--Não conheço flamengos. Diz lá o teu nome... Se és o patavina d'hontem,

vai-te com o diabo.

--Abre, Liberata.

--Eu conheço esta voz...--murmurou ella.

Abrindo a porta, recuou, exclamando:

--És tu, Luiz?!

--Em que estado te encontro!

--Que queres? tornei ao que fui... Nada de lamurias. Como tu me

conhecestes, isso é que eu admiro! Pois vês em mim algum signal da

mulher de ha tres annos?!

--Apenas te conheço a voz, e os olhos. Que é isso que tens na cara?

parece que te queimaram com vitriolo?

--Estas nódoas vermelhas?

--Sim.

--Eu sei cá o que isto é? Está bom... não fallemos em mais nada, senão

mêtto uma faca no peito. Eu já fujo de abrir a porta a ociosos que me

vem fallar na minha formosura, e nas minhas carruagens! Acabou... Nem

carruagens, nem formosura. O diabo o deu, o diabo o levou. Tu tambem

estás acabado! Disseram-me que estavas rico, é verdade?

--Não: apenas tenho um bocado de pão para cada dia.

--Não te faças pobre que eu não te peço nada.

--Pois, Liberata, eu venho pagar-te uma divida do pouco que posso, assim

como a contrahi do muito que podias. Depois d'amanhã vou empregado

para a provincia, queres vir comigo?

--Pois tu querias-me lá assim?

--Quero... serei o teu enfermeiro.

--Olha lá o que dizes!

--Não me desdigo.

--Eu tenho este vestido que vês.

--Comprar-te-hei o que fôr da primeira necessidade.

--Pois tu ainda gostas de mim n'este infeliz estado em que me vês?!

--Gosto. Ha uma unica pessoa que se parece comigo n'este momento pela

desgraça. És tu. Quero viver comtigo. Quero vêr se a rehabilitação é

possivel para ambos nós.

--Agora creio que é. Olha, Luiz, toda a minha philosophia desappareceu.

Eu não t'o dizia que sem dinheiro não ha philosophia? Sabes tu que tudo

isto me parece um sonho!... Ha mais d'um anno que me embriago todos os

dias para me esquecer... Hei de contar-te a minha vida... Eu não

esperava vêr-te mais; mas vê tu o que é o presentimento... Ainda não ha

quatro horas que eu dizia:--«Que impressão faria eu n'este estado a Luiz

da Cunha!» O que são as cousas d'esta vida!... Até parece que recuperei

o som da palavra, fallando com o meu amante dos tempos felizes! Ai! quem

me déra ser bella para te agradar ainda! Diz-me cá: esta machina não

terá concerto?

--Veremos.

--Eu era ainda bella se me tirassem da cara estas manchas vermelhas.

Sinto ainda a robustez dos trinta annos; o que me falta é o fogo da

alma... Vê se fazes de mim outra mulher, que eu prometto de fazer a tua

felicidade... Não me vês a chorar? Isto é galante! Cuidei que chorara

pela ultima vez quando entrei, no hospital, pobre, e abandonada do

infame que me reduziu a este estado...

--Não chores, Liberata... Vamos vêr o que é o futuro. Até ámanhã.

--Pois deixas-me?! Vou comtigo já.

--Não. Preciso illudir alguem.

Luiz da Cunha deixara alguns cruzados novos sobre uma banqueta de pinho,

e sahiu.

Liberata não provou somno. As lagrimas incessantes eram-lhe d'um

sabor novo. Nunca ella fôra tão infeliz como n'essa noite. Havia no seu

soffrimento alguma cousa que disputaria á alma do cynico um momento de

compaixão. N'aquella degradação não diremos que as lagrimas regeneram;

mas por isso mesmo que são inuteis, como o orvalho sobre a flôr

arrancada e sêcca, a mulher que as chora, é bem que nos apiedemos

d'ella, mostrando-a como exemplo, mas que a infeliz não veja que é

mostrada com escarneo!

XVII.

AS PRIMEIRAS E ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA CUNHA.

E dez dias depois, João Maria das Neves tomava posse do cartorio

d'escrivão do juizo ordinario no concelho de Ribeira de Pena. É escusado

dizer-vos que Liberata o acompanhára, e, ao decimo dia de convivencia

com Luiz da Cunha, eram visiveis os melhoramentos n'aquella physionomia

macerada. Passado um mez, raiavam-lhe da tez, ainda mosqueada de betas

côr de açafrão, uns longes da descomposta formosura. Luiz tinha soberba

de poder tanto no espirito d'aquella mulher, unica no mundo para elle,

unica pessoa que o não repellira, que se confiára á sua vontade,

entregando-se-lhe sem condições.

