Como a religião tem raizes profundas no coração do homem, hã

Produced by Mike Silva

ALEXANDRE HERCULANO

CONFERENCIA PÚBLICA

REALIZADA NO ATHENEU COMMERCIAL DE LISBOA,

NA NOITE DE 15 DE JULHO DE 1900

POR

DIOGO ROSA MACHADO

PROFESSOR DE LINGUA E LITTERATURA PORTUGUEZA

PREÇO 200 REIS

LISBOA

LIVRARIA EDITORA

TAVARES CARDOSO & IRMÃO

5--LARGO DE CAMÕES--6

MDCCCC

ALEXANDRE HERCULANO

CONFERENCIA PÚBLICA

REALIZADA NO ATHENEU COMMERCIAL DE LISBOA,

NA NOITE DE 15 DE JULHO DE 1900

POR

DIOGO ROSA MACHADO

PROFESSOR DE LINGUA E LITTERATURA PORTUGUEZA

LISBOA

LIVRARIA EDITORA

TAVARES CARDOSO & IRMÃO

5--LARGO DE CAMÕES--6

MDCCCC

Typ a vapor da Empreza Litteraria e Typographica

Rua de D. Pedro, 184--Porto.

MEUS SENHORES.

O homem nasceu para viver em sociedade. Apesar de todos os paradoxos

sustentados por João Jacques Rousseau contra o estado social, é

incontestavel que só neste estado é que elle se póde aperfeiçoar

intellectual e moralmente. O selvagem é feroz, cruel e sanguinario.

Com as nações succede o mesmo que com os individuos. Assim como os

individuos isolados não progridem, assim tambem as nações que vivem

separadas das outras permanecem estacionarias. Quanto mais amplas forem

as relações sociaes maior será o desenvolvimento da intelligencia

humana. Se o commercio abre o caminho para a civilização e fraternidade

dos povos, é a mais alta cultura litteraria e scientifica que poderá

fazê-las attingir o seu auge. A cultura litteraria, além de ser

indispensavel a todo o homem, seja qual fôr a sua posição social, é o

factor mais poderoso da solidariedade universal. Quando as obras

litterarias e scientificas em que se revela a maior pujança do espirito

humano estiverem vulgarizadas em todos os paises, então a

fraternidade universal não será certamente um sonho vão, prestar-se-ha o

culto mais ardente á liberdade e á egualdade, finalizarão as guerras,

que são verdadeiros crimes sociaes. São os eloquentes escriptores, os

sublimes poetas e os eminentes sabios que mais têm contribuido para o

progresso intellectual e moral do genero humano; devemos pois tributar

as mais ardentes homenagens a todos os bemfeitores da humanidade, a

todos os grandes homens que a têm honrado com o seu genio litterario,

scientifico ou philosophico.

São rarissimas as manifestações populares que não são excitadas pelas

paixões politicas. Este facto é um triste symptoma da profunda

ignorancia que ainda lavra no nosso pais.

As homenagens prestadas aos grandes escriptores e aos sabios eximios

devem ter por unica origem a gratidão popular pelos relevantissimos

serviços que prestaram, pelos grandes esforços por elles envidados para

instruir e moralizar a sociedade.

Bem sei que a politica é indispensavel para o progresso dos povos, mas

tambem é certo que no campo da politica se põem ordinariamente as

paixões partidarias acima dos affectos mais nobres e sublimes do coração

humano, acima do amor da verdade e da justiça, da rectidão e da

imparcialidade que devem caracterizar todo o homem de bem, todo o

cidadão honrado e virtuoso. É um espectaculo assás desagradavel o vêr

que, no campo da politica vil e mesquinha, de um lado se encontram

homens sempre promptos a adular os poderosos da terra, todos os

tyrannos; seja qual fôr a denominação que se lhes dê; do outro,

individuos que, sob a mascara das doutrinas mais avançadas, procuram

lisonjear as paixões muitas vezes ignobeis e mesquinhas das turbas

analphabetas, ignorantes e fanaticas. O homem que só procura a verdade e

o bem, que não se deixa dominar pelas paixões politicas, que é imparcial

e recto, que ousa fallar ou escrever sem preconceitos contra a profunda

corrupção do seu seculo e do seu pais, que não hesita em vituperar os

vicios de todas as classes sociaes, que não vende a sua consciencia no

mercado dos poderosos nem procura illudir a plebe ignorante e fanatica,

que muitas vezes applaude inconscientemente os discursadores frivolos,

cujo merito apenas consiste na verbosidade vacua e na habilidade para

afagar as preoccupações populares, o homem que considera a mentira um

crime, que louva ou vitupera com toda a sinceridade e justiça,

forcejando por não faltar á verdade, que não mercadeja com a sua

intelligencia, que Deus só lhe deu para conhecer o bello, o verdadeiro e

o justo, aquelle que assim procede com toda a dignidade é sempre o alvo

das censuras mais acres e injustas, chega a ser muitas vezes calumniado

pelos fanaticos de todas as escolas e de todos os partidos; mas, no meio

d'estas grandes miserias sociaes, ha sempre um grupo de homens sensatos

e moderados, illustrados e honestos, que comprehendem o seu modo de

pensar e de sentir e lhe fazem a devida justiça; quando isto não

succedesse, bastar-lhe-hia a pureza da sua consciencia para o consolar,

para lhe suavizar as amarguras provenientes da injustiça dos homens,

porque a consciencia é para todo o homem sincero, imparcial e recto a

fonte dos prazeres mais intensos e duradouros, porque é a voz da

consciencia que o impelle a proseguir denodado e imperturbavel o caminho

da verdade e da justiça, sem lhe importarem os murmurios, os vituperios

que em volta d'elle possam levantar todos os ignorantes e maus, todos os

homens dominados pelo fanatismo religioso, philosophico ou politico.

Ha uma cousa muito mais nobre e elevada do que a politica, uma occupação

que não degrada os caracteres nem corrompe os costumes, em que não é

preciso sacrificar a consciencia nem praticar a injustiça, que nos serve

de consolação no meio de todas as angustias: é a cultura litteraria e

scientifica. Sem esta cultura tão proveitosa não poderiam realizar-se

nas sociedades transformações beneficas, solidas e duradouras, não

teriam os povos consciencia dos seus direitos e dos seus deveres, não

conheceriam o seu passado nem saberiam como proceder para se tornarem

mais moralizados e felizes, não poderia haver politica liberal e sensata.

