IX

Era na hora mysteriosa em que das urnas das flôres se expandem na

atmosphera thesouros de aroma e de languidez, e em que o homem absorto

julga escutar vagamente na esplendida immensidade a longiqua harmonia

das espheras.

Na hora em que o rouxinol espalha sobre a terra as perolas do seu canto,

e em que a natureza escuta embevecida o hymno mavioso do seu interprete

sublime.

Porque n'essa hora dormem as paixões terrenas, e o mundo parece

envolver-se por momentos no manto da sua virgindade, afim que Deus possa

reconhecer a sua feitura, desfigurada pelo agitar convulso do verme

pretencioso que se chama o homem.

E o Omnipotente immovel no throno da sua grandeza, revê-se silencioso no

espelho da Creação.

Oh! como a lua desenrola graciosamente o seu manto luminoso sobre as

alamedas desertas do esplendido jardim! Como os seus raios se baloiçam

mollemente no berço fluctuante da folhagem! Como se miram descuidosos no

crystal das fontes!

E as estatuas primorosas dos deuses do paganismo, parecem espreitar

complacentes os mysterios da voluptuosidade que se vão abrigar nos

caramanchões floridos! E emtanto as acacias que lhes assombreiam os

vultos immoveis, inundam com a chuva perfumada das flôres vermelhas as

pregas ondeantes da sua roupagem marmorea!

E eu e Julieta caminhavamos silenciosos por entre os alegretes, e a voz

do rouxinol da balseira despertava no meu coração um rouxinol

desconhecido que me fallava de amor e de ternura.

Inclinei-me para ella e beijei-a! E parecia-me que sentia ao tocar-lhe

nos labios as azas brancas do anjo da pureza que davam áquella fronte

limpida um resplendor celestial.

Por um sentimento involuntario troquei o meu annel pelo annel de

Julieta.

Julguei que Deus santificava o nosso amor, e nos contemplava com

indulgencia!

X

Mas quando ergui os olhos, erriçaram-se-me os cabellos de terror, e

correu-me pelas veias um calafrio. Fugiu-me a luz dos olhos, e o sangue

refluiu ao coração.

Desappareceram os floridos canteiros, emmudeceu o rouxinol suave,

sumiram-se as estatuas, fugiram as acacias.

Estendem-se a perder de vista as ruas sombrias de um cemiterio, de um

lado e de outro avultam as pedras brancas das sepulturas.

O vento da noite faz ondear os cyprestes funerarios, e o pallido clarão

da lua vem beijar melancolico as cruzes tumulares.

O grito sinistro do mocho só de vez em quando perturba a paz dos mortos;

por entre a relva dos sepulchros fulgura a lugubre phosphorescencia dos

cemiterios.

É tudo silencio em roda, mas ao longe começa a sentir-se um vago rumor,

que parece o longiquo ruido de um exercito marchando.

E uma aragem de terror parece esvoaçar por entre os tumulos, dando vida

ás loisas e voz ao cyprestal.

Lugubres clarões abraçam as cruzes das campas, e as figuras de pedra que

guardam, sentinellas inanimadas, o somno dos finados, agitam-se

convulsamente ao sopro de fogo d'aquella procella desconhecida.

A sineta da ermida vibrou no meio do silencio; tres vezes echoou na

immensidade aquelle som terrivel.

E eu senti os cabellos erriçarem-se-me, e um suor gelado me inundava a

testa.

Então um côro de vozes cavas e profundas entoou lugubremente o _Dies

irae_, o hymno da colera de Deus.

E logo uma longa procissão de phantasmas brancos começou a desfilar por

diante de mim n'um silencio aterrador.

Depois deram-se as mãos e formaram em torno de mim uma dança de

espectros.

E eu sentia os cabellos erriçarem-se-me, e um suor gelado me inundava a

testa.

Depois um dos vultos brancos destacou-se do grupo e avançou para mim.

E eu quiz recuar, mas os pés estavam pregados no terreno, e uma força

invencivel me domava.

O passo do phantasma não produzia ruido algum, mas eu sentia-o vibrar no

fundo do coração.

Vinha envolto no longo manto sepulchral, e ornava-lhe a fronte a

grinalda virginal das rosas brancas.

Reconheci as pallidas feições de Julieta, da minha noiva de ha pouco.

--Vae consumar-se o lugubre noivado, disse-me ella sorrindo; vem, meu

pallido amante, vem inebriar-te com as mysticas voluptuosidades das

sepulturas.

O mocho cantará o nosso epithalamio, e no cruzeiro do cemiterio serão as

danças dos finados o nosso baile nupcial.

Olha para a mysteriosa alcova, como nos sorri de dentro da loisa

entreaberta a alva mortalha do nosso leito de noivado!

E eu olhei e vi abrir-se a garganta pavorosa de um sepulchro, e senti

que a mão de Julieta me arrastava invencivelmente.

Echoavam nas lugubres alamedas as gargalhadas dos finados, o mocho

soltava o seu grito funebre, e a lua entornava sobre as campas a sua luz

tão pallida.

E eu senti os cabellos erriçarem-se-me de terror, e um suor gelado me

inundava a testa.

Não pude resistir, passou-me uma nuvem de sangue por diante dos olhos e

cahi desmaiado!

A Lenda da Meia-Noite · 第 16 / 56 题