jesuitismo e os novos dogmas introduzidos na religião catholica, dizendo
que elle dispendeu as suas forças contra os moinhos de vento do
marianismo, do infallibilismo e do syllabismo e que o jesuitismo se
tornou para elle uma preoccupapão constante; mas, como o auctor da
_Historia do romantismo_ se tem occupado dos mesmos assumptos, é
evidente que escreve contra si proprio, o que me causa verdadeiro pasmo.
Alem d'isto a censura feita a Herculano recae sobre a propria imprensa
republicana, que muito frequentemente narra e estigmatiza escandalos
jesuiticos.
É o poder da igreja tão pequeno que se não devam combater com a maxima
energia as suas doutrinas contrarias ao bem social? Tem porventura o
jesuitismo tão pouca força que se deva considerar um elemento
desprezivel? Não tem a Companhia de Jesus progredido assombrosamente no
nosso pais? Não estão os collegios jesuiticos repletos de alumnos?
Leibnitz, um dos genios mais vastos e profundos não só da Allemanha mas
de todo o mundo, disse muito sensatamente: «Dae-me a educação, que eu
transformarei a Europa em menos de um seculo.» Alexandre Herculano, com
o seu profundo criterio, conhecia a grande força da educação; por isso
receava que o jesuitismo viesse causar a decadencia intellectual e moral
da sua patria.
A moral perversa dos jesuitas foi no seculo dezasete posta a descoberto
não por um impio, não por um atheu, mas por um dos mais eloquentes e
profundos apologistas do christianismo, por um genio prodigioso que,
depois de ter feito os mais assombrosos descobrimentos scientificos,
depois de ter penetrado varios segredos da natureza, depois de ter
resolvido os mais difficeis problemas da mathematica, levantou, em favor
do christianismo, esse grandioso monumento philosophico intitulado
_Pensamentos_, que, apesar de ter ficado incompleto, revela a profundeza
do genio que o traçou; este grande homem, este escriptor religiosissimo,
este moralista austero, que se chamava Blaise Pascal, foi quem mais
poderosamente contribuiu para a queda dos jesuitas no seculo dezoito. As
suas _Provinciaes_, escriptas num estylo comico e vigoroso,
espalharam-se por toda a Europa e as maximas corruptas dos jesuitas
foram ridicularizadas não só nas academias mas até nos palacios dos
reis. Como poderia Herculano, o enthusiasta ardente da moral pura e
severa do Evangelho, deixar de combater energicamente as doutrinas
anti-christãs da seita jesuitica?
Diz o sr. Theophilo Braga que Herculano, depois de se mostrar partidario
do casamento civil, veiu a casar-se catholicamente; o distincto
professor acha este procedimento contradictorio com as opiniões de
Herculano. Quando, ao ler a _Historia do romantismo_, encontrei esta
asserção tão infundada, fiquei realmente estupefacto. O sr. Theophilo
Braga inverte completamente as doutrinas de Herculano, expostas com
tanta lucidez nos seus _Estudos sobre o casamento civil_, e colloca-se a
uma distancia que lhe torna impossivel apreciá-lo com exactidão.
Não ha escripto algum em que Herculano tivesse combatido o casamento
catholico; pelo contrario, elle admittia duas especies de casamento: o
catholico e o civil. O que repugnava ao seu espirito profundamente
liberal e tolerante é que os individuos que não acreditassem no
catholicismo se vissem obrigados a receber o sacramento do matrimonio, a
praticar um acto contrario ao seu modo de pensar e que elle considerava
um verdadeiro sacrilegio, uma offensa á religião. Se Herculano era um
velho catholico, se elle estava convicto de que o sacramento do
matrimonio remontava aos primeiros seculos do christianismo, como
procedeu o grande historiador contra as suas opiniões casando-se
catholicamente? Herculano nunca defendeu leis que prohibissem a qualquer
individuo o seguir as suas crenças, tinha o mais profundo respeito
pela liberdade de consciencia, era inimigo de todas as violencias feitas
ao espirito humano, queria liberdade para todos, não era intolerante
como os hypocritas da liberdade, que não respeitam a consciencia alheia.
