O terror tirára as forças ao barqueiro, o terror lh'as deu de novo.
Lançou mão dos remos, e o bote afastou-se rapidamente d'aquelle terrivel
sitio.
--Sabes a historia do que estamos vendo? perguntou o companheiro do
pescador, com voz ainda agitada.
--Oh! se sei, senhor, é uma historia terrivel. Mas não é n'este sitio
nem a esta hora que eu a hei de contar.
--Conta, tornou o interrogador imperiosamente, já estamos longe do ponto
fatal, e a voz dos réprobos vae-se perdendo no horisonte.
O barqueiro hesitou um instante, depois principiou em voz tão baixa que
mal se percebia, e sem deixar de impellir vigorosamente o bote, a
seguinte narração:
«Havia aqui d'antes, ha um bom par de annos, e junto d'aquelle castello,
cujas ruinas ainda póde divisar penduradas como ninho de aguias em cima
das fragas, uma egreja que fôra mandada construir por um devoto fidalgo
d'aquelle solar, fidalgo que morreu em cheiro de santidade. A igreja era
tida em conta de milagrosa, e alli concorriam immensos fieis attrahidos
pela fama do templo, e pelas virtudes do capellão, homem de vida
austera, affectuoso para com os humildes e nada servil com os grandes, a
quem dizia as verdades por mais amargas que fossem, quando entendia que
assim o exigiam os deveres do seu ministerio.
«Vivia então no castello um fidalgo devasso, filho do fundador da
egreja, o qual, se lhe herdára as riquezas, não lhe herdára as virtudes,
porque os thesouros da terra na terra ficam, mas os thesouros do céo
esses voltam com o seu possuidor para o seio do Omnipotente.
«Tinha esse fidalgo uma irmã. Linda era ella. Gentil a mais não poder
ser. Dizem que o rosto é o espelho da alma, e se assim fosse, ninguem
possuia mais formosa indole nem mais candido espirito do que a irmã de
Guilherme, a filha do virtuoso Pelayo. Mas não era assim. A natureza
esmerára-se tanto em lhe aprimorar a belleza physica, que se esquecêra
de certo de cuidar com egual desvelo na formosura moral. É assim que
dizem que Satanaz tem uma belleza seductora, e que seria um guapo
archanjo, se o pé caprino não revelasse a quem se deixa fascinar pela
etherea gentileza do anjo maldito, que está a contas com o pae da
mentira. Infelizmente Ignez não tinha esse signal que a distinguisse dos
anjos de que parecia irmã, e, se algum cauteloso enamorado, para
tranquillidade de consciencia, lançasse uma vista de olhos para o
pésinho encantador da formosa filha de Pelayo, não fazia mais do que
completar a fascinação, e, em vez da agua benta, com que tencionava
aspergil-o, era natural que o cobrisse de beijos, tão airoso era elle e
tão pequenino, tão pequenino que parecia que a natureza, ao esquecer-se
de lhe formar a alma, se esquecêra tambem de lhe formar o pé.
«Quando ella passeava a cavallo por essas ferteis varzeas, montada
elegantemente n'um lindo cavallo preto, todos se ficavam enlevados a
contemplal-a, e não havia donzella nem rico homem que não sacrificasse
de boa vontade a vida para fazer brotar um raio d'amor na pupilla negra
da gentil Ignez. Mas ninguem o conseguia, e o marmore d'aquelle rosto
adorado nunca se purpureára com o rubor da paixão. Engano-me. Paixão
sentia ella, vehemente, incestuosa, horrenda, e que lhe devia incendiar
o rosto não no vivo escarlate do pejo de donzella enamorada, mas sim no
rubor da vergonha e do remorso. A réproba amava seu irmão!
«E não imagine que ella occultasse essa paixão criminosa. Pelo contrario
gloriava-se d'ella impudentemente. E o espectaculo, que davam aquelles
dois impios, era um escandalo contínuo para os bons christãos dos
arredores.
