--Não tenho mais que fazer! Chamei-o mesmo de proposito para zombar com
o senhor! Ora vamos, quer ou não?
--E o senhor assegura-me que se enriquece em pouco tempo?
--Asseguro-lhe que nos fazemos n'um momento proprietarios da propriedade
que outros adquiriram em muitos annos.
--E os contratempos?
--Os do mar?
--Não digo isso: a defeza que póde ser mais poderosa que o ataque...
--Ah! o meu amigo raciocina assim? Já vejo que me não serve... Até á paz
geral, meu caro senhor. Segredo, ouviu?
--Mas ouça, que eu não me deliberei ainda. Não me julgue algum miseravel
poltrão. Quer o senhor entrar no meu quarto, e fallemos lá?
--Então, entre o senhor no meu, que é mais perto. Ceará comigo, e
dormirá, se quizer, com a melhor das minhas escravas.
XV.
LOGICA DO INFORTUNIO.
Luiz da Cunha aceitára a proposta, a ceia, e a escrava. Com grande
espanto de Proença, fizera a sua aposentadoria em casa do mulato,
explicando esta nascente amizade por certo mysterio, que elle não dizia,
porque não soubera inventál-o. Proença, suspeitando as intenções de
Cunha, porque lhe não eram estranhos os boatos que corriam muito
deshonrosos para o mulato, deu-se pressa em sahir de Buenos-Ayres com a
sua carregação de cortumes para a Bahia.
Poucos dias depois, desappareceram Luiz da Cunha e o seu recente amigo.
Das praias de S. Thiago del Estero, sobre o Athlantico, levantaram ferro
dois navios com aspecto mercantil, içando a bandeira da republica
argentina. Costearam a provincia do Rio-da-Prata até ao Paraguay. Ahi
fizeram-se ao largo, e arrearam bandeiras.
Ao nono dia de roteiro indeterminado, reconheceram a bandeira hespanhola
em dois navios de alto bordo que lhe passavam á prôa. A manobra foi
rapida. As galeras auxiliadas pelas correntes procuravam a esteira dos
navios, que lhes fugiam. Ao cahir da noite, a trombeta do pirata levou
uma ameaça de morte aos hespanhoes. Responderam-lhe com uma bala que
zumbiu nas gaveas.
Travou-se a lucta. Era tenebrosa a noite, e ao clarão da artilheria
viam-se d'um lado e d'outro, como visões phantasticas, as faces
enraivecidas de aggressores destemidos, e a coragem desesperada nas dos
aggredidos resolutos á morte com bravura.
O mulato déra o tremendo signal da abordagem. A galera que se retirava
da lucta, capitaneada por Luiz da Cunha, não obedecêra. É que uma bala
lhe fizera á pôpa um rombo. Os bravos tinham descido ao porão a
calafetarem inutilmente a fenda.
Os piratas recuavam, e os aggredidos accommetteram com o enthusiasmo da
victoria. A galera do mulato vomitava lavaredas. Estava incendiada.
--Á abordagem!
Bradaram os hespanhoes. A maruja das galeras gritou que se entregava. Os
netos de Cortez não admittiram a proposta. Saltaram entre miseraveis
ajoelhados. Alguns venderam cara a vida. Outros foram poupados para
puxarem o carro do triumpho. Entre esses estava Luiz da Cunha, que não
tivera coragem de morrer borrifado do sangue dos contrarios, como o seu
companheiro, e pedira de joelhos a vida. O extremo da ignominia encontra
a covardia. Sem a força moral da honra, o musculo do infame ennerva-se,
e a existencia, que devia ser-lhe um pêso, é-lhe ainda cara! Segredos.
Os prisioneiros foram levados ás Antilhas para serem garrotados. Alguns
foram-n'o logo. Luiz da Cunha, que promettêra aos capitães o resgate da
sua liberdade, pesando-se a ouro, foi posto a ferros em Porto-Rico.
Chegára a nova á Bahia, onde Proença negociava. Não se fallava em Luiz
da Cunha; mas dizia-se que um portuguez ou brasileiro, que parecia de
educação distincta, fôra prêso, e demorára com astuciosas promessas o
seu processo.
Proença não tinha animo para encarar o suspeito Cunha n'esse ultimo grau
da infamia. Apressou-lhe quanto pôde soccorros, e, calando o nome do
prêso, solicitava a sua liberdade.