Quando se trata de prestar homenagens áquelles grandes vultos que tanta

luz irradiaram nos seus escriptos, todos, sem distincção de partidos, de

escolas philosophicas e litterarias, devem unir-se para mostrar a sua

gratidão para com aquelles que tão poderosamente contribuiram para o

progresso intellectual e moral da sua patria e da humanidade.

Ninguem mais digno das nossas homenagens do que o grande vulto de cujas

virtudes e meritos litterarios e scientificos venho hoje fallar-vos.

Ninguem mais digno das nossas homenagens do que o eminente escriptor que

se chamava Alexandre Herculano de Carvalho e Araujo. Ninguem mais digno

das nossas homenagens do que aquelle cidadão illustre que foi a maior

gloria portuguesa d'este seculo e uma das maiores glorias portuguesas de

todos os seculos.

Lisboa, que foi o berço de Camões e de Vieira, de Diogo de Couto e de D.

Francisco Manuel de Mello, tambem possue a gloria de ser a terra onde

nasceu um escriptor em cuja alma se achavam, por assim dizer,

conglobados muitos dos predicados que adornavam os espiritos d'aquelles

grandes homens; um escriptor que chegou a adquirir na litteratura

universal um dos nomes mais illustres; um grande lyrico, cujo sentimento

religioso é profundo como o de Lamartine, cujo amor da liberdade é

vehemente como o de Victor Hugo, cujo patriotismo é ardente como o de

Béranger; um romancista que, alem de rivalizar com Walter Scott na

erudição e no estylo, revela, na pintura das grandes paixões, a energia

de Shakspeare e Byron, e nas descripções de batalhas se parece com

Homero; um historiador eloquente como Tito Livio, vigoroso como Tacito,

conciso como Sallustio, elegante como Xenophonte, claro como Taine,

consciencioso e erudito como Thierry, imparcial como Maccaulay,

philosophico como Guizot e poetico como Michelet; um epistolographo

sentimental como Rousseau e sobrio como Voltaire; um polemista cujo

estylo não é menos grandioso que o de Lamennais e que na vehemencia da

indignação rivaliza com Juvenal. Ser tudo isto ao mesmo tempo é um

dos phenomenos mais raros e maravilhosos que nos póde apresentar a

historia litteraria. Pois tudo isto foi Herculano; este phenomeno

extraordinario e verdadeiramente maravilhoso é-nos apresentado pela sua

obra monumental e complexa.

É immensa a gloria de Herculano, mas tambem é immensa a gloria de

Portugal por ter sido a patria de um escriptor tão insigne e de um varão

tão austero. Herculano foi incontestavelmente um dos principaes mestres

da nossa lingua, um dos pensadores mais profundos da nação portuguesa e

um dos historiadores mais eloquentes, exactos e imparciaes que o mundo

tem produzido. A immensidade do seu genio levou o grande historiador

inglês, o illustre Maccaulay, tão sobrio em louvores, a proferir esta

phrase enthusiastica: «A Hespanha deveria esforçar-se por conquistar

Portugal só para possuir Herculano.»

O principe dos historiadores portugueses nasceu no dia vinte e oito de

março de mil e oitocentos e dez. Ha por consequencia noventa annos que

neste bello pais, nesta formosa cidade banhada pelo Tejo, debaixo d'este

ceu puro e limpido, nasceu um escriptor em cujo coração se abrigava a

sensibilidade ardente de um poeta e em cujo cerebro fulgia a

intelligencia profunda de um philosopho. Ha noventa annos que nasceu em

Portugal um dos seus escriptores mais brilhantes, fecundos e eruditos e

o seu prosador mais eminente. Ha noventa annos que veiu ao mundo um dos

artistas mais varonis, um dos caracteres mais austeros, um dos

corações mais sensiveis, energicos e apaixonados, um dos mais

brilhantes luminares da sciencia historica.

A natureza difficilmente produz os grandes homens; são rarissimos em

todas as nações. Por isso devemos admirá-los e glorificá-los como entes

extraordinarios que a Providencia destinou para conduzir a humanidade

pela estrada do progresso e da civilização.

Se attendermos á pequenez do territorio que occupamos na Europa e á

respectiva população, Portugal é uma das nações que maior numero de

homens illustres têm produzido. O nosso pais tem sido o berço dos mais

arrojados heroes e dos mais eloquentes escriptores. A litteratura

portuguesa é tão rica e luxuriante como o solo da nossa patria.

A excellente posição geographica do nosso pais, o delicioso clima que

possuimos, as bellezas naturaes que adornam esta abençoada terra sulcada

de rios ora graves e imponentes, ora risonhos e graciosos, os valles

amenos e serras magestosas de que ella é matizada e que despertam em nós

o sentimento do bello, esse vasto e profundo oceano que nos offerece o

espectaculo mais grandioso tornando-nos scismadores e melancolicos e

impellindo-nos ás mais altas cogitações e ao mais profundo

sentimentalismo, a aptidão assimiladora da nossa raça, cujo vigor não

poude ser completamente destruido por mais de duzentos annos de educação

jesuitica e de tyrannia inquisitorial, tudo ha contribuido poderosamente

para que Portugal tenha produzido grande numero de homens distinctos em

todos os ramos de litteratura, especialmente na poesia e na historia,

que são os generos litterarios que mais se coadunam com a nossa

indole nacional. No meio de tantos poetas e prosadores eminentes occupa

Herculano incontestavelmente um dos primeiros logares.