«Não se faz idéa das orgias freneticas e loucas, a que no castello se
entregavam aquelles dois abandonados de Deus. Quem passasse á meia-noite
pelo caminho que serpeia na montanha, e onde estava situado o solar
defrontando com a egreja, havia de parar cheio de religioso terror ao
vêr de um lado o immenso clarão das luzes incendiando as vidraças da
sala da orgia, ouvindo os cantares ebrios, os risos descompassados, as
blasphemias, as musicas voluptuosas, e dando com a vista do outro lado
na casa do Senhor, muda, deserta, sepultada em trevas, como um terrivel
archanjo que contemplasse com olhar sevéro os folgares dos malditos, e
que esperasse silencioso que soasse a hora da punição.
«O mar batia de continuo nos rochedos, e aquelle ruido incessante, se o
ouvissem nas salas, havia de lhes soar lugubremente como a voz
justamente irritada do Deus vingador.
«A egreja e o mar! Diante do templo erigido pela piedade dos homens,
diante do templo immenso em que mais se revela a imagem da Providencia,
como poderia haver quem esquecesse por tal fórma os preceitos da lei
divina?
«Pois havia! e á noite, quando na mysteriosa soledade da nave, se
erguiam os mortos do seu leito de pedra para se ajoelharem diante do
altar, quando o vasto Oceano desprendia dos seus labios de espuma o
hymno religioso com que celebra a omnipotencia de Deus, accendiam-se as
luzes no salão do castello, sentavam-se á meza da orgia Guilherme e
Ignez e alguns cortezãos das suas devassidões, porque os seus eguaes
todos se haviam desviado d'aquella Gomorrha amaldiçoada, sobre a qual
cedo ou tarde cairia o fogo do céo; e a irmã do castellão, no fim do
banquete, cingia a fronte com uma grinalda de rosas, empunhava a harpa,
e cantava canções bacchicas com essa voz melodiosa, pura e vibrante, que
os anjos lhe invejavam, para descantar os seus hymnos de louvor ao
Eterno.
«Um dia o velho capellão, que fôra o primeiro padre que dissera missa na
egreja cujo fundador fôra o pae dos dois devassos, dirigiu-se ao
castello, tencionando chamar para o redil da egreja aquellas duas
ovelhas desgarradas por atalhos de maldição.
«Nada conseguiu senão excitar o odio de Ignez, que ouviu furiosa as
reprehensões do padre, e que foi immediatamente queixar-se a Guilherme
da insolencia do sacerdote, e pedir-lhe, como premio de amor, a cabeça
do digno homem, como outr'ora Herodias pedia a Antipas a cabeça de S.
João Baptista.
«Não ousou conceder-lh'a Guilherme. Conservava ainda, no meio dos seus
vicios, um respeito supersticioso por seu pae, e não ousava tocar na
pessoa inviolavel d'aquelle a quem Pelayo confiára o templo que fundára.
«Não insistiu Ignez; mas projectos de vingança atroz calaram
immediatamente n'aquelle espirito pervertido.
«Uma noite, noite de Natal, a chuva caía em torrentes, açoitando
egualmente as vidraças do castello, illuminadas com o clarão do festim,
e os vidros de côr da egreja atravez dos quaes coava a religiosa luz dos
tocheiros accesos para se celebrar a tocante solemnidade da missa da
meia-noite.
«O mar rugia de encontro aos rochedos, e soltava ora gemidos pavorosos,
ora lamentosos queixumes.
«O vendaval corria infrene por sobre as ondas.
«De mais folias ainda do que de costume era testemunha o salão do
castello. Os gritos dos ebrios ouviam-se cá fóra distinctamente, e
faziam com que todos os que se dirigiam á missa se persignassem com
horror.
«Sentada n'uma cadeira de espaldar, junto de seu irmão, Ignez, com os
cabellos em desordem, soltos pelas espaduas núas, com a lascivia no
olhar e na attitude, desferia a harpa de oiro e descantava as mais
alegres canções.
«O vento e o mar soltavam cá fóra os seus tristes e lugubres lamentos.
«De repente soou meia-noite na torre da egreja. Os repiques da sineta
annunciaram immediatamente que ia principiar a missa.
«Cessaram os risos e os cantares no castello de Guilherme. Só Ignez com
o seu diabolico sorriso a pairar-lhe nos roseos labíos, exclamou:
«--De que vos temeis, nobres cavalleiros? Tão desgeitosa estou já no
dedilhar da harpa, que lhe prefiram o agudo cantar da sineta? Tão
enfraquecida está a minha voz, que cessem de a escutar para ouvirem o
bronze de um campanario?
