III

Sem poder explicar a mim mesmo a fascinação irresistivel, que me

impellia tão imperiosamente á contemplação d'aquelle formoso semblante,

nunca mais desviei a vista do camarote. E ella, oh! ella olhava-me com

uma meiguice de enlouquecer.

Estava toda vestida de negro, e isso ainda mais contribuia para fazer

realçar a alvura da sua tez. Trajava elegantissimamente, mas com uma

singeleza, que me encantou, a mim, que procuro quasi sempre o bom gosto

na simplicidade.

Só ella occupava o camarote! Sósinha! Quem poderia ser? Tão nova, tão

formosa, e só! Oh! meu Deus! seria ella uma d'essas mulheres sem pudor,

que arrastam por toda a parte o manto de seda da ignominia, que foram

apanhar da lama, onde deixaram em troca o candido véo da innocencia?

Impossivel! O seu porte modesto, a simplicidade do seu trajo eram um

protesto vivo contra o descaro, e orgulhoso cynismo d'essas Messalinas

venaes.

Mas só! Quem sabe? Talvez a pessoa que a acompanhava, estivesse

escondida na sombra do camarote; talvez tivesse saído. Tudo podia ser,

mas a suspeita é que não podia manchar nem por momentos a luz serena

d'aquelle rosto angelical.

E eu olhava-a deslumbrado; e uma transformação estranha se operava em

mim. Parecia-me que as luzes do theatro iam esmorecendo a pouco e pouco

até se reduzirem á claridade sinistra das lampadas sepulchraes, o palco

e a platéa confundiam-se n'um vasto cemiterio, onde o vento da noite

fazia ondular a copa dos cyprestes, por entre cujos ramos passavam os

raios da lua, da pallida scismadora, da solitaria amiga das sepulturas.

E ella, ella, a formosa desconhecida, vinha dizer-me com o seu olhar tão

triste:

--Queres o meu amor, ó pobre escravo d'um corpo material, ó doido, que

aspiras ao infinito sem pensares que tens os pés embaraçados na immunda

vasa d'esse oceano de desespero, que se chama a vida? Oh! não queiras

conhecer os segredos dos tumulos, porque tu, meu louro poeta, voltavas

ao mundo de cabellos brancos, se tocasses um só minuto com os labios na

taça inebriante dos amores da eternidade!

--Oh! que me importa a vida, respondia eu na allucinação febril, se em

troca d'esses dias de prosa me posso arrojar um instante só aos espaços

infinítos das sublimes commoções! A minha alma é como a aguia, que se

arroja ás regiões das nuvens, affrontando a tempestade, e cae depois na

terra fulminada pelo raio, que altiva foi provocar. Que me importa a mim

a morte, a condemnação eterna, se podér sorver nos teus labios

voluptuosidades desconhecidas, e lêr nos teus olhos o poema sublime do

amor, que eu phantasio?

A visão desapparecia; mas no palco a voz seductora d'Oscar, o elegante

pagem, vinha murmurar-me aos ouvidos:

Pieno d'amor

Mi balza il cor;

Ma pur discreto

Serba il segreto.

E no olhar da minha formosa desconhecida lia-se em letras de fogo a

mesma confissão inebriante:

Pieno d'amor

Mi balza il cor.

A Lenda da Meia-Noite · 第 11 / 56 题