O homem abandonado, só, desatado de todos os liames sociaes, revoca as

potencias da sua alma para consubstanciar-se no coração da unica pessoa

que o não abomina. Ha exemplos de affeições ferventes do salteador de

estrada para a mulher que o recebe nos braços; do que aguarda na enxovia

o dia do patibulo, do assassino por officio para a mulher que a chorar

lhe dá esperanças de perdão. O instincto do sangue não adultera o da

sociabilidade. A ancia d'uma affeição recresce, quando o opprobrio vem

de todas as bôcas pedir o exilio do execrado de entre os homens.

Assim se explica o enlace de Luiz com Liberata. Não ha hypocrisia no

afan com que a procura, em todas as horas vagas do trabalho. Succedem-se

os dias sem um vislumbre de fastio. Vem as longas noites do inverno,

sem outra convivencia, encontral-os sentados ao fogão, contando-se

mutuamente lances de duas biographias, que muitas vezes são saudadas com

estrepitosas gargalhadas. Feitos para se encontrarem no mesmo atoleiro,

é necessario que ahi se amem, que ahi se reconheçam, ahi se centralisem

na mesma aspiração, e não tenham de que se envergonhar, um ante o outro,

de infamias passadas.

Reconheceram-se, e amaram-se.

Pois não seria amor a soffreguidão d'aquelles beijos? Não seria amor a

anciedade de Liberata, procurando-o, se lhe tardava vinte minutos mais,

nos paços do concelho? Não seria amor o orgulho com que Luiz da Cunha

fallava de sua esposa aos cavalheiros da terra?

Devia acontecer que Luiz da Cunha ignorasse os mais triviaes rudimentos

dos processos judiciarios. Valêra-se d'um velho amanuense que tomára

sobre si a administração do cartorio. Entretanto, o proprietario não

curava de estudar, e cedia ao regente uma boa parte dos seus proventos,

que eram poucos.

Luiz da Cunha conhecêra um contrabandista de Chaves, que lhe picára o

desejo de tentar fortuna pelo contrabando. Liberata não se oppunha ao

arbitrio do seu amante. As tentativas foram prosperas, e o audacioso

contrabandista aventurára os seus capitaes, e outros contrahidos de

emprestimo em arrojadas emprezas.

--Se a fortuna não encravar a roda--dizia elle a Liberata--em dous

annos, iremos viver em Paris.

E, com effeito, a roda da fortuna girava com a velocidade dos seus

caprichos. O escrivão não curava do officio, e raras vezes pedia contas

ao regente. As suas continuadas excursões tornaram-se suspeitas; mas, no

concelho, ninguem zelava os interesses do fisco, e Luiz da Cunha sortia

das melhores sêdas os arredores por preços modicos, e enviava para o

Porto e Braga valiosas carregações. No fim de dous annos, o

contrabandista celebrava os annos de Liberata com um rico adereço

comprado em Madrid, e adiava a sua sahida de Portugal por mais um anno,

visto que não achava doze contos dinheiro sufficiente para de Paris

metter, em grande, o contrabando em Portugal.

Tentára uma arriscadissima entrada de sêdas, quando os guardas-fiscaes,

logrados sempre, velavam as fronteiras desde Monção a Verim.

Encravou-se a roda da fortuna. As cargas foram tomadas, e o

contrabandista prêso. Luiz da Cunha para remir-se gastou tudo que

possuia. Liberata foi a Chaves com o precioso peculio a salvar o amante.

Choraram, abraçando-se no carcere? Não. A antiga amante do conselheiro

dizia a Luiz, sorrindo:

--Vamos para Paris? Parece-me que fez neste mez seis anos que eu te fui

buscar ao Limoeiro. É fado meu! O pior é não termos um conselheiro, que

nos dê a sege... O mais tudo vai bem. Temos feijões em casa, e muito

amor para prato de meio.

As authoridades queixaram-se ao governo, allegando que o funccionario

publico João Maria das Neves era o primeiro contrabandista. Os jornaes

de Lisboa reproduziram a accusação. Ia ser demittido, quando o ministro

se achou coacto por um dos seus amigos que lhe citou uma historia d'uns

quatrocentos mil reis...