Entretanto, Luiz da Cunha tramava a fuga. Todos os seus ardis foram
descobertos. Parte das authoridades hespanholas quizeram desfazer-se
d'elle, pendurando-o n'um triangulo. Mas o governador não consentira,
sem primeiro ouvir esse homem mysterioso. Ouvindo-o, admirou-lhe a
eloquencia astuciosa; arrancou-lhe o segredo de alguns dos precedentes
que mais deviam tocar-lhe o espirito um pouco romanesco. Luiz da Cunha
soubera dar-se prestigio, porque adivinhára a indole da authoridade.
Foi processado e condemnado a tres annos de prisão em Porto-Rico. Tres
annos! Mil e noventa e cinco dias e outras tantas noites de ferros para
esse homem, desamparado de todos, forçado a pedir esmola, como um
ladrão, pela grade da enxovia! Não terá elle, ao menos, a coragem do
suicidio?!
Não tinha.
O governador mandava-lhe umas sôpas, e umas calças velhas. Uma senhora
desconhecida esmolava-lhe um jantar todos os domingos, e mudava-lhe os
lençoes da pobre enxerga. O carcereiro, apiedado com a apparente
resignação do pirata, arranjava-lhe livros, e dava-lhe para de noite uma
candeia.
Quatro mezes d'este viver! Eis alli o amante de Assucena! o marido de
Marianna! Aquelle homem que tira de uma tigella de barro com um garfo de
ferro umas couves, é o mesmo que pagava dançarinas a cinco mil francos
por mez; é o mesmo que vira fugir-lhe por entre os dedos cem contos de
reis. E, comtudo, não tem ainda trinta annos! Que futuro!
Proença vem a Porto-Rico, ao quarto mez de prisão de Cunha. Procura o
governador, com valiosas cartas de recommendação, e historia-lhe
vagarosamente a vida do prêso. O governador espanta-se de tanto crime, e
crê na magica influencia de Satanaz sobre o desgraçado. Uma das
circumstancias que mais o pungem é o illustre nascimento de Luiz da
Cunha e Faro! Era fidalgo, sentia a dôr collectiva da raça: o vexame e a
condolencia de uma sympathica compaixão. Vencido pelas instantes
lamurias de Proença, quiz ser arbitro na liberdade do prêso, assim como
o tinha sido no immediato garrote que os outros soffreram. Luiz da
Cunha, com cinco mezes de carcere, é solto. Respira o ar da liberdade, é
senhor seu; mas a liberdade que lhe importa sem dinheiro, sem soccorro,
sem incentivo algum ás forças que lhe sobejam ainda para commetter
difficultosas emprezas? Que perversidade nova lhe resta a explorar? A
que reservatorio do inferno irá elle invocar um outro genio?
Que lhe falta?
Luiz da Cunha fôra chamado, apenas solto, a casa do governador. Entrou
n'uma sala particular, onde encontrou Proença. Não córou: a commoção
forte que um facil apreciador julgaria vergonha, era o contentamento de
encontrar um homem que, de certo, não viera alli para o deixar sem
dinheiro.
O expatriado é que não podia soster as lagrimas. Sentia o vilipendio de
Cunha, como se tirasse dos hombros do infame para os seus o pêso da
ignominia.
--Vieste salvar-me?--disse serenamente o pirata infeliz.
--Já ninguem te salva... Vim alcançar a tua liberdade para
experimentares uma nova posição social. Cahiste muito no fundo. Já não
ha braço que te levante.
--Parece-me que não. Venho de estudar na solidão da masmorra.
Philosophei o melhor que se póde com os meus principios experimentaes.
Conclui que sou uma machina. Não tenho vontade, nem acção. Quero vêr
onde chega isto! Desejava poder calcular approximadamente, pelos dados
da vida, que morte será a minha. Tenho trinta annos. Proença! como se
póde ser tudo o que eu tenho sido em quatorze annos!
--E que serás tu?!
--Eu sei!... o mais natural na minha situação é pedir uma esmola.
--E és capaz de pedil-a?
--Que duvida! Morrer de fome é escolher de todas as mortes a mais
indecente.
--E gracejas!
--Pois tu queres que eu receba seriamente a infernal omnipotencia que me
reduziu a isto?! Zombemos com ella.
--Mas não ha outro recurso contra a fome senão pedir esmola?
--Ou roubar.
--E o trabalho?
--Ah! sim... não me lembrava o trabalho!... mas que trabalho? Eu não
sirvo para nada, não tenho força nem vocação.
--Adquire-a, Luiz. Tu não me conheceste em outro tempo? Imaginaria
alguem, ha oito annos, que eu viria a ser um amanuense de advogado, e
mais tarde um negociante de cortumes? Eu tive fome, Luiz. Deitei-me
algumas vezes em jejum, e levantei-me sem a certeza do almoço. Não pedi
esmola, pedi trabalho. Olha as minhas mãos... não vês estas durezas?
