I
O meu romance annuncia-se de um modo terrivel. Começa por uma
tempestade. Estou obrigado moralmente a apresentar alçapões,
subterraneos, e donzellas perseguidas. Se não invento por ahi uns quatro
assassinios, estou perdido no conceito de certos leitores!
Tenham paciencia os amadores das _Nodoas de sangue_ e dos _Amantes
infelizes ou as victimas de uma paixão_, mas d'esta vez hão de
contentar-se com um romance bem morigerado, cujos heroes, todos elles
pessoas honestas, não hão de incommodar, em quanto durar o enredo, nem
as partes de policia, nem os regedores de parochia, nem os jovens
advogados, nem as columnas dos jornaes destinadas pelos noticiaristas
aos acontecimentos tragicos do paiz.
Feita esta declaração, vou introduzir os meus leitores... n'um lagar de
azeite, por uma noite tempestuosa de dezembro, quando o vendaval açoita
rijamente os pinheiraes frementes, e os relampagos illuminam com pallido
fulgor as campinas inundadas pelas chuvas copiosas de uma noite de
invernia.
Recresce o temporal. As levadas de agua, engrossadas com as chuvas,
resvalam pelos penedos, despenham se, espadanam, fazem scintillar á luz
do raio doidejantes borbotões de espuma, e arrastam na carreira
vertiginosa as arvores desarreigadas pela força irresistivel do furacão!
N'estas noites, o aspecto ridente dos campos, que a primavera orna com
todas as galas da vegetação, transforma-se completamente. Parece-nos
impossivel que o regato, que havia pouco se espreguiçava voluptuosamente
sobre as campinas esmaltadas, seja agora a torrente impetuosa que
arranca, n'um accesso de furor, as arvores que se miravam descuidosas na
sua limpida corrente.
A mim agrada-me o quadro medonho das furias da invernia! Contemplo com
delicias a physionomia terrivelmente phantastica das planicies e dos
bosques, onde paira, batendo as azas chammejantes, o sinistro archanjo
da tempestade!
São estes os episodios grandiosos do poema da natureza! São estas as
paginas sublimes do livro da creação!
Era uma quinta solitaria nos arredores de Santarem; a casa dos morgados
campeiava orgulhosa e insulada no meio dos campos cultivados, e lá mais
ao longe alvejavam as modestas casinhas do logarejo que se debruçava
curiosamente sobre as aguas do riacho, mirando n'esse espelho
crystallino o seu humilde aspecto, e contemplando depois, á socapa as
pompas quasi feudaes do solar dos descendentes d'algum valentão das
Indias.
Como os gloriosos representantes d'essa familia aristocratica, deixando
a quinta só, estão comendo em Lisboa os seus rendimentos, escusamos de
lhes bater á porta, e, se vos parece, vamos immediatamente ao lagar de
azeite, que não fica muito longe.
A entrada é franca, e a vista da fornalha, sobre a qual está collocada a
caldeira, e onde arde um mólho de lenha, produzindo um bom fogo, claro e
crepitante, tenta devéras o pobre homem, que, todo ensopado, contempla o
lume da fogueira, tão consolador e attrahente em noites de frio e chuva.
Entrámos em boa occasião; o lagar está em plena actividade. Os clarões
indecisos da lareira illuminam um quadro pittoresco e original. Aqui o
_engenho de agua_ gira produzindo um som monotono, que, no meio dos
rugidos da tempestade, similha o resmungar de velha feiticeira por entre
os córos dos archanjos rebeldes em noite de congresso infernal, e,
girando sem cessar, tritura conscienciosamente a azeitona submettida á
sua implacavel pressão. Além as _varas_, subindo e descendo com toda a
regularidade, obrigam a azeitona, já triturada e estendida nas _ceiras_,
a distillar o seu oleo precioso. Mas não se resumem n'estes os trabalhos
do lagar. Quem reconhecerá o azeite n'esse liquido negro que vae
acolher-se silenciosamente na enorme vasilha de barro, a que nos lagares
se dá o nome de _tarefa_? Trata-se de o purificar; vamos ás abluções. O
liquido negro é assaltado repentinamente por um diluvio de agua a
ferver, proveniente da caldeira, que opéra a decomposição com toda a
rapidez. Pelo _inferno_, communicação subterranea que conduz a um vallo
distante, escoa-se a agua negra, que vae terminar ao longe a sua
existencia ignorada, e o azeite, livre finalmente da macula original,
apparece em toda a sua limpidez, em todo o seu brilho, em todo o seu
esplendor.