O escrivão continuou funcionando. Vendeu o adereço de Liberata, e tentou

novas aventuras em pequena escala. A sorte sorriu-lhe outra vez, com

quanto as denuncias o rodeassem de perigos. Liberata acompanhava-o

galhardamente nas emprezas. Montava com varonil perfeição. Grudava um

bigode com gracioso arreganho; vestia um casaco de peles: cruzava com a

perna em brunida bota d'agua um bacamarte, e lançava com um piparote

para a nuca o chapéo sevilhano.

--Era esta a mulher que eu devia ter encontrado aos quinze annos!--dizia

o filho de Ricarda.

Em 1845 o escrivão estava remido do preço com que comprára a liberdade

dois anos antes. Resolvêra dar o ultimo assalto á vigilancia dos

guardas. Eram doze cargas de panos d'alto preço, que podiam augmentar

seis mil cruzados ao seu peculio. Deviam entrar por Almeida.

Luiz da Cunha apresentou-se ahi com a corajosa Liberata. As cargas

pisaram algumas milhas de territorio portuguez, quando os guardas a

cavalo, a toda a brida, lhe vinham no alcance. Os almocreves aperraram

os bacamartes, com o contrabandista à frente. Liberata não se afastára

de ao pé do seu amante. Travou-se um vivo tiroteio. Augmentaram os

guardas. As cargas foram tomadas; dous almocreves morreram. Luiz da

Cunha fugiu, e a destemida cavalleira, com a clavina despejada,

esporeava ao lado d'elle.

--Estás salvo--disse ella--mas eu estou ferida.

--Ferida! aonde?

--No peito... e creio que morrerei!

--Não digas tal... Apeia-te.

--Não, que ouço ainda o tropel de cavallos. Quero que te salves... Se eu

cahir, não me levantes, que me não dás vida.

Galoparam alguns minutos. Pararam. Já se não ouvia o ruido dos cavallos

nas extensas veigas de Pinhel.

--Apeemos--disse Luiz.

--Pois sim... Estou quasi morta, Luiz... Desaperta-me este collete... Vês?

--Vejo sangue...

--É no coração que eu sinto a bala. Isto não tem remedio...

--Vamos a Pinhel... Torna a montar, minha filha.

--Não posso, nem me importa morrer aqui ou em Pinhel.

--Isto é atroz!... Não te posso salvar!...

--Salvaste-me, Luiz. Morro contente assim... Agora é que as nossas

contas estão saldadas. Tu tiraste-me da morte da alma, e eu quiz

defender-te da morte do corpo. É um bom fim o meu! As mulheres

virtuosas... raras são as que assim morrem... Se me não encontrasses

perdida de todo, não poderias nada sobre mim... Fogem-me os sentidos,

Luiz... É a vida... Deixa-me expirar bem perto do teu coração... Como é

bom morrer-se com o perfeito juizo para se conhecer a pessoa que se

deixa... com tanta saudade.. Que dôr!... o peor é deixar-te pobre...

e... só... no mundo.

Liberata expirou.

As primeiras e ultimas lagrimas de Luiz da Cunha cahiram sobre as faces

mortas d'essa mulher......

São quatro horas da madrugada.

Bateram á porta do parocho da matriz de Pinhel. O padre vem á janella e

vê um vulto disforme na escuridão.

--Quem é?

--Um passageiro que pede a v. s.ª licença para poder enterrar o

cadaver d'um seu companheiro de jornada, morto de repente.

--Eu não concedo que se enterre ninguem sem ordem da authoridade civil.

Não conheço o senhor, e não sei se se trata de esconder algum crime

debaixo das telhas sagradas. Espere que seja dia para se lavrar auto, e

depois fallaremos.

O compassivo pastor deu-lhe com a janella na cara, e retirou-se instado

por uma voz roufenha de mulher que lhe recommendava carinhosamente que

se não constipasse, que estava suado.

Era saber muito!

Luiz da Cunha pousou o cadaver na parede do adro. Ouviu passos. Eram

jornaleiros que sahiam para o trabalho. Chamou dous com promessa de boa

paga. Mandou-os abrir uma sepultura no adro. Desceu a depositar o

cadaver. Beijou-o na face. Assistiu ao attêrro. Pagou aos operarios, e

montou o cavallo de Liberata, que farejava o sangue de sua dona.

--Ainda me não venceste, demonio!--Hei de vingar-me da sociedade que me

quebrou o ultimo amparo! Hei de vingar-te, Liberata!