«N'este mesmo instante um raio fuzilou no espaço, inundando a sala com a
sua luz phosphoríca, e o vendaval, redobrando de força, fez em estilhas
uma das vidraças.
«Todos sentiram um convulso tremor percorrer-lhes as veias, e o proprio
Guilherme limpou o suor frio que lhe escorria na testa. Ignez continuou:
«--Receiaes a tormenta? Quereis um conselho? Deixemos esta sala que o
vento vae tornar inhabitavel, e que a chuva vae inundar, e vamos
procurar um abrigo na egreja. Alli, sim, que é sala commoda.
Utilisemol-a. Um ultimo copo de vinho, meus senhores, e façamos a
transferencia.
«Todos obedeceram ás ordens da formosa Ignez. Beberam um copo de vinho,
e ergueram-se bradando resolutamente: «Para a egreja.»
«O ministro de Deus subira n'esse instante ao altar revestido dos seus
sagrados paramentos. Tornavam-n'o respeitavel o seu caracter augusto de
immaculado sacrificador, e ainda mais o seu diadema de cabellos brancos,
e a invisivel aureola de virtudes que lhe circumdavam a fronte.
«A multidão ajoelhada sentia como que o espirito de Deus baixar ao
templo, evocado pelo santo sacerdote. O orgão começava a gemer os seus
doces cantares. A tempestade parecia respeitar aquelle sacro asylo,
suspirando plangente nas frestas ogivaes, e não rugindo pavorosa, como
quando sacudia as suas negras azas em torno do castello.
«Tudo era socego e serenidade n'aquella divina estancia.
«Subito irrompeu pelo portal da egreja a turba dos ebrios, em
descompostos cantares. Ficou gelada de terror a devota multidão.
Perturbado quando erguia a Deus o immaculado espirito, o sacerdote
voltou-se e deu com os olhos na bella Ignez, que vinha na frente
encostando-se com insolente descaro ao braço de seu irmão.
«Inflammado em santa colera, o velho ministro do Senhor desceu os
degraus do altar, e, dirigindo-se aos recem-chegados, bradou com voz
sonora, em que vibrava o echo das iras de Deus:
«--Parae, não profaneis o templo, e não obrigueis a fulminar-vos o raio
de excommunhão, que vos está impendente.
«Era venerando o vulto apostolico do santo varão. O povo caíu de
joelhos, e a tempestade suspendeu os seus bramidos, como que respeitosa
e tremula.
«Ouviam os elementos desvairados a voz do ministro do Omnipotente. Só
ficavam cerrados os ouvidos dos impios.
«Era porque chegára a hora fatal, e a taça das iniquidades trasbordára
emfim.
«Ignez sorriu-se meigamente para seu irmão. Que doce, que angelico
sorriso! Quem diria que esse sorriso, que rescendia amores, era apenas
um incitamento ao assassino?
«Pois foi. Guilherme allucinado arrancou do punhal, e feriu o velho
sacerdote.
«O sangue espadanou da ferida, e salpicou, tingindo de escarlate o
candido vestido de Ignez.
«A multidão fugira horrorisada, os criados, impios como seus amos,
haviam trazido n'esse instante a meza da orgia.
«Mas assim que baqueou o sacerdote, a tempestade, suspensa por um
momento, soltou-se com novo furor. Rugiu o vento nas frestas da egreja,
fuzilaram os raios, bramiu, quebrando-se nos rochedos, o Oceano
enfurecido, e os tumulos de pedra da egreja estalaram como se fossem de
vidro.
«E do tumulo de mais primoroso lavor, surgiu, envolto na mortalha, o
espectro de Pelayo, o fundador da egreja. Ondeiavam-lhe ainda as barbas
nevadas sobre o funebre escapulario, e das orbitas cavadas, coisa
horrivel! brotavam lagrimas ardentes.
