VI

Descrever-lhes a lucta que se travou no meu espirito, quando voltando

para casa me fui sentar á mesa de trabalho, e comecei a reflectir fria e

pausadamente na aventura nocturna, seria contar-lhes a historia longa e

fastidiosa do combate da rasão com as minhas tendencias para o

sobrenatural.

Dir-lhes-hei, resumindo, que sem attender a outra coisa que não fosse a

seducção inexplicavel, que me attraía para esse ente incomprehensivel,

fui no dia seguinte á meia-noite ao _rendez-vous_ aprazado.

Soava não sei em que relogio a ultima badalada da meia-noite, quando se

abriu a janella, e appareceu ante os meus olhos deslumbrados o formoso

rosto da gentil desconhecida.

Balbuciei phrases sem sentido, mas a lingua pegou-se-me ao céo da bocca,

e não pude dizer uma palavra que se entendesse.

--Porque me seguiu hontem? perguntou ella com uma voz melodiosa e

triste, como o gemer da brisa nos cyprestes.

--Porque a amo.

--Sabe quem eu sou?

--Que me importa! Quem vae perguntar ao anjo que nos afaga em sonho o

nome com que o distinguem nas phalanges celestiaes?

--E ama-me?

--Mais do que a vida!

--Só?!

Que poder incrivel tinha aquella mulher sobre mim? Não sei; sei que lhe

respondi com o olhar inflammado:

--Mais do que Deus!

--Não estranha o mysterio em que me envolvo?

--Não sei. Este amor é uma paixão fatal. Virgem ou devassa, candida ou

profanada, anjo ou demonio, amo-a cegamente, sem me importar com o

passado nem com o futuro, desejando só ter o presente meu, só meu. Este

amor é para mim um vinho que embriaga, e se no fundo da taça encontrar

veneno, que importa? morrerei abençoando as horas da embriaguez. Isto é

uma loucura, bem sei, mas se podesse conhecer a atonia moral em que o

meu espirito tem existido! Se soubesse como eu anhelo por estas

commoções extraordinarias, que devoram n'um minuto a existencia de um

homem! Já vê quão pouco exigente eu sou; não me negue um raio d'essa

aureola d'amor que lhe circunda a fronte. Essa luz tenuissima

transformal-a-hei em chamma esplendida, que ha de illuminar as trevas do

meu viver prosaico.

--Acceito o seu amor, se essas palavras não o exagaram. Não queira

penetrar no mysterio que me envolve. Quando fôr necessario, eu mesma o

rasgarei, e confie em mim, ha de encontrar-me digna do seu amor.

Entretanto creia e espere. Adeus.

--Já?

--Não me posso demorar nem um minuto.

--Oh! mas diga-me uma palavra consoladora. Este amor immenso não

encontrou echo no seu coração?

--Amo-o.

--Mas com um amor semelhante ao meu, inebriante, immenso?

--Immenso... como a eternidade.

E fechou a janella, deixando-me ficar extatico e cada vez mais espantado

da estranheza dos seus modos.

A Lenda da Meia-Noite · 第 13 / 56 题