No centro da casa terrea, o sr. Manuel dos Reis, mestre-lagareiro, chefe
das operações, e supremo dictador n'esta solemne occasião, vigia
attentamente as multiplicadas operações do lagar, em quanto o sr. João
Moedor (assim chamado por causa das importantes funcções que ali
exercia), contempla satisfeito o andamento do _engenho de agua_,
confiado aos seus cuidados.
Os adjunctos d'estes dois chefes, sentados á roda da fogueira, alguns
camponezes de fóra, que tinham vindo para o «cavaco», e que a tempestade
tinha accommettido, os quaes em pé encostados ao cajado ficavam no
segundo plano, e dois rapazes de Lisboa a quem a cortezia aldeã tinha
concedido o logar de honra, eram as restantes figuras d'este quadro.
Os dois lisbonenses merecem uma descripção especial.
Chamava-se o primeiro José Augusto de Albuquerque. Alto e elegante,
pallido, d'esta pallidez ardente, que é quasi sempre symptoma de uma
imaginação exaltada, revelava no fulgor desusado dos olhos,
scintillantes como dois diamantes negros, o ardor d'aquella organisação
sympathica, que devia ser ou a de um grande poeta, ou a de um grande
doido, se estas duas idéas não são synonymas, segundo a opinião de muita
gente. As olheiras fortemente accentuadas, e que pareciam crestadas pela
ardente irradiação das pupillas, acabavam de dar a esta physionomia um
cunho original, romantico emfim, _tranchons le mont_, porque devo
confessar que o meu heroe tem todas as apparencias de um typo de
romance, apesar de ser tão verdadeiro como... o orçamento portuguez.
O companheiro de José Augusto formava com elle um perfeito contraste. Se
as centelhas de intelligencia, que se escapavam dos olhos negros de José
Augusto, revelavam uma organisação em que o espirito predominava, em que
_l'âme_ dominava _la bête_, para me servir da classificação de Xavier de
Maistre, a luz fria e sem expressão, que brilhava nos olhos azues do seu
companheiro, dava a conhecer a beatifica indifferença do adorador da
materia. N'um a estatua delicada e quasi feminil denunciava a fina
constituição de uma natureza naturalmente aristocratica; no outro a
obesidade das fórmas dava idéa do Sancho Pança de Cervantes, ainda que a
alta estatura mostrasse que esta nova edição do governador da Barataria
era feita n'outro formato. N'aquelle os movimentos altivos da cabeça, o
modo enthusiastico com que atirava para traz as ondas lustrosas da sua
negra cabelleira, indicavam bem as aspirações elevadas de um coração a
trasbordar de poesia e de generosidade; n'este os gestos pacatos, e as
suissas loiras que flanqueavam serenamente uma cara de lua cheia,
mostravam o genio bonacheirão do homem que não pensa senão no modo de
conservar sempre, em bom estado, a sua economia animal, satisfazendo as
reclamações incessantes de um estomago insaciavel.
O primeiro era, como disse, José Augusto de Albuquerque, rapaz com
alguns vintens, que viajava para se divertir. O segundo era o sr. John
Williams, inglez ingenuo e bem morigerado, que aguentava uma boa dóse de
garrafas de vinho sem vacillar, que bebia exactamente o que ganhava n'um
escriptorio de negociante, e que, apaixonado por viagens, como todo o
bom inglez deve ser, tinha pedido licença de um mez para acompanhar o
seu amigo José Augusto n'uma excursão á Extremadura.
