VIII

«Nunca vim a saber o que se passára na casa, d'onde fôra tão bruscamente

e tão involuntariamente expulsa! Apenas eu caíra no chão, um gaiato de

pé descalço, que passava por acaso, abaixou-se, apanhou-me, e largou a

correr, apertando-me nas mãos, com uma tal velocidade, que, por mais

ligeiro que fosse Eduardo em me vir apanhar, logo percebi que não havia

esperança alguma de que o conseguisse.

«A corrida era desenfreada. Apertada na mão callosa do garoto, eu,

habituada ao fino contacto das mãos aristocraticas, que até ahi me

tinham manuseado, sentia dôres atrozes, e uma profunda humilhação. Eu, a

favorita dos opulentos, tratada assim tão irreverenciosamente por um

rapaz pertencente á escoria da sociedade! Ao meu passado de gavetas de

secretárias, de sophás, de divans, de tapetes, ia succeder um futuro de

palheiro, de calças esfarrapadas, de degraus humidos de escadarias. As

feridas abertas na minha pelle, tão cuidadosamente curadas e

cicatrisadas pela minha senhora, iam agora ser abandonadas, e talvez

alargadas pelos dedos travêssos do rapaz da rua. Tudo isto ia eu

pensando, em quanto o meu roubador corria a bom correr, primeiramente

pelas ruas da cidade, e depois já pelo campo.

«Ninguem se tinha importado com elle. Um rapaz descalço á desfilada, não

é um caso tão grave, e tão raro, que os encarregados da policia

descessem da sua dignidade, para inquirirem o que motivára a carreira

despedida em que elle ia.

«Chegou ao pé de uma fonte, e, pensando provavelmente que já estava fóra

do alcance dos seus perseguidores, entendeu que podia descançar. Por

conseguinte estirou-se em cima da relva, e tirando da algibeira um lenço

muito esfarrapado, começou a limpar o suor que lhe escorria pelas faces.

«Estavamos já nos primeiros dias da primavera, e os campos revestiam-se

de um manto verdejante, que os malmequeres e as boninas esmaltavam. A

agua da fonte corria com um doce murmurio, e myriades de insectos com as

azinhas doiradas pelo sol, esvoaçavam zumbindo pelo prado. O sôpro,

mysteriosamente vivificador da primavera, percorria a creação.

«O meu novo possuidor deitara-se, como já disse, em cima da relva, e

collocára-me ao seu lado. Para mim tudo quanto me rodeava era

completamente novo. Eu nunca tinha saído da cidade, e o aspecto dos

campos enchia-me de prazer. Parecia-me que respirava um outro ambiente,

que via um céo mais largo, mais azul! Um enchame de novas sensações se

agitava dentro de mim.

«Assim estava eu boqui-aberta, olhando para tudo com uma alegre

curiosidade. As feveras da herva que se agitavam em torno, mettiam as

suas cabecinhas tambem curiosas pelos intersticios da seda, afim de

observarem que monstro desconhecido eu era. As boninas _coquettes_ como

todas as flôres, mostravam-me com desvanecimento a sua formosura, para

verem se d'ellas me enamorava. Era a tentação que todas as formosas

sentem, de fascinar os estrangeiros. Os dois proverbios: «Ninguem é

propheta na sua terra» «Santos de casa não fazem milagres», são, n'este

caso, da mais escrupulosa exactidão. As abelhas, que vem de fóra,

extrahem mais depressa a essencia das flôres, do que as que pertencem á

colmeia do jardim.

«Eu sentia correr um indizivel murmurio pelo prado. O vento, acamando a

relva e as florinhas, perguntava-lhes, no seu dialecto incomprehensivel,

que vós não entendeis, mas que para todas nós é clarissimo, quem era a

recem-chegada. E os bichinhos pequeninos que arfavam debaixo de mim,

respondiam que era o Hymalaia, e os insectos zumbidores respondiam que

era uma grande flôr verde com estames de oiro.

«O que é certo é que eu consubstanciava-me de todo com a relva que me

cercava. Egualmente verde, não transtornava em nada a unidade do tapete,

e as minhas borlas de oiro matizavam-n'o agradavelmente.

«Assim estava n'aquelle _dolce farniente_, e confesso que, apesar de me

lembrar de vez em quando dos donos que me eram tão affeiçoados, e de

quem me tinha separado, as saudades que sentia eram attenuadas pelo

prazer completamente novo que me embriagava.

