I
Corre socegada a noite, mas não brilha a lua no céo a espargir
tristezas, escondendo um devaneio, um sonho de poeta em cada uma das
pregas da sua candida tunica; scintillam apenas as estrellas no véo
escuro do firmamento.
Formosas são as noites estrelladas, mas não teem a suave melancolia das
noites de luar; enleva-se-nos o espirito ao contemplar essas myriades
d'orbes luminosos; porém os raios da lua teem uma linguagem mysteriosa
que nos falla ao coração.
Quando no véo nocturno brilham sem rivaes as estrellas, como que
percebemos a magestosa melodia das espheras; mas, quando a lua illumina
a terra com a sua doce luz, ouvimos então no espaço vagos canticos de
saudade, suspiros de virgem enamorada, canto de pescador que se perde ao
longe nas ondas, toada de pegureiro, que vem desfallecida expirar no
nosso ouvido, intimas melodias, que nos dizem: «amor e tristeza.»
Porque as estrellas são desdenhosas rainhas d'outros céos, sóes de
outros mundos, que nos enviam, como que por descuido, um signal de sua
grandeza, um tenue raio da sua immensa luz, em quanto a lua é a
extremosa amante, que prendeu á nossa a sua existencia, a companheira
que nos segue incessantemente n'essa viagem sem fim, que emprehendemos
pelo espaço.
As estrellas tornam mais profunda a solidão, e mais espessas as trevas.
Os bosques, os valles, as montanhas conservam-se envoltos n'um véo
sombrio, por mais que os raios dos sóes da noite se esforcem por
penetrar na escuridade; as ondas baloiçam com indifferença os seus
reflexos, e não fazem caso das palhetas doiradas que avivam aqui e ali a
candidez da sua fimbria espumosa.
Mas, quando surge a lua, a natureza anima-se. Desperta a viração nos
antros perfumados das florestas, que exhalam vivissimos aromas. As fadas
vem pentear as suas loiras tranças no espelho das fontes, cuja
crystallina superficie palpita de prazer. Jorram torrentes de prata pela
falda dos montes, scintillam diamantes na folhagem das arvores. Erguem
se as ondas em vago enleio de voluptuosidade, como seio de virgem que
arfa pela vez primeira. Rescende o meigo perfume no thuribulo da
violeta. Rescende a saudade no thuribulo do coração.
As estrellas são os anjos de Deus, que entoam lá ao longe, nas
profundidades do Empyreo, o hymno ás glorias do Eterno; a lua é o
archanjo consolador que presta um ouvido compadecido aos lamentos da
humanidade.
As estrellas são os candelabros de oiro, que ardem constantemente diante
do throno do Altissimo; a lua é a urna argentea onde se transformam as
lagrimas dos que soffrem em perolas, que os anjos entornam no regaço do
Omnipotente.
As estrellas são o enlevo do philosopho, a lua é enlevo de poetas.
Porque as estrellas revelam o poder de Jehovah, a lua a caridade do
Redemptor.
Mas vae a noite socegada, e a luz dos fachos da abobada celeste
scintilla frouxamente na face adormecida do mar. As vagas erguem-se
vagarosamente, enroscam-se a pouco e pouco, caminham em longa fileira
para as praias, e alastram no areial o seu manto escuro.
Negra, bem negra está a superficie do Oceano; os raios das estrellas,
naufragos luminosos, debatem-se com as ondas, que mal conseguem doirar.
Do seio d'essas trevas sae um gemido cavernoso. É a voz eterna do
liquido leão, é o rugir tranquillo mas terrivel do monarcha da
immensidade.
Não param as vibrações nas espumosas cordas da harpa dos abysmos; ora
plangente, ora formidavel, o cantico incessante resôa no espaço.
E que diversidade de vozes não ha n'esse concerto immenso! o magestoso
ruido das ondas ao assoberbarem-se lá no mar alto, o grito que resulta
do embate de dois d'esses colossos que se encontram, o uivo de raiva que
soltam quando espadanam nos rochedos da praia, o suspiro amoroso que
desprendem ao beijarem o areial, o murmurio palreiro das gottinhas de
agua ao despedirem-se a custo das conchas das ribas, o lamento que
exhalam ao açoital-as o vento, tudo isto se resume n'um hymno sublime,
intraduzivel, como os poetas os sonham, mas não escrevem.
Ó mar! A opulenta imaginação da antiguidade grega povoou de sereias as
tuas ondas, poisou no cimo d'estas o velho Glaucus, com as suas barbas
limosas, com a sua voz aterradora, poisou no teu leito de espuma ora a
rosea concha Acidalia em cujo seio se abrigava a candida Aphrodite, ora
a seductora Lamia, ora as horriveis Gréas, e nem assim conseguiu
traduzir o indizivel encanto com que nos attraes, e o vago terror que
nos incutes, a suavidade da tua voz, e a selvagem energia dos teus
hymnos! Ó mar immenso, que lyra infeitiçada te deu o Senhor, de que
mysteriosa seducção impregnou as tuas solidões?
Assim perdido nas trevas como é magestoso o Oceano! Nem uma véla se
distingue na immensidade solitaria! Ainda n'aquelle isolamento, não
descontinúa o fadario das ondas! Vão, vem, atropellam-se, espraiam-se,
beijam se, desmaiam, agitam-se, revolvem-se, cantam, suspiram, e, lá ao
longe talvez, algum scismador, encostado ao peitoril da sua janella, ao
ouvir aquelle ruido ineffavel, pensa na eternidade, e em Deus!
Comtudo bem junto da praia, a pouca distancia de uma casa cuja fachada
branca mira silenciosa a eterna agitação do Oceano, que envia ás vezes,
de enamorado, uma das suas ondas a beijar-lhe os pés, baloiça-se
indolentemente uma barca, onde dorme um pescador, cujo somno é
acalentado por esse murmurio suave.
As ondas embalam tão docemente o bote, como carinhosa mãe póde embalar o
berço do recem-nascido.
A uma das janellas que se rasgam na fachada branca da casa da praia,
encosta-se um vulto de mulher. Em baixo está um outro vulto varonil e
elegante. Ouve-se, por entre o concerto das vagas, o mysterioso segredar
de duas vozes.
Leandro e Hero, Rosina e Almaviva, Julieta e Romeu!
O bramir do mar abafa o manso ruido das vozes. Mas o rugido do Oceano, e
o flebil sussurrar dos namorados chegam, em murmurio egual, ao throno do
Omnipotente: porque são duas notas do hymno immenso do Universo, que se
resume n'uma palavra «Amor.»