Alexandre Herculano era um d'aquelles homens em quem se acham reunidos

os predicados mais oppostos; possuia uma sensibilidade ardente e uma

profundeza admiravel, uma imaginação vulcanica e uma grande perspicacia

na investigação da verdade; a sua intelligencia era eminentemente

analytica e synthetica; o seu espirito era simultaneamente poetico e

philosophico; nas suas obras encontra-se um estylo ao mesmo tempo

simples e solemne, conciso e energico, claro e imaginoso, sobrio e

elegante. Era verdadeiramente assombroso o poder e a harmonia das suas

faculdades. Herculano foi um dos genios mais notaveis do seu seculo e do

seu pais; ninguem ainda revelou uma sensibilidade mais energica e

varonil do que elle. Em todas as litteraturas rarissimas vezes se

encontra um escriptor dotado ao mesmo tempo de aptidões tão elevadas e

numerosas.

Não se deve estudar a vida de Herculano independentemente das suas

obras, porque em todas se revela o fogo sagrado que o anima, a sua

grande imaginação, a poderosa energia do seu temperamento, a rigidez do

seu caracter, o seu ardente enthusiasmo por tudo quanto é nobre e bello,

o seu amor da sciencia e da virtude, a sua paixão pela liberdade e a sua

profunda abnegação; numa palavra, porque em todas as suas obras está

vigorosamente estampado o seu nobre caracter e o seu grandioso espirito.

A indole eminentemente poetica e philosophica de Herculano revelou-se

desde a infancia; as impressões que se experimentam nos primeiros annos

da vida têm grande analogia com as inclinações dos ultimos annos: nas

tendencias infantis já se descobre o que se ha de vir a ser na edade de

homem.

Pelos escriptos de Herculano conhecemos muitos factos da sua vida,

narrados com a sinceridade que caracterizava o eminente escriptor. No

Monge de Cister diz elle, referindo-se aos dias-santos dos seus tenros

annos: «Á tarde corria pela relva com os outros moços da minha edade, e

travava luctas e gritava e ria e suava e tripudiava nos jogos e

brinquedos, que são proprios d'aquella edade; mas, quando o sol descia

para o horizonte, ia assentar-me á sombra de uma grande nogueira,

sósinho, a ouvir cair num tanque uma pequena bica d'agua, e alli ficava

muito tempo a scismar. Em que? Eu sei lá! Em nada, provavelmente. Mas

scismava e sentia levantar-se-me no coração um fumosinho de tranquilla

melancolia, fumosinho que se condensava brevemente nos olhos em

lagrimas, que não chegavam a rolar, mas que nelles bailavam. E alli me

achava a noite, e buscavam-me, e desfaziam-me o encanto, mas ficava-me

cá a saudade...»

Estas palavras eloquentes e repassadas da mais vehemente poesia

mostram-nos que já na sua infancia Herculano revelava uma grande

tendencia para a solidão, um temperamento melancolico, um espirito assás

meditabundo, um coração muito impressionavel, uma alma verdadeiramente

poetica, onde se começava a accender o amor da natureza. As suas

tendencias infantis não denunciariam já o grave e austero solitario de

Valle de Lobos? Aquella creança prodigiosa, que se afastava dos seus

companheiros para meditar, havia de ser mais tarde o vigoroso cantor da

_Semana Santa_ e da _Arrabida_, o sublime idealista do _Eurico_ e o

renovador dos estudos historicos em Portugal.

Para bem se avaliarem os escriptos e as opiniões de Herculano é mister

que examinemos a sua educação. Não ha homem algum, por maior que seja o

seu espirito, em quem a educação não exerça uma poderosa influencia; são

profundos os vestigios que deixam no espirito os primeiros habitos e idéas.

Herculano era naturalmente religioso como a maior parte dos grandes

poetas, mas a educação que recebeu contribuiu poderosamente para que no

seu espirito ficassem profundamente gravadas as crenças christãs. Estas

crenças foram certamente modificadas pelo espirito philosophico de que a

natureza o dotara, mas, embora chegasse a combater com a maior energia

os novos dogmas que Roma introduziu no catholicismo, nunca em seu

espirito se extinguiu a religiosidade, nunca renegou um só dos

principios fundamentaes do verdadeiro christianismo. Em toda a sua vida

foi um crente sincero, um enthusiasta da moral evangelica, um

espiritualista ardente. Era um velho catholico, um sectario

intransigente da igreja primitiva. Foi considerado hereje por uma grande

parte do clero, mas aquelle hereje era um verdadeiro christão, que não

admittia innovações no catholicismo nem transigia com a Companhia de

Jesus.

A lucta que se travava no seu espirito entre a fé e o raciocinio, entre

a religião e a philosophia, e que só póde ser devidamente avaliada por

aquellas almas apaixonadas que, depois de receberem uma educação

eminentemente christã, se acham invadidas pelo verme roedor do

scepticismo, essa lucta dolorosa em que se estorce a alma do crente

illustrado está admiravelmente descripta no magnifico prologo do

«Parocho d'aldeia», onde se encontra o seguinte trecho, cuja sublimidade

rivaliza com a dos mais bellos monumentos da poesia religiosa de todos

os seculos:

«Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os caminhos da vida com

os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além da morte,

sem que um momento vacille; sem que um momento a luz se apague ou a

esperança se desvaneça! Para ella não ha abraçar-se com a cruz em impeto

de agonia, e clamar a Jesus:--«Creio, creio, oh Nazareno! Creio em ti,

porque a tua moral é sublime; porque eras humilde e virtuoso; porque,

filho da raça soffredora e austera chamada o povo, eras meu irmão, e não

podias, tão bom, tão singelo, tão puro, enganar teu pobre irmão. Creio,

creio, oh Nazareno! porque até á hora de expirar na ignominia, até á

hora da grande prova, nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh

Nazareno! porque tu só nos explicaste o mysterio d'esta associação

monstruosa da saude, do ouro, do poderio e dos crimes a um lado, e a da

enfermidade, da pobreza, da servidão e da innocencia a outro; porque nos

explicaste como os destinos humanos se compensavam além do

sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu soubeste revelar a

consolação á extrema miseria sem horizonte, e os terrores á completa

felicidade sem termo na vida collocando no logar do destino a

Providencia, e no do nada a immortalidade! Creio, creio, oh Nazareno!

porque a intensidade do teu viver é um impossivel humano; a victoria da

tua doutrina severa contra a philosophia e o paganismo, um milagre; a

gloria do teu nome de suppliciado maior que todas as glorias das mais

altas e virtuosas intelligencias do mundo. Mas foste na verdade um Deus?»