No momento em que entrámos, reinava um profundo silencio. Lá fóra os
rios, que a chuva fazia ferver em cachão, resaltavam sobre os rochedos
com um estampido formidavel; as rajadas da ventania, batendo com furor
de encontro á porta, faziam-n'a ranger, e abriam-n'a de vez em quando,
arrojando torrentes de chuva para dentro do lagar. A voz da procella ora
se assimilhava aos rugidos blasphemos do anjo das trevas, ora, plangente
e soturna, imitava os gemidos das almas penadas, que vagueiam na terra
pedindo aos vivos orações. O trovão, ribombando no espaço, dominava, de
vez em quando, com a sua voz magestosa, o pavoroso ruido da tempestade.
Havia harmonias sublimes n'aquella desharmonia apparente; era selvatica
mas grandiosa a immensa orchestra do temporal.
--Santa Barbara nos acuda, murmurou devotamente o sr. Manuel dos Reis,
tirando o seu barrete azul, já bastante azeitado, no momento em que um
trovão formidavel fazia benzer todos os circumstantes--S. Jeronymo te
afaste, ruim trovoada, de todo o povoado onde haja almas christãs.
--Amen, resmungou em côro a companha aldeã.
--E temos a chuva pegada, que não ha que esperar senão uma noite de
agua. O vento puxa por ella que é um regalo, tornou o mestre-lagareiro,
quando o terror produzido pelo trovão se dissipou um pouco mais. Ah! meu
fidalgo, v. s.^a querer metter-se a caminho por uma noite d'estas é
mesmo tentar a Deus!
--Deixal-o, tornou o interpellado, que era o nosso amigo José Augusto de
Albuquerque, sabe você, sr. Manuel dos Reis, que eu gósto de noites
assim? Que diabo! quando atravesso a galope a clareira de um bosque
inundado pela chuva, e que vejo, á luz do relampago, as arvores nuas de
folhas estenderem-me os braços descarnados, e formarem em torno de mim,
guiadas pelo furacão, danças phantasticas e extravagantes, imagino vêr
as danças da meia-noite, travadas pelos espectros nos cruzeiros dos
cemiterios, e, lembrando-me dos contos lindissimos que a minha ama me
contava quando eu era pequeno, chego a acreditar na sua realidade, e
acho prazer n'aquillo. Então que quer?
--Arreda!--bradou o João Moedor, coçando a cabeça e fazendo ao mesmo
tempo um gesto de susto, sempre v. ex.^a diz coisas que fazem arripiar
os cabellos á gente. Gostar v. s.^a de vêr dançar as aventesmas as suas
danças malditas, como o meu compadre viu com os seus proprios olhos na
noite de S. Bartholomeu, em que anda o diabo solto, como vocemecê ha de
saber. Safa! Era capaz de seguir o phantasma do Açude até ao seu
esconderijo infernal.
--O phantasma do Açude! O que é isso, o que é isso, ó sr.
João?--perguntou José Augusto com a maior curiosidade.
--Historias da vida, meu fidalgo, retrocou o sr. Manuel dos Reis, é este
diabo do João Moedor que não sabe fazer outra coisa senão contar contos
da carochinha. Bom estavas tu, meu rapaz, para mestre-lagareiro! Andas
com a cabeça a rasão de juros a pensar lá n'essas _maniversias_,
deixavas ir o azeite pelo _inferno_ abaixo, e nunca eras capaz de pôr o
_espicho_ a tempo e a horas. Sempre estás um massador!
--E é verdade, sôr Manuel dos Reis. Este João Moedor não faz senão moer
a paciencia á gente, tornou um camponez que estava ao pé da porta,
encostado com toda a denguice ao seu varapau.
Todos se riram do _calembourg_ aldeão, e o sr. João Moedor esteve algum
tempo sem poder fallar no meio dos motejos e das risadas da turba
campesina. Finalmente:
--Leva rumor!--bradou elle. Com que então, sô Zé do Moinho, acha você
que eu môo a paciencia á gente, hein! Você não acredita n'estas coisas,
apesar de eu ter visto muita vez sua tia andar por cima da folha, e
correr por cima das latadas para ir ter com seu compadre _Berzabum_! E
ainda não estou muito certo se não é você, sô cara de não sei que diga,
que anda a horas mortas a cumprir o seu fado, feito burro, por esse
mundo de Christo, como fazia seu avô que foi lobis-homem, segundo diz a
gente antiga cá da terra.
