Tinha acabado a opera. Levantei-me e saí.
Fiz um esforço sobre mim, não querendo olhar para o camarote fatal. A
pessoa que o occupára durante a noite produzira em mim uma impressão tal
que cheguei a ter medo... medo da influencia pasmosa que ella ía tomando
sobre o meu pobre coração.
Oh! fatalidade! Quando cheguei ao corredor, o primeiro vulto, que passou
por diante de mim, foi o vulto elegante e nobre da gentil desconhecida.
Ia só!
Tive como que uma vertigem, quando ella, ao passar, me lançou um d'esses
olhares que endoidecem o homem de rasão mais fria, que lançam no inferno
o mais virtuoso santo do paraizo.
Não tive forças para luctar contra a fascinação irresistivel d'esse
olhar. Se elle tinha sobre mim a influencia magnetica do olhar de José
Balsamo sobre a pobre Lorenza ideada por Alexandre Dumas! Debalde a
pobre italiana se torcia desesperada debaixo d'aquelle jugo oppressor,
debalde oppunha toda a força da sua vontade e do seu odio á tenacidade
diabolica do terrivel magnetisador, debalde resistia com todo o ardor da
sua devoção, com todo o vigor da sua alma virginal áquelle poder
incomprehensivel, mas horrendamente verdadeiro; tinha de recuar diante
d'esse olhar, como diante d'uma espada chammejante, até caír oppressa e
desesperada aos pés de José Balsamo. Então esse corpo quebrado pela
resistencia, reclinava-se nos braços da voluptuosidade, e a voz que ia
terrivel a bradar: «Odeio-te», terminava supplicante a balbuciar:
«Adoro-te».
Ao vêl-a, disse eu commigo mesmo: «Não quero, não quero ceder a esse
imperio inexplicavel.» E minutos depois, surprehendia-me a seguil-a
apressadamente pelas ruas de Lisboa.
Ha occasiões em que nos vêmos obrigados a acreditar em forças
sobrenaturaes que nos attrahem e nos repellem, é quando a nossa vontade
se aniquila, e quando as leis da nossa organisação são violentamente
revogadas por um despotismo estranho.
Submetto esta reflexão á consideração dos illustres materialistas que me
escutam!
V
A desculpa que eu dei a mim mesmo, quando apesar de todos os meus
protestos me surprehendi a seguir a senhora de negro, foi a desculpa da
curiosidade.
Com effeito, dizia eu commigo, tirando philosophicamente baforadas de
fumo do charuto que acabára de accender no momento em que passou por
diante de mim a formosa desconhecida; o que ha mais natural? Encontro
uma linda mulher em S. Carlos, linda como poucas, e original a mais não
poder ser. Vejo-a no camarote sósinha, e torno a vêl-a, saíndo a pé, e
ainda só. Não tenho nada que fazer, e por conseguinte sigo-a. É
naturalismo.
E a voz da consciencia murmurava-me ao ouvido:
--É o brilho da chamma tentadora, ó doida borboleta, é o olhar
fascinador da serpente, ó ave descuidosa.
--Ora adeus, respondia a voz da minha apparente philosophia, prejuizo,
superstição, fanatismo, como dizia o tenente Boutraix de um dos romances
de Carlos Nodier. Vou offerecer-lhe o meu braço.
A senhora que eu seguia caminhava lentamente a quinze passos adiante de
mim, quando muito. Passava ella então defronte da egreja dos Martyres.
Puz o chapéu ao lado com modos conquistadores, colloquei o charuto ao
canto da bocca, e accelerei o passo.
Apesar d'isso, e apesar da minha bella não alterar por fórma alguma o
seu andamento, não diminuia, pelo menos sensivelmente, a distancia que
nos separava. O vulto elegante da senhora de negro, ao passar por diante
dos candieiros de gaz, revelava-se em toda a sua riqueza de fórmas, em
toda a magestade do seu porte airoso. Havia uma suprema distincção no
seu modo de andar, mas apesar d'isso havia um não sei quê de mysterioso
n'aquelle mover de estatua, lento e inteiriçado, que fazia uma impressão
pouco agradavel.
Chegámos assim á rua Nova do Carmo; ella voltou para baixo; eu segui-a.
A distancia conservava-se a mesma. Mas, como ia diminuindo o numero das
pessoas que caminhavam para aquelles sitios, saindo, como nós, de S.
Carlos, eu tomei uma resolução definitiva, e comecei a dar grandes
passadas para apanhar finalmente aquella mulher que me fugia
incessantemente como esse caçador das lendas do norte, que foge sempre,
sem perder um palmo de terreno, mas sem poder tambem desapparecer, á sua
matilha infernal.
Nem assim pude diminuir a distancia que me separava d'esse vulto
extraordinario.
E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos
seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias.
Chegámos ao Rocio. Eu começava a estar suado. Despi, sem affrouxar o
passo, o paletot que me incommodava, e pul-o aos hombros.
Depois dei a andar com dobrada rapidez.
A senhora de negro caminhou pelo Rocio na direcção do Passeio.
Chegámos ao largo de Camões.
Nem uma pollegada diminuira a distancia que mediava entre nós.
E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos
seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias.
Eu apertava as mãos na cabeça, porque sentia uma torrente de fogo a
inundar-me o cerebro, e a rasão a abandonar-me.
A noite era sombria, e no estado em que estava pareceu-me sinistro
devéras o aspecto d'essa massa do Passeio Publico, envolto n'um manto de
trevas.
A quinze passos adiante de mim caminhava sempre elegante e distincto o
vulto negro da minha gentil desconhecida.
Perdi a cabeça e deitei a correr, litteralmente a correr, atraz d'ella.
A bulha da corrida produzia um som lugubre, e fazia-me estremecer de vez
em quando. O suor escorria-me em fio pela cara abaixo.
Saimos da rua Oriental do Passeio, entrámos na calçada do Salitre,
chegámos á esquina da travessa do Moreira, e eu não conquistára um palmo
de terreno.
E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos
seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias.
Quando ali chegámos, a desconhecida entrou resolutamente na travessa, e
eu parei. Sentia o coração palpitar-me com violencia, e... tive medo,
confesso o.
Era tão extraordinario o que me estava succedendo, que este sentimento,
devem confessal-o, era um pouco desculpavel.
Comtudo venci a timidez passageira, e entrei resolutamente n'essa rua
tão deserta.
Quando a minha desconhecida chegou ao pé de uma casa isolada no meio da
travessa, parou, voltou-se para mim, e bradou com uma voz
melodiosissima:
--Ámanhã á meia-noite, debaixo d'esta janella.
Eu estaquei attonito de surpreza.