Como é profundamente arrebatador este bellissimo trecho, onde o

sentimento religioso é expresso com tanto vigor como nos Pensamentos de

Pascal ou nos Sermões de Bossuet e onde a concisão e a harmonia se

reunem do modo mais assombroso! No eloquentissimo prologo do «Parocho

d'aldeia» ha mais profundeza, energia e solemnidade do que nos mais

bellos capitulos do «Genio do christianismo» de Chateaubriand. Este

admiravel prologo é um verdadeiro poema philosophico, onde se revela um

raciocinio vigoroso alliado a uma pujante imaginação e ardentissima

sensibilidade.

Como Pascal, Herculano caiu no scepticismo philosophico e, vendo quão

profundas eram as dores que a duvida produzia na sua alma e quão grande

era a fraqueza da razão humana, abraçou-se com a cruz, procurando

refugio na religião, que era para elle uma fonte perenne de consolações

e onde encontrava tudo quanto havia mais bello e grandioso para o seu

coração ardentissimo, tudo quanto podia satisfazer a sua grande

imaginação de poeta. Para Herculano o christianismo era não só a mais

sublime de todas as religiões mas a causa principal da civilização

moderna. Não ensinou Christo que todos os homens eram eguaes perante

Deus, isto é, perante a Justiça eterna? Não foi elle quem primeiro

prégou a fraternidade universal e a tolerancia? Não causaram as suas

palavras vibrantes e sonoras, os seus discursos profundamente liberaes

tanto susto aos tyrannos e hypocritas?

Para Herculano o christianismo era um facto altamente grandioso não só

pelo lado poetico mas tambem pelo lado social; para elle tinham uma

significação profundamente analoga estas duas palavras: redempção e

liberdade.

Em Herculano havia duas almas, que mantinham entre si um perfeito

equilibrio: uma, religiosa e poetica; outra, philosophica e propensa ao

scepticismo. A primeira fez d'elle um escriptor de primeira ordem; a

segunda, um pensador profundo, que eliminou da nossa historia tudo

quanto nella havia phantastico e milagroso.

Herculano não era certamente um inimigo da philosophia; o que apenas

teve em vista no prologo do «Parocho d'aldeia» foi exprimir as agonias

intimas produzidas pelo scepticismo involuntario e mostrar quão doce era

a tranquillidade gerada pela crença viva. O homem que introduziu em

Portugal a philosophia da historia e que tão eloquentemente advogou

nalguns dos seus escriptos a causa da instrucção popular, deu bastantes

provas de quanto amava a cultura scientifica e philosophica. Aquelle

prologo é apenas um desabafo de poeta, uma manifestação sincera e

profundamente lancinante dos tormentos que opprimiam a sua alma, que

gemia na duvida, embora nella estivesse profundamente gravado o

sentimento religioso.

Os escriptores mais eloquentes têm ordinariamente sido religiosos. Se a

nossa imaginação se transportar á Grecia, á patria da poesia, da

eloquencia e da philosophia, lá encontraremos a propagar o idealismo o

divino Platão, aquelle grande philosopho a quem Mithridates levantou uma

estatua e Aristoteles um altar e cujo estylo poetico, enthusiastico,

doce e harmonioso ainda hoje causa a admiração do mundo. Com que energia

não é expresso o sentimento religioso nas sublimes odes de Pindaro e nas

solemnes e magestosas tragedias de Eschylo!

Passemos a Roma, e lá acharemos o sentimento religioso revelado nas

obras de Virgilio, de Cicero e de Tito Livio. O grande Lucrecio, o mais

profundo e um dos mais eloquentes poetas romanos, que no seu brilhante

poema «Da natureza das cousas» romanizou o epicurismo, negou a

existencia dos deuses e a immortalidade da alma, divinizou a materia,

explicou a origem do mundo sem intervenção divina e aconselhou o

suicidio, foi sem duvida uma excepção.

Mas em nenhuma litteratura da antiguidade se exprimiu o sentimento

religioso com tanta simplicidade, força, doçura, nobreza e sublimidade

como na litteratura hebraica. Ainda nenhum escriptor antigo ou moderno

conseguiu ser mais sublime do que Isaias, nem mais sentimental e

terno do que David, nem mais magestoso do que Moysés, nem mais

melancolico do que Jeremias.

Na edade média apparece-nos o sublime Dante, o cantor do catholicismo,

produzindo essa obra prima intitulada _A Divina Comedia_, que levará o

nome do seu auctor á mais remota posteridade e que é uma das mais bellas

producções do espirito humano.

Nos tempos modernos foi o sentimento religioso que inspirou a Milton a

sua maravilhosa e sublime epopeia _O Paraizo Perdido_, a Bossuet as

suas eloquentes _Orações funebres_ e a Pascal os seus profundos e

magestosos _Pensamentos_.

No seculo dezoito, nesse seculo philosophico e revolucionario em que

fizeram grandes progressos o scepticismo e a incredulidade e se

propagaram com immensa actividade as doutrinas que deviam produzir as

grandes tempestades politicas e sociaes, nesse grande seculo, ao qual

devemos comtudo immensos beneficios, João Jacques Rousseau, um dos mais

eloquentes prosadores franceses, defendeu com muito enthusiasmo a

existencia de Deus e a immortalidade da alma e exaltou a moral

evangelica, distinguindo-se pelo seu deismo ardente, que elle manifestou

num estylo tão suave e harmonioso que faz lembrar o de Platão.

No seculo dezanove, o seculo dos estudos historicos e da philosophia

positiva, vemos o sentimento religioso expresso com uma vivacidade

admiravel nas obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand, Manzoni,

Walter Scott, Lamennais, Renan, Thierry, Guizot, Michelet,

Flammarion, Tolstoi e muitos outros. Este sentimento sublime do coração

humano existe não só nos que professam o christianismo ou qualquer outra

religião positiva mas tambem em todos os sectarios da religião natural.