A victoria ficou d'esta vez ao novo campeador. Os motejos dirigiram-se
todos para o sr. Zé do Moinho, que quiz replicar enfurecido, mas que se
viu obrigado a metter a viola no sacco, e a ficar de cabeça baixa a um
canto. O triumphador havia pouco era agora humilhado. _Sic transit
gloria mundi_!
--Conte lá a historia, ó sr. João, que aqui tem você um ouvinte que não
é capaz de duvidar da veracidade das suas palavras--tornou José Augusto
com a curiosidade a revelar-se-lhe nas feições.
--Tem v. s.^a muita rasão, meu fidalgo, retrocou o João Moedor com modos
de triumpho, e com perdão de vocemecê, sôr Manuel dos Reis, sempre lhe
direi que a historia do phantasma do Açude não é conto da carochinha. Em
noites assim de temporal, quando o rio engrossado pela cheia, ceifa os
pinheiros mais taludos como eu ceifaria uma espiga de trigo no tempo da
monda, não é cá o rapaz que se atreve a passar ao pé do Açude, sem se
benzer quatro vezes, e sem fechar os olhos para não vêr a melancolica D.
Branca. E não é só a mim que isso acontece; o mais pimpão do sitio
tremia, como varas verdes, se se visse obrigado a passar a estas horas
por aquelle sitio amaldiçoado, a não ser o _Come-bichos_, que vendeu a
alma ao diabo. Deus me perdôe se minto; mas o maldito tem mesmo cara de
condemnado. E conheço eu alguns que se fazem muito valentes quando estão
bem acompanhados, e que não eram capazes de passar sósinhos por ao pé do
Açude, nem que lhes dessem todos os thesouros encantados do imperador da
Moirama.
Esta ultima allusão ia evidentemente com sobre-escripto para o Zé do
Moinho; a resposta d'este (se por acaso elle tencionava responder), foi
abafada pelas acclamações dos restantes, que applaudiram o orador,
bradando em côro:
--Tem rasão! É uma heresia duvidar d'estas coisas! O João fallou bem.
Tem uma linguinha de oiro, este moedor!
O distincto orador comprimentou modestamente os seus amigos politicos
pela ovação que fizeram ao seu estiradissimo discurso, e que impacientou
apenas o Zé do Moinho, que era da opposição, José Augusto de
Albuquerque, que estava desejoso de conhecer a lenda, e o leitor, que
talvez nem esteja para a ouvir.
--Vamos á historia, vamos á historia, bradou José Augusto, todos lhe
prestamos attenção, e acreditamos em tudo quanto você disser, como os
mahometanos na missão do seu propheta.
Ninguem comprehendeu a comparação: por conseguinte todos ficaram fazendo
uma elevadissima idéa da erudição de José Augusto. João Moedor piscou os
olhos, e bradou com enthusiasmo:
--Fallou que nem um livro. Pois então já que tanto aperta, lá vae a
historia.
Todos se chegaram uns para os outros, e João Moedor começou no meio de
um silencio solemne a sua narração.
Chegado a este ponto, Roberto Soares interrompeu-se, e, levantando os
oculos, disse para os seus ouvintes:
--Não me responsabiliso pela verdade do modo de dizer. José Augusto, que
tinha o desagradavel sestro de fazer estylo, quando me contou a
historia, transfigurou completamente a expressão do narrador da aldeia.
Comtudo asseverava-me elle que o estylo do camponez tinha uma certa
elevação.
--Siga, siga, acudiu o doutor Macedo. José Augusto é o seu Jedediah
Cleishbotham, já vêmos. Era moda no seu tempo, como as epigraphes.
Roberto Soares riu-se e continuou da seguinte maneira:
Ha de haver um par de annos, muito antes do terremoto, e talvez antes
que tivessem nascido os paes dos nossos bisavós, governavam os moiros a
maior parte da nossa terra abençoada. Segundo eu ouvi contar ao nosso
padre prior, que Deus haja, dava-se e recebia-se muita lançada antes que
a bandeira de Christo fluctuasse triumphante nas ameias das fortalezas.