Era um como rugido facinoroso esta exclamação.

XVIII.

A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA DEMENCIA.

Desde agosto de 1842, época da apparição de Luiz da Cunha em Lisboa,

Assucena cahiu n'uma tristeza inconsolavel, n'um ancioso desejo de morte

que, continuamente, pedia a Deus, apesar dos seus principios de

resignação, e abandono á vontade divina.

Nem Rosa Guilhermina, nem o padre Madureira podiam nada contra a

misanthropia da neta do arcediago. Receavam-lhe a demencia, porque,

muitas vezes, eram desconnexas as suas ideias, e incompativeis até com a

sua religiosidade. Tentaram sahir com ella, por consentimento do

visconde condoido, a uma distracção em viagem. Assucena recusava-se, e

rejeitava com enfado as opportunas instancias de sua mãe.

Queriam adivinhal-a, e não achavam vereda que os guiasse. Sabiam que a

sua devoção era cada vez mais fervente, e descobriram os cilicios com

que cingia a cintura, e as disciplinas que lhe arrancavam gemidos alta

noite.

As admoestações não aproveitavam nada. Esperavam todos os dias

encontral-a douda, e o que de certo lhe faltava, para que assim a

julgassem, era alguma acção peccaminosa, que desmentisse a rigidez do

seu ascetismo.

Nunca perguntou por Luiz da Cunha, mas pedia sempre á Virgem Mãe que

fosse a protectora d'elle, e o remisse da condemnação eterna,

descontando-lhe os sofrimentos d'este mundo.

E seguiram-se assim, sem alteração para Assucena, os dias de seis annos.

Em 1848 morreu a filha do arcediago quasi repentinamente: mas desde

muito que o seu testamento estava feito. Assucena era herdeira d'uma

quinta no Minho, unica disposição que a mulher de José Bento podia legar.

Este golpe confirmou as conjecturas do padre Madureira. Assucena teve

passageiros accessos de demencia. Convalescida, ordenou ao padre que lhe

trouxesse um tabellião. Á solemnidade e bom tino da supplica, não

resistiu o padre desconfiado.

Assucena dava o uso-fructo da sua quinta ao beneficiado Madureira, em

quanto vivo, com a condição de elle fazer cumprir o legado de tres

missas diarias: uma por alma do conego Bernabé Trigoso; outra por alma

de D. Perpetua Trigoso; e outra por D. Rosa Guilhermina, sua mãe. Por

morte do padre, a quinta passaria á Santa Casa da Misericordia com as

mesmas condições para sempre.

Madureira, sabendo nas vesperas da partida, que Assucena se retirava

para a sua quinta de Caldellas, na provincia do Minho, admoestou,

supplicou, mas não conseguiu demovêl-a do proposito.

--A minha sahida d'esta casa--dizia ella--é o maior sacrificio que eu

posso fazer. Deus m'o acceitará, porque no serviço de Deus me sacrifico.

Preciso ser grata aos bemfeitores mortos, e ao vivo: os suffragios para

os mortos, e a posse d'esta quinta, meu purgatorio e paraizo, para o meu

bemfeitor.

--E deixa o seu bemfeitor com tamanha presença d'espirito, senhora D.

Assucena!

--Deixo-o com a mais violenta dôr de coração. É o cilicio com que

martyriso o meu espirito. Deus me levará em conta esta renuncia da

convivencia com o meu bom amigo.

Madureira não podia constrangêl-a, receando abreviar uma loucura

irremediavel.

Acompanhou-a ao Minho, na primavera de 1849. Estiveram alguns dias no

Senhor do Monte, onde a melancolia de Assucena parecia desopprimil-a,

alargando-lhe o coração pela amplitude do céo, que, n'aquelle local,

convida a um scismar suavissimo, a uma santa saudade d'outra existencia,

que deve ter precedido a das dôres terrenas.

A quinta de Caldellas é um eden. As aguas prateadas do rio Homem

banham-lhe as orlas verdejantes. Por entre as franças das acacias,

enastradas no salgueiro, suspira a viração rescendente do perfume das

flores maninhas. Em antigos tempos, o genio bucolico de um possuidor

creára alli tudo que a invenção póde realisar de mais viçoso, de mais

lympida frescura, de mais poetico devaneio.

