VII

«Uma vez (sempre me hei de lembrar d'este dia nefasto) Eduardo, estando

a fazer umas contas, tirou me da algibeira e pôz-me em cima da

secretária. Depois, a pouco e pouco, foi amontoando os papeis em cima de

mim, de fórma que eu já parecia um pobre Encéladosinho de seda, debaixo

de um Etna de papelada.

«Quando acabou o que tinha que fazer, Eduardo levantou-se, e, como

estivesse tocando a sineta para o jantar, foi para a meza e não se

lembrou mais da pobre bolsa.

«Por infelicidade, na vespera, tinham os donos da casa recebido a visita

de uma joven viuva, muito galante, muito _coquette_, e que parecia

desejar jungir ao seu carro de triumpho o marido de Camilla, sobre quem

não se cansava de experimentar o effeito dos seus olhares cheios de fogo

e de estrategia. Eduardo, como podem imaginar, nem reparára em

semelhante coisa; porém sua esposa, com a perspicacia de mulher,

adivinhára tudo, e sentira o ciume, não digo bem, o despeito apoderar-se

d'ella. Não sei a que proposito, Eduardo me fôra buscar, e a joven viuva

mostrou desejo de me vêr. Eduardo entregou-me cortezmente nas mãos da

baroneza (a viuva era baroneza) e os dedos involuntariamente encontraram

os dedos da gentil _coquette_. Um raio de indignação fusilou nos olhos

de Camilla, a baroneza sorriu-se, Eduardo ficou impassivel, e eu previ

uma proxima tempestade.

«Por isso, e apesar da mão da baroneza ser tão delicada e macia como a

da minha creadora, apesar dos elogios que ella me prodigalisou, eu não

fiquei satisfeita senão quando me vi livre da sua analyse.

«Mas d'esta vez foi a mão de Camilla quem me recebeu. Rapidos como o

relampago, os dedos elegantes, que me tinham lançado ao mundo,

adivinharam, antes d'ella a executar, a tenção que a baroneza formára de

me entregar ao meu dono, e apressaram-se em preceder a mão solicita de

Eduardo.

«Devo confessar que, desde essa visita fatal, o bom humor de Camilla

alterára-se sensivelmente, alteração cujas consequencias Eduardo soffria

com grande pasmo seu. Não podia comprehender o azedume que sentia em

todas as palavras de Camilla, e, muitas vezes, espreitando pelo buraco

da fechadura da minha gaveta, o vi de pernas cruzadas, e em attitude

meditativa, perguntando a si mesmo quaes seriam os díabos azues que

atormentavam sua esposa, e a elle por conseguinte.

«Depois de jantar, os dois esposos vieram tomar café para o sitio onde

eu estava; a conversa que se travára entre elles affrouxava a cada

instante, porque os esforços que Eduardo fazia para a sustentar eram

completamente infructiferos, por causa da sequidão das respostas de

Camilla.

«Acabaram de tomar o café, e Camilla foi encostar-se á janella.

--«Está uma tarde tão bonita!--disse Eduardo, não queres aproveitar este

lindo dia de inverno para ires vêr os campos, que estão experimentando

já os mantos verdejantes com que hão de comparecer na festa annual da

primavera?

--Está estragando comigo a sua poesia, respondeu Camilla seccamente,

guarde-a para as pessoas que quizer deslumbrar. Isso era bom quando me

fazia a côrte.

--«E não sou eu sempre o mesmo, Camilla; deixaste tu um instante só de

ser a noiva gentil que eu adorei, que adoro, e que sempre hei de adorar?

Não sou eu sempre o namorado solicito dos primeiros tempos? Isso, a que

se deu, por convenção, o triste nome de prosa do casamento, teve nunca

entrada nos nossos corações?

--Ah! Ah! que differença! O que me dizia então: «Oh! nunca me hei de

separar de ti! Hei de estar sempre ao teu lado! Que valor tem o mundo

inteiro junto do teu olhar?» E agora sae quando lhe parece, anda por

fóra o tempo que quer, demora-se a conversar com os amigos; porque sua

mulher, essa não serve senão para estar n'um canto da casa, á espera que

o _senhor_ lhe faça a esmola da sua presença. Não é porque eu me importe

com isso! Eu, sim! É-me completamente indifferente! Nunca estou melhor

do que quando está longe de mim! Olhe, d'isso póde estar certo! Se

fallei, foi porque me enraiveceu a sua hypocrisia.

--«Quanto és injusta, Camilla! Pois eu não desdenho tudo, tudo n'este

mundo para estar junto de ti; não prefiro a todos os vãos divertimentos,

a todos os prazeres a nossa deliciosa intimidade? E, quando os meus

negocios me chamam fóra de casa, não me affasto de ti tão penalisado, e

não aproveito a primeira occasião de me desembaraçar d'elles para correr

alegre, satisfeito, risonho, a abraçar-te, a beijar-te, a testemunhar-te

o immenso e inalteravel affecto que te consagro?

--«Negocios! que grandes negocios que tem! Quaes são elles? Talvez ir

visitar a baroneza!

