II

«Passaram-se mezes e mezes--continuou o João; veiu o outono desfolhar as

arvores, e estender sobre a terra o seu manto de tristezas; depois o

inverno gelado agrupou as familias ao canto da lareira; voltou a

primavera sacudindo sobre os campos o seu regaço cheio de flôres e

verduras, voltaram as longas tardes do estio, e o sol ardente de agosto

veiu de novo doirar os pinheiros que ensombravam a cruz do precipicio; e

nem a triste Branca recebia noticias do seu noivo, nem Inigo Paes a

podia consolar com outras novas, que não fossem as que, logo pouco

depois da partida de Raymundo, tinham sido trazidas por um fidalgo que

voltava das terras do Algarve.

Contava elle que vira n'uma renhida escaramuça o filho de Inigo Paes

estreiar-se no arduo mister do lidador d'aquellas eras. A estreia fôra

digna do nome honrado de seu pae. Contava o fidalgo que o tinha visto

arrojar-se aos moiros com valor sobrehumano, e abrir com a acha de armas

um largo e sanguinolento sulco nas fileiras mahometanas. Quando, no fim

da escaramuça, Raymundo Paes passou de viseira levantada junto dos

prisioneiros, estes, vendo o rosto delicado, o buço que lhe assombreava

levemente o labio superior, e a belleza quasi feminil do mancebo, não

queriam acreditar que fosse o mesmo que praticára prodigios de valor, e

ante o qual as cimitarras moiriscas voavam em lascas, decepadas pelo

montante que parecia manejado pelo braço de robusto montanhez.

Estas noticias encheram de orgulho o coração paternal do velho

guerreiro. A Branca não succedia o mesmo. As façanhas que enthusiasmavam

Inigo Paes, faziam receiar á gentil donzella que Raymundo, arrastado

pelo seu ardor juvenil, fosse encontrar a morte no gume afiado de um

alfange mahometano.

Assim correram os mezes, e as rosas do rosto de Branca desbotavam,

desbotavam até se trocarem nos lyrios que a desesperança ia fazendo

brotar nas faces da donzella.

E Raymundo? Valente cavalleiro, não ha proezas que absolvam um perjuro,

nem as indulgencias, concedidas pelo santo padre aos defensores da fé,

são sufficientes para arredar de cima da cabeça do sacrilego o raio

fulminado pela mão do Omnipotente.

Raymundo Paes, Raymundo Paes, que demonio fatal te arrojou aos pés da

cruz, e te dictou o terrivel juramento, que havias de esquecer tão cedo?

Ai! cavalleiro, ainda o vento do outono não desfolhou a verde grinalda

que enramava a cruz do precipicio, e já o vento da inconstancia fez

murchar o candido affecto que floria em teu peito, e que juráras

conservar tão puro e tão sem mancha, como era pura e immaculada a imagem

d'aquella que t'o inspirou.

Ai! Branca, timida rôla, que, escondida na espessura, a sós com as tuas

tristezas, pranteias a ausencia do ingrato que te esqueceu, mal sabes tu

que, em quanto fitas o olhar melancholico na lua pallida como o anjo da

saudade, e pareces perguntar-lhe mudamente se o teu olhar se cruza no

espaço com o olhar saudoso do teu gentil campeão, elle, o perfido, o

perjuro, o sacrilego, esquece nos braços de outra o teu amor de virgem,

o teu modesto encanto, as tuas graças infantís.

Durante os primeiros tempos, as meigas recordações do seu amor de

creança arderam dentro d'elle tão vivas e tão serenas, como arde viva e

serena a lampada do altar no recinto sagrado da egreja christã; se uma

tentação má lhe surgia no animo, e lhe mostrava á luz de um relampago

infernal mundos desconhecidos de prazer vertiginoso, era logo repellida

pelo saudoso mancebo, que conservava o coração perfumado de innocencia,

como sanctuario florido, onde o christão abriga devotamente a imagem da

Mãe do Salvador............................................................

