CONTO PHANTASTICO

I

Eram onze horas da noite, e estava-se tomando chá em casa do meu amigo

Frederico B * * *, em Bemfica. Havia uma roda d'intimos; a conversa

estava animada e o meu amigo, a quem a alegria e o _entrain_ dos

convidados deixavam mais liberdade no cumprimento dos seus deveres de

dono da casa, aproveitava-se d'isso para contemplar extasiado sua linda

mulher, com quem casára havia pouco tempo, e que do seu lado lhe sorria

tambem com a meiguice e ternura da mulher que ama devéras.

A conversa animára-se tanto, que se ia transformando em algazarra.

Discutia-se acaloradamente a questão da existencia das almas do outro

mundo, com grande desprazer d'um jornalista que por força queria

conduzir ao bom caminho aquelles discutidores extraviados, propondo que

se tratasse da bondade do ministerio, deixando de parte essas tolices,

que não serviam para nada. Mas ninguem lhe prestava attenção, o que fez

com que elle desesperado fosse lêr pela centesima vez um artigo seu

publicado n'um jornal que estava em cima de uma das mezas da sala. Essa

producção do seu engenho, que o jornalista relia com tanto enthusiasmo

merecia indubitavelmente tão paterna sollicitude, porque elle e o

revisor da imprensa tinham sido os seus unicos leitores. Mas o auctor

tantas vezes o tinha lido, e tal admiração professava pelo seu proprio

talento, que podéra dizer, sem receio de ser taxado de mentiroso--«_que

o seu artigo tinha feito tal impressão, que lhe constava ter havido uma

pessoa que o relia a miudo, e sempre com enthusiasmo crescente, honra de

que se podiam gabar poucos artigos politicos da imprensa portugueza_.»

--Concluamos, bradava entretanto um medico materialista por dever de

profissão, onde collocam os senhores esse agente mysterioso a que dão o

nome de espirito, teimando em appellidar assim pomposamente o mechanismo

material, que a morte paralysa? Quando esse relojoeiro sombrio, que se

chama tempo, quebra com mão despiedosa as rodas complicadas do nosso

systema vital, onde se refugia esse ente inutil, esse ser impalpavel a

que os senhores espiritualistas querem dar as redeas do governo d'este

barro quebradiço, que constitue o homem? E durante a vida quaes são os

laços invisiveis, que prendem o escravo ao senhor, o corpo material e

fragil á alma etherea e immortal? Tremendo absurdo, utopia talvez

respeitavel, sublime tolice pela qual se tem sacrificado innumeras

gerações! Ah! mas sobretudo, é doido devéras quem imagina que essa

invenção impossivel, resultado das aspirações da humanidade para a

existencia eterna, possa vir aos cemiterios animar os restos putrefactos

dos reis da creação; quem tal suppõe, não sentiu nunca debaixo do

escalpello anatomico o cadaver inerte e despresivel, nem póde avaliar

com a vista infallivel da sciencia o nada immenso das vaidades humanas!

--Fóra com o materialista, bradou um rapaz enthusiasta; sabes tu, meu

caro doutor, que a primeira vaidade humana cujo nada immenso tu devias

avaliar, é a vaidade da sciencia? Que sabes tu, presumpçoso Hippocrates,

que tens de recuar vencido perante o primeiro obstaculosinho, que a

natureza caprichosa queira oppôr á vista infallivel, como tu dizes, do

saber dos homens? E és tu que andas perdido no meio da confusão dos

systemas medicos a procurar no labyrintho scientifico o fio conductor

que te está sempre a escapar das mãos, és tu que pretendes entrar com

passo firme no insondavel labyrintho da eternidade?... Espera, continuou

elle vendo entrar um mancebo muito pallido, que foi apertar a mão de

Frederico, e comprimentar a dona da casa, queres-te convencer? Pois ahi

tens tu um homem vivo, que teve relações directas com um phantasma.

--Roberto, assenta-te ahi, e conta-nos immediatamente a historia do teu

espectro, se v. ex.^{as} não se oppõem a isso ainda assim, continuou

elle, voltando-se para as senhoras presentes, que tinham escutado a

discussão metaphysica, com ligeiros signaes de aborrecimento.

Propôr a senhoras uma historia de phantasmas é despertar-lhes a

attenção, é fazer-lhes passar nas veias o estremecimento do enthusiasmo.

Não sei porque, esses entes frageis, pallidos ou rosados, de olhos

negros ou azues, alegres ou melancolicos, esses entes femininos

encantadores e timidos adoram tudo o que os faz tremer, e recreiam-se

sobre tudo com essas historias terriveis, em que o leitor estupefacto

encontra um punhal ao voltar de cada pagina, um ladrão á esquina de cada

periodo, um phantasma pelo menos em cada capitulo.

Por isso a parte feminina da assembléa acolheu a proposta com

enthusiasmo: e a mim e aos outros homens, que estavam presentes, não

desagradou a idéa de ouvir uma historia terrivel, em _petit comité_, no

pino da meia noite, tendo de voltar depois para casa por aquelles

caminhos desertos dos arredores de Lisboa; a mim sobretudo, que tinha de

passar pelas casas arruinadas de Campolide, sorria a idéa de ir com a

imaginação povoada de phantasmas, que poderia distribuir á vontade pelos

recantos d'essa paisagem tão magestosa, quando a lua envolve os paredões

solitarios na branca mortalha da sua luz, em quanto ao longe se desenha

sobranceiro entre os campos verdejantes o perfil grandioso do aqueducto

sombrio.

Roberto, devemos dizel-o para honra sua, não se fez rogado, comprimentou

silenciosamente a assembléa, e começou pouco mais ou menos n'estes

termos:

A Lenda da Meia-Noite · 第 9 / 56 题