«Eduardo levantou-se, olhou fixamente para sua mulher, e disse:

--«A baroneza! A baroneza, porquê?

--«Foi a primeira pessoa que me lembrou, tornou Camilla, fazendo-se

ligeiramente córada.

--«Nada! Isso è um tanto inverosimil.

--«Inverosimil, porquê?--tornou Camilla, irritando-se e fazendo-se

vermelha de despeito. Talvez imagine que eu tenho ciumes do senhor. Que

vaidade tão louca! que presumpção! Que fatuidade! Ora esta! como logo

suppôz que eu era ciumenta!

--«Mas, filha...

--«Ciumenta e de quem? Ah! Ah! Ah! é de um ridiculo incrivel! Não querem

vêr o formoso Richelieu, que anda semeando paixões por toda a parte! E

julga talvez que eu me importo com semelhante coisa! Namore á sua

vontade! Faça o que quizer! Esteja certo que nunca me ha de dar cuidado!

convença-se... entendeu? Convença-se bem de que nunca tive ciumes do

senhor, porque eu nunca o amei. Foi uma predilecção passageira! Foi um

capricho de que me arrependo!

--«Parece-me comtudo, tornou Eduardo ferido no seu amor proprio, que a

união eterna de duas pessoas não é coisa tão ligeira que se possa

decidir levianamente, e, se não sentias por mim o amor immenso que eu te

consagrava, mais valia que me despedaçasses o coração, do que me

dirigisses agora essas palavras amargas.

--«Então chegou o momento! Sempre fica sabendo que se enganou; quando

suppôz que eu tinha ciumes da baroneza.

--«Mas foi coisa em que não fallei, filha, bradou Eduardo um pouco

impacientado.

--«Bem o deu a entender! Não o disse, mas pensou-o. E então escolheu bem

a pessoa que me poderia tornar zelosa! A baroneza, uma tola presumida,

uma _coquette_ insupportavel, que não tem nem belleza, nem espirito, nem

graça, nem elegancia, mas que possue em compensação uma vaidade immensa.

--«Pobre baroneza!

--«Defenda-a, ande! então porque a não defende? É o que lhe falta

unicamente! Ouse tomar, deante de sua esposa, o partido de uma mulher

como é a baroneza.

--«Ih! Jesus! Camilla! Eu não tomo a defeza de pessoa alguma. Mas tu

fallas da pobre senhora, como se lhe tivesses um odio mortal.

--«E tenho, bradou Camilla, erguendo-se com os dentes cerrados e os

olhos fusilantes, tenho odio a essas mulheres de maneiras affectadas, de

olhares languidos, de vistas fascinadoras, deslumbrantes na apparencia,

grosseiras na realidade, a quem os homens seguem tolamente, como as

borboletas seguem a luz, ainda que essa luz emane de uma candeia

afumada. Quando ella hontem quiz vêr a bolsa que eu fizera, tive

tentações de a rasgar, para lhe poupar uma profanação. E a proposito,

onde a tens tu?

«Eduardo, ao ouvir esta pergunta, que parecia dever servir de transição

para uma conversação mais serena, começou-me a procurar alegremente por

todas as algibeiras. O acaso fôra-me collocar muito mirrada na

extremidade da secretária. No remexer dos papeis eu tinha quasi caido ao

chão; felizmente ou infelizmente, um resalto da secretária tinha-me

retido, e eu alli ficára suspensa por uma das borlas, estando esta de

mais a mais completamente occulta por um fragmento microscopico de

papel. Da posição em que eu estava, podia vêr e ouvir tudo, sem que

ninguem me podésse divisar.

«Quando Eduardo começou a revolver as algibeiras não pude deixar de me

rir. Era tão comico o espanto d'elle, quando, depois de ter

esquadrinhado minuciosamente todos os cantos do seu fato, não encontrava

coisa alguma, que eu, ignorando ainda quaes seriam as consequencias

d'aquella scena, ria-me a fartar.

«Camilla contemplava-o com um sorriso ironico, e batendo o compasso com

o pé no sobrado da sala.

--«Talvez lhe esquecesse lá por fóra!--disse ella, accentuando muito as

palavras.

--«É impossivel; lembro-me perfeitamente de a ter n'esta algibeira. Já

depois de estar em casa eu a vi, e até lhe peguei.

--«Talvez a tivesse confiado a alguem!--tornou Camilla com o mesmo

sorriso estereotypado nos labios.

--«A quem?--perguntou Eduardo com a maior ingenuidade.

--«Eu sei! A alguem que a visse, que gostasse d'ella, e que a desejasse

conservar por algum tempo.

--«Ora essa! Não pódes suppôr que eu fizesse tal!

--«E porque não? Os homens julgam que tudo lhes é permittido.

«Mas Eduardo não a ouvia. Tinha-se recordado das contas que fizera, e

tinha corrido a revolver os papeis que estavam em cima da secretária.

Eu, que via a má figura que o negocio ia tomando, não desgostei de que

elle tomasse aquella resolução.

