I
Um dia fôra eu assistir, por curiosidade, a um leilão que se fizera em
casa de uma rica viuva que fallecêra. Os parentes, apressados em se
desfazerem de todos esses moveis, que para elles não tinham valor algum,
abriram o leilão apenas se fechou a campa que ia encerrar a pobre
finada. O que importavam aos herdeiros esses pobres livros, por exemplo,
sobre os quaes se debruçàra tantas vezes a fronte encanecida da viuva,
esses mysteriosos confidentes dos seus pezares e das suas saudades,
cujas paginas teriam sido regadas com tantas lagrimas, e que tantas
vezes teriam repousado sobre os seus joelhos tremulos, quando ella,
interrompendo a leitura nocturna, fitasse os olhos humedecidos no sitio
onde seu marido se costumava sentar, a lampada a cuja doce luz tinham
tantas vezes travado uma d'essas deliciosas conversações intimas,
tornadas mais suaves ainda pelo conchego do lar, e pelo prazer de sentir
a chuva bater nas vidraças, e o vento gemer de caixilhos das janellas?
Que significação tinham essas coisas para os corvos ávidos, que esperam
anciosamente que o corpo se transforme em cadaver, para descerem em
bandos a saciar a fome impaciente? E quem sabe se, reunidos em volta do
leito mortuario, não miravam com os olhos affectadamente compungidos,
onde brilhavam algumas lagrimas de convenção, os trastes do quarto, e os
proprios lençoes que agitava o estertor da moribunda? Quem sabe se elles
não estariam já calculando o valor approximado d'esses objectos? Ai!
todo o anjo, que baixa a este mundo, tem um demonio que lhe espia os
passos, que o segue cautelosamente sorrindo com um sorrir diabolico, que
esconde na sombra projectada pelas azas brancas do habitante do céo as
negras azas do habitante do inferno, e que, apenas aquelle acaba de
cumprir a sua missão divina, começa a cumprir a sua missão infame, e a
desfazer por todos os modos o effeito salutar produzido pela candida
apparição.
Após o anjo do amor vem o demonio do ciume, após o anjo da caridade o
demonio da ingratidão, após o anjo da morte o demonio da cubiça.
Morre uma creatura boa, pura, santa; vem um anjo de Deus cerrar-lhe os
olhos, e levar para os céos, no regaço da sua tunica transparente, o
espirito immaculado que se desprendeu do invólucro terreno. No rosto do
cadaver, sereno e tranquillo, fica como que um reflexo do clarão que
derramaram sobre elle as azas luminosas do Senhor. Nada mais proprio
para inspirar respeito do que essa morte socegada, tão socegada como a
de um passarinho que esconde sob a aza a gentil cabecinha. Uma suave
compuncção se apodera do animo de todos os circumstantes. Ninguem ousa
perturbar o magestoso silencio da camara funeraria; todos temem profanar
a augusta santidade d'aquella scena. Mas o demonio da cubiça lá estava
espreitando á porta com o seu olhar de tigre. Assim que o anjo bateu as
azas, entrou pé ante pé, debruçou-se sobre todas as frontes pendidas,
bafejou-as com o halito repugnante, e logo todos se ergueram
apressadamente, e trataram de fazer desapparecer o cadaver, de annunciar
o leilão, de preparar tudo para se reduzir a dinheiro, e para se fazerem
as partilhas. «É preciso tratar da vida», dizem elles. Regateiam-se as
despezas do enterro, e, para se resarcirem d'ellas, não conservam um
unico objecto, por mais desprezivel que seja o seu valor. Ahi tem pouco
mais ou menos a scena horrenda que precede um acto tão natural como é um
leilão.
Por isso eu sempre resinto uma impressão desagradavel, quando me vou
confundir com a multidão de compradores que penetram, com tão pouco
respeito, n'esses quartos outr'ora tão socegados, agora tão ruidosos.
No dia em que assisti ao leilão em que fallo, occorreram-me estas idéas
que acabo de expender.
Já se tinha vendido a maior parte da mobilia. Os sophás, as mezas, as
cadeiras, os livros, tudo se dispersára já. O pregoeiro continuava a
fazer apparecer os differentes lotes, e, com o ouvido á escuta, repetia
machinalmente os lanços dos circumstantes com uma rapidez, e com uma
segurança taes, voltando a cabeça ora para um lado, ora para outro, que
pareceria ser antes machina do que homem, se não fossem as chalaças com
que entremeiava o seu pregão monotonamente saltitante (se assim me posso
exprimir). Eu estava encostado a uma porta, e contemplava com certa
tristeza aquelle grupo, em que figuravam os rostos indifferentes dos
compradores, as physionomias ávidas dos herdeiros, e a cara
maliciosamente alvar do pregoeiro, pago para alegrar a assembléa com os
ditos joviaes que tinha fabricado, e que provavelmente já lhe teriam
servido para dezenas e dezenas de leilões d'aquella especie.