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Era por uma noite sombria, calada e mysteriosa, noite propria como

nenhuma outra para emboscadas e ardis de guerra. N'essa noite, n'um

alcaçar moirisco, situado em terras do Algarve, dormiam socegados os

perros descridos, confiados na vigilancia das atalaias, e certos que os

rudes batalhadores de Christo, vencidos do cansaço, concederiam

involuntariamente treguas aos filhos de Mafoma. Os almogavares, voltando

das suas excursões, não tinham trazido novas de movimento algum no

exercito christão. Dormiam as almenaras no cimo das montanhas, e a

atalaia, vigiando no alto da torre, não estremecêra vendo uma pluma de

fogo accender-se de repente, e, ondulando nos ares, dar signal da

apparição dos nazarenos. Quão enganados estavam, e essa serpente de

ferro, que se enrosca ás muralhas da fortaleza, vae acordal-os

inesperadamente do seu somno voluptuoso!

De repente o grito de S. Thiago é ávante! echôa nas barbacans do

alcaçar, e as sentinellas, caindo apunhaladas sem terem tempo de soltar

um grito, pagam com a vida a sua indolencia descuidosa.

Que scena de confusão no meio das trevas! Os gemidos dos moribundos, os

gritos das mulheres, as blasphemias dos guerreiros surprehendidos

cruzam-se com os gritos de victoria dos cavalleiros portuguezes. Apenas

de quando em quando um ou outro arabe mais destemido arranca da

cimitarra, e faz brotar centelhas instantaneas, cruzando-a com o pesado

montante christão. Não tem quartel os vencidos; os vencedores sequiosos

de sangue transformam n'aquelle momento o valor do guerreiro na

ferocidade do assassino. Eras de barbaridade! Já vão longe, felizmente.

Raymundo vae entre elles. Embriagado pela carnificina, descarregava ás

mãos ambas a acha de armas sobre os que pretendiam fugir á sorte de seus

irmãos. De repente um vulto feminino roja-se-lhe aos pés, suspende-lhe o

braço já levantado para descarregar o golpe, e com uma voz melodiosa

como o sussurrar da brisa nos ramos do salgueiro, murmura em portuguez:

Perdão!

A lua, que até ahi se conservára escondida entre nuvens, desembaraçou-se

afinal do seu manto sombrio, e veiu acariciar com os raios da luz serena

as faces tostadas da arabe gentil.

Nunca Raymundo vira um rosto tão diabolicamente tentador! Eram uns

labios onde se viam arfar promessas voluptuosas de beijos delirantes.

Eram uns olhos negros, onde brilhavam as chammas do desejo, as labaredas

infernaes da tentação! Eram as tranças negras fluctuando sobre o collo

nú, que a brisa beijava com delirio, roubando-lhes perfumes inebriantes,

que vinham enlouquecer o ingenuo amador da casta Branca. E elle sentiu a

febre do desejo a vir escaldar-lhe o sangue, sentiu uma ignota anciedade

vir opprimir-lhe o peito. Era o terrivel despertar dos sentidos n'um

rapaz de dezoito annos. Eram as tentações da voluptuosidade, eram as

commoções do prazer sensual, era um demonio desconhecido que lhe vinha

murmurar ao ouvido os vagos encantos de mysteriosos amores.

Raymundo sentiu o perigo, e quiz afastar-se d'elle. Repelliu-a, e,

invocando a imagem de Branca, quiz fugir da tentação fatal; mas a moira,

enroscando-se a elle, como a serpente se enrosca ao corpo do homem

fascinado pelo poder invencivel do seu olhar, murmurou:

--Não me deixes, nazareno. Os teus olhos são negros como noite sem

estrellas; mas são transparentes como o espelho das aguas. Porque havias

tu de ser cruel como a hyena do deserto, se és bello e magestoso como o

leão das selvas? Olha, sou tão nova! Ainda a amendoeira não floriu vinte

vezes, desde que minha mãe me apertou pela primeira vez ao seio

palpitante. Salva-me, salva-me e serei a tua escrava. Servir-te-hei de

joelhos como a meu senhor e amo, cingir-te-hei a armadura, adivinharei

os teus caprichos, e adorar-te-hei como adoro o propheta de Medina.

Ouves? Filho dos christãos, salva-me, salva-me!

--Deixa-me, tentação do demonio, bradava Raymundo com voz balbuciante;

deixa-me, anjo das trevas; deixa-me, enviada de Satanaz.

--Não, tornou a amaldiçoada, approximando os labios vermelhos como a

flôr de romanzeira dos labios de Raymundo. Sou bella, e amo-te! Sou tua,

e tu és todo meu, porque te vejo torcer desesperado nos braços de fogo

do prazer. Amas-me, e eu... sou tua.