O edificio é antigo, d'essa pittoresca architectura, sem escóla,

respigada em todos os modêlos, e acizelada pela phantasia do que ahi

quizera eternizar debaixo d'esse formoso céo os prazeres innocentes

d'outras eras, d'outros idilios que raros corações concebem hoje.

Aos lados da magestosa entrada, erguem-se os cyprestes seculares,

outr'ora confidentes de segredos que a mão do amor lhes entalhára na

casca, perecedoura como tudo em que o homem quer perpetuar-se.

É essa a herança da neta do arcediago. Ahi fugiram tres mezes em

deliciosos instantes a padre Madureira.

Chamavam-no a Lisboa as suas obrigações clericaes, e o quasi abandono em

que deixára a quinta do Lumiar. Fôra, promettendo á lacrimosa Assucena,

vir ahi passar todos os estios. Deixára-a acariciada pela velha serva

que já o fôra do conego Trigoso. Dispôz o arrendamento da quinta para

evitar á nova possuidora canceiras d'administração. Afflictivo fôra

aquelle adeus! Assucena dos braços d'elle corrêra a lançar-se aos pés da

cruz.

E, depois, o oratorio, a capella, as devoções eram a sua vida. Ninguem a

encontrava fóra dos muros da quinta. Os proprios caseiros viam-na apenas

atravéz de um véo negro, no côro da capella em dias santificados.

Os symptomas d'um transtorno intellectual eram sensiveis cada vez mais,

não para ella que, toda absorta em Deus, não tinha ensejo de comparar-se

com os moradores da terra; mas para a consternada velha que, de perto,

lhe observava os gestos, os temores pueris, as visões beatificas, e até

a imaginaria convicção de que o conego, em fórma de cherubim, a visitava

em sonhos.

E, se acontecia descer, á tarde, ás margens do rio, sentia refrigerar-se

no coração, respirava alto, sorria-se aos gratos risos da natureza,

punha a mão no seio que se agitava em estranhas commoções d'um

sentimento incognito, de uma saudade inexprimivel. E, de repente,

ao riso succediam as lagrimas; á instantanea frescura das rosas da

face a pallidez do susto. Assucena fugia, dizendo que offendêra o Senhor

com pensamentos mundanos. Fechava-se no seu quarto, soluçando a cada

vergoada que se abria no corpo com as disciplinas.

Em 1850, padre Madureira veio ao Minho, e viu que a molestia progredia.

Empregou uma religiosa severidade para arrancál-a á mystica exaltação;

mas era tarde. O disparate principiava nas devoções de Assucena. Não

queria entrar na capella, sem aspergil-a com agua-benta, por isso que

vira erguer-se um homem amortalhado sobre o carneiro onde dormia o somno

de duzentos annos o fundador d'aquella casa.

Um habil confessor não podéra aclarar o espirito enturbado da mysteriosa

senhora. Imaginando-a em lucta com alguma paixão desditosa,

franqueava-lhe as portas do mundo para que se não perdesse na região das

chimeras. Assucena respondia com lagrimas ao confessor, e, apertada pela

explicação das lagrimas e do silencio, gritava pela misericordia divina.

Madureira, despedindo-se d'ella no outomno de 1850, foi seguro de que

não tornaria a vêl-a senão douda.

Previra bem.

Quando, em 1851, voltou, foi recebido com uma gargalhada. Assucena

estava vestida com o seu chambre de cassa branca, e sapatos de duraque

em fitas cruzadas nas pernas. Eram trastes dos dezoito annos,

conservados ainda nos seus bahús de educanda. O padre respondeu com o

pasmo e com as lagrimas á gargalhada.

--Porque chora?--disse ella, com tristeza.

--Porque choro? Oh minha filha!... não me pergunte porque choro...

--Tambem eu chorei, meu amigo, quando me disseram que o desgraçado tinha

fome...

--Quem?

--Pois, quem!? Luiz da Cunha, esse verme que todos pizam, desde que me

mordeu no coração. Se eu lhe perdoei, para que o perseguem? Deixem o

infeliz! A deshonrada, a infamada, a martyr, fui eu... Não quero que

ninguem me vingue...

--Assucena!...

--Se eu fosse outra, procurava-o na cadêa... Fui eu que o abandonei

primeiro... quando o meu padrasto o pôz a ferros... Que me importava a

mim a sociedade! Quem me vem consolar das torturas que me tem custado

este abandono!?...

--Isto parece incrivel, meu Deus!--exclamava o padre, voltando a face

dos olhos abrazados de Assucena.

