A profunda melancolia que se observa nas deliciosas paginas da _Menina e

moça_ de Bernardim Ribeiro e nos seus versos singelos e melodiosos, nas

poesias sentimentaes de Christovão Falcão, de Camões e de Soares de

Passos e na maravilhosa relação de naufragios intitulada _Historia

tragico-maritima_, essa profunda melancolia tambem é vigorosamente

expressa nas Poesias de Herculano e principalmente no seu magestoso,

soberbo e sublime _Monasticon_.

Não é, porém, só na vigorosa expressão da melancolia que Herculano é um

dos mais notaveis representantes da alma portuguesa; tambem o é na

poderosa energia com que exprime todos os sentimentos nobres e elevados.

O amor, a coragem, o patriotismo e a generosidade são affectos

caracteristicos do povo português; Herculano exprimiu-os de um modo

verdadeiramente assombroso.

Como Camões, foi simultaneamente poeta e soldado. O principe dos

prosadores tem muitos pontos de contacto com o principe dos poetas.

Camões combateu na Africa e na Asia em prol da patria; Herculano pelejou

no cêrco do Porto a favor da liberdade. Camões esteve desterrado em

Macau; Herculano viu-se obrigado a emigrar para se esquivar ás

perseguições do governo absoluto de D. Miguel. Camões, impellido

pelo seu ardente patriotismo e pela immensidade do seu genio, escreveu

os _Lusiadas_, narrando em bellos e magnificos versos os feitos mais

brilhantes da nossa historia; Herculano, levado pelas suas tendencias

especiaes para os estudos historicos e pelo seu grande amor da patria,

escreveu num estylo magestoso como o de Barros, harmonioso como o de Fr.

Luis de Sousa, vigoroso como o de Tacito, vernaculo como o de Vieira e

singelo como o de Fernão Lopes, a _Historia de Portugal_, o mais

grandioso de todos os seus monumentos, a obra mais eminentemente

nacional que em Portugal se escreveu depois dos _Lusiadas_.

O sentimento de dignidade pessoal era egual em ambos os escriptores.

Camões nunca lisonjeou os poderosos no meio das maiores privações;

Herculano nunca fez o minimo sacrificio da propria consciencia, foi

sempre amigo da verdade e da justiça.

Em ambos brilhou o patriotismo no mais alto grau. Em Camões exerceu uma

impressão dolorosa o desastre de Alcacer-Kibir; Herculano soffreu

profundamente com o progresso da nossa corrupção moral e com a nossa

decadencia politica. Camões, numa carta que dirigiu a D. Francisco de

Almeida quando Portugal estava proximo a perder a sua independencia,

escreveu: «Em fim acabarei a vida, e verão todos que fui tão affeiçoado

á minha patria que não me contentei de morrer nella mas com ella.»

Herculano, pouco antes da sua morte, profundamente sensibilizado pela

decadencia moral e politica do seu pais, exclamou: «Isto dá vontade

da gente morrer!»

Na vivacidade do dialogo, na virilidade do estylo e no ardente

enthusiasmo que transmitte aos leitores, tambem se assemelha Herculano

ao grande épico. É admiravel a energia com que o nosso mais eminente

romancista historico pinta as almas dos seus heroes, fazendo resurgir o

espirito religioso, patriotico e guerreiro de epochas remotissimas. No

seu pequeno mas excellente romance _O castello de Faria_, que faz parte

das _Lendas e narrativas_, encontra-se o seguinte trecho, cuja

eloquencia simples, magestosa e robusta nos traz á memoria as passagens

mais eloquentes dos Lusiadas:

«Um arauto saiu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a

barbacã; todas as béstas se inclinaram para o chão, e o ranger das

machinas converteu-se num silencio profundo.

«--Moço alcaide, moço alcaide! bradou o arauto, teu pae captivo do mui

nobre Pedro Rodriguez Sarmento, adiantado da Galliza pelo muito

excellente e temido D. Henrique de Castella, deseja falar comtigo, de

fóra do teu castello.

«Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro,

e, chegando á barbacã, disse ao arauto:

«A Virgem proteja meu pae: dizei-lhe que eu o espero.

«O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e,

depois de breve demora, o tropel approximou-se da barbacã. Chegados ao

pé della, o velho guerreiro saiu d'entre os seus guardadores, e

fallou com o filho:

«--Sabes tu, Conçalo Nunes, de quem é este castello, que, segundo o

regimento de guerra, entreguei á tua guarda, quando sai em soccorro e

ajuda do esforçado conde de Ceia?

«--É, respondeu Gonçalo Nunes, de nosso rei e senhor, D. Fernando de

Portugal, a quem por elle fizeste preito e menagem.

«--Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um leal alcaide é de nunca

entregar, por nenhum caso, o seu castello a inimigos, embora fique

enterrado debaixo das ruinas delle?

«--Sei, oh meu pae! proseguiu Gonçalo Nunes em voz baixa, para não ser

ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar.--Mas não vês que a tua

morte é certa se os inimigos perceberem que me aconselhaste a resistencia?

«Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou

então:

«--Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do castello de Faria!

Maldito por mim, sepultado sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na

hora em que os que me cercam entrarem nesse castello sem tropeçarem no

teu cadaver.

«--Morra! gritou o almocadem castelhano, morra o que nos atraiçoou!

«E Nuno Gonçalves caiu no chão, atravessado de muitas espadas e lanças.

«Defende-te, alcaide!» foram as ultimas palavras que elle murmurou.

«Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã, clamando vingança.

«Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros; grande porção dos

assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o proprio sangue com o sangue do

homem leal ao juramento.»

Este trecho eloquentissimo, cuja energia é inexcedivel, revela-nos a

maravilhosa aptidão que Herculano possuia para pintar as grandes

paixões, as paixões heroicas. A falla que Nuno Gonçalves dirige a seu

filho Gonçalo Nunes excitando-o a defender corajosamente o castello,

embora com sacrificio da propria vida, não produz menos enthusiasmo no

meu coração do que a falla de D. Nuno Alvares Pereira no Conselho de

Guerra, que é incontestavelmente um dos trechos mais eloquentes dos

Lusiadas. O estylo de Herculano é incomparavelmente mais epico do que o

de todos os poetas que em Portugal têm florescido depois de Camões; é

principalmente pela nobreza e virilidade do seu estylo magico que

Herculano ha de ser sempre considerado um dos maiores prosadores do

mundo. Assim como Platão possuia o enthusiasmo de Homero, assim nas

obras de Herculano revela-se o ardente enthusiasmo do principe dos

nossos poetas.

Todo o homem recebe uma influencia poderosa do meio em que vive;

Herculano não podia deixar de receber esta influencia mas, pelos seus

vastos e profundos conhecimentos e pela sua eloquencia energica,

solemne e magestosa, elevou-se muito acima dos seus contemporaneos,

alcançando sobre elles um poder espiritual tão assombroso que os seus

escriptos eram considerados evangelhos.

A influencia que Herculano exerceu neste seculo foi muito superior á

influencia de Sá de Miranda no seculo dezaseis porque, apesar da grande

semelhança de caracter que tiveram os dois illustres escriptores,

Herculano possuiu um talento mais genial e vasto. Quando Herculano

residia no seu eremiterio da Ajuda, agrupavam-se em volta d'elle os

talentos mais notaveis que Portugal possuia naquella epocha, e até o

bondoso e illustrado rei D. Pedro V o visitava frequentemente para lhe

pedir os seus conselhos. Herculano foi para o nosso país o grande

patriarcha do seculo dezanove; nenhum escriptor ainda conseguiu neste

seculo exercer sobre a sociedade portuguesa uma influencia egual á sua;

ninguem, depois de Camões, influiu tão poderosamente na nossa

litteratura e civilisação.--Disse.

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End of Project Gutenberg's Alexandre Herculano, by Diogo Rosa Machado

Alexandre Herculano Conferencia pública realizada no Atheneu Commercial de Lisboa, na noite de 15 de Julho de 1900 · 第 3 / 3 段