Estão calejadas, mas nunca senti aqui o contacto de uma moeda de cobre
como esmola. Trabalha, Luiz.
--Diz-me lá em que...
--Vives comigo: tomas uma pequena parte nas minhas occupações, e recebes
uma parte grande dos meus interesses.
--Não te sirvo de nada, Proença. O que fazes é dar-me uma esmola.
Emprestas-me algum dinheiro?
--Que farás com esse dinheiro?
--Vou para Portugal. Tenho um palpite de que vou ser feliz...
--Feliz! Quem fará a tua felicidade em Portugal?
--Uma mulher.
--Como Marianna?
--Não me falles em Marianna. Tenho tido horas de inferno pensando n'essa
infeliz... Eu não sou de bronze, Proença. Vi-me tão afflicto uma noite
na cadeia, que me puz de joelhos a pedir-lhe perdão, cuidando que a via.
Era febre; mas olha que a vi tal qual ella devia ser a expirar...
Palavra de honra! não me falles n'ella... Bastam-me os meus remorsos...
--Tu não tens remorsos, Cunha... Não fallemos n'ella; concordo... O nome
d'essa infeliz sôa mal nos teus ouvidos... e é uma profanação na tua
bôca... Queres então ir a Portugal procurar uma mulher que te ha de
fazer feliz... Vejo que a desgraça tem comtigo momentos de zombaria...
Vai. Dou-te o dinheiro necessario para a passagem, e para a subsistencia
de alguns mezes.
--És um perfeito cavalheiro. Espero ainda embolsar-te do ultimo real que
me emprestas... Ris-te? É porque não sabes os meus planos.
--Os teus planos... O que me faz rir é a facilidade com que te illudes,
a inexperiencia do que és, a intimativa com que te confias a uma
esperança imaginaria. Que mulher de Lisboa descerá até Luiz da Cunha com
a sua riqueza? Estou fóra de Portugal ha oito annos, e conheço a tua
vida dia a dia; conhecem-na todos no Rio de Janeiro. Quem te não
conhecerá em Lisboa? Eu vi uma carta d'um tal visconde, escripta ao
ministro portuguez no Brazil, que te apresentava um prodigio de
immoralidades.
--Esse visconde era precisamente o visconde de Bacellar.
--De Bacellar, justamente.
--Isso é um miseravel a quem puni com um chicote nos Paulistas.
--Não sei se é um miseravel que puniste com um chicote; mas de certo não
é calumniador. Todas as informações confirmam as d'elle. O que será
feito d'uma menina que fugiu das Commendadeiras, e abandonaste no
primeiro mez, trocando-a pelos amores da celebre Liberata?
--Não fallemos n'isso... Rapaziadas!... Talvez tu não creias que a
mulher que me ha de fazer feliz é justamente a que fugiu das
Commendadeiras?
--Vejo que é grata aos teus beneficios... Deve morrer de saudades por
ti... Estará ella anciosa da tua chegada como Marianna?
--Estás impertinente, Proença!... Que diabo lucras tu em apoquentar-me?!
Marianna morreu; não posso dar-lhe vida; se podésse, dava-lh'a... Que
mais queres?
--Nada, Luiz... Que hei de eu querer? É que não acho natural a tua
felicidade proveniente de uma mulher que perdeste.
--E, se eu te disser que essa mulher me deu obra de quarenta mil
cruzados, depois que a abandonei?
--Se é verdade o que dizes, espanta-me que o digas sem cahires n'esse
chão fulminado de vergonha!
--Vergonha... de que?
--Ha em ti um defeito de organisação, Luiz!... Tu não és o homem moral.
Falta-te a consciencia, o senso-intimo do bem, o caracter da
sociabilidade. Não te posso responsabilisar pelos teus crimes. O tigre
tem a ferocidade nativa. Tu és uma aberração, Cunha. Digo-te, com as
lagrimas nos olhos, que estás perdido, perdido para sempre... Receio
muito que encontres um cadafalso no teu caminho.
--Estás funebre! Que diabo de prophecia! O meu furor todo é
desmentil-a... Hei de rehabilitar-me! Desafio todos os demonios para que
me combatam.
XVI.
TENHO FOME! ESTOU HA TRES DIAS SEM PÃO!
Em uma tarde de Agosto de 1842, Assucena passeava sósinha entre os
renques de loureiros e amoreiras da sua quinta do Lumiar. Abria e
fechava com apparente distracção um livro, e, se lia, poucas linhas a
fatigavam.
