resignação, e deixou pender a cabeça sobre o peito.
«E a noite estendia já sobre a terra o seu manto negro. A noite com o
seu duplo cortejo de alegrias, de festas, de prazeres, de suspiros
enamorados, e de tristezas, de crimes, de horrores, de soluços da
miseria! A noite, fada mysteriosa, e negra feiticeira! A noite que se
deixa illuminar pelo lustre dos salões, e pela candeia das
aguas-furtadas, mas felizmente tambem e em toda a parte pelo fulgor das
estrellas, que é o olhar de Deus.
«E o velho scismava tristemente. Não tivera resultado o sacrificio! Nem
um pedaço de pão podia levar aos filhos esfaimados! Tristeza! A brisa
soprava asperamente, e elle não a sentia! As lanternas das carruagens
que passavam pareciam olhar para elle ironicamente, mas as estrellas,
essas miravam-no tristemente.
«E o velho scismava! A pobre agua-furtada, onde vivia,
representava-se-lhe na imaginação! Via a filha doente, ella que á força
de trabalho sustentava os irmãos, os pobres innocentes, que pediam de
comer! E elle, o triste velho, ia-lhes apparecer sombrio, para lhes
dizer: «Morrei, não tenho que vos dar!»
«Então pareceu-me vêr na fronte do garoto surgir uma estranha aurora!
Immovel na arvore, contemplava o pobre velho, e a sua physionomia
maliciosa tornava-se pensativa! Eu tinha-o ouvido durante o caminho
fazer mil projectos para o emprego dos cinco tostões, comprar bolos, ir
ao theatro, alugar um burro, mil extravancias que elle acariciava com o
amor de creança! N'aquelle momento não trocaria os cinco tostões por um
imperio!
«Depois de contemplar por um instante o velho, estendeu a mão para mim,
tirou-me do ramo, e deixou-me cair no chapéo do mendigo.
«E depois de ter gozado por um instante da estupefacção do pobre homem,
deixou-se escorregar da arvore, e escapou-se sorrateiramente.
«O garoto desapparecera; mas quem olhasse bem podia vêr alvejarem
vagamente, na escuridão nocturna, as azas luminosas do anjo da caridade.