Como a religião tem raizes profundas no coração do homem, hão de existir

sempre, por mais alto que se eleve a sua intelligencia, almas

apaixonadas que se comprazam em estar abrasadas no fogo sagrado do

sentimento religioso. Eu não creio que este venha a extinguir-se no seio

da humanidade mas estou profundamente convicto de que com o progresso da

civilização a religião individual se ha de tornar cada vez mais pura,

isto é, se ha de ir libertando das superstições com que a têm deturpado

a imaginação e a ignorancia dos povos e os interesses sacerdotaes.

Embora se derribassem os altares e se destruissem os templos, a

religiosidade havia de existir perpetuamente no coração do homem porque

bastaria a contemplação da natureza magestosa e bella que nos circumda

para despertar em nós a idéa mais sublime a que se elevou a

intelligencia humana, a idéa de Deus.

Se Herculano, além de ser um grande poeta, foi um dos prosadores mais

poeticos e eloquentes que têm existido em todos os seculos, que admira

que o seu espirito fosse eminentemente religioso? Todas as crenças são

dignas do maximo respeito comtanto que haja sinceridade naquelles que as

professam. O homem que não respeita as opiniões alheias é inimigo da

tolerancia e da liberdade, por mais avançadas que pareçam as suas

idéas. O fanatismo philosophico é para mim tão reprehensivel como o

fanatismo religioso. Considero pois injusto, absurdo e ridiculo o

deprimir Herculano por causa da sua paixão ardente pelo christianismo,

da sua crença em Deus e na immortalidade da alma, como o têm feito

alguns d'esses criticos superficiaes ou mal intencionados que costumam

apparecer em todas as epochas para depreciar as obras mais excellentes

que tem produzido o genio do homem.

É indubitavel que o christianismo exerceu uma influencia benefica no

genio litterario de Herculano. Foi nas paginas sublimes da Biblia que

Herculano bebeu uma parte das suas inspirações; foi no estylo biblico

que elle escreveu o terrivel e eloquente opusculo _A Voz do propheta_ e

os sublimes e dolorosos cantos do presbytero de Carteia, que fazem parte

do seu mais bello e magestoso romance, a que deu o titulo de _Eurico_.

Mas, no emprego do estylo biblico, Herculano, longe de ser um simples

imitador, revelou sempre a poderosa originalidade que caracteriza todos

os seus escriptos.

O sr. Theophilo Braga, na sua _Historia do romantismo_, diz que

Herculano não se elevou acima da metaphysica christã; mas o distincto

professor esqueceu-se de accrescentar que no tempo de Herculano a maior

parte dos grandes espiritos que tanto illustraram o seu seculo nos

paizes mais adiantados da Europa e da America, se achavam no mesmo

estado psychologico e que a philosophia positiva ainda não conseguiu

derribar o espiritualismo.

Em todas as escolas philosophicas tem havido pensadores profundos. O

espiritualismo christão não impediu Herculano de ser um dos mais

eminentes historiadores do seu seculo, assim como não tirou mais

modernamente ao immortal Pasteur a glória de ser um sabio de primeira

ordem, um dos maiores bemfeitores da humanidade. Não obstante as grandes

modificações por que passou o altissimo espirito de Victor Hugo, eu

considero o seu christianismo, embora philosophico, incomparavelmente

mais puro do que o de Torquemada e S. Domingos de Gusmão, cujo

procedimento fanatico estava em completo antagonismo com os principios

sublimes, com as maximas sacrosantas proclamadas no Evangelho. Victor

Hugo, apesar do seu espiritualismo ardente e do seu enthusiasmo pela

moral evangelica, foi um dos escriptores mais eloquentes e philosophicos

que a França tem produzido. Se Guizot e Thierry na França, Cantu na

Italia, Maccaulay na Inglaterra, Herder e Niebuhr na Allemanha, Prescott

nos Estados-Unidos da America puderam ser ao mesmo tempo historiadores

de primeira ordem e espiritualistas christãos, porque não poderia

succeder o mesmo em Portugal a Alexandre Herculano? Condemnar este

grande homem pelo seu espiritualismo ardente e pelas suas crenças

religiosas seria o mesmo que condemnar a sua epocha e a escola romantica

de que elle foi um dos mais distinctos ornamentos, seria faltar á

justiça e imparcialidade que deve ter o verdadeiro critico.

Creio que, em quanto a humanidade existir, ha de haver sempre

discordancia em materia philosophica. A historia da philosophia, diz

Herculano, é a historia de um edificio começado ha milhares d'annos

em que um seculo revolve os fundamentos que outro lançou, para lançar os

seus, os quaes egualmente são revolvidos pelo seculo seguinte, cujos

trabalhos condemnará o que vier após elle. A duvida, a que o espirito de

Herculano era naturalmente propenso, como se revela em muitos dos seus

escriptos, impedia-o de se deixar dominar completamente pelas crenças

religiosas, que nunca exerceram a minima influencia nas suas

investigações historicas. Esta minha opinião é completamente opposta á

que o sr. Theophilo Braga manifesta na Historia do romantismo quando

nega a Herculano a possibilidade de comprehender a vida politica do povo

portuguez pelo facto de ser um christão fervoroso e poetico. Mas o

distincto escriptor contradiz-se na mesma página quando, para deprimir

Herculano, faz os maiores elogios a Agostinho Thierry, que não era menos

christão do que o principe dos historiadores portugueses.

Nenhum escriptor do romanticismo foi apreciado tão injustamente pelos

seus adversarios como Alexandre Herculano, o que para mim é mais uma

prova do seu immenso valor. Herculano, que foi accusado de impio pelos

partidarios da reacção ultramontana e do jesuitismo, tem sido criticado

injustamente por alguns escriptores que, declarando-se sectarios do

positivismo, estão muito longe de seguir as pisadas de Taine e de

Littré, dois positivistas eminentes que, pelo seu caracter austero,

espirito philosophico e estylo elegante, primoroso, correcto e limpido,

se tornaram dignos da veneração não só da França mas de todo o mundo.

Venero todos os grandes homens, seja qual for a sua escola, porque

todos têm contribuido poderosamente para o progresso; o que detesto é a

injustiça, a maledicencia e o fanatismo. O critico, para ser eminente,

deve pôr a sua consciencia acima de todos os preconceitos, de todo o

espirito do partido.