«Ergueu-se, ergueu-se; já não tocava com os pés no chão marmoreo da
egreja. O vento engolphando-se pelo portal do templo, agitava-lhe as
pregas da mortalha. Com as mãos unidas, em attitude de oração, o velho
finado, subindo lentamente nos ares, parecia um d'esses prophetas que o
Senhor Deus arrebatava para as alturas do Empyrio.
«Quando chegou ao tecto, o tecto abriu-se como por encanto e o venerando
finado continuou a sua magestosa ascensão na atmosphera que se
esclarecia em torno d'elle, como se aquelle cadaver irradiasse luz.
«Os impios haviam ficado immoveis e attonitos de terror. Mas, apenas o
velho Pelayo se sumiu ao longe na região das nuvens, resoou em toda a
egreja um terrivel estampido. O orgão vibrou, sem que mão humana o
tocasse, e o tremendo _Dies irae_ jorrou em torrentes de severa melodia
pela nave do templo. Vacillaram os columnelos, nos frisos e laçarias
gemeu o vento em canticos sinistros, e, como se o vendaval a tivesse
arrancado pela base, aquella mole immensa levantou-se do chão, oscillou
nos ares como impellida por invisivel fundibulario, e arrojou-se ao
Oceano, levando no seu seio os profanadores, que soltaram um ultimo
rugido de desespero.
«Abriu-se o mar para tragar a preza enorme que se lhe offerecia, depois
a liquida superficie uniu-se de novo, e essa mortalha immensa, cujas
pregas são as ondas, desenrolou-se para encobrir esse cadaver de pedra.
«Desde então todas as noites, ao bater da meia-noite, accendem-se os
cyrios na egreja sepultada, e, no fundo do mar, os réprobos entoam os
psalmos da penitencia.
«A voz de Ignez sobreleva a todas, e exerce ainda, do fundo do Oceano, a
sua irresistivel seducção.
«Ás vezes ergue-se o phantasma da formosa até ao cimo das ondas, e
arrasta para os abysmos os incautos que cedem ao magico poder dos seus
feitiços.
«Proteja-nos o Senhor contra estas tentações. Eis-nos chegados á praia.
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O barqueiro amarrou o bote, e saltou em terra. O moço passageiro ficou
largo tempo a contemplar o Oceano.
As ondas conservavam ainda ao longe o seu reflexo escarlate, e a voz dos
precitos, enfraquecida pela distancia, vinha expirar na praia em
melancolica toada.
Aos primeiros clarões da aurora tudo se dissipou; apagou-se a pouco e
pouco a luz vermelha, ao passo que se ia aclarando mais o horisonte, e
que as ondas se iam branqueando com o tenue fulgor do alvorecer.
O canto dos malditos foi tambem esmorecendo a pouco e pouco, até que a
ultima nota vibrou solitaria no espaço; e esse silencio singular que
precede o romper do dia foi apenas quebrado pelo hymno eterno do
marulhar das ondas.[1]
* * * * *
Houve um momento de silencio, quando o doutor Macedo acabou a leitura do
romance. N'aquelle grupo havia de certo n'esse instante um coração que
esse silencio fazia bater com desusada violencia. Afinal Lucio Valença
quebrou o encanto, dizendo:
--Decididamente, caro doutor, o nosso desconhecido collega deu um golpe
de mestre, escolhendo o para leitor de uma lenda. A sua voz deu-me
arripios, as suas inflexões resuscitaram a meia-noite. Co'a breca! houve
um momento, em que me não atrevi a olhar para a janella, com medo de vêr
encostado aos vidros o espectro fascinador de Ignez.
--Ah! de certo, disse ou antes balbuciou Leonor, nem assim se póde
avaliar o merito da lenda. O doutor é como um d'estes actores, que
transformam sempre em magnificos papeis as mais insignificantes
banalidades.
O doutor sorriu-se para ella maliciosamente, mas ao mesmo tempo um
concerto de elogios protestava contra a phrase dubia de Leonor. O mais
ardente no applauso era Henrique Osorio.
--Bem! chegou o momento solemne! disse Macedo, o publico chama pelo
auctor, e eu, como no theatro francez e hespanhol, depois dos tres
cumprimentos do estylo, vou arrojar o nome do poeta á platéa
enthusiasmada. Se me dispensam dos cumprimentos, substituo-os por uns
certos effeitos oratorios.