Herculano sustentou que devia existir um registo civil especial para os
casamentos dos não catholicos, não admittindo que os nubentes fossem
interrogados ácerca das suas crenças religiosas, o que, segundo a sua
opinião, seria um attentado contra a liberdade de consciencia, um
processo verdadeiramente inquisitorial. Quanto ao casamento catholico,
considerava-o debaixo de dois aspectos: como sacramento e como
contracto. Estando num país, cuja maioria era constituida por
catholicos, admittia que o registo ecclesiastico servisse de registo
civil. Era assim que o grande historiador procurava conciliar o
principio sacrosanto da liberdade de consciencia com o respeito á
religião do estado. Sejam quaes forem as opiniões ácerca das doutrinas
sustentadas por Herculano relativamente ao casamento civil, é
incontestavel que não ha fundamento algum para se affirmar que o seu
casamento catholico esteve em contradicção com as suas idéas.
O seguinte trecho dos _Estudos sobre o casamento civil_ é uma prova
evidente de quanto é inexacta a opinião do sr. Theophilo Braga:
«O catholicismo puro e desinteressado não tem culpa d'esta horrivel e
immensa traição que nas altas regiões da jerarchia sacerdotal se está
perpetrando contra elle. Não tem culpa de que o vendam por trinta
dinheiros ao anjo mau da reacção politica. O catholicismo não quer
que forcem os que não crêem nelle a receber um sacramento, porque não
pede um acto que lhe repugna, que reputa uma profanação; não pede que os
poderes publicos constranjam os membros do proprio gremio a não
peccarem, porque a inquisição é para elle a maior affronta que lhe têm
feito os homens. O catholicismo puro não confunde o sacramento, que é
cousa espiritual, com o contracto, que é materia juridica, porque desde
os tempos apostolicos, conforme temos visto, jámais os confundiram as
tradições legitimas da igreja. Considerada a questão á exclusiva luz do
direito, o sacerdote que auctorisa o contracto e o abençoa é, no
primeiro caso, official civil, e no segundo, ministro da religião. É uma
cousa simples, clara, inoffensiva. Em nome da liberdade, deixemo-la
ficar na lei.»
O sr. Theophilo Braga tambem cae noutra inexactidão dizendo que
Herculano, tendo-se manifestado contra o direito de propriedade
litteraria, se contradisse vendendo o manuscripto do _Diccionario_ que o
conselheiro Ramalho lhe deixára. Mas onde é que Herculano confundiu a
innegavel propriedade de um livro, de um manuscripto ou de qualquer
objecto tangivel com o que se chama propriedade litteraria?
A questão da propriedade litteraria é uma d'essas questões altamente
transcendentes em que ha grande divergencia de opiniões; Herculano
tratou-a com muita profundeza e originalidade, revelando o seu espirito
eminentemente philosophico, a sua vigorosa dialectica. Ha certamente
mais de uma opinião ácerca das suas doutrinas, mas o que nenhum critico
imparcial poderá affirmar é que entre ellas e a venda do
_Diccionario_ de Ramalho á Academia existiu a minima contradicção.
Herculano foi de uma coherencia admiravel nas opiniões religiosas,
philosophicas e politicas que manifestou em toda a sua vida. Só quem
interpretrar mal as suas palavras poderá affirmar o contrario. O seu
espirito, que amava ardentemente a luz, nunca deixou de progredir.
Diz o sr. Theophilo Braga que foi o ataque do clero por causa da
suppressão do milagre de Ourique que fez com que Herculano de catholico
ferrenho se tornasse um christão semi-deista; isto está de accordo com o
que tenho ouvido dizer a alguns padres, relativamente aos escriptos em
que Herculano condemna a proclamação dos novos dogmas da infallibilidade
do papa e da immaculada Conceição de Maria. Tudo quanto dizem os
adversarios de Herculano a este respeito é completamente falso: nem são
capazes de apresentar prova alguma em favor de tal asserção.