O amor da verdade é a principal qualidade do historiador. Foi esta

qualidade, associada a muitas outras, que fez com que Herculano fosse um

dos maiores historiadores do mundo. Eu não quero dizer que elle não se

enganasse, porque isso seria contrario á natureza humana; não ha ninguem

infallivel, a não ser o padre santo para os partidarios do

neo-catholicismo ou do catholicismo influenciado pela Companhia de

Jesus. O que é certo é que Herculano examinava com a mais profunda

attenção tudo quanto escrevia, empregava todos os meios de não falsear a

historia, tudo sacrificava ao amor da verdade, fazia fallar os factos,

não enchia a historia de generalizações falsas, intempestivas e

absurdas; tudo quanto dizia firmava-se em documentos que elle criticava

com a maior severidade e de cuja authenticidade estava profundamente

convicto; não fazia syntheses que não se estribassem na mais profunda e

rigorosa analyse. O mais abalisado analysta historico que Portugal tem

produzido teve sempre receio de cair nessa laboração subjectiva, falsa e

imaginosa, que caracteriza muitos espiritos do seculo dezanove.

Quantas obras historicas se não tem escripto, que, em vez da verdadeira

philosophia da historia, nos apresentam a philosophia dos seus auctores!

Os trabalhos historicos de Herculano foram incomparavelmente mais

syntheticos do que tudo quanto no seu genero se havia escripto

anteriormente em Portugal; mas, se a generalização philosophica não

existe nelles mais copiosamente é porque ainda se não tinham realizado

com a amplitude indispensavel as investigações eruditas sem as quaes

toda a philosophia da historia seria apenas um edificio sem base; é

porque ainda escasseavam os materiaes sufficientes para se poderem fazer

em larga escala syntheses profundas, exactas e rigorosas.

Quantas syntheses formuladas no seculo dezanove não serão materia de

riso para o seculo vigesimo! Os escriptores gongoricos e nebulosos, que

têm falsificado a historia com syntheses falsas e temerarias, parecem-se

com aquelle fidalgo da Mancha, chamado D. Quichote, que em cada moinho

de vento via um gigante, em cada rebanho um grande exercito; no seu

furor de generalizar, os modernos gongoristas em cada facto vêem uma lei.

Diz o snr. Theophilo Braga que Herculano não possuia disciplina

philosophica; eu estou profundamente convicto do contrario. Foi a

disciplina philosophica que deu a Herculano o mais excellente methodo no

modo de escrever historia; foi ella que fez com que o nosso grande

historiador procedesse sensatamente, começando pelo exame rigoroso dos

documentos, passando á anályse exacta e minuciosa dos factos e por fim á

generalização philosophica, de que elle usou com a devida sobriedade. Os

historiadores que, em vez de ter o maximo rigor na investigação dos

acontecimentos, enchem a historia de syntheses phantasticas e

plagiadas, é que revelam falta de disciplina philosophica.

O methodo seguido por Herculano está em perfeita harmonia com as

doutrinas de um dos maiores luminares da philosophia, o grande Bacon,

que sustentava que a generalização se devia fazer vagarosamente,

considerando as syntheses feitas á pressa como um grande obstaculo ao

progresso das sciencias e uma causa poderosa da multiplicação das

polemicas.

Só um genio historico verdadeiramente prodigioso como Herculano, poderia

realizar em Portugal o que lá fóra se fez com muito mais elementos. O

eminente historiador estava num pais atrazadissimo em estudos historicos

e philosophicos, num pais em que uma parte do clero ora roubava

documentos ora se recusava energicamente a entregá-los, num pais em que

os monumentos historicos dispersos pelas collegiadas e mosteiros

desappareceriam completamente se Herculano os não tivesse colligido.

Póde alguem, diz Oliveira Martins, avaliar o trabalho do obreiro sem

ferramenta nem trabalho são?

O amor da verdade e da justiça predominava de tal modo em Herculano que

seria capaz de sacrificar-lhe todos os outros affectos do seu coração;

elle punha a verdade acima de tudo. Herculano nunca teve em mira

sacrificar a sua consciencia ao serviço de qualquer seita ou partido; no

seu rigoroso espirito a paixão pela verdade estava acima da religião e

do patriotismo. A grande imparcialidade com que Herculano apreciava não

só os papas mas tambem aquelles homens a quem a igreja canonizou,

mostra-nos evidentemente que o espirito catholico não suffocou nelle

a paixão mais nobre do verdadeiro historiador, o amor da verdade. O

seguinte trecho do segundo volume da _Historia de Portugal_ é uma prova

da veracidade da minha asserção:

«Ao passo que um homem de genio, Innocencio III, se assentava no solio

pontificio para manter a acção da jerarchia sacerdotal, surgiam da

obscuridade outros dous homens que haviam de hasteiar de novo a bandeira

da abnegação e fazer abraçar pelos seus sectarios a rigorosa pobreza

repellida das congregações monasticas, instituindo em frente d'ellas as

congregações mendicantes. Ninguem ignora os nomes d'estes dous

individuos: Francisco de Assis e Domingos de Gusmão: aquelle, humilde

mas abastado burguês italiano que, depois de convertido ao mysticismo,

seguia com tanto ardor a vereda da mortificação como antes seguira a

espaçosa estrada dos deleites; este, nobre e altivo hespanhol, já

revestido de dignidades ecclesiasticas e que se arrojara á grande

empreza da reforma sem perder os caracteres da sua raça. Austero e

inflexivel, homem cujos avós pelejaram sempre contra os sarracenos com o

ferro numa das mãos e o facho do incendio na outra, dir-se-hia que mal

sabe combater de diverso modo os que não crêem como elle. A sua

exaltação religiosa é intolerante: a luz suave do Evangelho não póde

vê-la senão reflexa na espada polida, senão retincta em sangue. O gemido

do hereje no patibulo é para elle um hymno ao manso cordeiro do

Calvario: para elle o algoz exerce um sacerdocio.»

