IV

Quando cheguei a este ponto interrompi eu a bolsa.

--Minha senhora, observei com a respeitosa cortezia que um escriptor

consagra ao narrador officioso que lhe conta uma historia, v. ex.^a tem

fallado até agora n'uma linguagem que me tem penetrado de admiração,

porque me parece biblica, e o emprego d'esse estylo é muito para

apreciar n'uma bolsa que não foi contemporanea de Isaias. Mas se v.

ex.^a antes de nascer falla n'esse tom, receio muito que, se continuar

na ascensão, quando chegar á velhice, já os leitores, ainda que se

mettam no balão de Nadar, não serão capazes de a seguir com a vista

n'essas espheras inaccessiveis. Pedia, portanto, a v. ex.^a o favor de

baixar o vôo á terra, algumas vezes, afim de que os nossos leitores

percebam alguma coisa do que se fôr passando, sacrificando por

conseguinte o diploma de socia da academia... do amphiguri, que, segundo

me parece, está em caminho d'obter. Desculpe-me esta ligeira observação.

A bolsa olhou para mim com modos um tanto severos, e respondeu:

--Admiro-me bastante de tu te queixares. Sabe que nem cheguei a dar-te

uma ligeira amostra do estylo pomposo que eu deveria empregar, e que te

poupei o prologo obrigado que precede lá entre vós outros, os homens, a

magra biographia d'aquelles, a quem nomeaes grandes, com a mesma

convicção com que os antigos romanos faziam a apotheose dos Tiberios e

dos Caligulas. Já vês que a rajada vae começar, e que se me excitas

mais, bailam-te no meu discurso gregos, assyrios, indios e hebreus. Mas

voltemos ao que importa. Em logar de te queixares, devias-me agradecer o

eu não ter dito uma palavra só ácerca do estado da Europa na epocha do

meu nascimento, nem de ter fallado nos grandes homens que se agitavam no

mundo, em quanto a minha gentil creadora unia uns aos outros os fios que

me haviam de formar. Podia fazer-te gastar com estes preambulos dez

paginas, pelo menos. Não o fiz, e tu accusas-me! Para te castigar não

devia dizer nem mais uma palavra.

--Oh! por amor de Deus, continue v. ex.^a como quizer; estou prompto a

admirar tudo quanto eu não entender, nem v. ex.^a tambem. Estou

esperando.

V

«Nasci, continuou a bolsa, e a minha vista não encontrou nada que a

ferisse, nada que lhe repugnasse no quarto onde eu viera á luz. No movel

mais insignificante se denunciava a riqueza e bom gosto dos donos da

casa. Eu repousava mollemente no collo da minha dona, e os meus membros

recem-nascidos sentiram logo o suave contacto da seda. Um alegre raio de

sol entrava pela janella, acariciava o meu corpinho verde, e fazia

resplandecer as minhas borlas doiradas. As agulhas repousavam ao meu

lado, contemplando curiosamente a obra prima que tinham acabado de

produzir. A gentil habitante do quarto beijava-me carinhosamente e,

beijando-me, murmurava estas palavras que eu conservei de cór:

--«Vae, pobre bolsinha, repousar sobre o coração d'aquelle a quem tanto

amo. Conserva a impressão dos meus beijos, e, quando elle te approximar

do rosto, oh! anima-te, por um milagre de amor, e sê tu a mensageira

d'estes osculos que eu te confio. Dize-lhe, conta-lhe que em segredo

trabalhava em te fazer _coquette_, elegante, para seres digna d'elle.

Olha, lê bem no fundo do meu coração, para poderes narrar ao meu esposo

os thesouros de affecto que em mim se abrigam. Vae, e Deus queira que

elle te ache a seu gosto, e te faça um bom acolhimento.

«N'este momento um rapaz, cujo labio superior era levemente assombreado

por um bigodinho nascente, entrou, e, dirigindo-se á minha dona,

beijou-a com ternura.

--«Que deliciosa bolsinha tu tens no collo!--disse-lhe elle. Foi

presente ou compra?

--«Agrada-te?--tornou ella, contemplando-o meigamente.

--«Acho-a lindissima.

--«É tua.

--«Minha?

--«Tua, sim. Não te lembras que dia é hoje? Completas vinte e dois

annos. Trabalho ha oito dias a furto para te dar este presente.

Sorria-me sósinha, quando pensava na surpreza que te ia causar, quando

te désse a bolsa, e, saltando-te ao pescoço, te dissesse

alegremente:--Ahi tens um presente da tua querida mulher, é para vêres

que pensa sempre em ti.--E então agora não mereço um beijo em paga?

«E a galante senhora, unindo a acção á palavra, tinha-se pendurado no

pescoço de seu marido, e contemplava-o com olhos humidos de ternura.

«Elle estreitou-a meigamente, e disse-lhe ao ouvido baixinho, e

beijando-lhe os cabellos:

--«Amo te, meu anjo da guarda! Amo-te e sou feliz, feliz com o teu amor.

--«E isso é dito com sinceridade?--perguntou ella, sorrindo, travêssa.

--«Não sou eu quem falla, é o coração.

--«Sim? Sobre esse coração é que eu quero que esta bolsa ande sempre!

Advirto-te que tenho dentro d'ella um genio familiar que me obedece, que

ha de lêr atravez do teu peito, e que me ha de vir contar os segredos

que tu julgares mais reconditos. Acceitas?

--«Que remedio, meu anjo! Venha esse gentil espião, cuja côr me anima

já, porque é a côr da esperança. Hei de lhe dar o observatorio mais

commodo que o meu casaco lhe podér proporcionar; telescopios não devem

ser necessarios a quem possue a vista subtil dos espiritos. Mas por

cavilloso o declaro, se elle descobrir no meu coração outra estrella que

não seja a tua imagem.

--«Não gósto da comparação; as estrellas são sempre offuscadas umas

pelas outras.

--«Mesmo quando essa estrella se chama _Venus_?

--«Viva! O meu maridinho a fazer madrigaes! Queres que eu continue no

mesmo tom? Dir-te-hei n'esse caso que a Venus, mais do que a qualquer

outra, succede o que acabei de dizer. Á tarde vem a lua offuscal-a, pela

manhã o sol.

--«Não, minha querida, não succederá assim comtigo. Sempre viva, sempre

pura a tua imagem resplandecerá no meu peito. É isto o que a tua bolsa

te ha de dizer constantemente.

--«Querido Eduardo!

--«Querida Camilla!

--«Amo-te!

--«Adoro-te!

«E foi assim que eu passei das mãos da loira Camilla para as mãos do

moreno Eduardo.

A Lenda da Meia-Noite · 第 26 / 56 题