XI

Roberto parou um momento como se se sentisse opprimir pela recordação

terrivel d'essa noite.

--Pouco mais lhes posso dizer, meus senhores, sei apenas que no dia

seguinte acordei no meu leito, e que estive sériamente doente. Apenas me

restabeleci corri á travessa do Moreira.

Da casa de Julieta nem signaes! Tudo desapparecera.

Julguei que fôra victima de uma allucinação, mas ainda hoje se me

representam tanto ao vivo as scenas, a que assisti, que não posso

admittir a possibilidade d'essa hypothese.

D'ahi por diante nunca mais tive felicidade! Em pouco tempo gosei e

padeci muito. As fibras da minha alma sujeitas a uma fortissima tensão

quebraram-se, e hoje vivo n'uma incrivel atonia.

A senhora, com quem minha familia me queria vêr casado, desposou um

homem menos imaginoso do que eu, que a estremece, e a quem ella estima.

Tem dois filhos, que são a alegria da casa e o enlevo dos paes.

A minha imaginação desregrada deixou-me isolado no mundo.

Roberto calou-se. Todos nós ficamos silenciosos, impressionados por essa

lugubre historia. Mas Frederico abraçando sua mulher, e dando-lhe um

beijo na testa, disse para Roberto:

--As aspirações da alma têm um limite, que não podem ultrapassar. No céo

da felicidade ha espheras inaccessiveis onde a natureza humana desmaia,

prostrada pela vertigem. Na familia, meu amigo, resume-se a suprema

ventura. É prosaica unicamente para os que a não comprehendem. N'esses

amores ideaes chega o homem a pontos, em que para me servir das phrases

do sceptico Musset:

Où le vertige prend, où l'air devient le feu,

Et l'homme doit mourir où commence le Dieu.

* * * * *

Quando Henrique Osorio acabou de lêr o seu improvisado romance,

applaudiram-n'o fervorosamente os seus indulgentes ouvintes. Só Isaura

bocejava de um modo notavel.

Henrique mordeu os labios um pouco raivoso, e, inclinando-se para ella,

disse-lhe ironicamente:

--A nossa idéa foi soberba, minha senhora; se não cura dos terrores, que

sentem as pessoas nervosas, ao menos concilia-lhes o somno que affugenta

os phantasmas.

--Ah! não, sr. Henrique Osorio, respondeu Isaura; a sua idéa acho-a cada

vez peior. Vejam se é admissivel fallar-se aqui em cemiterios á uma hora

da noite. Eu, se estou assim mais tranquilla é porque a Leonor me

prometteu que dormia no meu quarto.

--É contra os regulamentos, bradou o doutor Macedo. A sr.^a D. Isaura

está illudindo a receita.

--Meu Deus, doutor! exclamou Leonor alegremente. Os regulamentos

cumprem-se assim de um modo feroz. Não vê que eu vou passar a noite com

uma mulher pallida? Depois de ouvir o romance de Henrique, deve

confessar que é necessario ser-se heroina!

--É verdade, exclamou Isaura, o sr. Osorio tratou bem as pallidas! No

seu entender mulher pallida só póde ser mulher desenterrada. Muito

agradecida.

--Mas, minha senhora... balbuciou Henrique.

--Aquillo são reminiscencias de Lisboa, Isaura, exclamou Leonor, rindo.

Quiz-se vingar de alguma pallida que o magoou.

--És maldosa, Leonor, murmurou Henrique ao ouvido da sua amiga de

infancia.

--É para te ensinar a fazer declarações mais habeis, disse-lhe Leonor

tambem ao ouvido. Isaura levantára-se para ir ter com seu pae.

--Então o meu romance é uma declaração? tornou Henrique.

--O teu romance é uma loucura. Estás engraçado com as tuas idealisações

constantes. Queres mulheres sobre-naturaes, entes phantasticos, damas

brancas de Avenel! Se achas que é lisongeiro para uma mulher perder a

sua realidade para agradar ao homem que diz amal-a, morrer primeiro para

ser depois desposada por elle em fórma espectral, como no _Noivado do

Sepulchro_, de Soares de Passos...

E a maliciosa rapariga recitou, zombeteando:

E ao som dos pios do cantor funerio,

E á luz da lua de sinistro alvor,

Junto ao cruzeiro sepulchral mysterio

Foi celebrado de infeliz amor!

--Então, menina! exclamou Isaura, lá de longe. Olha que eu não vou

sósinha para o quarto.

--Ahi vou, querida, ahi vou!

E Leonor, deitando a Henrique um olhar malicioso, foi ter com a sua

amiga.

--Então, sr. Roberto Soares, disse o doutor Macedo emquanto pegava no

castiçal para se dirigir para o seu quarto, porque, n'essa noite de

temporal, nem os visinhos tinham podido recolher a suas casas; então,

sr. Roberto Soares, a sua composição caminha? Olhe que é ámanhã a sua

vez.

--Que lhe hei de eu fazer? Cá me vou apressando, tanto quanto posso.

Metti-me em boa, não ha duvida. Já não estou para estas folias. O viver

da provincia enferruja. Ámanhã os rapazes vão rir-se de mim.

--Veremos isso! redarguiu Henrique Osorio, sorrindo amigavelmente. Eu

preparo uma pateada.

Roberto Soares affastou-se, rindo, e o doutor Macedo, accendendo um

charuto, disse para Henrique Osorio:

--Sabe o que lhe digo, Henrique? Você é uma creança. Anda todo enlevado

na pallidez e nos terrores nervosos de Isaura, que é uma tola com

bonitos olhos, e não repara que ha por estas serranias uma rapariga, uma

perola, que se fina por você.

--Por mim?! Quem me faz essa honra? exclamou Henrique, fazendo se

córado.

--Quem tem olhos para vêr, veja; quem tem ouvidos para ouvir, oiça; e

quem tem somno para dormir, durma; respondeu gravemente o doutor Macedo.

Boas noites.

E partiu, deixando ficar Henrique pasmado. Este demorou-se por alguns

instantes a ouvir o temporal que rugia com violencia, e a contemplar com

tristeza o sitio onde estivera sentada Isaura. Depois, soltando um

suspiro, saíu da sala.

* * * * *

Devo dizer que no dia seguinte as impressões foram muito menos profundas

que na vespera. A noite estava mais socegada; caçára-se pela manhã.

Estivera bonito o dia, cortado apenas por alguns chuveiros. Comtudo,

quando deu a meia-noite, correu um frémito por todos os ouvintes.

Estabeleceu-se um profundo silencio, mas a figura amavel de Roberto

Soares não era para inspirar terrores legendarios, e foi no meio de uma

attenção tranquilla, até um pouco risonha, que o jornalista aposentado

começou a sua leitura.

A Lenda da Meia-Noite · 第 17 / 56 题