Desarmada a junta suprema, Luiz da Cunha ficou no Porto, vivendo de

pequenos emprestimos que alguns amigos politicos lhe faziam, e de

pequenas esmolas que algum membro da junta patrioticamente lhe dava.

Assim viveu até 1850, na agua furtada de uma estalagem da rua de S.

Sebastião, d'onde foi expulso porque não pagava. Casualmente, deparou um

seu conhecido camarada que servira a junta, como sargento de cavallaria.

Convidado por elle, foi ser seu hospede ahi para os sitios do Marco de

Canavezes. Luiz da Cunha conheceu que o seu hospedeiro amigo era um

homem tambem mysterioso. O ex-sargento de cavallaria, nos primeiros

dias, teve a delicadeza de não catechisar o seu hospede aos principios

da communidade sem as theorias socialistas. Fartava-o regaladamente á

sua mesa; levava-o de patuscada a casa da sua amazia; punha á sua

disposição uma rica egua de raça para passeios, e ensinava-o a matar

perdizes com finissima pontaria.

Uma noite acabavam de cear, e Luiz da Cunha historiou o mais

sentimentalmente que podia a morte da heroica Liberata. José do Taboado

(era a graça do hospitaleiro), enthusiasta pela gloria, propôz uma

ovação á memoria de Liberata, a qual, como todas, foi freneticamente

recebida pela senhora Joaquina Vêsga, intima do proponente, e bem aceita

ao hospede enternecido.

--Meu caro Neves!--disse, depois, José do Taboado--acabemos com isto!

Queres ser dos meus?

--Se quero ser dos teus?

--Franqueza, e viva amizade! Sabes quem sou?

--Sei que és um excellente amigo...

--Dos meus amigos; mas inimigo dos ricos. Eu sou chefe d'uma quadrilha

de salteadores. Tira o chapéo na minha presença!

--Cá estou descoberto...--disse Luiz, sorrindo-se, e descobrindo-se.

--Agora cobre-te. Enche esses copos, Joaquina... Á tua saude, Neves! Á

saude do meu chefe de estado maior! Aceitas?

--Aceito!

--Toca!--E deram-se as mãos com vertiginoso transporte.

--Serás rico em pouco tempo...--continuou o chefe--para que diabo queres

tu as excellentes forças que tens? Como é que cumpres o protesto de

vingança que fizeste, quando te mataram Liberata, porque roubavas a

fazenda nacional?

--Tens razão..............................................................

..........................................................................

Dias depois os jornaes do Porto pediam força para debellar uma poderosa

quadrilha de ladrões que assaltavam as casas famosas em dinheiro.

Citaram a morte d'uma senhora, rica proprietaria do Douro; a de um padre

muito rico das circumvisinhanças de Villa Real; e varios assaltos em

fórma a casas inutilmente defendidas. Um destacamento de infanteria dera

caça aos salteadores, que resistiram com intrepidez admiravel.

Contava-se o heroismo do chefe, que saltava vallados com um ferido no

arção da sella. O ferido era Luiz da Cunha.

Não obstante a escaramuça, a cohorte estendia por longe o terror.

Proprietarios isolados refugiavam-se nas povoações, e as povoações velavam

armadas com os olhos fixos nas fogueiras que os ladrões acendiam nas

quebradas das serras. Ninguem, porém, ousava desalojal-os das suas tendas.

As almenaras ardiam até ser dia; as roldas e sobre-roldas velavam durante

a noite, e Luiz da Cunha, abraçado á sua clavina de dous cannos, dormia

tranquillo com a face sobre os apparelhos da sua egua fiel.

José do Taboado não mentira. O filho de João da Cunha e Faro tinha ouro,

muito ouro, podia retirar-se com um passadio honesto, e adquirir até uma

reputação honrada. O seu pensamento era passar á Africa em 1853, com o

louvavel intuito de commerciar em generos licitos com a metropole. José

do Taboado promettêra-lhe acompanhal-o, e, para isso, liquidava os

ultimos saldos com alguns proprietarios, incursos na condemnação de

Proudhon.

O filho de Ricarda tinha quarenta e um annos. Julgal-o-iam de cincoenta;

mas os cabellos brancos não tinham nada com o vigor feroz da alma. O seu

fito era voltar a Lisboa, rico, alardeando a passada infamia, com

tanto que arrastasse com correntes de ouro após si o respeito publico.