«Mas aquelle ocio não podia durar sempre. O Tytiro, que me apanhára, não

estava muito disposto a repousar _sub tegmine fagi_, mais do que

convinha á sua indole vagabunda, e depois de ter saboreado, por espaço

de dez minutos, quando muito, as delicias da posição horisontal

succedendo á rapidez da corrida, levantou-se, dirigiu-se á fonte, encheu

de agua a palma da mão, disposta para esse fim, levou-a á bocca, bebeu,

repetiu duas ou tres vezes esta operação, e depois, dirigindo-se a mim,

levantou me do chão, e foi-me levando socegadamente pelos campos fóra.

«É tempo agora de descrever o meu novo dono. Era um rapazito dos seus

quatorze annos, de rosto alegre e queimado, com uns olhos negros muito

vivos e rasgados, uma bocca grande, que parecia estar sempre preparada

para as gargalhadas. Todo o seu fato consistia n'umas calças rotas,

n'uma camisa muito suja, e n'uma jaqueta tão arremendada, que era um

verdadeiro mosaico, porque creio que tinha todas as côres do espectro

solar, e todas as combinações que com ellas se podem fazer. Um bonet,

que estava rodeado por uma densa armadura de sebo, occupava o alto da

cabeça; porque julgo não haver exemplo de ter sido collocado na posição

habitual, e a testa do garoto, se lhe dissessem que este possuia um

bonet, estou que ficaria summamente espantada.

«E lá ia elle por ahi fóra, baloiçando o corpo a compasso de uma

cantiga, devida ao seu genio musical, distrahindo-se no caminho a

apanhar borboletas, a atirar pedras aos cães, fugindo depois a bom fugir

quando estes o perseguiam ladrando, trepando acima das arvores da

estrada a espreitar se já haveria ninhos entre os seus ramos, cobertos

de novas folhas, e saltando os muros dos pomares, para se ir empoleirar

nas larangeiras, trincando as laranjas verdes ou maduras, que se lhe

deparavam.

«Devo confessar que a minha situação durante estas excursões, motivadas

pelos entretenimentos do meu dono, não eram das mais invejaveis, e que

bastantes vezes amarguei o gosto que sentira, respirando o ar dos

campos. Com effeito o gaiato attendia mais aos seus prazeres do que ás

minhas commodidades, e nem posso descrever os sustos que curtí, quando

os cães corriam atraz de nós, e que eu via os seus dentes agudos, que

seriam capazes de me despedaçar n'um segundo; a triste impressão que eu

sentia, vendo as borboletas tão gentis, tão galantinhas, nas garras do

seu caçador cruel; as dôres que me faziam os esgalhos das arvores,

rasgando me sem piedade, em quanto elle subia descuidoso, indifferente,

affastando a ramaría, para vêr se, n'alguma verdejante alcôva, não teria

ido a carinhosa mãe dos passarinhos depôr o berço gentil, que as auras

embalariam.

«Sobre tudo o que me atormentava era o costume que elle tinha de saltar

os muros dos pomares para se ir sentar nas larangeiras, a fartar-se

d'esses pomos que a antiguidade chamou aureos por serem vermelhos, e que

o seu Camões asseverou terem

_A côr que tinha Daphne nos cabellos_;

o que é pouco lisongeiro para a belleza d'essa nympha, que vinha a ser

hyper-ruiva, se acreditarmos as asserções do cantor dos _Lusiadas_.

N'este ponto tornei eu a interromper a bolsa tão prodiga em reflexões.

--O espanto, em que me colloca a sua erudição, impede-me de reprehender

energicamente o tom com que falla n'essa gloria nacional. Mas diga-me,

quem a fez tão instruida?

--Não antecipemos os acontecimentos, como diria o visconde d'Arlincourt,

respondeu-me a bolsa.

--O quê? Pois tambem leu ou ouviu os romances do visconde d'Arlincourt?

--Então! meu amigo, tornou-me a narradora, suspirando, nem tudo são

rosas na instrucção.

--Bem, continue.

«Como já disse, esse costume do meu dono incommodava-me sobremaneira;

porque a escalada tinha para mim todos os seus inconvenientes, e muitos

mais, sem ter nenhuma das suas vantagens. Em primeiro logar a subida

pelo muro era summamente incommoda; porque o bom do meu amigo, tendo

todas as algibeiras rotas, e, por conseguinte, não me podendo confiar a

nenhum d'esses toneis das Danaides, de que as suas calças e a sua

jaqueta estavam tão amplamente providas, levava-me na mão, apertava-me

sem cerimonia de encontro ao muro, e esmagava-me, torturando ao mesmo

tempo uma pobre meia corôa que eu tinha dentro de mim, e que eu sentia,

de afflicta, resmungar no meu seio.

