Quando cheguei a este ponto interrompi eu a bolsa.
--Minha senhora, observei com a respeitosa cortezia que um escriptor
consagra ao narrador officioso que lhe conta uma historia, v. ex.^a tem
fallado até agora n'uma linguagem que me tem penetrado de admiração,
porque me parece biblica, e o emprego d'esse estylo é muito para
apreciar n'uma bolsa que não foi contemporanea de Isaias. Mas se v.
ex.^a antes de nascer falla n'esse tom, receio muito que, se continuar
na ascensão, quando chegar á velhice, já os leitores, ainda que se
mettam no balão de Nadar, não serão capazes de a seguir com a vista
n'essas espheras inaccessiveis. Pedia, portanto, a v. ex.^a o favor de
baixar o vôo á terra, algumas vezes, afim de que os nossos leitores
percebam alguma coisa do que se fôr passando, sacrificando por
conseguinte o diploma de socia da academia... do amphiguri, que, segundo
me parece, está em caminho d'obter. Desculpe-me esta ligeira observação.
A bolsa olhou para mim com modos um tanto severos, e respondeu:
--Admiro-me bastante de tu te queixares. Sabe que nem cheguei a dar-te
uma ligeira amostra do estylo pomposo que eu deveria empregar, e que te
poupei o prologo obrigado que precede lá entre vós outros, os homens, a
magra biographia d'aquelles, a quem nomeaes grandes, com a mesma
convicção com que os antigos romanos faziam a apotheose dos Tiberios e
dos Caligulas. Já vês que a rajada vae começar, e que se me excitas
mais, bailam-te no meu discurso gregos, assyrios, indios e hebreus. Mas
voltemos ao que importa. Em logar de te queixares, devias-me agradecer o
eu não ter dito uma palavra só ácerca do estado da Europa na epocha do
meu nascimento, nem de ter fallado nos grandes homens que se agitavam no
mundo, em quanto a minha gentil creadora unia uns aos outros os fios que
me haviam de formar. Podia fazer-te gastar com estes preambulos dez
paginas, pelo menos. Não o fiz, e tu accusas-me! Para te castigar não
devia dizer nem mais uma palavra.
--Oh! por amor de Deus, continue v. ex.^a como quizer; estou prompto a
admirar tudo quanto eu não entender, nem v. ex.^a tambem. Estou
esperando.
V
«Nasci, continuou a bolsa, e a minha vista não encontrou nada que a
ferisse, nada que lhe repugnasse no quarto onde eu viera á luz. No movel
mais insignificante se denunciava a riqueza e bom gosto dos donos da
casa. Eu repousava mollemente no collo da minha dona, e os meus membros
recem-nascidos sentiram logo o suave contacto da seda. Um alegre raio de
sol entrava pela janella, acariciava o meu corpinho verde, e fazia
resplandecer as minhas borlas doiradas. As agulhas repousavam ao meu
lado, contemplando curiosamente a obra prima que tinham acabado de
produzir. A gentil habitante do quarto beijava-me carinhosamente e,
beijando-me, murmurava estas palavras que eu conservei de cór:
--«Vae, pobre bolsinha, repousar sobre o coração d'aquelle a quem tanto
amo. Conserva a impressão dos meus beijos, e, quando elle te approximar
do rosto, oh! anima-te, por um milagre de amor, e sê tu a mensageira
d'estes osculos que eu te confio. Dize-lhe, conta-lhe que em segredo
trabalhava em te fazer _coquette_, elegante, para seres digna d'elle.
Olha, lê bem no fundo do meu coração, para poderes narrar ao meu esposo
os thesouros de affecto que em mim se abrigam. Vae, e Deus queira que
elle te ache a seu gosto, e te faça um bom acolhimento.
«N'este momento um rapaz, cujo labio superior era levemente assombreado
por um bigodinho nascente, entrou, e, dirigindo-se á minha dona,
beijou-a com ternura.
--«Que deliciosa bolsinha tu tens no collo!--disse-lhe elle. Foi
presente ou compra?
--«Agrada-te?--tornou ella, contemplando-o meigamente.
--«Acho-a lindissima.
--«É tua.
--«Minha?
--«Tua, sim. Não te lembras que dia é hoje? Completas vinte e dois
annos. Trabalho ha oito dias a furto para te dar este presente.
Sorria-me sósinha, quando pensava na surpreza que te ia causar, quando
te désse a bolsa, e, saltando-te ao pescoço, te dissesse
alegremente:--Ahi tens um presente da tua querida mulher, é para vêres
que pensa sempre em ti.--E então agora não mereço um beijo em paga?
«E a galante senhora, unindo a acção á palavra, tinha-se pendurado no
pescoço de seu marido, e contemplava-o com olhos humidos de ternura.
«Elle estreitou-a meigamente, e disse-lhe ao ouvido baixinho, e
beijando-lhe os cabellos:
--«Amo te, meu anjo da guarda! Amo-te e sou feliz, feliz com o teu amor.
--«E isso é dito com sinceridade?--perguntou ella, sorrindo, travêssa.
--«Não sou eu quem falla, é o coração.
--«Sim? Sobre esse coração é que eu quero que esta bolsa ande sempre!
Advirto-te que tenho dentro d'ella um genio familiar que me obedece, que
ha de lêr atravez do teu peito, e que me ha de vir contar os segredos
que tu julgares mais reconditos. Acceitas?
--«Que remedio, meu anjo! Venha esse gentil espião, cuja côr me anima
já, porque é a côr da esperança. Hei de lhe dar o observatorio mais
commodo que o meu casaco lhe podér proporcionar; telescopios não devem
ser necessarios a quem possue a vista subtil dos espiritos. Mas por
cavilloso o declaro, se elle descobrir no meu coração outra estrella que
não seja a tua imagem.
--«Não gósto da comparação; as estrellas são sempre offuscadas umas
pelas outras.
--«Mesmo quando essa estrella se chama _Venus_?
--«Viva! O meu maridinho a fazer madrigaes! Queres que eu continue no
mesmo tom? Dir-te-hei n'esse caso que a Venus, mais do que a qualquer
outra, succede o que acabei de dizer. Á tarde vem a lua offuscal-a, pela
manhã o sol.
--«Não, minha querida, não succederá assim comtigo. Sempre viva, sempre
pura a tua imagem resplandecerá no meu peito. É isto o que a tua bolsa
te ha de dizer constantemente.
--«Querido Eduardo!
--«Querida Camilla!
--«Amo-te!
--«Adoro-te!
«E foi assim que eu passei das mãos da loira Camilla para as mãos do
moreno Eduardo.