II

«Cantava-se em Lisboa pela segunda ou terceira vez o _Baile de

mascaras_. Era uma noite de delirio no theatro de S. Carlos. Franschini,

o cantor sublime, fazia tremer de enthusiasmo a platéa inteira, e a voz

portentosa de madame Lotti despenhava sobre o publico palpitante

torrentes de melodia e de sentimento. O personagem de Amelia,

interpretado como então o foi, deixava de ser um typo creado pela

imaginação do poeta para se transformar, animado pelo Prometheo do

genio, n'um ente real, cujos sentimentos traduzidos em suspiros de

harmonia, iam arrancar os soluços dos peitos dos espectadores.

Era o poema da paixão, com todas as suas peripecias, mas da paixão

verdadeira, da paixão que geme e rasga os seios da alma, da paixão que

verte lagrimas, de cujas feridas brota o sangue, e não d'essa paixão

ficticia, cuja expressão convencional anima só a mascara, que a artista

desafivella apenas desce o panno.

Eu, perdido n'um canto da platéa, escutava, como escuto sempre quando

vou ao theatro lyrico. N'isso devo confessar-lhes que tenho idéas um

pouco originaes. O panno, que sóbe lentamente no principio da opera,

descerra para os outros espectadores meia duzia de taboas rodeadas por

bastidores de lona, onde uns poucos de artistas vão cantar umas poucas

de arias para divertimento do publico. Para mim é como que uma janella

encantada que se abre por onde eu me arrojo para os espaços azues do

ideal. Os outros analysam com toda a paciencia a instrumentação e o

canto, investigam se foram executadas as leis do contraponto, e depois

de satisfeitos applaudem compassadamente para não rasgarem as luvas,

voltam-se bocejando, e comprimentam a senhora condessa de * * *, ou a

senhora baroneza de * * *, cuja chronica escandalosa vão contar

immediatamente ao seu visinho da esquerda.

Mas eu não. A minha alma, que illumina o fogo do enthusiasmo, não póde

ficar na terra, quando sente passar no espaço o sopro da harmonia, da

casta filha do céo. Desapparece o theatro, desapparecem os espectadores,

desapparece a ficção. Arrastada no manto de fogo do ideal, a minha alma

sente, enleva-se, palpita, geme, pranteia, soluça com Macbeth o grito do

remorso, suspira com Desdémona a canção da saudade, gorgeia com Helena o

hymno da desposada, escuta com Rosina a meiga serenata, sólta com

Lucrecia o rugido da envenenadora, e volta depois á terra, deixando-me

ficar pallido, extasiado, porque entrevi em sonhos a deslumbrante

claridade de um mundo desconhecido.

Tinha começado o segundo acto, e eu seguia cheia de um vago terror a

scena lugubre do principio. As notas da aria de Amelia soavam-me aos

ouvidos como dobres de finados, e quando a Lotti soltou aquelle grito de

pavor, que vibrava sonoro e plangente pelo theatro, fazendo estremecer

os espectadores, eu levantei-me pallido, convulso, e senti correr-me

pela raiz dos cabellos o halito de fogo de uma mysteriosa commoção.

O meu visinho olhou para mim espantado; sentei-me, deixei cahir a cabeça

entre as mãos, e scismei.

--Ó ideal, dizia eu, quando poderei finalmente sorver a longos tragos o

teu nectar precioso na cinzelada taça da phantasia?

«Ó virgem dos meus sonhos, ó anjo das azas de ouro, quando poderá a

minha alma, abraçando-se comtigo nas regiões celestes, aspirar a plenos

pulmões a balsamica aragem da poesia?... O que és tu, ente mysterioso,

que assim bafejas o espirito dos grandes poetas, e lhes vaes murmurar,

em noites de inspiração, os segredos sublimes que o vulgo profano

admira, mas não comprehende?

«Oh! quaes serão as visões d'estes homens portentosos, e nas suas noites

de febre, de delirio e de insomnia, em que mysticos amores te enlaças tu

com elles, ó ideal sublime, ó ideal inspirador? E emtanto nós, os

desherdados, bebemos com um riso alvar a agua insipida e lodosa dos

prazeres do mundo, e caminhamos n'esta planicie monotona da vida,

olhando com terror para o Sinai chammejante, onde campeiam, cercados da

divina aureola, os harmoniosos prophetas, os validos da inspiração!

«Não posso; falta-me o ar no recinto estreito da vida social; a prosa

d'este mundo opprime-me o coração. A minha alma está sequiosa de amor, e

este apparece-me sempre escoltado pelas conveniencias, trazendo sobre o

rosto formoso a mascara ridicula dos interesses materiaes, ou a mascara

odiosa do capricho sensual. Amor! amor! mas um amor como o teu, ó casta

e pura Amelia, como o teu, ó Julieta, ó noiva gentil de Romeu e da

sepultura, quero um d'esses amores sublimes, e, se elle não se encontra

na terra, surge dos tumulos, ó pallida virgem por quem eu anhelo, e

mostra-me ao menos n'um relampago as mysteriosas alegrias da

eternidade!»

N'isto levantei a cabeça, e os meus olhos involuntariamente fixaram-se

n'um camarote, que ficava pouco distante do logar que eu occupava na

platéa. Uma senhora de belleza maravilhosa estava sósinha n'esse

camarote, e encarava-me com uma attenção extraordinaria. Não sei porque

gelou-se-me o sangue nas veias, e fiquei extatico a contemplar aquella

esplendida formosura.

Raras vezes tenho encontrado um rosto assim! A correcção das linhas, a

pureza dos contornos, a magestade do perfil deixavam na sombra os mais

perfeitos modelos da antiga estatuaria. Praxíteles quebraria desesperado

as estatuas e o cinzel, se lhe fosse dado contemplar as inflexões

suaves, a perfeição das fórmas d'aquella viva esculptura.

Se algum defeito se lhe poderia notar, era a rigidez marmorea da

physionomia. Via-se que nem tristezas nem alegrias seriam capazes de

alterar a regularidade do semblante, que só parecia ter vida nos olhos,

que eram lindos a mais não ser, e d'onde emanavam raios magneticos e

deslumbrantes, que enlouqueciam quem se atrevesse a encaral-os. Aquelle

rosto assemelhava-se a uma urna de marmore, em cima da qual se tivesse

collocado uma lampada de luz fascinadora. Era um fragmento de gêlo

dourado levemente pelos reflexos de um vulcão, mas essa physionomia

tinha um não sei que de mysterioso e sombrio, que me impressionou

profundamente.

Olhei para o relogio. Os ponteiros marcavam no mostrador meia-noite em

ponto.

No theatro os conjurados cantavam o côro das gargalhadas, e repetiam

rindo o estribilho:

Ah! chè baccano-sul caso strano

Andrà dimani per la città!

A Lenda da Meia-Noite · 第 10 / 56 题