Cada palmo de terra conquistado aos cães dos sarracenos era regado por
muito sangue, e muitos cadaveres dos nossos antepassados adubaram a
terra, antes que os seus descendentes podessem fazer em paz a semeadura
e a colheita. Era mau tempo aquelle. Mas Deus e Santiago eram por nós, e
os esquadrões cerrados dos cavalleiros de Christo levaram sempre de
vencida as hostes aguerridas dos perros amaldiçoados.
Como dizia o padre prior, os pergaminhos d'esses fidalgos, que por ahi
andam tão orgulhosos da sua inutilidade, foram sellados com o sangue de
seus antepassados nos campos de batalha, em que se comprou bem cara a
independencia portugueza. Deshonrado seria para todo o sempre o fidalgo
portuguez que não envergasse as armas ao sair da infancia, e não
luctasse incessante a favor dos opprimidos até cair no campo da batalha
amortalhado na sua armadura de ferro. Repousem em paz nas campas os
ossos d'esses valentes.
--O João Moedor sempre tem uma cachimonia de truz, resmungou á parte o
Manuel dos Reis; onde elle vae buscar tudo isto!
--O que elle é, é um papagaio, murmurou o Zé do Moinho, não faz mais do
que repetir tim tim por tim tim o que ouviu ao nosso antigo padre prior.
--N'esse tempo, continuou o João Moedor sem reparar na interrupção,
viviam aqui n'este sitio dois fidalgos velhos, que, depois de terem
ganho muitas cicatrizes, e creado muitos cabellos brancos no seu luctar
incessante contra o poder da Moirama, tinham vindo descançar na paz dos
seus castellos das lides gloriosas em que haviam dispendido a sua
existencia inteira. Não porque lhes faltassem valor e bons desejos; mas
a edade tudo gasta, e os corpos alquebrados dos bons cavalleiros já
vergavam ao peso da armadura, e a voz implacavel da velhice advertiu-os
que cedessem o logar a novos e mais vigorosos campeões. Penduraram na
sala de armas dos seus castellos as valentes espadas, e, sentados ao
canto da lareira, esqueciam o peso dos annos com as gratas recordações
das suas façanhas d'outr'ora.
Ao mais velho dos dois; Inigo Paes, concedêra o céo um filho; Raymundo
se chamava elle. Era a delicia do bom velho rever no esbelto mancebo a
risonha imagem da sua mocidade. Vendo-o crescer em annos, em vigor e em
destreza, consolava-se o valente cavalleiro, esperando que Raymundo não
deshonraria, nas fileiras portuguezas, o nome venerando que elle proprio
tinha conquistado. Esperava com anciedade que seu filho completasse os
dezoito annos para lhe cingir a espada, afivellar-lhe o arnez, e
dizer-lhe, apontando lhe o campo da batalha: «Vae, é esse o caminho da
gloria»
E tinha rasão em se gloriar de ter um filho assim. Ninguem meneava com
mais garbo e destreza um cavallo fogoso, ninguem manejava com mais vigor
o pesado montante, ninguem mostrava mais ardor guerreiro, quando o pae,
sentado no salão do castello, contava aos rapazes, anciosos de
aventuras, os feitos de armas dos velhos campeadores. E se Raymundo dava
esperanças de ser um rude lidador, nem por isso deixava de ser o mais
gentil mancebo d'estas cercanias. Alto e elegante, se os seus olhos
negros quizessem fallar de amor, não havia dama que se não rendesse, nem
coração feminino que escutasse insensivel os seus protestos enamorados.
Mais de uma altiva castellã apparecia na varanda do seu solar para vêr o
elegante Raymundo correr a cavallo por essas campinas. Mas que
importavam ao filho de Inigo Paes todas as castellãs do mundo se tinha o
coração já preso, e se Branca, a ingenua Branca, lhe conquistára o
affecto, e accendera nos seus olhos a chamma ardente do primeiro amor?
