Chamava-se Julieta a heroina do meu romance de amor. Até o nome era de
fazer enlouquecer um enthusiasta como eu.
Essa aureola de poesia e de encanto com que Shakespeare circumdou a
fronte da pallida italiana, parecia atravez das edades vir doirar com um
reflexo luminoso a fronte gentil da Julieta, que eu adorava.
Foi a unica informação a seu respeito que d'ella obtive. Tudo o mais
ficava para mim envolvido n'um mysterio que eu não tentava penetrar.
Uma noite a nossa conversação foi tomando a pouco e pouco um caracter
mais ardente e languido. Palavras de amor entrecortadas, suspiros
involuntarios vindo interromper o dialogo, longos silencios durante os
quaes eu sentia o palpitar apressado do meu coração, em quanto via a
imagem seductora de Julieta desenhar-se na janella illuminada
caprichosamente pelo fulgor da lua, tudo isto despertava em mim uma
voluptuosidade deliciosa, mas que me magoava.
Uma vez, em quanto ella ficava perdida n'essa vaga contemplação da lua e
da noite perfumada, eu involuntariamente approximei-me da parede da
casa, e ajudando-me com as grades da janella do pavimento das lojas,
pude trepar até ao parapeito da janella, e de repente, sem que ella
parecesse reparar na ousadia do meu procedimento, imprimi-lhe nos labios
um beijo de fogo.
Os labios d'ella estavam frios como os de uma estatua.
Olhou para mim com olhar meigo e recuou.
Entrei no quarto e cahi-lhe aos pés, balbuciando:
--Julieta, amo-te!
E cobri-lhe as mãos de beijos devoradores.
Ella olhava para mim com uma expressão indefinivel. Não podia dizer se
era ternura, se ardor, se frieza, o que esse olhar continha; sei sómente
que quanto mais ella me encarava, mais eu me sentia enlouquecer.
--Vem, meu amante, murmurou Julieta passando-me o braço á roda do
pescoço, e arrastando-me com meiguice para uma porta entre-aberta, vem!
sobre o lilaz florido do meu jardim embalsamado descanta o rouxinol as
suas trovas de amores! é tudo mysterio n'esta hora encantadora! Vem!
Abriu-se a porta e nós entramos n'um jardim esplendido.