Roberto parou um momento como se se sentisse opprimir pela recordação
terrivel d'essa noite.
--Pouco mais lhes posso dizer, meus senhores, sei apenas que no dia
seguinte acordei no meu leito, e que estive sériamente doente. Apenas me
restabeleci corri á travessa do Moreira.
Da casa de Julieta nem signaes! Tudo desapparecera.
Julguei que fôra victima de uma allucinação, mas ainda hoje se me
representam tanto ao vivo as scenas, a que assisti, que não posso
admittir a possibilidade d'essa hypothese.
D'ahi por diante nunca mais tive felicidade! Em pouco tempo gosei e
padeci muito. As fibras da minha alma sujeitas a uma fortissima tensão
quebraram-se, e hoje vivo n'uma incrivel atonia.
A senhora, com quem minha familia me queria vêr casado, desposou um
homem menos imaginoso do que eu, que a estremece, e a quem ella estima.
Tem dois filhos, que são a alegria da casa e o enlevo dos paes.
A minha imaginação desregrada deixou-me isolado no mundo.
Roberto calou-se. Todos nós ficamos silenciosos, impressionados por essa
lugubre historia. Mas Frederico abraçando sua mulher, e dando-lhe um
beijo na testa, disse para Roberto:
--As aspirações da alma têm um limite, que não podem ultrapassar. No céo
da felicidade ha espheras inaccessiveis onde a natureza humana desmaia,
prostrada pela vertigem. Na familia, meu amigo, resume-se a suprema
ventura. É prosaica unicamente para os que a não comprehendem. N'esses
amores ideaes chega o homem a pontos, em que para me servir das phrases
do sceptico Musset:
Où le vertige prend, où l'air devient le feu,
Et l'homme doit mourir où commence le Dieu.
* * * * *
Quando Henrique Osorio acabou de lêr o seu improvisado romance,
applaudiram-n'o fervorosamente os seus indulgentes ouvintes. Só Isaura
bocejava de um modo notavel.
Henrique mordeu os labios um pouco raivoso, e, inclinando-se para ella,
disse-lhe ironicamente:
--A nossa idéa foi soberba, minha senhora; se não cura dos terrores, que
sentem as pessoas nervosas, ao menos concilia-lhes o somno que affugenta
os phantasmas.
--Ah! não, sr. Henrique Osorio, respondeu Isaura; a sua idéa acho-a cada
vez peior. Vejam se é admissivel fallar-se aqui em cemiterios á uma hora
da noite. Eu, se estou assim mais tranquilla é porque a Leonor me
prometteu que dormia no meu quarto.
--É contra os regulamentos, bradou o doutor Macedo. A sr.^a D. Isaura
está illudindo a receita.
--Meu Deus, doutor! exclamou Leonor alegremente. Os regulamentos
cumprem-se assim de um modo feroz. Não vê que eu vou passar a noite com
uma mulher pallida? Depois de ouvir o romance de Henrique, deve
confessar que é necessario ser-se heroina!
--É verdade, exclamou Isaura, o sr. Osorio tratou bem as pallidas! No
seu entender mulher pallida só póde ser mulher desenterrada. Muito
agradecida.
--Mas, minha senhora... balbuciou Henrique.
--Aquillo são reminiscencias de Lisboa, Isaura, exclamou Leonor, rindo.
Quiz-se vingar de alguma pallida que o magoou.
--És maldosa, Leonor, murmurou Henrique ao ouvido da sua amiga de
infancia.
--É para te ensinar a fazer declarações mais habeis, disse-lhe Leonor
tambem ao ouvido. Isaura levantára-se para ir ter com seu pae.
--Então o meu romance é uma declaração? tornou Henrique.
--O teu romance é uma loucura. Estás engraçado com as tuas idealisações
constantes. Queres mulheres sobre-naturaes, entes phantasticos, damas
brancas de Avenel! Se achas que é lisongeiro para uma mulher perder a
sua realidade para agradar ao homem que diz amal-a, morrer primeiro para
ser depois desposada por elle em fórma espectral, como no _Noivado do
Sepulchro_, de Soares de Passos...
E a maliciosa rapariga recitou, zombeteando:
E ao som dos pios do cantor funerio,
E á luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro sepulchral mysterio
Foi celebrado de infeliz amor!
--Então, menina! exclamou Isaura, lá de longe. Olha que eu não vou
sósinha para o quarto.
--Ahi vou, querida, ahi vou!
E Leonor, deitando a Henrique um olhar malicioso, foi ter com a sua
amiga.
--Então, sr. Roberto Soares, disse o doutor Macedo emquanto pegava no
castiçal para se dirigir para o seu quarto, porque, n'essa noite de
temporal, nem os visinhos tinham podido recolher a suas casas; então,
sr. Roberto Soares, a sua composição caminha? Olhe que é ámanhã a sua
vez.
--Que lhe hei de eu fazer? Cá me vou apressando, tanto quanto posso.
Metti-me em boa, não ha duvida. Já não estou para estas folias. O viver
da provincia enferruja. Ámanhã os rapazes vão rir-se de mim.
--Veremos isso! redarguiu Henrique Osorio, sorrindo amigavelmente. Eu
preparo uma pateada.
Roberto Soares affastou-se, rindo, e o doutor Macedo, accendendo um
charuto, disse para Henrique Osorio:
--Sabe o que lhe digo, Henrique? Você é uma creança. Anda todo enlevado
na pallidez e nos terrores nervosos de Isaura, que é uma tola com
bonitos olhos, e não repara que ha por estas serranias uma rapariga, uma
perola, que se fina por você.
--Por mim?! Quem me faz essa honra? exclamou Henrique, fazendo se
córado.
--Quem tem olhos para vêr, veja; quem tem ouvidos para ouvir, oiça; e
quem tem somno para dormir, durma; respondeu gravemente o doutor Macedo.
Boas noites.
E partiu, deixando ficar Henrique pasmado. Este demorou-se por alguns
instantes a ouvir o temporal que rugia com violencia, e a contemplar com
tristeza o sitio onde estivera sentada Isaura. Depois, soltando um
suspiro, saíu da sala.
* * * * *
Devo dizer que no dia seguinte as impressões foram muito menos profundas
que na vespera. A noite estava mais socegada; caçára-se pela manhã.
Estivera bonito o dia, cortado apenas por alguns chuveiros. Comtudo,
quando deu a meia-noite, correu um frémito por todos os ouvintes.
Estabeleceu-se um profundo silencio, mas a figura amavel de Roberto
Soares não era para inspirar terrores legendarios, e foi no meio de uma
attenção tranquilla, até um pouco risonha, que o jornalista aposentado
começou a sua leitura.