--Amo-te, amo-te, bradou Raymundo, caindo oppresso aos pés da musulmana.

Ai! Branca, timida Branca, chora o teu amor profanado! N'esse momento

fatal o anjo da guarda do teu amante velou com as mãos o rosto

celestial, que as lagrimas inundavam, e foi, suspenso n'um raio da lua,

prostrar-se aos pés do throno do Omnipotente!

Entrado na senda da perdição, não havia poder humano que salvasse

Raymundo da condemnação eterna. Tinha vendido a sua alma por um beijo de

fogo, e trocára o paraizo pelo inferno da voluptuosidade. Profanado o

terrivel juramento, o que havia de sagrado para Raymundo? O que

importava a honra de cavalleiro a quem prostituira a santa crença de

seus paes? Apagára-se a candida estrella que o guiava nas trevas da

existencia, e a luz, que o fascinava, scintillava nos olhos negros de

Zoraida, a gentil amaldiçoada. Se tinha reflexos infernaes, tinha tambem

o esplendor prestigioso da tentação sensual.

Desde essa noite ninguem mais soube d'elle. Diziam que renegára, e que,

enlaçado nos braços da musulmana, fechára os olhos á luz do

christianismo, e se arrojára ao abysmo infernal, onde ha o fogo eterno e

o eterno ranger de dentes.

Foram estas as noticias que Branca recebêra, no dia em que fazia um anno

que Raymundo a deixára. Não disse palavra ao receber a nova fatal. Saiu

e caminhou pallida, hirta e vagarosa como estatua adormecida n'um

tumulo, que, obedecendo a feitiço desconhecido, se erguesse do seu leito

de pedra, e se dirigisse muda para o sitio aonde a chamava a attracção

mysteriosa.

Os aldeãos, que a encontravam, paravam para a saudar. Mas ella nem os

ouvia, nem parecia vêl-os. Costumados á amabilidade da fidalguinha,

ficavam os coitados boquiabertos, ao vêrem a desusada distracção. Mas,

se lhe reparavam nas feições demudadas, vendo a pallidez de marmore, os

labios brancos e entre-abertos, os olhos fixos e esgazeados, benziam-se

devotamente, e murmuravam que era mau olhado que tinham dado á menina do

castello.

Assim caminhou até chegar ao sitio do Açude. Ajoelhou junto da cruz, e

um aldeão, que a seguia de longe, viu-a rezar muito tempo, e abraçar os

pés do Crucificado. Depois, chegou á beira do precipicio, e sem

hesitação, sem fraqueza, despenhou-se no abysmo. O corpo gentil

ennovelou-se nos ares, e foi despedaçar-se nas pedras da cascata,

espirrando ondas de sangue que tingiram de purpura o manto de espuma que

envolvia as rochas. As aguas do rio abriram-se para tragar o cadaver, e

depois continuaram indolentes a correr, e a murmurar o seu eterno

cantico, como se não se tivesse escripto alli o epilogo de um drama

desventurado.

O aldeão, que vira de longe a scena fatal, sem poder obstar ao seu

inesperado desenlace, fugiu dando um grito de horror, e foi contar ao

castello o que presenceára. Quem perdeu alguma vez, de modo tão

terrivel, um ente estremecido, avalie a dôr do triste pae de Branca. Eu

não a sei narrar. Sente-a o coração, mas os labios recusam-se a

exprimil-a. Veiu depois gente do castello, e tiraram do fundo do

precipicio o cadaver horrivelmente desfigurado da gentil donzella.

Enterraram os restos d'aquella pobre martyr aos pés do Crucificado, que

ouvira a sua ultima prece, e a quem pedira talvez perdão do crime que ia

commetter. Plantaram ao pé da cruz roseiras e madresilvas, cujo perfume

suavissimo ia levar ao longe a ultima recordação da que tivera na terra

a corôa da innocencia, e tinha agora nos céos a palma do martyrio.»

--Pobre rapariguinha, interrompeu o mestre lagareiro com mostras de

penalisado, dar cabo de si por causa d'aquelle patife!

--Então que quer vossemecê, _sô_ Manoel dos Reis, coisas que acontecem,

tornou o narrador, ninguem póde fugir á boa ou má sina, que Deus lhe

deu. Era aquella a sorte de Branca, havia de cumpril-a.