«Comtudo, debalde Eduardo deitou ao meio do chão toda a papelada com uma

impaciencia febril, debalde tentou, depois de os ter reunidos,

separal-os um a um. Eu não apparecia; preza na minha esquininha, sem

poder revelar por fórma alguma onde estava, assisti, espectadora muda

mas não indifferente, áquella caçada férvida, em que tanto interesse

tinham em se encontrar a caça como o caçador, mas que apesar d'isso

ficava sem resultado. Vi os papeis, impellidos pela mão de Eduardo,

revolutearem nos ares em torno de mim, senti a sua mão impaciente pousar

em cima das minhas borlas, sem saber que estava a meia pollegada de

distancia da extremidade dos seus dedos o objecto que tanto procurava. E

elle bafejava-me com o halito e não tinha um presentimento que o

advertisse, desviava com a mão tremula os papeis que me encobriam, e de

nenhum d'elles saia uma voz mysteriosa que lhe dissesse: «Para

conseguires esse thesouro, que tu pagarias agora com dez annos da tua

vida, basta-te abaixar a cabeça, e estender a mão.»

«Finalmente Eduardo, pallido, com a fronte inundada de suor, deixou-se

cair prostrado em cima de uma cadeira, e dirigindo-se a sua mulher,

disse com voz sumida:

--«Creio que a perdi.

«Camilla não se pôde conter. As lagrimas, tanto tempo retidas,

rebentaram finalmente, e inundaram-lhe as faces.

--«Era isso que eu esperava havia muito tempo, bradou ella com voz

entrecortada. Eis a resposta com que não só pagam a minha dedicação, mas

tambem com que pretendem illudir a minha boa fé. Anda! trabalha com

amor, com alegria, despende n'essa pobre bolsinha thesouros de affecto,

sorri só ao pensares que essa obra das tuas mãos vae ser a constante

companheira d'aquelle em que tu só pensas, por quem tu só vives, cuja

apparição te enche de prazer, cuja ausencia te faz ficar immensamente

triste. Ai! quanto te illudes, pobre louca, esse teu mimo ha de ser

desprezado, porque tu tens esse titulo malfadado de esposa, e o amor

conjugal é uma coisa altamente ridicula. Acceitam com desdem o teu

presente, e vão depressa offerecel-o á primeira namoradeira que prender,

nas suas rêdes vulgares, a ave fugida do ninho da familia, ninho cuja

prisão lhe é insupportavel. Devia ser esta a minha sorte. Ninguem se

exime a ella.

--«Ih! Jesus! Ih! Jesus!--dizia o pobre Eduardo com as mãos na cabeça;

mas, filha... eu sou um estouvado... a bolsa ha de estar por ahi... Da

nefanda traição de que me accusas é que sou completamente incapaz.

--«Traição!--tornava Camilla procurando, sem o conseguir, conter o

pranto; póde-me trahir á sua vontade que me é completamente

indifferente. Engana-se se julga que eu dê o menor apreço á sua

fidelidade.

--«Mas n'esse caso porquê?

--«Cale-se! Diga-me: zombaram bastante de mim? Riram-se das minhas

creancices? Quantas caricias lhe valeu esse sacrificio tão pouco

custoso?

--«Isto é demais! Juro-te...

--«Cale-se. Quanto mais jura mais mente. Tambem me jurou amor eterno,

e...

«E a pobre senhora desatou a soluçar, e caiu sentada n'uma cadeira.

Eduardo, com as lagrimas nos olhos, ajoelhou aos pés d'ella, e exclamou

com voz commovida:

--«Camilla, não chores que me despedaças o coração. Sou um grande

criminoso, mas não mereço castigo tão cruel. Bem sabes que o amor que te

consagro é immenso, é exclusivo, e que, desde que te conheço, nunca mais

ergui os olhos para outra mulher. Camilla...

«Mas esta levantou-se enxugando as lagrimas, e disse-lhe com modo

friamente desdenhoso:

--«Aproveite a inspiração para algum arrufo que tiver com a baroneza.

«E saiu da sala, deixando ficar o pobre Eduardo com um joelho no chão,

as mãos erguidas, a bocca aberta, espantado, aterrado, paralysado,

petrificado, estupefacto!

«Finalmente levantou-se, dirigiu-se de novo á secretária, e procurou

entre os papeis. Com o revolver caíram alguns, e eu caí d'envolta com

elles; o acaso fez-me ainda ficar tão mirrada entre duas folhas, que,

quando Eduardo veiu procurar ao chão, escapei com grande desespero meu

ás suas pesquizas. Um tal accesso de desespero se apoderou do meu dono,

que, pegando n'um grande mólho de papeis, no meio dos quaes ia eu, sem

elle o saber, amachucou-o, e depois enraivecido, atirou-o pela janella

fóra. O vento desfez o mólho, e n'este instante ouvi dois gritos, um de

Eduardo, outro de Camilla, que estava n'uma outra janella por traz dos

vidros.

«O vento forte que soprava, tinha-me separado dos papeis, meus

involuntarios carcereiros, eu caía magestosamente isolada, á vista dos

dois conjuges, sobre as pedras da rua.

A Lenda da Meia-Noite · 第 28 / 56 题