Desejava lançar aos pés de Assucena esse dinheiro que ella lhe

emprestára. Desejava levantar no cemiterio publico um faustuoso

monumento a Liberata, como insulto ás mulheres do «grande mundo.» Quatro

annos de fortuna, e o seu sonho seria visto á luz da realidade! A sua

fama teria alguma cousa de horrivel heroismo. O seu nome, partido o

braço vingativo, seria levado aos vindouros como a tradicção d'um

meteoro que abrira um rasto de fogo entre os homens.

José do Taboado, que não se alteava ás concepções arrojadas do camarada,

admirava-o como um grande homem, gostava de ouvil-o, e dizia que a sua

linguagem não parecia d'um simples escrivão do juizo ordinario. Levava-o

a casa de cavalheiros de nome, que hospedavam affavelmente o salteador

(não importa explicar o disparate), e os cavalheiros maravilhavam-se do

estylo puritano do supposto Neves, e mais ainda da vasta noticia que

elle dava de paizes estrangeiros, dizendo, ao mesmo tempo, que nunca os

vira.

Encontraram-se uma noite em casa d'um fidalgo de Basto, onde concorreram

outros, discutindo linhagens. Excepto os presentes, que eram todos

representantes de illustres governadores das possessões portuguezas,

todos os outros eram netos de almocreves, de lavradores, e até de

ciganos, afóra os eivados de sangue judeu, que eram muitos.

Um dos detractores citou, como em distracção, seu tio João da Cunha e

Faro. Luiz, agitado por tal nome, prendeu astutamente o incidente do

parentesco á conversação, dizendo que conhecêra João da Cunha e Faro, em

Lisboa, onde fôra caixeiro em 1838. Perguntou se morrêra.

--Morreu doudo--respondeu o senhor Bernardo de Malafaia e Alvim de

Castro e Leite Pereira de Menezes e Sá Corrêa de Sepulveda e Cunha e

Faro &c. &c. &c.--Morreu doudo. Foi o malvado bastardo que o matou.

--O bastardo?!--atalhou Luiz.

--Sim: o filho d'uma mulata que elle roubou em Coimbra...

--Sabes se já morreu esse homem?--perguntou um senhor com quinze

appellidos.

--Não sei; mas é de crêr que sim. Ainda vos não contei a passagem dos

ossos?

--Já; mas conta-a ao amigo Neves, que é romantica.

--Pois lá vai. Haverá sete annos que eu fui a Lisboa e hospedei-me em

casa de meu primo Ignacio da Cunha, que succedeu no vinculo de meu tio

João da Cunha. Era no verão, e resolvemos passar alguns dias n'uma

bonita casa de campo que meu primo tem em Bemfica. Foram comnosco o

primo Alvaro de Castro, o primo conde de Santa Justa, o primo D. Pedro

de Malafaia, o primo D. Antonio de Alvim, o tio Monsenhor Menezes, &c.

&c. &c. Estavamos sentados debaixo d'um caramanchão, e disse o primo

João da Cunha, apontando para a álea das amoreiras: «Alli foi que morreu

a amante de meu tio João.» Contou-nos que um velho criado, morto alguns

mezes antes, lhe contára tudo, e lhe dissera o sitio onde fôra enterrado

o marido e assassino d'essa tal Ricarda, porque os criados deram cabo

d'elle.

Quando ouvimos isto, tivemos, todos á uma, desejos de procurar os ossos

do tal marido. No outro dia, viemos cavar no sitio, e com effeito demos

com os ossos, e o primo D. Antonio de Alvim, mexendo na terra, encontrou

um riquissimo annel de brilhantes com uma enorme esmeralda. Procuramos

mais, e achamos a folha de um punhal com as letras que diziam «Rio de

Janeiro.» Não topamos mais nada. O que eu posso dizer-lhe, senhor Neves,

é que o annel foi vendido por duzentas moedas, por signal que o primo

Ignacio da Cunha as perdeu todas contra um valete, em casa do primo D.

José de Castro e Alvim.

--É uma interessante historia!--disse Luiz da Cunha em abstracta

meditação--E a tal brazileira onde foi enterrada?

--Na igreja, é o que disse o tal criado.

--E o filho d'essa brazileira era o tal bastardo que matou o pae!

--Justamente.

--E não acha que o pae foi bem morto pelo filho?

--Homem! essa é de cabo de esquadra!