Veste ainda de lucto pelos seus bemfeitores, ha tres annos mortos. Sobre
o lenço de gorgorão que lhe cobre o pescoço, traz pendente um collar de
contas de azeviche com uma pequena cruz de pau preto, embutida de
lavores de madre-perola. Este adorno está em harmonia com o livro em que
lê, e profundamente medita: é o thesouro de Kempis, a Imitação de Christo.
Sentára-se, lendo mentalmente estas linhas:
«Crê-te indigno da consolação divina; mas sim merecedor de muitas
tribulações. Quanto mais se compunge o homem, mais amarga lhe é a
sociedade. O bom não depara ahi senão incentivo para lagrimas. Ou pense
em si ou nos outros, reconhece que sem amarguras ninguem vive aqui. E
tanto mais angustiado se vê, mais dos outros se compadece. As compunções
intimas, e a nutrição das dôres merecidas, são filhas dos nossos vicios
e peccados; deslumbrado por elles, não temos vista para contemplar o
ceo. Se mais vezes pensares na morte, que na vida, fervorosa será a tua
emenda. Se scismares nas penas do inferno e do purgatorio, e do coração
as temeres, ser-te-hão leves os trabalhos da vida, e não tremerás de
susto.» Fechára o livro, erguêra para o ceo os olhos lacrimosos, e
murmurára:
--E serei eu grande peccadora, meu Deus? Não terei eu seguido a vossa
santa lei? Terei deixado cahir a minha cruz, seguindo-vos?
Parára uma carruagem.
--É minha mãe!--disse alvoroçada Assucena, sahindo-lhe ao encontro.
Rosa Guilhermina vinha triste.
--Estranho hoje a sua physionomia, minha querida mãe! Que é? teve algum
desgosto com o padrasto?
--Não, filha... Como estás?
--Bem vê que estou boa.
--Com lagrimas nos olhos...
--Foi de lêr o meu querido livro... Faz-me sempre este bem.
--Que fizeste hontem, filha?
--O que faço todos os dias. Assisti ás tres missas na capella; dei ao
meio dia o jantar aos pobres; de tarde rezei a via-sacra; depois, passei
um bocadinho aqui com o padre Madureira; tomamos chá á noite; rezei a
corôa de Nossa Senhora, e deitei-me. Hoje fiz o mesmo; esperava minha
mãe, e o padre...
--Minha filha, eu entendo que és muito excessiva nas tuas devoções.
Padre Madureira já me disse que te fazia mal tanta religião. Tu queres
comprehender o incomprehensivel, e prejudicas o teu espirito... e a tua
saude.
--Não, mãe. Eu não acho nada incomprehensivel na religião de Jesus
Christo. Leio muitos livros mysticos, porque não tenho outro recreio,
nem o quero; rezo muito, porque não devo ser ingrata aos beneficios que
Deus me faz, e peço á sua divina vontade continue a fazer-m'os. Com isto
não sou pesada a ninguem...
--Mas tudo que é de mais...
--Servir a Deus é sempre de menos, minha mãe.
--Mas ha cousas que denunciam fraqueza de razão.
--Em mim?
--Sim. Sei que vaes de noite acompanhar o viatico aos enfermos.
--E será isso fraqueza de razão?
--É uma demasia de virtude que não fica bem a uma senhora de vinte e
dois annos.
--Porque?... Todos me tratam com tanto respeito...
--Mas... não fazes bem: póde-se servir a Deus com suavidade.
--Isto não me custa; mas, se a mãe não quer, não tornarei.
--E que invenção é essa de trazer as contas por fóra do lenço?
--Pensei que não importava trazêl-as assim, ou de outro modo.
--De certo, não importa; mas poderá alguem chamar-te visioneira.
--Alguem! Eu não conheço ninguem. O padre Madureira não me diz nada; a
mãe de certo se não ri de mim; os outros, ainda que me vissem, não me
envergonhavam com a sua zombaria... A mãe não acaba de crêr que me não
importa nada o mundo?
--Nem queres que te fallem em cousas do mundo?
--Se me affligem, não... Queria dizer-me alguma cousa?... Vejo-a triste,
e quer desabafar comigo... Diga o que tem...
--Uma afflicção que tu não imaginas... e não devo dizer-t'a...
--Se não deve dizer-m'a, terrivel cousa é! Então, não posso eu
consolál-a...
--Se eu soubesse que te não affligias...
--Isso não prometto, mãe; mas, ainda que me afflija, quero soffrer comsigo.
--E se fôr cousa que tenha mais relação comtigo de que comigo?
--Se tiver remedio, remedeia-se com o auxilio de Deus; se não tiver,
paciencia. O Senhor ha de dar-me forças e resignação... Mas que póde
ser? Alguma calumnia?
