Era uma noite de maio. Eu estava sentado á meza do trabalho. Um caderno
de papel, ainda virgem de letras, estendia-se diante de mim aterrador na
sua alvura, que me advertia mudamente da obrigação que eu tinha
contrahido de a fazer desapparecer debaixo de uma alluvião d'esses
monstrosinhos negros, que se chamam letras, que, amontoando-se umas em
cima das outras, formam as palavras, essas mysteriosas colmeias, dentro
das quaes se agita o candido enxame das idéas. O tinteiro, boquiaberto,
não cessava de me mostrar o oceanosinho sombrio que tumultuava dentro de
seus vitreos muros. A penna, debruçando se sobre esse mar tenebroso,
contemplava-o com indifferença, preparando-se para o sulcar
atrevidamente, quando eu julgasse opportuno começar a navegação.
Uma janella aberta oppunha aos meus designios um obstaculo insuperavel.
Uma janella aberta?--diz o leitor; porque a não fechava?
O leitor de certo se não recorda de eu lhe ter dito que estavamos em
maio.
Fechar uma janella quando a fada da primavera percorre as urnas das
flôres, colhe todos os aromas que encontra, e vae espalhal-os
prodigamente no regaço das brisas, que doidejam depois na atmosphera,
alegres como as creanças folgazãs que correm na campina com as suas
arregaçadas de flôres! Fechar uma janella! E porque não fecha o leitor
os ouvidos quando está escutando uma melodia de Bellini, e os olhos
quando está vendo um quadro de Raphael?
Eu, com um charuto na bocca, docemente recostado na minha cadeira,
aspirava os perfumes do ambiente, sem me importar com as provocações do
papel, com as agitações da tinta, e com as suggestões da penna. Devo até
dizer, para ser completamente veridico, que me deliciava em desprezar
tudo isso.
_Fi donc!_ Um escriptor!
Eu queria vêl-os no meu logar! Uma larangeira a enviar-me perfumes
perfidos, e, quando me via prestes a estender a mão para a penna, a
baloiçar-se sem piedade, e a remetter-me directamente nas azas da
viração uma taça inebriante, cheia a trasbordar dos seus effluvios! E um
rouxinol, um travesso rouxinol, muito escondido n'uma alcovasinha de
folhas, que o demonico da laranjeira lhe tinha arranjado de proposito
para acabar de me tentar, a desentranhar-se em melodias que era um
enlêvo escutal as! Sem fallar n'umas roseiras, que a pretexto de serem
_dilletanti_, e de serem impellidas pela aragem, prepassavam por diante
da minha janella para ouvirem mais de perto aquelle Tamberlik plumoso!
Não mettendo em linha de conta a lua, que se ria no céo a bandeiras
despregadas, escancarando com os frouxos de riso umas nuvens teimosas,
que por força queriam esconder-lhe as perolas que ella com as
gargalhadas mostrava á natureza, e que tinha a innocente vaidade de
contemplar espelhadas nas fontes! Vão lá, com tudo isto, debruçar-se
sobre um caderno de papel e escrever!
Escrever; mas escrever o quê? Um romance de amores?! Um poema?! Romances
e poemas tinha eu na imaginação, sublimes, portentososos, admiraveis,
como todos os tem, e como ainda ninguem os escreveu.
Se elles se desprendem, capitulo a capitulo, estrophe a estrophe, e vão
fluctuar na atmosphera de envolta com os perfumes da rosa, com os
canticos do rouxinol, e com os raios da lua!
E, apesar d'isso, não deixam que outros, que se possam entornar sobre o
papel, nos occupem ao mesmo tempo a imaginação.
Assim estava eu, torturando o espirito para obter uma idéa, e
encontrando n'elle mundos de poesia, não digo bem, um chaos de poesia,
cujo _fiat lux_ eu nunca poderia descobrir.
De vez em quando revestia-me de animo, e tentava levantar-me para ir
fechar a janella! Mas a larangeira baloiçava-se e deixava cair uma chuva
de perfumes, o rouxinol redobrava de gorgeios encantadores, os ramos da
roseira prendiam-se, ao perpassar, no parapeito da janella, e deixavam
ficar as suas rosas de cem folhas, purpureas e embalsamadas, a mirarem
curiosamente o meu quarto; a lua desprendia indolentemente dos hombros o
seu manto de luz, arrastava-o no firmamento, e eu caía desanimado na
cadeira.
De repente senti aos meus ouvidos uma voz ligeira como um murmurio, que
me fallava n'uma linguagem desconhecida, mas que eu, por uma intuição
inexplicavel, comprehendi immediatamente.
Voltei-me, e com grande pasmo, vi a bolsa verde em cima da meza.
Era ella quem me fallava.
--Amigo, dizia-me a velha bolsa, tu valeste-me n'uma grande afflicção, e
é justo que tenhas a recompensa. Queres escrever? A tua imaginação
preguiçosa, enervada pelos effluvios d'esta noite de primavera,
recusa-se a dictar-te o que deves lançar no papel? Eu substituirei a tua
imaginação. Pega na penna, e escreve o seguinte no alto d'essa pagina
branca: «_Memorias d'uma bolsa verde_.»
Eu, estupefacto, obedeci machinalmente, e ahi vão vêr os meus leitores o
que a pobre bolsa velha me dictou. Desculpem os erros do auctor. Não ha
nada que se pareça menos com um litterato do que uma bolsa. A rasão é
muito simples. A bolsa tem muitas vezes dinheiro, e um escriptor...
Vamos ao assumpto.