IX

«O meu possuidor reconhecera, desde o primeiro momento, que eu não

estava vasia, mas ainda se não dera ao trabalho de verificar a quanto

montava a sua nova riqueza. Finalmente, depois de estar saciado de

laranjas, cançado de trepar ás arvores, entendeu que era já tempo de

attender aos negocios do thesouro. Sentou-se por conseguinte n'uma pedra

da estrada, abriu-me com toda a gravidade, e tirou de dentro

triumphalmente a moeda de cinco tostões.

--«Olá! um _caiado_!--bradou elle com alegria, e para demonstrar melhor

o seu regosijo entoou a aria da _Saloia_, e atirou comigo ao ar a uma

distancia immensa, com grande desespero meu, porque vim assustadissima,

aos trambolhões pelo espaço, cair na mão aberta do garoto.

«Este não ficou em contemplação diante do seu thesouro; metteu o outra

vez no sitio em que estava, levantou-se, e continuou o seu caminho,

cantando com uma voz de Stentor, atirando comigo ao ar, e tomando, para

me receber, attitudes de tambor-mór.

«A estrada, que se ia approximando da cidade, ia sendo tambem mais

frequentada. Os caminhantes multiplicavam-se, e as casas começavam a

apparecer. Nem por isso o gaiato deixou de cantar a _Saloia_ a plenos

pulmões, com grande escandalo das velhas sentadas nos degraus das

portas, que acompanhavam cada estrophe da aria popular com um

desafinadissimo côro de imprecações.

--«Valdevinos!--Bregeiro!--Gaiato sem emenda!--D'onde vens tu,

maroto?--Ah! boa sova!--Fosse eu tua mãe que te havia de moer o corpo

com pancadas!--Só se perdiam as que caissem no chão!--D'onde vens tu,

desavergonhado, vens de roubar laranjas?--Tu vaes direitinho para o

inferno!--_Berzabum_ te valha, démo pequeno!--O descarado vem a cantar

para quebrar a cabeça ás almas christãs!--Quem te puzesse uma farda ás

costas!

«E outras amabilidades de egual jaez, a que elle só respondia, grave e

serenamente, com esta invariavel apostrophe:

--«Eh! bruxas!

«Quiz o acaso que passasse ao nosso lado um sujeito gordo, com umas

barbas de phariseu, uns olhos esgazeados e orlados de vermelho, uma

d'estas physionomias baixamente orgulhosas, onde se lê ao mesmo tempo o

servilismo para com os poderosos, o desabrimento para com os humildes.

Desbarretava-se até ao chão quando passava alguma carruagem, onde ia

pessoa conhecida d'elle, e correspondia ligeiramente á saudação dos

pobres trabalhadores, que levantavam o chapéo, com aquelle ar gravemente

cortez dos homens do campo, para lhe dizerem:

--«Guarde-o Deus, senhor Domingos Gil.

«Para o meu gaiato, vel-o, e conceber a idéa de lhe fazer alguma, foi

acto simultaneo. Com um sorriso malicioso nos labios enrolou-me na mão

muito bem enrolada, de sorte que só ficasse de fóra o sitio onde estavam

os cinco tostões, e approximando-se, pé ante pé, do empavezado

passeiante, ergueu a mão, vibrou-me com toda a força, e fez-me desabar,

indo a meia corôa de esquina, na copa do chapéo do gorducho.

«A _gebada_ foi magistral; o chapéo enterrou-se até aos olhos; e em

quanto o dono d'elle, espumante de raiva, procurava desembaraçar a cara

d'aquelle inesperado invólucro, o rapaz pôz-se fóra do seu alcance, e,

já lá muito ao longe, ouviu as exclamações furiosas da sua victima, que

ameaçava prendel-o, matal-o, enforcal-o, esquartejal-o.

«O homem ficára desesperado. Pois não tinha rasão; o seu chapéo, como

sempre, tinha-se curvado ao dinheiro.

X

«Livre de perigo, o meu dono, reflectindo no caso, houve por bem rir-se

ás gargalhadas do que praticára. Com effeito merecia a pena. Eu, apesar

de ter padecido, não desgostei da correcção.