--Vá! vá! diga, doutor! bradaram todos em côro.
--Um! exclamou o doutor Macedo, batendo as palmas; o auctor é uma
senhora linda, elegante e espirituosa.
--Isso é abusar, doutor! bradaram os circumstantes indignados.
--Dois! tornou Macedo. Acha-se presente a referida senhora.
--Estrangulamol-o? propoz Lucio Valença.
--Um voto de censura na acta! bradou o visconde da Fragosa, sempre
parlamentar.
--Dependuramol-o da janella até elle dizer o nome! exclamou Henrique
Osorio.
--Já o tinha dito, se vocês me não interrompessem, exclamou placidamente
o doutor Macedo emquanto a viscondessa da Fragosa, Leonor e Isaura riam
a bom rir da alegre scena.
--Então falla, _ventre-saint-gris_! bradou Roberto Soares.
--_Ventre-saint-gris_ não é da edade média, sr. Roberto Soares, disse o
doutor Macedo que já erguera as mãos para bater as palmas pela terceira
vez, e que tirou tranquillamente um charuto da algibeira.
--Uma corda! bradou Henrique Osorio.
--E um algoz de boa vontade! exclamou Lucio Valença.
--Á ordem! acudiu logo o visconde da Fragosa.
Então, o doutor Macedo, com o charuto ainda não acceso nos dentes, bateu
as palmas, e disse:
--Tres!
Estabeleceu-se um profundo silencio.
--A lenda que tive a honra de submetter á apreciação de vv. ex.^{as},
concluiu o doutor, foi escripta pela ex.^{ma} sr.^a D. Leonor de Mattos
e Vasconcellos, filha do nosso excellente amigo, visconde da Fragosa.
--Tu, Leonor! exclamou Henrique Osorio estupefacto.
--Tu, filha! disse a viscondessa com os olhos rasos de agua.
--Eu logo vi que tinha sido ella, exclamava o pae todo ufano.
Confusa no meio de todos os comprimentos, com que em todas as familias
se festejam as mais insignificantes estreias litterarias do filho mimoso
da casa, Leonor nem ousava erguer os olhos para Henrique. Este
contemplava-a pasmado, depois mirava a furto Isaura, um pouco fria, um
pouco descontente com a ovação da sua _amiga_, e evidentemente de si
para si lamentava que não fosse a pallida menina a sonhadora das
phantasias da _Egreja profanada_.
Mas tambem, quando tornava a mirar Leonor, e a via modesta, perturbada,
evidentemente envergonhada de ser o alvo de todas as attenções, agora
mil vezes mais affavel com Isaura do que até ahi, como que pedindo-lhe
perdão do seu involuntario triumpho, Henrique não podia deixar de dizer
de si para si que havia um abysmo entre a pretenciosa frivolidade de
Isaura e a desaffectada simplicidade de Leonor, que bem se via que não
dava ao seu conto maior valor do que elle merecia, e que, escrevendo-o,
parecia ter querido mostrar apenas que não era estranha ás altas
preoccupações do espirito, e que a sua phantasia tambem tinha azas para
se arrojar ao mundo do ideal.
E, emquanto a conversação volteiava alegremente em torno do conto de
Leonor, emquanto uns narravam os calafrios que tinham sentido, e outros
felicitavam o leitor e a auctora, Osorio, encostando a fronte na mão,
ficou profundamente pensativo.
Instantes depois, dispersava-se a companhia, e Leonor, passando junto de
Henrique para se retirar para o seu quarto, sentia poisar na sua mão,
para a demorar, a mão tremente do seu companheiro de infancia.
Ella estremeceu toda, como se se tivesse posto em contacto com uma
garrafa de Leyde.
--Sabes, disse-lhe elle, que achei encantador o teu conto?
--Sabes que te não acredito? respondeu ella, rindo, e já senhora de si.
--Oh! eu não faço a critica litteraria do romance. É provavel que tenha
innumeros defeitos. Digo-te apenas que me impressionou. Quando o
escreveste?
--Hoje!
--Hoje? acudiu elle cravando em Leonor um olhar profundo.