Neste eloquentissimo parallelo, um dos mais concisos, energicos e

claros de todas as litteraturas, mostra-nos Herculano a profunda

differença que houve entre os fundadores das duas ordens dos

franciscanos e dominicanos. O fanatismo do terrivel S. Domingos de

Gusmão foi por elle estigmatizado num estylo vigorosamente poetico; o

facto da igreja ter posto este homem feroz, cruel e sanguinario no

numero dos santos não impediu Herculano de pintá-lo com toda a fidelidade.

É de admirar que, referindo-se o eminente historiador a estes dois

vultos da igreja, não fizesse a mais leve menção do santo mais popular

para os portugueses, de Santo Antonio, que não só pertenceu á ordem

franciscana mas tambem viveu no reinado de D. Affonso II e cuja gloria o

clero português quasi que olvidou durante seculos deixando-o envolto na

lenda milagreira e chegando apenas a occupar-se dos seus escriptos e a

enaltecer a sua influencia social quando pretendeu fazer manifestações

reaccionarias e jesuiticas. Estou profundamente convicto de que, se o

grave historiador, apesar de ser eminentemente christão e patriota, não

se occupou do referido santo, é porque, relativamente a esta gloria

nacional, não encontrou nos cartorios que tão activamente revolveu

documentos que satisfizessem o seu espirito extremamente severo e

rigoroso. Aquelle grande philosopho, a quem o sr. Theophilo Braga chama

catholico ferrenho, punha sempre o amor da verdade acima do proprio

catholicismo. Até no modo de considerar a religião christã se revela a

poderosa autonomia da sua vasta e profunda intelligencia. Com que

energia não combateu Herculano as ambições clericaes, a politica da

igreja! O catholicismo, que elle apreciava não só poeticamente mas

tambem debaixo do aspecto prático, não o impediu de tirar conclusões,

como pretende o auctor da _Historia do romantismo_. O espirito de

Herculano era ainda mais positivo do que o de alguns positivistas que se

deixam seduzir pelas miragens da sua imaginação e muitas vezes da

imaginação alheia.

Nas Questões de litteratura e arte diz o sr. Theophilo Braga que as

primeiras impressões do espirito de Herculano o tornaram um padre por

dentro. Porque motivo o distincto escriptor não deu este epitheto a

tantos outros portugueses illustres que não só foram catholicos mas

nunca luctaram com os padres, nunca ousaram combater energicamente a

reacção ultramontana e o jesuitismo, nunca se preoccuparam com os

progressos que a Companhia de Jesus tem feito em Portugal? Que um homem

rude, sem instrucção, tendo apenas algumas idéas superficiaes

ministradas pelo jornalismo politico, chegue a confundir a religião com

o jesuitismo, isso não me admira; o que me causa verdadeiro assombro, o

que me impressiona muito desagradavelmente é que o sr. Theophilo Braga,

cujo talento é assás notavel, procure deprimir Herculano dando-lhe o

epitheto de padre. O grande lyrico João de Deus, vivendo numa epocha

menos religiosa, foi um catholico fervoroso que nunca desagradou ao

clero como Alexandre Herculano; mas quem se lembrou de dar ao

espontaneo, singelo e mavioso poeta do _Campo de flores_ o epitheto de

padre? Almeida Garrett, o glorioso reformador do theatro nacional,

escreveu um elegantissimo tratado de educação, onde não se revela

menos catholico do que Herculano; todavia qual foi o critico que

procurou deprimi-lo chamando-lhe padre? Não me consta que alguem désse

este epitheto nem a Rebello da Silva por ter sido o auctor dos _Fastos

da Igreja_ nem a Camillo Castello Branco por haver escripto uma obra

religiosissima, a _Divindade de Jesus_. A seguirmos a critica do sr.

Theophilo Braga, não só poderiamos affirmar que o mosteiro dos Jeronymos

ficaria em breve repleto de padres se quizessemos continuar a trasladar

para aquelle sumptuoso monumento os restos mortaes dos nossos grandes

homens, mas tambem dariamos o referido epitheto á maior parte desses

genios prodigiosos cujos descobrimentos scientificos contribuiram tão

poderosamente para o progresso da humanidade como Kepler, Newton,

Leibnitz, Pascal, Descartes, Claude Bernard, Pasteur e tantos outros,

cujo espirito eminentemente religioso é bem notorio.

Herculano era da maxima tolerancia para com aquelles cujas opiniões

divergiam das suas; não admittia restricções para a livre manifestação

do pensamento. Foi um catholico liberal como o celebre historiador e

theologo allemão Doellinger, que fazia d'elle o mais alto conceito e o

admirava enthusiasticamente, consultantando-o sobre muitos pontos

historicos e chegando a occupar-se, nos Annaes historicos de Munich, da

vida e obras do nosso eminente prosador, a quem fez os maiores elogios.

Na questão religiosa, Doellinger, o grande historiador da igreja, um dos

mais profundos theologos da Allemanha, desempenhou um papel semelhante

ao de Herculano; foi o denodado campeão do partido dos velhos

catholicos allemães, que ousaram arrostar as furias de Roma; como

escriptor e lente de theologia, exerceu um grande prestigio no seu pais,

combatendo energicamente as novas modificações feitas no christianismo e

procurando assim desviar a mocidade catholica allemã da influencia

nefasta dos jesuitas; por isso era mal visto em Roma, era detestado pelo

partido jesuitico, pelos sectarios do neo-catholicismo.