O caracter de Herculano foi muito superior ao do padre Lamennais, que,
tendo defendido com muita eloquencia, no seu «Ensaio» sobre a
indifferença em materia religiosa e noutros escriptos, as doutrinas
ultramontanas mais retrogadas, abraçou quasi de repente o racionalismo
depois que lhe foram condemnadas algumas obras. Este padre, tão notavel
pelo seu talento litterario e philosophico, não recebeu na infancia uma
educação religiosa como Herculano; só aos vinte e dois annos é que fez a
primeira communhão: póde haver por consequencia muitas duvidas ácerca da
sua sinceridade. Mas o espirito de Herculano não passou por
transformações tão bruscas; em nenhuma epocha da sua vida se mostrou
partidario do ultramontanismo; nunca defendeu a infallibilidade do papa;
até nas suas poesias simultaneamente religiosas, philosophicas e
liberaes, onde estão profundamente gravados os sentimentos e idéas da
sua ardente mocidade, transluzem referencias aos padres hypocritas e
fanaticos.
Na _Harpa do crente_, nessa magnifica colleccão de poesias em que se
revela um grande poeta, um profundo metaphysico, um christão ardente e
um patriota liberal, encontram-se os seguintes versos que fazem parte do
seu bello e magestoso hymno intitulado _Deus_ e nos quaes certamente faz
allusão áquelles padres que, pondo em pratica a mais ignobil hypocrisia
e tendo em mira exercer sobre a plebe fanatica o seu dominio nefasto,
procuravam aterrorizá-la com a pintura horrivel dos tormentos infernaes:
«Embora vis hypocritas te pintem
Qual barbaro tyranno
Mentem, por dominar com ferreo sceptro
O vulgo cego e insano.
Quem os crê é um impio! Recear-te
É maldizer-te, oh Deus;
É o throno dos despotas da terra
Ir collocar nos céus.
Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
Dos males da existencia
Tranquillo, e sem temor, á sombra posto
Da tua Providencia.»
O Deus de Herculano não é terrivel como o d'aquelles inquisidores que
fizeram derramar tantas lagrimas, que condemnaram á morte mais horrivel
tantos milhares de innocentes e procuravam abafar com o sangue de tantos
martyres a idéa que procurava expandir-se. O Deus de Herculano não é o
Deus que os jesuitas pintam como um tyranno para satisfazerem a sua
infrene e desordenada ambição, para dominarem a sociedade, para
converterem o mundo num montão de cadaveres, sobre cujas ruinas se
assentariam com um riso hypocrita, satanico e cruel. O Deus de Herculano
é o Deus de paz e de amor, é o Deus do Evangelho, é o Deus que derrama
os seus copiosos beneficios sobre os justos e os peccadores, é o Deus de
Fénelon e de Lamartine, é o Deus das almas generosas e puras, como elle
proprio o confessa no seu eloquente e philosophico poemeto _A semana
santa_, escripto quando apenas tinha dezanove annos.
Ninguem em Portugal ainda defendeu com tanta eloquencia o espiritualismo
christão como Herculano, mas é principalmente debaixo do aspecto pratico
que elle o considera; pode-se até affirmar que Herculano foi um dos
escriptores mais positivos que Portugal tem produzido em todos os
seculos: é pelo lado pratico, é baseando-se em factos que elle encara
especialmente todas as questões religiosas, philosophicas e politicas;
por isso a convicção que produz no animo dos leitores é profundissima;
sem se engolphar nas mais transcendentes abstracções metaphysicas, que
muitas vezes são inuteis, nem cair nas syntheses abstrusas e
nebulosas, que falsificam o criterio, analysa os factos com tal
clareza e severidade, que neste ponto ainda ninguem o excedeu nem
egualou em Portugal; não se deixa arrastar pela imaginação como alguns
positivistas; possue no mais alto grau uma qualidade bastante
recommendavel: o bom senso.
Herculano pouca importancia ligou á discussão ácerca da parte dogmatica
do christianismo; o que lhe attrahiu principalmente a attenção foi a
moral christã. Sejam quaes forem as opiniões ácerca d'esta materia, o
que é certo é que nenhum critico sensato póde contestar a Herculano a
pureza das intenções. O grande escriptor prentendia fazer d'este povo um
povo simultaneamente instruido e moralizado.