--Sim, tornou ella com o coração a bater-lhe violentamente, córada até á
raíz dos cabellos, mas resoluta, quiz-te mostrar que já passou para mim
o tempo das bonecas, e que o que me preoccupa o coração e o espirito não
são já as puerilidades dos nossos brinquedos de outr'ora, mas os
affectos e as paixões da mulher.
Henrique apertou-lhe docemente a mão.
--Foi por minha causa, pois, que espertaste a phantasia, para escreveres
essa lenda? Tive eu a ventura suprema de preoccupar devéras o teu
espirito intelligente? de fazer pulsar com mais força o teu ingenuo e
nobre coração?
--Henrique! murmurou ella.
--És um anjo, Leonor! disse elle em voz baixa.
O doutor Macedo encaminhava-se para onde estavam os dois. Leonor
despediu se, e toda palpitante de commoção e... dil-o-hemos...
tambem!... de alegria, dirigiu-se para o seu quarto.
O doutor Macedo sorriu-se para Henrique, e murmurou maliciosamente:
Si je vous le disais pourtant que je vous aime,
Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?
--O que! era esta, doutor? exclamou Henrique.
--Pois quem, meu creançola? É necessario ter a myopia amorosa dos vinte
annos para o não perceber ha immenso tempo.
--Que quer você, Macedo! tornou Henrique, Leonor foi minha companheira
de infancia. Havia entre nós, em creanças, uma certa desproporção de
edades. Entre dois pequenitos uma differença de cinco annos abre um
abysmo! Na mocidade é um curtissimo intervallo. Costumei-me a vêr sempre
em Leonor uma creança. A mulher feita revelou-se me agora, ao ouvir lêr
o conto que ella escrevêra. Então contemplei-a, e li nos seus formosos
olhos a bondade da sua alma, e a virgindade do seu affecto. Só agora
percebi o tremor da sua voz nas palavras que me dirigia! E eu passava
junto d'ella quasi sem a conhecer!
--Meu amigo, tornou Macedo, isso é uma historia vulgar. Tem a gente ao
pé da porta um lago tranquillo, risonho, córado pelo esplendor do sol,
nunca se lembra de mergulhar n'essas aguas limpidas para colher a perola
que lá brilha no fundo, vae procural-a então ao mar das tempestades,
mergulha, e encontra ostras. Boa noite, meu amigo.
E dirigiu-se para o seu quarto. Henrique imitou-o, mas n'essa noite não
dormiu. A imagem que fluctuava diante dos seus olhos semi-cerrados, não
era, não, a pallida imagem de Isaura.
* * * * *
Devemos dizer que na noite immediata, esqueceu completamente a hora
fatidica, e que tendo Lucio Valença pedido a palavra ás dez horas e meia
da noite, allegando que era longo o seu romance, que, sendo phantastico,
por isso que o personagem principal era um ente inanimado, tinha comtudo
uma pequena parte propriamente legendaria, e que portanto podia começar
a ser lido antes da meia noite; acolhe-se com applauso esta idéa, e
Lucio Valença começou logo depois do chá a leitura do seu volumoso
manuscripto. O doutor fizera uma careta ao avaliar o numero de paginas
que ia ter que ouvir; Henrique Osorio e Leonor, enlevados nas doçuras de
um amor nascente, não tendo olhos senão um para o outro, amaldiçoavam a
leitura que os ia privar de algumas horas de doce conversação; Isaura,
despeitada, furiosa por ter visto fugir-lhe um dos seus vassallos, e
mais furiosa ainda por lhe falharem todos os manejos que empregava para
reconquistar o inconstante, que tratára com tão soberbo desdem quando o
tivera nos seus ferros, dirigira de pura colera as suas baterias para
Lucio Valença, e preparára-se portanto para ouvir o conto com a mais
profunda attenção.
O visconde da Fragosa, o conselheiro Madureira e um honrado e silencioso
proprietario de Val de Prazeres, que vinha completar a partida do
visconde, não abandonaram sem um suspiro o _boston_. Resignaram-se,
porém, e Lucio Valença, presentindo vagamente a hostilidade do
auditorio, começou com voz não muito firme a leitura do manuscripto, que
se intitulava _Memorias de uma bolsa verde_.