Branca era filha do companheiro de armas de Inigo Paes; grande
desconsolação tivera elle, vendo-se viuvo em edade avançada, sem ter um
filho a quem podesse transmittir a sua herança de gloria. Muitas vezes,
ao vêr a filha a doidejar na varzea, como gentil borboleta esvoaçando
por entre flôres, se lhe enrugava a fronte, e duas lagrimas de tristeza
deslisavam pelas faces crestadas do velho soldado. Mas a sombra ligeira,
que lhe annuviava o gesto, dissipava-se promptamente com as caricias
affaveis da gentil donzella. Quem poderia resistir á influencia
d'aquelle anjo de candura, loiro e rosado, como as imagens seductoras
dos cherubins que cercam a Virgem Nossa Senhora na pintura do altar-mór
da freguezia!
Branca e Raymundo conheciam-se e amavam-se desde creanças. Juntos tinham
crescido, juntos tinham doidejado n'estas campinas, e, sem que nunca a
palavra _amor_ fosse pronunciada, tinham apesar d'isso consagrado um ao
outro um affecto que a edade fôra desenvolvendo. E era um par galante a
mais não poder ser. Quando Branca, fatigada de correr atraz de uma
borboleta, vinha, com as faces vermelhas como duas rosas, os olhos a
brilharem de alegria infantil e as loiras tranças fluctuando em ondas
doiradas sobre os seus hombros de neve, refugiar-se nos braços de
Raymundo, e encostar o rosto encantador nas faces levemente morenas do
gentil fidalguinho, todos os que os viam paravam extasiados, e faziam
votos pela felicidade d'aquelles anjos de innocencia e de candura.
Chegou finalmente o dia em que Raymundo completava dezoito annos, e em
que, para não desmentir as gloriosas tradições da sua raça, devia cingir
a espada, e ir aos campos de batalha pagar á patria e á santa religião
dos nossos paes o tributo de sangue, que devia ser pago por todos os que
se prezavam de christãos fieis, e portuguezes leaes.
No dia fixado para a partida de Raymundo, encontraram-se os dois
namorados no sitio do Açude. É um sitio medonho, como v. s.^a ha de
saber; um pinhal sombrio, que vae terminar á beira de um precipicio, no
fundo do qual o rio faz mugir, espadanando nos rochedos as suas aguas
turvas e espumantes. Mas n'esse dia o sol estava brilhante, e dava a
esse quadro medonho o mais ridente aspecto. Os pinheiros, illuminados
pelos raios de um sol de agosto, pareciam frechas doiradas que mão
occulta arrojava ao céo limpido e azul de um bonito dia de verão. Cada
gotinha de agua parecia um espelho que reflectia a imagem brilhante do
sol de Portugal, e o rio scintillante e espumoso parecia arrastar na
corrente palhetas de oiro e prata. Gorgeiavam os passaros na floresta, e
tudo dizia contentamento, quando os corações de Branca e Raymundo
sómente sentiam tristeza e desesperação.
Branca vinha triste, triste como a rôla namorada que vê fugir para
longes terras o escolhido do seu coração, e pallida como a açucena
batida pelo vendaval. Mas que bem que lhe ficava aquella pallidez, e
como a alvura da face realçava a côr negra das roupas que vestira em
signal de luto e de saudade! O brilho dos olhos, empanado pelo pranto
que tinha derramado, parecia ainda mais suave e meigo, e os loiros
cabellos, caindo-lhe ao desdem sobre o pescoço deslumbrante de brancura,
faziam-n'a assimilhar á imagem da Virgem que está pendurada na sala do
presbyterio, e que o senhor padre prior dizia ser copiada de um quadro
pintado por um italiano chamado Raphael.
Chegou, e ajoelhou aos pés de um crucifixo, que então existia n'aquelle
sitio; porque n'esses tempos de fé viva, a imagem do Crucificado
apparecia em toda a parte para acolher em seu seio misericordioso as
orações dos fieis. O sol tinha surgido havia pouco do Oriente, e a
oração da candida virgem, pura como a rosa que abre o seio ao primeiro
alvor da madrugada, foi, perfume singelo, de fé e de innocencia,
conduzida pela brisa aos pés do throno do Senhor.
Quando se levantou viu Raymundo em pé diante d'ella, de cabeça
descoberta, pallido e mal podendo conter as lagrimas que lhe bailavam
nos olhos.