«Depois de se rir á vontade, entendeu o auctor da _gebada_ que não

poderia ser completa a sua satisfação se não visse a cara do paciente

depois do castigo. Reflectiu como poderia conseguir vêl-o sem ser visto,

e como afim de reflectir melhor, quando olhava para o céo a procurar

inspiração, deu com a vista n'uma arvore que se erguia mesmo ao seu

lado. Vêl-a, e trepar a ella, foi uma e a mesma coisa. O mirante era

optimo, bem arejado, completamente resguardado da curiosidade dos

profanos, proporcionando ao seu habitador provisorio um delicioso

panorama para se entreter emquanto não passasse aquelle a quem esperava.

Attendendo, pois, ao merecimento e mais partes que concorriam na pessoa

da dita arvore, estabelecemo nos n'ella sem cerimonia, eu n'uma caminha

de folhas, elle encostado a uma especie de janella verdejante, d'onde

via optimamente tudo quanto se passava na rua.

«Assim, todo escondido, de joelhos, com a sua physionomia curiosa e

maliciosa á espreita por entre os ramos, parecia um macaquinho agil, que

espera occasião propicia para apanhar um fructo que lhe fica distante.

«Por baixo de nós um pobre velho, pallido, magro, macilento, mostrando

no rosto a timidez envergonhada d'aquelles que um soffrer verdadeiro

obriga a pedir esmola, estendia o chapéo a quem passava. Lagrimas

silenciosas lhe deslisavam nas faces encovadas: o sêllo da desventura

estava gravado na sua fronte livida. Os cabellos brancos, que o vento

agitava, cingiam aquelle infortunio de uma aureola de magestade. Era

augusta aquella miseria!

«Comtudo, nenhum dos que passavam deixava cair uma pobre moeda de cobre

n'aquelle chapéo supplicante, que se lhes estendia. Uns seguiam

desdenhosos o seu caminho, sem responderem sequer com um gesto á muda

rogativa do mendigo! Outros, um pouco mais humanos, faziam

distrahidamente um gesto negativo, levando ao mesmo tempo a mão ao

chapéo. Outros, mais caritativos ainda, murmuravam «Tenha paciencia» ou

«Não levo troco», e todos diziam, lá de si para si, a phrase conhecida:

«Este maroto provavelmente tem mais dinheiro do que eu. Desavergonhado!

Abusarem assim da caridade publica! Os que mendigam não são os que

precisam; nas aguas-furtadas é que se aninha a verdadeira pobreza.»

«Ah! miseraveis! que fingís pensar que é um officio divertido o expôr-se

um velho, alquebrado de forças, ao sol, ao vento, á chuva, ás

humilhações, ao desprezo, para fazer uma pobre colheita de dez ou doze

moedas de cinco réis, e ás vezes de nenhuma! E a chuva a inundar os

membros mal resguardados do pobre pae de familias! E o sol a abrazal-o!

E a imagem dos seus filhinhos, lividos e esfomeados, a despertar-se-lhe

na imaginação, e a redobrar-lhe as amarguras!

«Porque vós não sabeis, ou antes fingís não saber, vós que julgaes que

esse homem vem pedir esmola para se ir embebedar na taverna proxima, não

sabeis que ha n'algum canto obscuro e doentio da cidade uma familia de

espectros, que espera anciosamente a volta d'aquelle a quem despedis com

as mãos vasias! Não sabeis, vós que accusaes de falta de resignação, de

falta de animo, o pedinte que vos exora com as lagrimas nos olhos, não

sabeis que lhe foi necessario mil vezes mais valor para se embrulhar na

pobre capinha, sair furtivamente do misero alojamento, e ir collocar-se,

espectro da miseria, ás portas da opulencia, do que lhe seria preciso

para se despenhar da janella da sua agua-furtada e despedaçar a cabeça

nas lages da rua!

«Continuemos.

«Todos passavam, como já disse, e ninguem dava sequer ao pobre velho a

esmola de um olhar de compaixão. O meu gaiato mirava-o de vez em quando.