Se algumas vezes se refere aos dogmas do christianismo, foi ora para
mostrar a conveniencia pratica da immutabilidade da fé, ora para
combater o jesuitismo, que se ia alastrando em Portugal e cuja
influencia chegou a ser tão poderosa em Roma que obrigou o papa Pio IX e
a maioria dos bispos do mundo catholico a modificar profundamente o
christianismo, a proclamar como dogmas o marianismo e o infallibilismo,
que Herculano considerava duas heresias, a romper com as tradições
apostolicas, a tornar o catholicismo muito differente do de S. Paulo e
Santo Agostinho e a condemnar os principios sacrosantos da liberdade no
concilio do Vaticano, nesse concilio que é a pagina mais negra e
vergonhosa da historia ecclesiastica no seculo dezanove.
Entre as opiniões religiosas que Herculano manifestou no seu eloquente
opusculo ácerca da suppressão das conferencias do Casino, escripto
no anno de mil e oitocentos e setenta e um, isto é, seis annos antes da
sua morte, e as que havia exposto nos primorosos artigos ácerca do
christianismo, publicados no _Panorama_ muitos annos antes do clero
ignorante e reaccionario o ter insultado nos pulpitos por causa da
suppressão do milagre de Ourique, não existe a minima contradicção, o
que prova cabalmente que não ha rasão alguma para que se diga que foi o
ataque do clero que levou Alexandre Herculano a ser adversario do
neo-catholicismo, o que seria contrario ao elevadissimo caracter do
grande escriptor, cujas convicções eram profundas e firmes e que punha
sempre o amor da verdade acima de todas as vinganças, como o revelou na
_Tentativa historica da origem e estabelecimento da inquisição em
Portugal_, obra que o sr. Theophilo Braga, no seu _Curso de litteratura_
portuguesa, qualifica de capital e cuja exactidão scientifica é tão
notavel que levou o eximio orador sagrado, o sr. Alves Mendes, a chamar
no pulpito a Herculano o severo analysta da _Historia da Inquisição_. A
grande imparcialidade com que Herculano escreveu esta obra monumental
depois de ser ignobilmente injuriado por uma grande parte do clero,
mostra-nos quão elevado era o seu caracter. Não se devem fazer
affirmações em desabono de um morto illustre, cuja voz emmudeceu no
tumulo, sem que se possa demonstrar cabalmente o que se affirma.
Herculano era a logica personificada. Depois de admittir um principio
tirava d'elle as consequencias com o maximo rigor. Nos seus escriptos
não é facil achar contradições. Se por vezes modifica as suas
opiniões, é o proprio auctor quem o confessa com toda a franqueza e
sinceridade, o que é a prova mais evidente do seu altissimo caracter. O
sr. Theophilo Braga pretende apresentar-nos Herculano como um espirito
incoherente e voluvel, mas quem, depois da leitura da _Historia do
romantismo_, ler as obras do mais eminente historiador que Portugal tem
produzido, ficará á primeira vista profundamente convicto de que a sua
firmeza de convicções foi tão rara e admiravel que poucos escriptores em
todo o mundo o teem egualado neste ponto.
No anno de 1843, isto é, tres annos antes da publicação do primeiro
volume da _Historia de Portugal_, escreveu Herculano no _Panorama_ um
excellente artigo ácerca do christianismo e da philosophia, onde mostra
não só a grande discordancia que tem reinado entre os philosophos em
materia de moral, mas tambem a constancia e immutabilidade das crenças
religiosas; nelle se encontram os seguintes periodos:
«Desde a moral de Platão deduzida do amor da formosura divina: desde a
moral de Epicuro, moral negativa, que põe o profundo desprezo da
humanidade como pedra angular do proceder humano: desde as escolas da
Grecia até o materialismo grosseiro dos encyclopedistas, que maximas,
que regra de acções deixou de ter altares, deixou de ser condemnada?
Nenhuma.
«Constancia, perpetuidade só teem os preceitos immutaveis das crenças
religiosas.»
Estes periodos eloquentissimos provam claramente que, antes de ser
aggredido pelo clero, já Herculano admittia o principio da
immutabilidade da fé; era em virtude d'este principio que elle, sem
condemnar a philosophia e a consciencia, que tambem considerava fontes
das boas acções, dava a preferencia á religião como instrumento de
moralidade.
