VI

«Não tive rasão de queixa. O meu dono trazia-me nas palminhas. Quando

saía occupava sempre um logar de honra na algibeira do casaco, e alli ia

eu, sentindo pulsar o coração de Eduardo, regalando-me, porque estavamos

no inverno, de caminhar bem abafadinha e conchegada, em quanto muitas

das minhas irmãs estariam talvez tiritando de frio nas algibeiras rotas

dos seus possuidores. Que justo orgulho se apoderava de mim, quando

Eduardo, sacando-me negligentemente para fazer alguma compra, me

collocava em cima do balcão; como todos olhavam cubiçosamente para as

minhas fórmas arredondadas, e que bello effeito que eu produzia com as

libras que fulgiam atravez dos intersticios da seda.

«Nunca me ha de esquecer a cara de piedade que fez a bolsa de um

empregado publico, a quem o acaso collocára junto de mim. Era uma

bolsinha de lã, tão magra, tão magra, tão escorrida que mettia dó. Uns

pobres meios tostões escondiam-se envergonhados no fundo, e alvejavam

tristemente, aborrecidos da sua solidão. A pobre bolsa olhou para mim

com uma certa inveja, e não me dirigiu palavra. O dono da loja

cumprimentou-me respeitosamente, e desviou com desdem a minha visinha.

Ella não ousou protestar, e pôz-se de parte, esperando que eu me

dignasse voltar ao meu alojamento ambulante! E eu ria-me e pavoneava-me

toda ufana! Mal sabia que ainda havia de passar pelas mesmas

humilhações!

«E o caso é que eu suppunha que todos esses cumprimentos eram devidos á

minha gentileza, á formosura da minha côr! E Eduardo julgava egualmente

que era a influencia, que a sua pessoa exercia, a causadora das

humilhações, do servilismo que o rodeavam! Eduardo attribuia a si o que

a mim era devido. Eu attribuia a mim o que era devido ás libras que eu

abrigava, e as libras tambem attribuiram a si o que se devia

simplesmente á somma de gózos que ellas proporcionam. Todo o homem se

adora a si mesmo nos objectos perante os quaes se curva. O «eu» é o

idolo constante da humanidade. O egoismo é o seu unico motor.»

E n'este ponto a bolsa philosophica soltou um profundo suspiro.

«Á noite, continuou ella, repousava dentro da gaveta de uma linda

secretária de pau rosa, e alli ficava até pela manhã tagarellando com

umas cartas de amores, minhas visinhas, que me contavam os mil

deliciosos segredinhos que lhes tinham sido confiados; e n'esta doce

pratica voavam para mim as lentas horas da noite.

«Comtudo, eu começava a presentir o meu futuro destino. Eduardo era o

que vulgarmente se chama uma cabeça de vento. Frequentes vezes, e com as

melhores intenções d'este mundo, se esquecia de mim, e me deixava ficar

á noite em cima da meza, em vez de me conduzir á minha deliciosa alcova

da secretária.

«Uma vez, tendo acabado de fazer umas compras, deixou-me em cima do

balcão. Não posso explicar a impressão dolorosa que senti quando o vi

desviar-se distrahidamente, e quando reparei, olhando em torno de mim,

nos ávidos olhares dos caixeiros. Segui-os tristemente com a vista, e já

me ia a despedir d'elle para sempre, quando Eduardo, chegando á porta,

mostrou recordar-se de alguma coisa, e, voltando se precipitadamente,

correu ao balcão. Deu logo com a vista em mim, que estava toda tremula

de alegria, e, beijando-me fervorosamente, escondeu-me no seio.

«Infelizmente nem sempre lhe succederia isso.

A Lenda da Meia-Noite · 第 27 / 56 题