--Vamos á historia, vamos á historia, bradou José Augusto, com

enthusiasmo! Que fez Raymundo? O que aconteceu a Zoraida? Quero saber

quem é por fim de contas o phantasma do Açude.

«Raymundo, meu fidalgo, não via senão Zoraida n'este mundo. Um capricho

d'ella valia mais do que um mandado de Deus.

Christão tripudiou com a infame sobre a cruz despedaçada do Redemptor;

cavalleiro, quebrou a espada de seu pae para que esse espelho de honra

não lhe reflectisse constantemente toda a hediondez do seu crime,

fidalgo e portuguez, salpicou de lama o brazão de seus maiores, e

abandonou a defeza da patria, quando ella reclamava o auxilio de todos

os seus filhos. Aqui está o que se póde chamar um amor de perdição!

Uma noite chovia agua se Deus a dava, o vento fazia tremer as casas, e

curvava até ao chão os pinheiros agigantados! A trovoada estalava com

medonho estampido, os relampagos cingiam a terra com o seu cinto de

chammas, e os raios vinham de vez em quando, lascando as rochas,

transformar as arvores em archotes colossaes. O temporal era como nunca

se tinha visto n'esta terra, nem nunca mais se tornou a vêr, porque

todos dizem que a procella d'aquella noite era obra de Satanaz. No Açude

principalmente era medonho o aspecto da tormenta. O rio furioso arrojava

borbotões de espuma, que se cruzavam com os raios, que vinham lamber as

rochas com as suas linguas de fogo. Deus me perdôe, mas o temporal de

hoje tem algumas parecenças com a tempestade d'essa noite infernal.

Quer-me parecer que tambem hoje anda fazendo das suas o inimigo do

genero humano.»

Um calafrio de horror correu pela assembléa. Todos se chegaram mais para

o pé do lume, e olharam uns para os outros benzendo-se silenciosamente

ao passo que lá fóra gemia o vento com voz soturna na porta carunchosa

do lagar.

«N'essa mesma noite Raymundo e Zoraida atravessavam a cavallo o

pinheiral que termina no Açude. A reprovada de Deus folgava com noites

tempestuosas, e nunca se sentia tão bem como quando os raios lhe

illuminavam a estrada, e o trovão respondia magestoso á sua voz

blasphema.

--Olha a cruz do nazareno, bradou Zoraida quando chegaram á cruz do

precipicio; não vês, Raymundo, como a chuva açoita irreverente o rosto

do martyr do Calvario! Porque não transforma elle os raios, que fulminam

a cruz abandonada, em cimitarras de fogo que façam rolar a seus pés a

cabeça da condemnada, da filha de Mahomet?

E ella ria,--ria com umas gargalhadas estridentes, que vibravam

sinistras dominando os ruidos da tempestade, e que, repercutidas pelos

echos do abysmo, tinham um não sei quê de infernal. Raymundo estremeceu.

--Não zombes d'esta cruz, respondeu elle com modo sombrio; quando eu era

innocente--e suspirou--vinha aqui ajoelhar muita vez. Não zombes d'esta

cruz, peço-t'o.

Zoraida fitou por muito tempo n'elle o seu olhar aveludado, fascinante,

diabolico e tentador. Era incomprehensivel a magia d'esse olhar, e mais

incomprehensivel ainda o dominio que exercia no moço cavalleiro.

Dir-se-ia que dois sentimentos oppostos combatiam no coração de

Raymundo: de um lado a repugnancia, a rebellião da vontade, do coração,

do espirito contra aquelle demonio oppressor; do outro lado uma

attracção irresistivel, fatal, que o arrastava a seu pesar, e o

prostrava aos pés da musulmana.

Venceu o anjo mau. Raymundo curvou-se sobre o pescoço do cavallo, ebrio

de amor ou de desejos fitou um olhar frenetico nos olhos de Zoraida, e

quando ella, com um sorriso de escarneo, se approximou da cruz, e cuspiu

no rosto do Crucificado!... elle, vencido pelo demonio, imitou-a, rindo

com um riso convulso e doloroso, que fazia horror.»

--Jesus!--bradaram os circumstantes.

O vento abriu a porta do lagar, e á luz de um relampago viu-se o campo

devastado pelo vendaval e inundado pela chuva; um trovão medonho fez

benzer todos, e emmudecer o narrador. Chegaram-se mais ao lume, e

olharam uns para os outros. Estavam todos pallidos e tremulos.