Na carta que Herculano escreveu ácerca da suppressão das conferencias do
Casino encontra-se o seguinte trecho, que revela a sua grande e
admiravel coherencia e onde censura o papa e os bispos catholicos não só
pela profunda modificação que fizeram nas doutrinas da igreja primitiva
mas tambem pela condemnação dos principios sacrosantos da liberdade:
«Desde a promulgação da Carta tem-se realisado gradualmente uma
revolução na igreja catholica. Com assombro da gente illustrada e
sincera, vimos transformar em dogma uma superstição dos seculos de
trevas, rendoso mealheiro de franciscanos, tinctura de pelagianismo,
aproveitada hoje para aviar receitas na botica de S. Ignacio, a
immaculada conceição de Maria, dogma que forçadamente conduz ou á ruina
do christianismo pela base, tornando inconcebivel a Redempção, ou á
deificação da mulher, á mulher Deus, á mulher redemptora, recurso
tremendo nas mãos do jesuitismo, que, lisongeando a paixão mais energica
do sexo fragil, a vaidade, o converte em instrumento seu para dilacerar
e corromper a familia, e pela familia a sociedade. Depois, ludibrio
d'esses homens de trevas, vemos o papa, celebrando uma especie de
concilio disperso, mandar perguntar pelas portas dos bispos que tal
acham aquelle appendiculo á fé catholica. Os bispos, pela maior
parte, encolhem os hombros ou riem-se, dizem-lhe que está vistoso e
vão jantar. Depois, os que falam em nome do pontifice, tendo tornado
virtualmente absurdo, por inutil, o sacrificio do Golgotha para a
redempção da humanidade, ou dando ao Christo um adjuncto na sua obra
divina, divertem-se em negar no Syllabus os dogmas, um pouco mais
verdadeiros, da civilização moderna, e tendo elevado o erro, apenas
tolerado, e ainda mal que tolerado, nos dominios do opinativo, a dogma
indisputavel, e sanctificado assim uma opinião peor que ridicula,
convidam a sociedade temporal á guerra civil. É a Companhia de Jesus na
sua manifestação mais caracteristica. Os principios da Carta, como de
todas as constituições analogas, são condemnados, anathematisados,
exterminados in petto.
«É a communa de Paris, perfigurada em Roma, a arrasar e queimar, em vez
de edificios, todas as conquistas do progresso social, todas as verdades
fundamentaes da philosophia politica. Ao concilio vagabundo segue-se
então o concilio parado. É que falta ao Syllabus a sancção divina.
Dar-lh'a-ha a infallibilidade indossada pelo episcopado ou á sua ordem.
Ajuntam-se não sei quantos bispos, muitos bispos; uns reaes, outros
pintados: aggremiam-se; e o papa pergunta ao gremio, em vez de o
perguntar a si mesmo, se é infallivel. Os bispos tornam a encolher os
hombros ou a rir-se, dizem-lhe que sim e vão ceiar. O papa infallivel,
que não sabia se era fallivel, fica emfim, descançado, e os bispos
ceiados, dormidos e desappressados do _visum est Spiritui Sancto et
nobis_ do concilio apostolico de Jerusalem, transferido
definitivamente para a Casa-professa, voltam a annunciar aos respectivos
rebanhos essa nova correcção das erroneas doutrinas da primitiva igreja.
«Taes são os deploraveis e incriveis successos que temos presenciado. O
jesuitismo converte o infeliz Pio IX num Liberio ou num Honorio,
induzindo-o a subscrever heresias, e a grande maioria dos bispos,
creando na igreja uma situação analoga á dos tempos em que o arianismo
dominava por toda a parte, e abandonando a maxima sacrosanta da
immutabilidade da fé, tornam-se em arautos e pregoeiros dos desvarios de
Roma. As novidades religiosas vêm perturbar as consciencias, e o
marianismo e o infallibilismo quasi levam o christianismo de vencida na
igreja catholica.»
