Descrever-lhes a lucta que se travou no meu espirito, quando voltando
para casa me fui sentar á mesa de trabalho, e comecei a reflectir fria e
pausadamente na aventura nocturna, seria contar-lhes a historia longa e
fastidiosa do combate da rasão com as minhas tendencias para o
sobrenatural.
Dir-lhes-hei, resumindo, que sem attender a outra coisa que não fosse a
seducção inexplicavel, que me attraía para esse ente incomprehensivel,
fui no dia seguinte á meia-noite ao _rendez-vous_ aprazado.
Soava não sei em que relogio a ultima badalada da meia-noite, quando se
abriu a janella, e appareceu ante os meus olhos deslumbrados o formoso
rosto da gentil desconhecida.
Balbuciei phrases sem sentido, mas a lingua pegou-se-me ao céo da bocca,
e não pude dizer uma palavra que se entendesse.
--Porque me seguiu hontem? perguntou ella com uma voz melodiosa e
triste, como o gemer da brisa nos cyprestes.
--Porque a amo.
--Sabe quem eu sou?
--Que me importa! Quem vae perguntar ao anjo que nos afaga em sonho o
nome com que o distinguem nas phalanges celestiaes?
--E ama-me?
--Mais do que a vida!
--Só?!
Que poder incrivel tinha aquella mulher sobre mim? Não sei; sei que lhe
respondi com o olhar inflammado:
--Mais do que Deus!
--Não estranha o mysterio em que me envolvo?
--Não sei. Este amor é uma paixão fatal. Virgem ou devassa, candida ou
profanada, anjo ou demonio, amo-a cegamente, sem me importar com o
passado nem com o futuro, desejando só ter o presente meu, só meu. Este
amor é para mim um vinho que embriaga, e se no fundo da taça encontrar
veneno, que importa? morrerei abençoando as horas da embriaguez. Isto é
uma loucura, bem sei, mas se podesse conhecer a atonia moral em que o
meu espirito tem existido! Se soubesse como eu anhelo por estas
commoções extraordinarias, que devoram n'um minuto a existencia de um
homem! Já vê quão pouco exigente eu sou; não me negue um raio d'essa
aureola d'amor que lhe circunda a fronte. Essa luz tenuissima
transformal-a-hei em chamma esplendida, que ha de illuminar as trevas do
meu viver prosaico.
--Acceito o seu amor, se essas palavras não o exagaram. Não queira
penetrar no mysterio que me envolve. Quando fôr necessario, eu mesma o
rasgarei, e confie em mim, ha de encontrar-me digna do seu amor.
Entretanto creia e espere. Adeus.
--Já?
--Não me posso demorar nem um minuto.
--Oh! mas diga-me uma palavra consoladora. Este amor immenso não
encontrou echo no seu coração?
--Amo-o.
--Mas com um amor semelhante ao meu, inebriante, immenso?
--Immenso... como a eternidade.
E fechou a janella, deixando-me ficar extatico e cada vez mais espantado
da estranheza dos seus modos.