«Passou finalmente o sr. Domingos Gil. O pobre velho estendeu-lhe o

chapéo, murmurando mansinho:

--«Uma esmola por amor de Deus. Meus filhos morrem de fome.

«O sr. Domingos Gil vinha, como facilmente imaginará, de muito mau

humor. Trazia a _gebada_, para assim dizer, atravessada na garganta. As

sobrancelhas franzidas, o olhar fusilante, a cara fula de raiva,

denunciavam o rancor que o consumia. O chapéo, ainda um pouco amolgado,

tambem mostrava resentir uma nobre indignação.

«A voz do mendigo como que abriu no sr. Gil uma valvula de segurança,

por onde póde sair uma porção de colera, que, mais tempo contida, o

faria rebentar. Evitou-se d'esta fórma uma grave perda para a

humanidade.

«O sr. Gil desabafou, bradando, ao passo que desviava bruscamente o

chapéo do pobre velho:

--«Sucia de mandriões! Estão estes marotos á esquina de todas as ruas,

para nos roubarem o dinheiro que nos custa a ganhar com o suor do nosso

rosto! Vossê não tem vergonha de pedir esmola? Vá trabalhar, ou metta-se

no hospital se está doente, ou vá para o asylo! Está o governo a pagar

um bom par de contos de réis alli em Santo Antonio dos Capuchos, e

pessoas ricas a deixarem quantias avultadas, que bem tolo é quem cae em

tal, não ha de ser nunca o meu dinheiro que elles hão de apanhar; mas

está alli aquelle estabelecimento prompto a receber todo o fiel patife

que não tem eira nem beira, para que? Para andarem estes velhacos a

incommodar-nos. Fosse eu da camara municipal! Rêde para os cães, rêde

para os mendigos. Vá para o demonio! Não lhe dou nem cinco réis!

Canalha!

«E o digno homem continuou magestosamente o seu caminho.

«Uma lagrima caíu das palpebras abrazadas do velho! Fez um gesto de

resignação, e deixou pender a cabeça sobre o peito.

«E a noite estendia já sobre a terra o seu manto negro. A noite com o

seu duplo cortejo de alegrias, de festas, de prazeres, de suspiros

enamorados, e de tristezas, de crimes, de horrores, de soluços da

miseria! A noite, fada mysteriosa, e negra feiticeira! A noite que se

deixa illuminar pelo lustre dos salões, e pela candeia das

aguas-furtadas, mas felizmente tambem e em toda a parte pelo fulgor das

estrellas, que é o olhar de Deus.

«E o velho scismava tristemente. Não tivera resultado o sacrificio! Nem

um pedaço de pão podia levar aos filhos esfaimados! Tristeza! A brisa

soprava asperamente, e elle não a sentia! As lanternas das carruagens

que passavam pareciam olhar para elle ironicamente, mas as estrellas,

essas miravam-no tristemente.

«E o velho scismava! A pobre agua-furtada, onde vivia,

representava-se-lhe na imaginação! Via a filha doente, ella que á força

de trabalho sustentava os irmãos, os pobres innocentes, que pediam de

comer! E elle, o triste velho, ia-lhes apparecer sombrio, para lhes

dizer: «Morrei, não tenho que vos dar!»

«Então pareceu-me vêr na fronte do garoto surgir uma estranha aurora!

Immovel na arvore, contemplava o pobre velho, e a sua physionomia

maliciosa tornava-se pensativa! Eu tinha-o ouvido durante o caminho

fazer mil projectos para o emprego dos cinco tostões, comprar bolos, ir

ao theatro, alugar um burro, mil extravancias que elle acariciava com o

amor de creança! N'aquelle momento não trocaria os cinco tostões por um

imperio!

«Depois de contemplar por um instante o velho, estendeu a mão para mim,

tirou-me do ramo, e deixou-me cair no chapéo do mendigo.

«E depois de ter gozado por um instante da estupefacção do pobre homem,

deixou-se escorregar da arvore, e escapou-se sorrateiramente.

«O garoto desapparecera; mas quem olhasse bem podia vêr alvejarem

vagamente, na escuridão nocturna, as azas luminosas do anjo da caridade.

A Lenda da Meia-Noite · 第 30 / 56 题