--Se o tio de v. exc.ª, o senhor João da Cunha, foi causa da morte da

mulher d'esse homem, não era justo que o filho de tamanho crime fosse o

verdugo do pae, a viva reminiscencia d'esses dous cadaveres, o aguilhão

constante de remorso que o enlouqueceu?

--O nosso amigo está muito rasoavel nos seus discursos... Essas

doutrinas são de bons tempos...

--E o caso é que elle diz bem!--atalhou um fidalgo depondo as cartas do

voltarete--o filho foi o instrumento com que a Providencia castigou o pae.

--Então, n'esse caso, muita gente pagou innocentemente--replicou o

senhor Bernardo de Malafaia &c.--O tal bastardo foi o açoute da

humanidade. Perdeu umas poucas de mulheres, matou outras, esteve prêso

nas Antilhas por pirata... fez o diabo.

--E, por fim, é natural que se suicidasse...--disse Luiz da Cunha.

--É o que elle devia ter feito ha muito--concluiu o expositor da scena

dos ossos.

O filho de Ricarda projectou ajuntar ás suas futuras obras um monumento

a sua mãe.

CONCLUSÃO.

São 24 de Setembro de 1853.

É meia noite.

Assucena pergunta ao egresso inseparavel:

--Que barulho é esse que fazem lá dentro?!

--Já disse a v. exc.ª que os caseiros, sabendo que uma quadrilha de

ladrões apparecêra ao anoitecer na freguezia de S. Vicente, recearam que

esta casa seja atacada, porque dizem lá por fóra que vive aqui uma

senhora muito rica.

--Eu muito rica! Já o fui... agora não tenho nada...

--Pois sim; mas os ladrões não se persuadem d'isso, e quem sabe se virão

cá? Os caseiros, á cautella, chamaram gente, e tratam de se pôr em

defeza no caso que elles ataquem. V. ex.ª ainda que ouça tiros não tenha

medo.

--Mas de que serve matal-os?! Se quer, eu vou dizer-lhes que não tenho

nada, e elles vão-se embora.

--As cousas não correm assim, minha senhora. Salteadores não acreditam

na palavra das damas. O melhor é defender-se cada qual, e eu estou certo

que elles, em lhe zunindo o chumbo pelos ouvidos, vão prégar a outra

freguezia.

O ruido de passos e vozes augmentou na sala. O egresso chamou a criada

para ao pé de Assucena, e foi juntar-se ao povo.

--Que temos, rapazes?--perguntou elle.

--Os homens ahi estão.

--Quem os viu?

--Nós. Ouvimos estropear cavallos, e depois rugiu a ramada do portão, e

vimos um homem, ou o diabo por elle, que saltava do muro para dentro.

Depois buliram na tranca e abriu-se a porta.... Quél-os vêr?...

Olhe... senhor frei Antonio.... olhe aqui por entre estas faias....

Elles lá vem.... Ó rapazes, aqui é que se conhecem os homens! Quando eu

disser «fogo» é fazer de conta que se acaba aqui o mundo... Deixa-os

vir... Olha... quatro já eu lobrigo... Alli!... alli não se perde um

quarto.... Deixa-os chegar mais.... É agora!... Fogo!

Despejaram-se doze espingardas ao mesmo tempo; e á detonação succedêra

uma infernal algazarra dos defensores.

--Leva arriba, rapazes!--gritava o regedor aos seus--Cerca, tem mão,

por esse lado...

E desceram ao páteo, animados pelo recuar dos salteadores. A sineta da

capella dava áquella infernal orchestra de berros e tiros um tiple

horroroso. Os ladrões recuavam, sustentando o fogo: accommettiam com

denodo, um momento; mas a população que os cercava não cedia aos impetos

da cohorte, militarmente, organisada em batalha á voz do chefe.

A sineta chamava chusmas de povo que affluiam disparando as armas. A

quadrilha conheceu o perigo, e retirou accelerada; mas nem todos

retiraram: um tinha cahido, e não se erguêra mais. Em redor d'este

cadaver agglomerou-se a multidão. Approximaram-lhe da cara um archote de

palha, e viram-lhe uma fenda de bala sobre a orelha direita.

Não era menos infernal o alarido do triumpho! Pegaram no cadaver e

levaram-no para debaixo das janellas, depositando-o sobre um banco de

pedra. O egresso veio ao quinteiro, viu-lhe a cara, e murmurou!...

