Era na hora mysteriosa em que das urnas das flôres se expandem na
atmosphera thesouros de aroma e de languidez, e em que o homem absorto
julga escutar vagamente na esplendida immensidade a longiqua harmonia
das espheras.
Na hora em que o rouxinol espalha sobre a terra as perolas do seu canto,
e em que a natureza escuta embevecida o hymno mavioso do seu interprete
sublime.
Porque n'essa hora dormem as paixões terrenas, e o mundo parece
envolver-se por momentos no manto da sua virgindade, afim que Deus possa
reconhecer a sua feitura, desfigurada pelo agitar convulso do verme
pretencioso que se chama o homem.
E o Omnipotente immovel no throno da sua grandeza, revê-se silencioso no
espelho da Creação.
Oh! como a lua desenrola graciosamente o seu manto luminoso sobre as
alamedas desertas do esplendido jardim! Como os seus raios se baloiçam
mollemente no berço fluctuante da folhagem! Como se miram descuidosos no
crystal das fontes!
E as estatuas primorosas dos deuses do paganismo, parecem espreitar
complacentes os mysterios da voluptuosidade que se vão abrigar nos
caramanchões floridos! E emtanto as acacias que lhes assombreiam os
vultos immoveis, inundam com a chuva perfumada das flôres vermelhas as
pregas ondeantes da sua roupagem marmorea!
E eu e Julieta caminhavamos silenciosos por entre os alegretes, e a voz
do rouxinol da balseira despertava no meu coração um rouxinol
desconhecido que me fallava de amor e de ternura.
Inclinei-me para ella e beijei-a! E parecia-me que sentia ao tocar-lhe
nos labios as azas brancas do anjo da pureza que davam áquella fronte
limpida um resplendor celestial.
Por um sentimento involuntario troquei o meu annel pelo annel de
Julieta.
Julguei que Deus santificava o nosso amor, e nos contemplava com
indulgencia!
X
Mas quando ergui os olhos, erriçaram-se-me os cabellos de terror, e
correu-me pelas veias um calafrio. Fugiu-me a luz dos olhos, e o sangue
refluiu ao coração.
Desappareceram os floridos canteiros, emmudeceu o rouxinol suave,
sumiram-se as estatuas, fugiram as acacias.
Estendem-se a perder de vista as ruas sombrias de um cemiterio, de um
lado e de outro avultam as pedras brancas das sepulturas.
O vento da noite faz ondear os cyprestes funerarios, e o pallido clarão
da lua vem beijar melancolico as cruzes tumulares.
O grito sinistro do mocho só de vez em quando perturba a paz dos mortos;
por entre a relva dos sepulchros fulgura a lugubre phosphorescencia dos
cemiterios.
É tudo silencio em roda, mas ao longe começa a sentir-se um vago rumor,
que parece o longiquo ruido de um exercito marchando.
E uma aragem de terror parece esvoaçar por entre os tumulos, dando vida
ás loisas e voz ao cyprestal.
Lugubres clarões abraçam as cruzes das campas, e as figuras de pedra que
guardam, sentinellas inanimadas, o somno dos finados, agitam-se
convulsamente ao sopro de fogo d'aquella procella desconhecida.
A sineta da ermida vibrou no meio do silencio; tres vezes echoou na
immensidade aquelle som terrivel.
E eu senti os cabellos erriçarem-se-me, e um suor gelado me inundava a
testa.
Então um côro de vozes cavas e profundas entoou lugubremente o _Dies
irae_, o hymno da colera de Deus.
E logo uma longa procissão de phantasmas brancos começou a desfilar por
diante de mim n'um silencio aterrador.
Depois deram-se as mãos e formaram em torno de mim uma dança de
espectros.
E eu sentia os cabellos erriçarem-se-me, e um suor gelado me inundava a
testa.
Depois um dos vultos brancos destacou-se do grupo e avançou para mim.
E eu quiz recuar, mas os pés estavam pregados no terreno, e uma força
invencivel me domava.
O passo do phantasma não produzia ruido algum, mas eu sentia-o vibrar no
fundo do coração.
Vinha envolto no longo manto sepulchral, e ornava-lhe a fronte a
grinalda virginal das rosas brancas.
Reconheci as pallidas feições de Julieta, da minha noiva de ha pouco.
--Vae consumar-se o lugubre noivado, disse-me ella sorrindo; vem, meu
pallido amante, vem inebriar-te com as mysticas voluptuosidades das
sepulturas.
O mocho cantará o nosso epithalamio, e no cruzeiro do cemiterio serão as
danças dos finados o nosso baile nupcial.
Olha para a mysteriosa alcova, como nos sorri de dentro da loisa
entreaberta a alva mortalha do nosso leito de noivado!
E eu olhei e vi abrir-se a garganta pavorosa de um sepulchro, e senti
que a mão de Julieta me arrastava invencivelmente.
Echoavam nas lugubres alamedas as gargalhadas dos finados, o mocho
soltava o seu grito funebre, e a lua entornava sobre as campas a sua luz
tão pallida.
E eu senti os cabellos erriçarem-se-me de terror, e um suor gelado me
inundava a testa.
Não pude resistir, passou-me uma nuvem de sangue por diante dos olhos e
cahi desmaiado!