Neste trecho energico e ao mesmo tempo graciosamente satyrico revela-se
o espirito logico e intransigente de Herculano; não ha ninguem que seja
capaz de provar que entre as idéas nelle expendidas e as crenças
religiosas da sua mocidade existe o menor antagonismo. Herculano
permaneceu fiel ao velho catholicismo; foi a igreja quem introduziu
novidades na religião; foi ella quem deixou de observar a maxima da
immutabilidade da fé, que Herculano considerava sacrosanta, e que
durante muitos seculos foi seguida pela grande legião dos varões
illustres da igreja, como S. Boaventura, S. Jeronymo e muitos outros;
por consequencia foram os padres obedientes ao pontifice que se
afastavam das doutrinas da igreja primitiva. O Espirito Santo illuminou
o papa e este obrigou os fieis, sob pena de excommunhão, a acreditar em
dogmas que d'antes não existiam e sem os quaes se podia muito bem
entrar no ceu. Os padres chamavam hereje a Herculano mas este, por sua
vez, considerava heresias todas as novidades introduzidas na religião
catholica. Pio nono era para elle um verdadeiro hereje, um inimigo
acerrimo do christianismo puro, um instrumento da Companhia de Jesus.
O Chateaubriand português, o defensor mais eloquente que o christianismo
teve em Portugal e cujo merito litterario é comparavel ao de S. Paulo e
Santo Agostinho, foi tambem o adversario mais implacavel do jesuitismo e
da reacção ultramontana. O sublime auctor da _Harpa do crente_ e do
_Parocho d'aldeia_ recebeu do beaterio fanatico e d'aquelles hypocritas
para quem a religião é apenas um instrumento de politica os epithetos de
impio, de irreligioso, de anti-christão e até de atheu. É porque entre a
religião de Herculano e a religião dos jesuitas ha uma differenca enorme
e considerabilissima. O sentimento religioso de Herculano nascia de um
coração puro, sincero e desinteressado; a religião era para elle um
balsamo suave no meio das amarguras da existencia e a fonte mais caudal
das boas acções. Pelo contrario, para o jesuita a religião é a arma mais
poderosa de que se serve para corromper e dominar a sociedade. Herculano
amava ardentemente o christianismo, não o christianismo impuro e
falsificado dos jesuitas e dos neo-catholicos, não o christianismo de
Santo Ignacio de Loyola e de S. Vicente de Paulo, mas o christianismo
puro, o christianismo do Evangelho, essa religião sublime que se resume
nos principios sacrosantos da liberdade, egualdade e fraternidade,
que, embora nunca se possam realizar em toda a sua plenitude, são as
mais nobres e grandiosas aspirações do coração humano. Para Herculano o
christianismo era o grande civilizador dos tempos mordernos.
Com effeito, o que é a egualdade perante a lei senão uma traducção da
egualdade perante Deus, proclamada no Evangelho? Não são porventura os
povos christãos que caminham na vanguarda do progresso e da civilização?
O que têm produzido as outras religiões senão a tyrannia e o despotismo?
Que culpa tem o christianismo de que os padres o tenham adulterado e
falsificado? Ha porventura alguma comparação entre os padres da igreja
primitiva, que prégavam a liberdade de consciencia e a tolerancia, e os
modernos jesuitas e lazaristas, que, em vez de explicarem ao povo as
maximas sublimes do Evangelho, fazem consistir a religião principalmente
nos exercicios de devoção externa?
Poeta e philosopho ao mesmo tempo, Herculano era profundamente
melancolico. Como Bernardin de Saint-Pierre e Rousseau, amava
ardentemente a natureza. Como S. Jeronymo e S. Basilio, era apaixonado
pela solidão campestre; comprazia-se em viver longe do bulicio dos
homens. O amor do infinito, que abrasava o coração de Santo Agostinho,
tambem incendiava o coração de Herculano.
Alexandre Herculano foi um dos principaes representantes da alma
portugueza. A tristeza, que tem caracterizado o povo português em todos
as epochas, tambem caracterizava a grande alma de Herculano.
O celebre critico Villemain diz que o português era reflectido e
melancolico antes da epocha em que todos os povos o deviam ser. Esta
meditação melancolica, que nos distingue dos outros povos meridionaes e
nos assemelha aos povos do norte, revelou-se muito cedo na nossa
litteratura.