Finalmente appareceu um objecto, cuja _exhibição_ (perdôem o anglicismo)
foi acompanhada com um commentario burlesco do pregoeiro, e acolhida por
uma gargalhada da assembléa.
Era uma bolsa de seda verde com borlas de oiro. Mas que bolsa, senhores!
Era necessaria toda a cortezia do pregoeiro para conservar esse nome a
um objecto que já não tinha fórma! Era uma bolsa de cabellos brancos!
Rota, esburacada, sem côr definida e em cujas borlas o oiro brilhava...
pela sua ausencia! O pregoeiro passeiou-a triumphantemente por diante de
todos, e todos se riam, e todos zombavam, e todos faziam uma observação
que redobrava as gargalhadas.
Finalmente o pregoeiro passou por diante de mim, e mostrou-m'a. Foi
então que eu a pude vêr bem.
Se a podessem vêr como eu a vi, haviam de se compadecer d'ella. No meio
da alegria geral, que a rodeiava, ella só parecia chorar, e conservar
uma triste recordação d'aquella de quem todos se esqueciam! Se a
podessem vêr como eu a vi, baloiçando-se tristemente na mão grosseira
d'aquelle homem que a estortegava, apertando os seus frageis
membrosinhos de seda! E a pobre bolsa parecia olhar com uma tristeza
profunda para todos aquelles rostos crueis, em que a zombaria se
pintava, e de cada um dos rasgões que tinha aberto no seu corpinho,
d'antes tão gentil, a mão destruidora do tempo, parecia sair um gemido.
Que profunda impressão me causou o seu aspecto!
Talvez os meus leitores chegando a este ponto, se riam de mim. Pois não
tem rasão! Eu acredito que os objectos inanimados, que nos rodeiam,
recebem de nós como que um reflexo de sensibilidade. Quando morre uma
pessoa n'uma casa, não vêem como tudo toma um aspecto luctuoso? A sala,
em que tantas vezes estivemos sós em quanto essa pessoa vivia, tinha por
acaso o silencio lugubre que lhe notamos apenas ella deixa de existir?
Os livros, cuja leitura desperta em nós o enthusiasmo, serão
simplesmente mudos reproductores dos pensamentos do escriptor, e não
conservarão como que o vestigio do talento, que por intermedio d'elles
se manifestou? E qual será o motivo d'essa inexplicavel affeição que nós
consagramos a certos moveis queridos? do pesar que sentimos ao vêrmo-nos
obrigados a abandonal-os?
Quando alta noite acordam, e, sem poderem conciliar o somno, ficam
deitados de olhos abertos a contemplar as trevas, e a escutar o
silencio, não sentem de repente um indizivel murmurio, e umas
inexplicaveis luzes encherem o quarto e rasgarem a escuridão? Como
explicam isso? Eu creio firmemente que esse ruido, que se não ouve
quando não estamos n'essas circumstancias, é o que produzem as
mysteriosas conversações dos espiritos invisiveis que existem escondidos
em cada um d'esses moveis, e que alta noite se reunem, para segredarem
uns com os outros, e que esse tenue fulgor é resultado do scintillar das
pequeninas azas d'esses sylphos subtis.
Quer me acreditem, quer não, o que eu lhes posso assegurar é que a tal
pobre e velha bolsa verde, quando viu a minha physionomia séria no meio
de tantos rostos zombeteiros, lançou-me um olhar supplicante a pedir-me
que a livrasse d'aquella triste posição.
E o caso é que a comprei, com grande espanto de todos os circumstantes,
que principiaram por olhar para mim com uns olhos muito abertos, e que
concluiram por sorrirem uns para os outros, dando a entender que me
julgavam doido. O pregoeiro entregou-me a bolsa, e recebeu o dinheiro,
tendo cuidado de interpôr, como se fosse por acaso, uma cadeira entre
nós ambos, com receio que me d'ésse alguma furia.
Escuso de dizer que ninguem me disputou o lanço. Nem mesmo esses
agentes, que tem, em giria de leilão, o nome expressivo de _picadores_,
ou, por abuso de metaphora, de _toireiros_, ousaram erguer a voz para
m'a fazerem pagar mais caro.
A surpreza emprestára-lhes um bocadinho de consciencia.
Pois o que é certo é que eu comprei a bolsa, e saí com ella muito ancho,
sem me importar com as largas alas que me abriam as pessoas presentes,
imitando a prudencia do que m'a vendêra.
E, como eu passo a mostrar-lhes, não tive motivo de me arrepender.