--Aconteceu exactamente o mesmo que aconteceu agora, continuou o João

Moedor com a voz a tremer-lhe um pouco; a luz de um relampago deixou vêr

uma loisa aos pés da cruz, e o nome de Branca inscripto sobre a pedra.

Um trovão formidavel ribombou sobre a cabeça dos dois amaldiçoados, e a

campa estalou como se fosse de vidro. O phantasma de Branca, involto em

candidas roupas, e com a fronte cingida de rosas virginaes, ergueu-se da

sepultura, fazendo recuar Raymundo horrorisado. Este quiz desviar a

vista, e o phantasma seguiu o movimento dos seus olhos; quiz tapar o

rosto com as mãos, e as mãos fizeram-se-lhe transparentes, deixando vêr

ainda a imagem da donzella serena como uma santa, triste como uma

martyr, impassivel como o destino. Quiz enterrar os acicates nos ilhaes

do cavallo, e o cavallo esvaiu-se como fumo, adelgaçando-se, e

escapando-lhe por entre os joelhos, como um pedaço de neve que o sol

derrete nas montanhas. Raymundo deu um grito de horror, e estacou

petrificado.

Então voltou os olhos para Zoraida, e ficou aterrado da transformação da

sua amante. O rosto, cuja belleza o fascinára, fizera-se negro, mais

negro do que o carvão. Scintillavam os olhos como duas brazas, e nos

labios volteava-lhe um sorriso de ironia. O braço assetinado que beijára

tanto, estendia-se para elle terrivel e ameaçador. Raymundo, por um

esforço supremo de vontade, recuou dois passos, mas o braço estendeu-se,

estendeu-se, tornou-se desmesurado e apertou-lhe o pescoço, queimando

como se fôra uma tenaz ardente.

--Não me foges, bradou ella com voz rouca, vendes-te-me a tua alma,

renegado. Segue-me, segue-me. Pertences-me. Vem, que o inferno celebra

hoje o nosso noivado. Os raios são os fachos do hymeneu, e Lucifer o

sacerdote. Vem, é este o leito nupcial.

E, arrastando-o com uma força irresistivel, precipitou-se com elle no

abysmo. Um clarão avermelhado illuminou as aguas da torrente, que

exhalaram um cheiro nauseabundo de enxofre.

Mas o phantasma de Branca ficára ajoelhado aos pés da cruz, implorando o

perdão do condemnado. No rosto de Christo, suavemente illuminado,

resplandecia um vago arraiar precursor da aurora da misericordia.

Apenas Zoraida desappareceu, desfez se o encanto. Serenou a tempestade,

e a brisa perfumada da noite veiu timida brincar nas rosas do tumulo de

Branca.

Mas ainda hoje, em dias de vendaval, se vêem duas sombras terriveis

correndo para o precipicio, uma horrorisada, tremula, arrastada, a outra

com uma alegria feroz no semblante. Aos pés da cruz vem então ajoelhar

uma sombra com o rosto inundado de lagrimas celestiaes.

É que Raymundo ainda está cumprindo as penas do purgatorio, e Branca, o

anjo do Senhor, sem deixar de implorar a misericordia divina para

aquelle que tanto a fez soffrer, mas a quem tanto amou!

* * * * *

--Era inevitavel, disse, rindo, Lucio Valença depois de feitos os

cumprimentos do estylo, eu estava já prevendo que iamos descambar em

plena edade média. O nosso amigo Roberto Soares não póde dispensar-se de

consagrar um vivo affecto ás couraças da sua adolescencia, e ás achas

d'armas da sua creação. Fez-nos voltar para 1830 o nosso bom amigo.

--E não era epocha tão má como isso a tal de 1830, disse Roberto Soares.

Abusava-se do veneno e do punhal e dos solares e das chacaras e dos

cavalleiros que voltavam da cruzada, mas, como dizia Musset, um dos

romanticos do tempo:

Hugo portait déjà, dans l'âme

Notre-Dame,

Et commençait à s'occuper

D'y grimper.

--Não ha duvida, não ha duvida, acudiu o doutor Macedo, e Lucio é de

certo o primeiro a prestar homenagem a essa epocha da potente

efflorescencia litteraria; mas, por Deus, tornou elle interrompendo-se

com espanto, está já vencida a meia-noite; a sr.^a D. Isaura adormeceu!