--Pobre homem! morreu sem sacramentos!... Oxalá que tivesse um momento

de contrição! E não está mal trajado... Deixem-no aqui ficar até amanhã,

porque é necessario que o administrador o mande levantar...

Entrou no quarto de Assucena que batia os dentes como n'um tremor de

catalepsia.

--Não tenha medo, minha senhora.

--Mataram alguem?

--Ficou um; mas lá vão os outros, que eram bastantes.

--Rezemos por alma d'esse que morreu...

--Pois sim, rezemos--disse o egresso, ajoelhando ao pé d'ella.

--Poderá salvar-se?--disse ella, interrompendo a oração.

--Deus é pae de misericordia.

--Quem sabe se elle roubava por ter fome?...Vá vêr se elle não estará

morto... poderemos ainda cural-o.

--Aquelle está bem morto, minha senhora.

--Então rezemos: _Padre nosso, que estaes nos ceos, sanctificado seja o

vosso nome_... Não posso... Reze, senhor padre Joaquim... Eu estou muito

afflicta... Quero tomar ar... Anna... quero-me vestir... Traz-me o meu

vestido de seda preta de manga curta; os meus canhões de velludo preto;

o meu lenço de ramos amarellos; a minha saia de renda; o meu chale de

cazemira vermelho...

--Está com o accesso; não traga nada--murmurou o padre ao ouvido da criada.

--Não ouves, Anna? Então! Tambem tu me desobedeces! Ora vamos!

--Vá, vá dar-lhe essas cousas--tornou o egresso, e sahira para que ella

se vestisse.

Assucena collocou-se diante do espelho.

--Como são grandes estes cabellos!...--disse ella, puxando dois

graciosos pinceis de cabellos, que lhe sahiam dos angulos da maxilla

inferior. Procurou anciosa uma tesoura, e aparou-os.

--Agora sim--disse ella com risonha satisfação--Assim estou mais bella

para o noivado.

A criada ajudou-a a vestir. Vestida, olhou-se outra vez ao espelho,

enfeitando na cabeça desgrenhada o lenço dos florões amarellos, e

puxando para a garganta a grade preta do afogado no vestido.

--Agora, vamos.

--Onde, minha querida senhora?!

--Vamos passear no jardim... Quero esperal-o.

--Esperal-o... a quem?

--És tola! Pois não sabes que Luiz da Cunha vem receber-me esta noite?

--Oh minha Mãe Santissima, compadecei-vos d'ella!

--Que estás a dizer? Vens, ou vou só!?

O egresso entrou, chamando por Anna.

--Que é?! Onde vai?!--perguntou elle a Assucena espavorida.

--Vou esperal-o.

--Não sahirá d'aqui... Sente-se n'esta cadeira.

--Não quero! Vou sósinha, sem medo nenhum. O meu Luiz é valente...

--É melhor acompanhal-a....--murmurou o padre.

E sahiram pela porta do jardim.

--Que linda noite!--disse ella, saltando entre os buxos.

--Está muito fria a noite, senhora D. Assucena.

--Fria! Ora essa! Calor tenho eu de mais no coração! Quantos annos tenho

eu? Dezoito... Queriam que eu tornasse para as Commendadeiras! Isso

sim!... Quem conheceu uma vez Luiz da Cunha, nunca mais o esquece...

morre por elle... Sou sua mulher... Jurou-m'o nos braços d'elle quando

eu fugia.... Porque estou eu aqui? Prenderam-me... fizeram bem! O amor

violentado vence ou mata. Eu me desforrarei em risos de esposa das

lagrimas que tenho chorado n'este desterro... Elle não tarda, e depois

fujam os meus inimigos! Sim, fujam, que o meu esposo é muito valente!

--Recolha-se, minha senhora.

--Recolher-me?! ás Commendadeiras?

--Ao seu quarto...

--Não quero.... Deixem-me respirar.... Vamos ao portão esperal-o.

O egresso seguiu-a.

Ao passarem pelo quinteiro, onde estava o cadaver, com a fogueira do

costume ao lado, Assucena perguntou:

--Que é aquillo?!

--É o corpo do ladrão que morreu--disse o padre, querendo afastal-a.

--Quero vêl-o... coitadinho!

--Não veja, senhora D. Assucena... A vista não é agradavel.

--Quero vêl-o... não tenho medo aos mortos...