--Raymundo, disse ella desatando a chorar, e escondendo a cabeça no
peito do mancebo, não me deixes!
--Não posso, Branca, tornou elle, apertando-a ao peito com anciedade; o
que pensariam de mim o rei, os ricos homens e os villões, se preso nos
teus braços me esquecesse do que devo a mim, ao rei e a Deus? Era um
nome deshonrado o nome de teu esposo, Branca, e não m'o podias acceitar.
A espada de meu pae, que outr'ora brilhou ao sol das batalhas com
deslumbrante fulgor, não póde jazer inerte a um canto do meu solar, em
quanto as achas de armas dos meus compatriotas escrevem nas paginas de
pedra, das fortalezas moiriscas, a historia sanguinolenta da
ressurreição dos godos. Bem vês, Branca, é um penoso dever; mas devo
cumpril-o.
--E o nosso amor, Raymundo!--balbuciou a donzella, afogada em lagrimas.
--Oh! cala-te, Branca, não vês que me despedaças o coração? Queres que
eu perca o animo, queres que o puro azul dos teus olhos me faça esquecer
que existe outro céo, outra ventura que não seja o teu amor, outro dever
que não seja o adorar-te? Não, Branca, não ordenes a minha deshonra; a
tua imagem seductora será a estrella que me ha de guiar no caminho da
gloria. Quaes serão as façanhas para mim impossiveis, pensando que o teu
sorriso será a recompensa do meu valor, e que será a tua mãosinha branca
e mimosa que me ha de limpar na fronte o suor dos combates e das luctas
sanguinolentas?
--Mas quem sabe, Raymundo, tornou Branca, erguendo para elle os olhos
radiantes, ainda humedecidos das lagrimas que derramára; quem sabe se
n'esses paizes longiquos não encontrarás alguma formosa dama cujos
encantos te farão depressa olvidar a imagem da triste Branca, que dizes
ter gravada no coração? Oh! meu Deus, que horrivel idéa! Se tu me
esquecesses...
--Que fazias, Branca?
--Morria!--tornou ella com resolução.
Raymundo apertou-lhe a mão e levou-a ao pé do crucifixo. Alli, erguendo
os olhos para o rosto divino do Christo crucificado, bradou com voz
solemne e altiva:
--Juro diante de Deus que morreu pregado na cruz para remir os homens do
peccado original, juro guardar-te sempre fé inteira e immutavel, como te
juraria se um sacerdote nos abençoasse ao pé do altar. És minha esposa
diante de Christo. Cáia sobre mim a vingança do céo se atraiçoar o meu
juramento.
--Oh! obrigada, Raymundo, obrigada, clamou a donzella, lançando-se com
immenso ardor nos braços do mancebo e derramando copiosas lagrimas;
tambem eu juro amar-te sempre, meu Raymundo, amar-te com inalteravel
constancia, não viver senão com a tua imagem, não pensar senão em ti,
meu unico amor. E agora parte, accrescentou ella, erguendo-se com
inesperada resolução, vae conquistar um nome glorioso; a benção de Deus
vae comtigo, porque os nossos anjos da guarda, abraçados e de joelhos ao
pé do throno do Senhor, rogarão a Deus que proteja os esposos, cuja
união foi abençoada pelo Crucificado, saudada pelos canticos da
alvorada, perfumada pelos thuribulos das flôres, illuminada pelos raios
do sol nascente!
Raymundo apertou-a ao peito com enthusiasmo; deu-lhe na fronte, com
timidez, um beijo, e montando n'um cavallo que o esperava a pouca
distancia, seguro por um pagem, partiu, dizendo com ardor:
--Adeus, minha gentil esposa!
--Adeus, meu adorado esposo!
Estas palavras pronunciára-as ella, caindo ajoelhada aos pés da cruz. O
perfume das flôres, o canto dos passarinhos, o rumorejar das folhas, a
luz pura e serena do sol, tudo parecia abençoar o seu amor. Unicamente
no momento da despedida, uma nuvem ligeira passou por diante do astro do
dia e offuscou-lhe um pouco o brilho.
Ai! Branca, timida Branca, nos momentos de felicidade uma ligeira nuvem
é indicio temeroso de tempestade!