«Não tive rasão de queixa. O meu dono trazia-me nas palminhas. Quando
saía occupava sempre um logar de honra na algibeira do casaco, e alli ia
eu, sentindo pulsar o coração de Eduardo, regalando-me, porque estavamos
no inverno, de caminhar bem abafadinha e conchegada, em quanto muitas
das minhas irmãs estariam talvez tiritando de frio nas algibeiras rotas
dos seus possuidores. Que justo orgulho se apoderava de mim, quando
Eduardo, sacando-me negligentemente para fazer alguma compra, me
collocava em cima do balcão; como todos olhavam cubiçosamente para as
minhas fórmas arredondadas, e que bello effeito que eu produzia com as
libras que fulgiam atravez dos intersticios da seda.
«Nunca me ha de esquecer a cara de piedade que fez a bolsa de um
empregado publico, a quem o acaso collocára junto de mim. Era uma
bolsinha de lã, tão magra, tão magra, tão escorrida que mettia dó. Uns
pobres meios tostões escondiam-se envergonhados no fundo, e alvejavam
tristemente, aborrecidos da sua solidão. A pobre bolsa olhou para mim
com uma certa inveja, e não me dirigiu palavra. O dono da loja
cumprimentou-me respeitosamente, e desviou com desdem a minha visinha.
Ella não ousou protestar, e pôz-se de parte, esperando que eu me
dignasse voltar ao meu alojamento ambulante! E eu ria-me e pavoneava-me
toda ufana! Mal sabia que ainda havia de passar pelas mesmas
humilhações!
«E o caso é que eu suppunha que todos esses cumprimentos eram devidos á
minha gentileza, á formosura da minha côr! E Eduardo julgava egualmente
que era a influencia, que a sua pessoa exercia, a causadora das
humilhações, do servilismo que o rodeavam! Eduardo attribuia a si o que
a mim era devido. Eu attribuia a mim o que era devido ás libras que eu
abrigava, e as libras tambem attribuiram a si o que se devia
simplesmente á somma de gózos que ellas proporcionam. Todo o homem se
adora a si mesmo nos objectos perante os quaes se curva. O «eu» é o
idolo constante da humanidade. O egoismo é o seu unico motor.»
E n'este ponto a bolsa philosophica soltou um profundo suspiro.
«Á noite, continuou ella, repousava dentro da gaveta de uma linda
secretária de pau rosa, e alli ficava até pela manhã tagarellando com
umas cartas de amores, minhas visinhas, que me contavam os mil
deliciosos segredinhos que lhes tinham sido confiados; e n'esta doce
pratica voavam para mim as lentas horas da noite.
«Comtudo, eu começava a presentir o meu futuro destino. Eduardo era o
que vulgarmente se chama uma cabeça de vento. Frequentes vezes, e com as
melhores intenções d'este mundo, se esquecia de mim, e me deixava ficar
á noite em cima da meza, em vez de me conduzir á minha deliciosa alcova
da secretária.
«Uma vez, tendo acabado de fazer umas compras, deixou-me em cima do
balcão. Não posso explicar a impressão dolorosa que senti quando o vi
desviar-se distrahidamente, e quando reparei, olhando em torno de mim,
nos ávidos olhares dos caixeiros. Segui-os tristemente com a vista, e já
me ia a despedir d'elle para sempre, quando Eduardo, chegando á porta,
mostrou recordar-se de alguma coisa, e, voltando se precipitadamente,
correu ao balcão. Deu logo com a vista em mim, que estava toda tremula
de alegria, e, beijando-me fervorosamente, escondeu-me no seio.
«Infelizmente nem sempre lhe succederia isso.