«Depois, quando, á força de trabalhos e de arranhões, chegavamos ao cimo

do muro, novos desastres nos esperavam. Garrafas partidas formavam uma

especie de negra palissada, dispostas d'aquella maneira para enterrar os

seus dentes agudissimos nos aventureiros que intentassem a conquista.

Mas o meu dono, que era, segundo parece, já pratico n'aquelles assedios,

tinha tomado as suas precauções, e foi então que eu vi que não era só a

questão das algibeiras que o inhibia de me resguardar, mas sim tambem

uma questão de defeza propria. Eu, malfadada, servia-lhe de escudo! Eu

era, para assim dizer, o _césto_, á sombra do qual o garoto jogava o

murro com as paredes. N'uma das mãos ia eu, na outra o lenço de assoar

muito embrulhado. A mão que eu protegia, era ainda assim a que estava

resguardada melhor; porque o tal lenço, para fallarmos verdade, parecia

a moldura de um quadro ausente; um immenso rasgão formado por uma

multidão de rasgõesinhos que se tinham annexado, occupava o

centro-rodeado em toda a extensão por uma pobre tira. Creio que a

historia d'essa transformação se póde explicar geographicamente. Imagine

que o lenço ao principio se assimilhava com aquelle territorio da

America do Norte, onde existe o lago Ontario, cercado de muitos outros.

Supponha que um grande cataclysmo rasgava os terrenos que separam esses

lagos, e que as aguas trasbordando, e unindo-se, formavam um verdadeiro

mar no genero do mar Caspio. Ahi tem o que succedeu com os rasgões do

lenço do garoto.

--V. ex.^a permitte-me, interrompi eu, que a proponha para socia do

Instituto Geographico de Paris?

--Muito obrigada! Não estou agora decente para entrar n'uma academia.

--Pelo contrario, minha senhora, tornei eu, as bolsas vasias devem ser

da mesma fôrma que as cabeças, as que mais depressa sejam admittidas

n'essas sociedades sábias. Póde continuar.

«Não findavam aqui os meus soffrimentos. Experimentava alguns rasgões,

mas consolava-me com o pensamento de que o meu sacrificio era util ás

mãos do meu dono, por quem eu professava uma secreta e inexplicavel

sympathia. É verdade que o demonico do rapaz parecia não se affligir

muito com as arranhadellas que recebia. A mão esquerda, confiada á

protecção nominal do lenço de assoar, chegava toda em sangue, e isso, em

vez de lhe diminuir a alegria, parecia augmentar-lh'a e dar melhor sabor

ás laranjas com que se fartava.

«Ahi se empoleirava elle, por conseguinte, sentando-se no ponto de união

de dois ramos, toucado de folhas, baloiçando os pés no ar, e enviando as

mãos em toda a direcção, a fazerem uma atrevida _razzia_ aos taes pomos

de oiro do antigo jardim das Hesperides. E quer as laranjas estivessem

ainda verdes, e por conseguinte amarellas (n'esse caso tem rasão Camões

e a antiguidade), quer estivessem já em pleno sazonar, e por conseguinte

trajassem a purpura que merecem, como rainhas que são de todas as

fructas, o meu bom gaiato apanhava-as sempre com uma imparcialidade

digna de especial menção, e, ministro justiceiro dos negocios do seu

estomago, escolhia para funccionarios todos os fructos, sem distincção

de côres.

«Era um bello espectaculo o d'esse rapazito rôto, esfarrapado, mais

feliz no seu throno de cortiça do que os reis no seu throno de oiro,

comendo as laranjas do proximo com mais satisfação, de certo, do que a

que sente o czar da Russia ao devorar o producto dos roubos de que é

victima a infeliz Polonia.

«Mas por fim de contas vinha a ser eu quem soffria as más consequencias

dos prazeres do meu senhor. Para poder comer á sua vontade, o meu amigo

largava-me e pendurava-me no primeiro ramo que lhe ficava á mão. O vento

baloiçava o ramo; ás vezes um gatinho, que andava passeiando por cima

dos muros, vendo-me ondular na extremidade, saltava e principiava a

brincar comigo. A isto reunia-se o susto de me vêr n'uma altura para mim

desmesurada. Era necessario que os latidos de um cão de guarda viessem

inquietar o meu dono, para que elle se lembrasse de me tirar da minha

incommoda posição, afim de operar a sua retirada.

Já vê, por conseguinte, que a minha existencia aventurosa, se tinha as

suas vantagens, tinha tambem os seus inconvenientes.

A Lenda da Meia-Noite · 第 29 / 56 题