Herculano foi o adversario mais temivel que os jesuitas tiveram em

Portugal; era dentro do christianismo que elle os combatia com o maximo

vigor; os seus vastos e profundos conhecimentos de theologia e de

historia ecclesiastica foram as armas mais poderosas por elle manejadas

para demonstrar os erros dos ultramontanos e a grande differença que

existia entre as doutrinas jesuiticas e as que haviam professado os

christãos dos primeiros seculos; era expondo lucidamente as opiniões dos

Padres da Igreja e dos antigos papas que elle dava os golpes mais

profundos na Companhia de Jesus e no partido ultramontano. Na verdade os

jesuitas têm-se afastado tanto da igreja primitiva que não é mister sair

do christianismo para combatê-los; é com o Evangelho na mão que mais

solidamente se podem refutar os seus erros gravissimos. O Manifesto da

Associação popular promotora da educação do sexo feminino, redigido por

Herculano, o qual se acha inserto no segundo volume dos _Opusculos_, é a

obra mais eloquente e profunda que em Portugal se tem escripto contra a

educação jesuitica; é um livro que deve ser lido por todos aquelles que

ainda se preoccupam com o futuro da nossa patria e prezam a

moralidade da familia portuguesa. D'este brilhante opusculo vou

reproduzir o seguinte trecho, que é sem duvida um dos mais eloquentes

que se têm escripto em todas as linguas:

«O procedimento dos poderes publicos durante dez annos e as suas tristes

hesitações na actual conjunctura legitimam, santificam a nossa

resolução; porque se trata do envenenamento moral da sociedade pelo

envenenamento moral da familia. Uma lei d'esta terra, uma lei de sete

seculos, uma lei cuja duração representa um profundo sentimento de

honra, diz que se póde ser homicida sem crime quando a prostituição do

adulterio vai ennodoar o seio da familia. É que a familia é a molecula

social, e gangrenada ella, a sociedade esphacela-se num monte de

podridão. Vamos muito menos longe que a lei. E todavia o perigo é maior;

porque nos seminarios da reacção não se hostiliza só a liberdade:

ensina-se tambem a revelar á donzella e á mãe de familia delicias mais

monstruosos que o adulterio. Defendemos nossas mulheres, nossas irmãs,

nossas filhas: defendemos as mulheres, as irmãs e as filhas dos que hão

de vir depois de nós. Onde estará aqui o crime, a violencia, o erro, o

motivo sequer de suspeição? Não dissimulamos, não tergiversamos; a nossa

linguagem é simples e explicita como as nossas intenções.»

Herculano foi inimigo acerrimo da hypocrisia e do fanatismo; o seu culto

era incomparavelmente mais interno do que externo; pela contemplação da

natureza é que elle principalmente se elevava á idéa de Deus.

Diz o sr. Theophilo Braga que Herculano mandou construir uma capella

em Valle de Lobos. Isso não admira porque, sendo Herculano toda a vida

um grande poeta, como o revelam as suas obras tanto em verso como em

prosa, devia comprazer-se em ter deante dos olhos objectos que lhe

recordassem os bellos e saudosos tempos da sua infancia. Na casa onde

Herculano nasceu e passou os seus primeiros annos havia uma ermida onde

um frade arrabido costumava dizer missa os dias-santos. No _Monge de

Cister_ pinta-nos elle com as mais vivas côres a profunda saudade que

lhe causava a lembrança dos dias-santos da sua infancia, do altar onde

no sabbado á noite se punham jarras de flores, do frade que lhe contava

lindas historias ao almoço. Os verdadeiros poetas, os grandes

sentimentalistas amam sempre o passado. Os homens demasiadamente

positivos não podem comprehender o sentimentalismo vehemente das grandes

almas. Se a cruz era para Herculano o symbolo da liberdade, da

fraternidade e do progresso, não é de admirar que elle a amasse

entusiasticamente, como o revelou na sua eloquente e philosophica poesia

_A cruz mutilada_, escripta na sua mocidade. O ter mandado Herculano

construir uma capella em Valle de Lobos não é pois uma prova de que o

seu espirito retrocedesse com a edade. Alem d'isso o grande escriptor

não deixou de ser christão em epocha alguma da sua vida. Rousseau, a

quem os padres chamam impio, nunca zombava da religião como Voltaire. É

porque o auctor do _Emilio_ era um sentimentalista ardente como

Herculano. Littré, apesar de positivista, não queria perturbar sua

mulher quando ella estava deante do oratorio fazendo oração. Foi a

instancias de sua esposa que Herculano mandou construir a capella de que

já fiz menção. Ainda que elle não fosse catholico, haveria porventura

neste procedimento alguma cousa digna de censura? O verdadeiro

philosopho, o amigo da tolerancia e da liberdade conserva sempre no seu

coração o mais profundo respeito pelas crenças alheias. A liberdade de

consciencia é um dos principios mais sacrosantos, um dos direitos mais

sagrados, não só na sociedade mas até no lar domestico, no sanctuario da

familia. O chefe de familia não é um despota nem a mulher uma escrava. A

religiosidade é uma tendencia natural da mulher, a crença é uma das

condições da sua vida moral; se quizerem extinguir-lhe no coração o

sentimento religioso, lançar-se-ha no caminho do jesuitismo, o que

certamente será um grande mal para a familia e para a sociedade. A

religião é um instrumento poderoso nas mãos do jesuita; quem conseguir

arrancar-lhe esta arma prestará incontestavelmente um grande serviço ás

gerações futuras. É por meio da propaganda verdadeiramente religiosa que

se dão os golpes mais profundos na Companhia de Jesus. A religião nasce

do coração e a philosophia da intelligencia. Se a mulher é mais dominada

pelo sentimento do que pela idéa, como poderá ella comprehender systemas

philosophicos que estejam em antagonismo com o seu estado psychologico,

com as grandiosas aspirações do seu nobre coração? Embora todas as

opiniões sinceras sejam para mim respeitaveis, eu entendo que, em vez de

se aggredir o christianismo, falsificadores, que são os jesuitas e

todos os padres cujas doutrinas sejam identicas ás dos filhos de Loyola.

Herculano, com a sua crença religiosa, ficou profundamente impressionado

pelos estragos que a Companhia de Jesus fazia no christianismo; por isso

mostra-nos, em muitas das suas paginas immortaes, quão perigosa é para o

futuro da nossa patria essa sociedade fundada no seculo dezaseis por

Santo Ignacio de Loyola e cujas intrigas obrigaram a sair de Portugal os

lentes mais distinctos da Universidade de Coimbra. Na prosa mais poetica

e viril que nos apresenta a nossa litteratura, expoz e criticou os

factos mais interessantes da historia do ultramontanismo; com a sua

vista de aguia previu os progressos que o jesuitismo havia de fazer em

nossos dias.

Alexandre Herculano Conferencia pública realizada no Atheneu Commercial de Lisboa, na noite de 15 de Julho de 1900 · 第 1 / 3 段