Sem poder explicar a mim mesmo a fascinação irresistivel, que me
impellia tão imperiosamente á contemplação d'aquelle formoso semblante,
nunca mais desviei a vista do camarote. E ella, oh! ella olhava-me com
uma meiguice de enlouquecer.
Estava toda vestida de negro, e isso ainda mais contribuia para fazer
realçar a alvura da sua tez. Trajava elegantissimamente, mas com uma
singeleza, que me encantou, a mim, que procuro quasi sempre o bom gosto
na simplicidade.
Só ella occupava o camarote! Sósinha! Quem poderia ser? Tão nova, tão
formosa, e só! Oh! meu Deus! seria ella uma d'essas mulheres sem pudor,
que arrastam por toda a parte o manto de seda da ignominia, que foram
apanhar da lama, onde deixaram em troca o candido véo da innocencia?
Impossivel! O seu porte modesto, a simplicidade do seu trajo eram um
protesto vivo contra o descaro, e orgulhoso cynismo d'essas Messalinas
venaes.
Mas só! Quem sabe? Talvez a pessoa que a acompanhava, estivesse
escondida na sombra do camarote; talvez tivesse saído. Tudo podia ser,
mas a suspeita é que não podia manchar nem por momentos a luz serena
d'aquelle rosto angelical.
E eu olhava-a deslumbrado; e uma transformação estranha se operava em
mim. Parecia-me que as luzes do theatro iam esmorecendo a pouco e pouco
até se reduzirem á claridade sinistra das lampadas sepulchraes, o palco
e a platéa confundiam-se n'um vasto cemiterio, onde o vento da noite
fazia ondular a copa dos cyprestes, por entre cujos ramos passavam os
raios da lua, da pallida scismadora, da solitaria amiga das sepulturas.
E ella, ella, a formosa desconhecida, vinha dizer-me com o seu olhar tão
triste:
--Queres o meu amor, ó pobre escravo d'um corpo material, ó doido, que
aspiras ao infinito sem pensares que tens os pés embaraçados na immunda
vasa d'esse oceano de desespero, que se chama a vida? Oh! não queiras
conhecer os segredos dos tumulos, porque tu, meu louro poeta, voltavas
ao mundo de cabellos brancos, se tocasses um só minuto com os labios na
taça inebriante dos amores da eternidade!
--Oh! que me importa a vida, respondia eu na allucinação febril, se em
troca d'esses dias de prosa me posso arrojar um instante só aos espaços
infinítos das sublimes commoções! A minha alma é como a aguia, que se
arroja ás regiões das nuvens, affrontando a tempestade, e cae depois na
terra fulminada pelo raio, que altiva foi provocar. Que me importa a mim
a morte, a condemnação eterna, se podér sorver nos teus labios
voluptuosidades desconhecidas, e lêr nos teus olhos o poema sublime do
amor, que eu phantasio?
A visão desapparecia; mas no palco a voz seductora d'Oscar, o elegante
pagem, vinha murmurar-me aos ouvidos:
Pieno d'amor
Mi balza il cor;
Ma pur discreto
Serba il segreto.
E no olhar da minha formosa desconhecida lia-se em letras de fogo a
mesma confissão inebriante:
Pieno d'amor
Mi balza il cor.