Era verdade; Isaura, que não tinha de predilecções litterarias senão o

_quantum satis_ para ser senhora da moda, enfastiada já d'estas

repetições de historias phantasticas, resistira um momento ao somno que

a perseguia, mas, quando se entrára na historia dos amores de Raymundo e

Zoraida, fôra a pouco e pouco encostando a cabeça para traz, e

adormecera profundamente.

--Podéra, pensou de si para si o nosso Henrique Osorio, teimando em vêr

em Isaura uma menina toda idealisadora, e capaz de apreciar os mais

elevados prazeres do espirito, podéra! Eu mesmo me vi em ancias para

resistir ao somno. Quem atura hoje um d'estes soláos cançados e gastos

que deliciaram a velha geração, com os seus cavalleiros de armas negras,

e os seus diabos disfarçados em mulheres formosas, e os seus fidalgos

que venderam a alma a Satanaz como na _Dama Pé de Cabra_, de Alexandre

Herculano, ou na _Torre de Caim_, de Rebello da Silva? Isso foi bom no

seu tempo, hoje está longe do maravilhoso moderno, e Isaura, com a fina

intuição do seu juvenil espirito, não pôde commover-se com esses velhos

_trucs_ de magica, resuscitados ingenuamente pelo Roberto Soares para

nos entreter á meia-noite.

Emquanto Henrique Osorio fazia de si para si esse monologo, Leonor

acordava a sua amiga, que, abrindo sobresaltada os olhos, foi acolhida

por um riso jovial de todos os seus companheiros de noitada.

--Venceu-se ou não se venceu? dizia o doutor Macedo. Veja v. ex.^a se

hoje lhe produziu a mais leve impressão a meia-noite, e se lhe deram

muito cuidado os phantasmas.

--Ah! meu Deus, eu peço-lhes mil desculpas, disse Isaura um pouco

envergonhada. É que estou fatigada das noites passadas em claro, porque

o peior não é aqui, o peior é depois quando vou para o meu quarto.

Custa-me a conciliar o somno, e vem ás vezes pesadelos terriveis

perturbar o meu dormir inquieto.

--Minha senhora, exclamou, rindo, o doutor Macedo, nem tudo são rosas no

tratamento de uma enfermidade. Pois v. ex.^a não sabe que são muitas

vezes amargos os remedios salutares? Então julgava que, para ter uma

cura radical, bastava-lhe ouvir aqui lêr contos, n'uma sala confortavel,

cheia de luz, a dois passos do seu papá, e apertando a mão da sua amiga?

Nada! nós aqui doiramos-lhe a pilula. Se depois lhe sente no seu quarto

o amargor, paciencia! Mithridates é de crêr que tambem não achasse aos

venenos o gosto da ambrosia. Afinal bebia-os como quem bebe agua. V.

ex.^a hontem dormiu mal, hoje ha de dormir melhor, d'aqui a dois dias

chega a tornar-se-lhe necessaria uma historia de phantasmas para

adormecer profundamente.

--Ah! doutor, eu ao menos peço treguas. O sr. Henrique Osorio, hontem,

com a sua alameda transformada em cemiterio, e com essa mulher pallida

desenterrada, atacou-me os nervos de tal fórma que fiquei devéras

enferma. Cheguei a suppôr que eu mesma era uma defunta.

O proprio Henrique Osorio é que ficou devéras atordoado! Decidídamente

Isaura não lhe perdoava a creação do typo de Julieta que elle julgava

que tanto devia lisongeal-a. Persistia em acreditar que elle não tivera

outro intento senão o de lhe chamar desenterrada.

--Minha senhora, disse elle, eu sinto realmente profundissimos remorsos

por ter assim concorrido involuntariamente para a magoar. Creia v. ex.^a

que a minha intenção era boa, continuou elle em voz mais baixa; se depuz

a seus pés um ramalhete de goivos em vez de um ramalhete de rosas, foi

porque as flôres funereas eram as unicas que a nossa regra me permittia

que colhesse.

Isaura era _coquette_, e, sentindo n'esta phrase um aroma de galanteio,

vibrou a Henrique um olhar fascinador. N'este momento, porém, o doutor

Macedo levantou-se, e, depois de ter pedido licença para ir accender um

charuto, cantarolou, puxando uma baforada de fumo, com musica

desconhecida, esta quadra de Thomaz Ribeiro:

Trazes agoirento goivo

prezo em negros passadores!