--Não me fuja, senhor padre Madureira. O senhor não tem culpa nos meus

infortunios. Ha de sempre lembrar-me que levou o dinheiro ao desgraçado,

e que lhe deu um bocado de pão, quando elle disse que tinha fome...

Ouça-me... Onde está Luiz?

--Não sei, senhora.

--Pois eu quero vêl-o para perdoar-lhe...

--O seu perdão não melhora os infortunios d'elle. Deus é que perdôa...

--Sim, sim, Deus...

Assucena fugira da sala impetuosamente bradando: «Deus! Deus!» Madureira

seguiu-a, e encontrou-a no seu quarto de joelhos, com os labios collados

no pavimento, diante do oratorio.

Levantou-a, e viu-lhe os olhos embaciados d'aquella nevoa cinzenta da

gôta coral. Sentou-a ao pé de si, e disse-lhe com voz tremula de

compuncção:

--Minha filha... Venha comigo para Lisboa...

--Deus me livre! Elle ha de aqui vir ter.

--Luiz da Cunha?

--Sim.

--Viu-o alguma vez n'estes sitios?--perguntou o padre suspeitoso.

--Vi... passou, ha um anno, na estrada. Estava eu no portão pela parte

de dentro. Espreitei, quando ouvi o tropel d'um cavallo. Era elle.

--Fallou-lhe?

--Não; nem elle podia vêr-me... Tem as barbas até á cintura; vestia uma

jaqueta de pelles, e ia tão triste, tão macilento!... Teria elle fome?

--E se elle lhe pedisse de comer?

--Dava-lhe tudo quanto tenho! Para que quero eu esta casa, esta quinta,

estas cadeiras, esta camiza, se eu morro muito cêdo?! Que venha, e eu

dou-lhe tudo! Não quero que o persigam, já disse! Hei de accusar

diante de Deus quem o matar!

..........................................................................

Padre Madureira viveu na quinta de Caldellas alguns mezes. Quando se

retirou, deixou Assucena aos cuidados de um egresso, vindo de Lisboa por

escolha d'elle. Era irremediavel a demencia. Assucena recusava receber

facultativos, e irritava-se em frenesis quando lhe pediam que se

deixasse visitar por um medico. Se fugia á vigilancia do egresso, ia ao

portão fitar o ouvido; ouvindo tropel de cavallo, espreitava;

desenganada da sua louca esperança, sentava-se na pedra, chorando com

mavioso mimo, com infantil resentimento, até que o seu guarda,

inventando promessas, a conduzia a casa.

E nunca a tão bella alma d'aquella mulher resurgiu das trevas!

Aos longos dias da desgraça seguiu-se a longa noite da demencia!

XIX.

UM VEIO NOVO A EXPLORAR.

E Luiz da Cunha?

Deixára Liberata na sua ultima paragem, e fôra ao concelho de Ribeira de

Pena exercer o seu officio. Os lucros de dois annos de contrabando

perdêra-os na fatal tomadia. Estava, outra vez, pobre: faltava-lhe a

coragem animadora de Liberata; cahiu n'um estupôr moral, em que o

pensamento do suicidio muitas vezes lhe esvoaçou sobre o cabo do punhal,

sem poder entrar com elle no coração. Luiz da Cunha não podia aniquilar-se.

Os jornaes gritaram contra o empregado publico, de novo contrabandista.

O ministro, que já não era o mesmo que o despachára, demittiu-o.

Demittido, desencadearam-se contra elle as malevolencias do concelho,

onde nunca praticara erro de officio, que não dirigia, nem extorsão, que

não precisava. Retirou-se para o Porto, onde chegou na memoravel noite

da resistencia á contra-revolução de 9 de Outubro de 1846. Associou-se

ao motim popular que prendêra o duque da Terceira. Deu morras ao

ministerio reaccionario, indicando-se victima dos Cabraes.

Entrou no serviço da junta governativa, foi tenente quartel mestre d'um

batalhão de artistas, alcançou o despacho de director d'uma alfandega da

raia, e distingiu-se com bravura em Torres Vedras, e Val-Passos.

Quando os hespanhoes interventores entraram em Valença, o tenente

quartel mestre arrostou com impotente heroismo o collosso. Metteu-se

debaixo das balas, e as balas, cruzando-se-lhe em redor,

respeitaram aquelle homem, que parecia ter o sêllo invulneravel do

primeiro assassino, a prerogativa de Caim.

A Neta do Arcediago · 第 12 / 13 段