E forçou a desprendêl-a o braço do padre. Levantou um tição da fogueira,

approximou o clarão azulado da face do cadaver,... soltou um grito que

se não descreve, nem se imagina, deixou cahir o lume, correu n'um

impeto vertiginoso, com as mãos agarradas á cabeça pela quinta abaixo,

na ladeira que conduzia ao rio Homem.

É ocioso dizer-vos de quem era o cadaver. O primeiro momento de repouso

para Luiz da Cunha principiava alli. Foi abençoada a bala que o salvou

do patibulo.

O egresso não podia alcançar Assucena na carreira... Gritou por

soccorro, por ella, por Deus, por Maria Santissima. Tinha-a já perdido

de vista, quando ouvia o chofre d'um corpo que baqueava na agua.

No _Braz Tizana_ de 24 de Setembro de 1853 lê-se o seguinte:

«_Um cadaver._--No rio Homem, acima da ponte de Caldellas, appareceu o

cadaver de uma mulher de trinta e seis a quarenta annos; tinha vestido

de sêda preta, e parece ser pessoa de consideração.»

No mesmo jornal de 28 do mesmo mez e anno lê-se o seguinte:

«_Signaes d'um cadaver._--A mulher que appareceu morta acima da ponte de

Caldellas, tinha os signaes seguintes: idade trinta e seis a quarenta

annos; cabello e sobre-olho castanho-escuro; bôca e nariz regular; rosto

redondo; labios grossos; e no queixo de uma e de outra parte alguns

cabellos que mostravam ter sido aparados; um pequeno buço; vestido de

seda preta com pouco uso; manga curta; canhões de velludo preto; grade

preta no afogado do mesmo vestido, e o corpo forrado de panninho

entrançado, côr de flôr de alecrim e vermelho, com tres espartilhos no

peito; chale de cachemira vermelho em meio uso, com franja em volta,

barra, e ramos pretos; na cabeça um lenço grande azul, com ramos

amarellos, de algodão, e barra da mesma côr; saia de morim branco em bom

uso com uma estreita renda em volta; saiote de baieta de seda branca com

cinco pannos quasi novo, e um pente a fingir tartaruga rendilhado e

moderno; camisa de panninho com manga curta. Ainda se não sabe quem

seja.»

Lê-se no _Portuense_ de 10 de Novembro de 1853:

«Ha dois mezes annunciaram os jornaes do Porto a apparição de um cadaver

de uma senhora n'um dos rios de Braga ou Guimarães. Tornaram os jornaes

a fallar n'este cadaver dando as mais minuciosas informações de

vestidos, de physionomia, de idade, e até de conjecturas sobre o genero

de morte que soffreria a supposta senhora. Seguiu-se a isto um profundo

silencio e nem ao menos respirou a noticia de menor acto administrativo

na investigação d'este acontecimento. Póde ser que se désse um drama

muito mysterioso, com peripecias muito horriveis, mas o publico tem

direito a perguntar se a senhora ou mulher foi assassinada ou se se

suicidou?»

A resposta ao _Portuense_ é um livro.

FIM

Indice

I.--UM BERÇO BORRIFADO DE SANGUE.

II.--O FRUCTO DA SEMENTE AMALDIÇOADA.

III.--ASSUCENA.

IV.--CONTAGIO.

V.--UM ANJO CAHIDO.

VI.--ANJO CAHIDO, MAS AINDA ANJO.

VII.--PERDIDO SEM REDEMPÇÃO

VIII.--PROVIDENCIA OU ACASO?

IX.--HERANÇA DE VIRTUDE E OURO.

X.--COMO OS ANJOS SE VINGAM.

XI.--SÃO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM SÓ O CHRISTO.

XII.--FASCINAÇÃO DO ABYSMO.

XIII.--EXPLOSÃO DA INFAMIA REPRESADA.

XIV.--CAVAR PARA OS OUTROS A SEPULTURA, E PARA SI O INFERNO.

XV.--LOGICA DO INFORTUNIO.

XVI.--TENHO FOME! ESTOU HA TRES DIAS SEM PÃO!

XVII.--AS PRIMEIRAS E ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA CUNHA.

XVIII.--A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA DEMENCIA.

XIX.--UM VEIO NOVO A EXPLORAR.

CONCLUSÃO.

End of Project Gutenberg's A Neta do Arcediago, by Camilo Castelo Branco

A Neta do Arcediago · 第 13 / 13 段