Disse-te acaso o teu noivo

que tinhas novos amores?

--O dr. Macedo, murmurou Isaura, voltando-se para Henrique Osorio com

uma expressão no olhar muito diversa da que primeiro lh'o illuminára, o

dr. Macedo está-me explicando involuntariamente o sentido da sua offerta

do ramalhete de goivos. É um epigramma, sr. Osorio?

--Minha senhora, respondeu Henrique desesperado, estou por tal fórma

infeliz com v. ex.^a! V. ex.^a interpreta de um modo tão singular todas

as minhas palavras, e todas as minhas acções, que desisto de as explicar

de um modo satisfatorio.

Estava verdadeiramente mortificado. Levantou-se comprimentando

seccamente a sua interlocutora. Dirigiu-se a uma janella e abriu-a para

respirar mais á vontade. As reclamações dos circumstantes obrigaram-n'o

a fechal-a de novo. Isto ainda mais o desesperou. Estavam-se fazendo as

despedidas. Leonor, ao passar junto d'elle, disse-lhe com um riso

malicioso, e em voz baixa:

--É para que tu saibas o que valem os galanteios funebres.

--Olha, sabes que mais, Leonorsinha? tornou Henrique bruscamente,

occupa-te das tuas bonecas.

A pobre senhora sentiu a dôr profunda do golpe. Recuou um passo, levou a

mão ao coração, e marejaram-lhe nos olhos duas lagrimas.

--Perdão, menina, acudiu Henrique, caindo em si.

--Estás perdoado, respondeu Leonor com voz fraca, mas... mas como tu a

amas!

Saiu. Se se demora mais um instante, rebentavam-lhe os soluços mesmo

diante de Henrique.

O doutor Macedo, ao passar por diante de Osorio, parou, e disse

declamatoriamente:

_Si je vous le disais pourtant que je vous aime,

Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?_

--Está fallando por enigmas poeticos, doutor, exclamou Henrique

impaciente. Quer fazer concorrencia ao _Diario Illustrado_, ou ao

_Jornal da Noite_?

--Não, disse o doutor, quero apenas dizer, com palavras de Alfredo de

Musset, que passam muitas vezes duas pessoas ao lado uma da outra, sem

saberem os sentimentos que vivem nas suas duas almas, e que, se ousassem

exprimil-os, voariam a encontrar-se.

--A solução no proximo numero, não é verdade, doutor? tornou Henrique,

impaciente.

--Talvez, redarguiu o doutor.

E saiu, ao passo que Henrique Osorio encolhia os hombros com desdem.

* * * * *

Na seguinte noite, antes de chegar a hora fatidica, o doutor Macedo

pediu a palavra.

--Minhas senhoras e meus senhores, disse elle, desenrolando um

manuscripto, se não espero o bater da meia-noite, é porque o romance que

vou lêr precisa de um prologo, e á meia-noite em ponto o que deve entrar

em scena é o elemento phantastico. Seja dito sem envolver nem a mais

leve censura aos illustres preopinantes que se afastaram d'esta regra.

Não é meu este romance, o seu auctor deseja conservar o incognito...

--São prohibidas as substituições, bradou Lucio, rindo, serviço

obrigatorio!

--Mau! Não me interrompam! O auctor é um dos nossos collegas, não direi

mesmo se está presente. Faz o seu serviço, mas provisoriamente quer

conservar a mascara. Ora diz Gennaro na _Lucrecia Borgia_, pouco mais ou

menos, o seguinte: A mascara de uma senhora é tão sagrada como a face de

um homem. É assim ou não é, Soares? É assim, romantico?

--Será, mas o que d'ahi deduzo é que o auctor é uma das nossas amaveis

companheiras de serão.

--As conjecturas são permittidas, mas vae dar a meia-noite, e eu,

conformando-me com os preceitos do regimento, passo a lêr a _Egreja

profanada_.

No meio do mais profundo silencio, em que se sentia a avida curiosidade

dos ouvintes excitada pelo mysterio em que se envolvia o conto, o

doutor, que lia admiravelmente, começou assim:

A Lenda da Meia-Noite · 第 19 / 56 题