Assim continuou todas as noites aquelle amor excentrico. Todas as noites
eu tomava a firme resolução de não tornar lá, e sempre as badaladas da
meia-noite me surprehendiam na travessa do Moreira, por baixo da janella
fatal.
No tempo em que me succedeu esta aventura, tratavam meus paes do meu
casamento com uma menina rica, que não desgostava de mim, e por quem eu,
não sentindo amor, não sentia tambem antipathia.
Era ella uma menina capaz de inspirar uma affeição fraternal, mas nunca
uma paixão a um espirito arrebatado como este meu.
Era bonita, mas um typo vulgar, horrivelmente vulgar. A pobre menina não
tinha culpa d'isso. Demais a mais era o que se podia chamar um acerto:
dote soffrivel, excellentes qualidades de mulher e de dona de casa.
Creio que juntava a isso tudo o fazer marmelada perfeitamente. Não sendo
muito guloso, não era eu o mais proprio para poder apreciar dignamente
esta prenda, que a distinguia.
Nunca mais appareci em casa d'ella, desde a noite de S. Carlos. Um dia
passei occasionalmente por lá, e vi-a com os olhos vermelhos de chorar.
Comprimentei-a, ella correspondeu me tristemente, e retirou-se da
janella.
--Ora adeus, disse eu comigo mesmo, foi deitar assucar nos marmelos.
Talvez ali esteja um coração! accrescentei eu no monologo mental. Não
creio, continuei, o coração desarranja as cassarolas, e incommoda-a no
varrer da casa.
Foram estas idéas falsas que me perderam, meus senhores; idéas d'um
espirito extravagante que procurou sempre em regiões inaccessiveis a
felicidade, que nunca pude encontrar, e que talvez caminhasse ao meu
lado sem eu dar por isso.
O meu espirito talvez fosse como o Rouvière de uma comedia de Feuillet,
que, depois de ter percorrido o mundo em todos os sentidos, fica
espantado de encontrar a felicidade sentada ao canto da lareira de uma
familia burgueza n'uma aldeola do seu paiz natal.