--Ninguem ousa manchar a tua reputação, minha filha.
--A minha reputação!... Ai! minha querida mãe, se soubesse o mal que me
faz quando pronuncia essa palavra...
--Pois porque não hei de pronunciál-a?
--Pelo amor de Deus, calemo-nos... Diga o que é...
--Tens animo, filha?
--Jesus que me aterra!
--Sabes que Luiz da Cunha está em Lisboa?
--Se o sei?... quem m'o havia dizer!...
--Tu descóras, filha.
--Deus dá-me animo... Não é nada, minha mãe... É isso só que me queria
dizer?... Deixál-o estar... Não tenho nada com elle... É feliz?...
--Muito infeliz... Vem pobre...
--Eu não pergunto se vem rico... Será virtuoso? terá temor de Deus?
--Vem cheio de crimes. Dizem-se em Lisboa cousas horriveis d'este homem.
Casou muito rico...
--Isso já eu sabia, que m'o disse o padre Madureira.
--Mas abandonou a mulher...
--Coitadinha!...
--E morreu atormentada.
--Compadeceu-se d'ella o Altissimo... Foi feliz... Rezemos-lhe pela
alma, minha mãe.
Assucena ergueu as mãos, murmurando o _padre-nosso_. A viscondessa
reparou na exaltação religiosa de sua filha, e capacitou-se das
suspeitas do padre Madureira. Estas exaltações eram uma ameaça de algum
grande desmancho intellectual.
Assucena obedecia ás mais extravagantes preoccupações religiosas:
abraçava todos os prejuizos populares: desauthorisava a razão, calando-a
com fanaticos receios. Déra-se na sociedade, como incentivo de risos, se
fosse possivel sustentar a vehemencia das suas crenças em publico.
Depois da oração, Assucena pediu silencio a sua mãe, que se retirou
maravilhada da impassibilidade da filha; mas segura de que as astucias
de Luiz da Cunha não poderiam nada contra ella. E era essa a sua afflicção.
Padre Madureira viera á hora do chá. A neta do arcediago não dissera uma
palavra do dialogo com a viscondessa. Porém o padre, com grandes
rodeios, ia dar-lhe, dizia elle, uma espantosa novidade. Assucena
atalhou, dizendo:
--Já sei. Não fallemos em tal cousa.
--Já sabe!! mas não sabe tudo, minha senhora.
--Sei tudo. Vem desgraçado...
--E tão desgraçado que lhe pede uma esmola.
--A mim?!... Santo Deus! Como sabe elle que eu...
--Perdão, senhora D. Assucena. Attenda-me. Eu tive uma imprudencia; mas
o meu fim era justo e nobre. Quiz punir Luiz da Cunha para que a dôr da
culpa lhe despertasse no coração sentimentos de honra. Fiz que elle
soubesse no Brazil, por uma carta minha, quem o salvára da ignominia e
do degredo, rehabilitando-o para o futuro com os meios necessarios para
experimentar uma nova estrada.
--Deus lhe perdôe... senhor padre Madureira... o mal que fez! Eu
perdôo-lhe, e Deus Nosso Senhor me receba estas lagrimas em desconto dos
meus peccados.
--Luiz da Cunha--proseguiu o padre--depois de mil revezes, apparece em
Portugal, e encontra-se comigo, quando eu sahia do côro. Pergunta-me se
v. exc.ª ainda vive. Vacillo na resposta. Quero até fingir que não
conheço tal homem. Insta comigo para que lhe responda. Digo-lhe que
Assucena vive; mas não para o mundo. «Quero vêl-a--exclama elle--quero
pedir-lhe perdão!» É impossivel--disse-lhe eu.
--Sim, sim, é impossivel!...--atalhou Assucena sobresaltada.
--Quer lançar-se-me aos pés... eu tento fugir-lhe... segura-me pela mão,
e exclama com desespêro: «tenho fome! estou ha tres dias sem pão! dê-me
uma esmola!»
--Oh meu Deus!--bradou Assucena, escondendo o rosto nas mãos.
--Eram horriveis as visagens d'aquelle infeliz!--continuou o
padre.--Disse-lhe que viesse a minha casa; dei-lhe de comer... Sahi,
deixando-o á mesa. Fui dar ordem n'uma hospedaria para que o
sustentassem, e mandei-o para lá... Que é isto?--interrompeu-se
impetuosamente Madureira, tomando Assucena nos braços--Minha filha...
Estava desmaiada.
Os haveres da neta do arcediago estavam reduzidos á quinta do Lumiar.
Extremas economias permittiam-lhe pagar diariamente duas missas por alma
dos seus bemfeitores, dar jantar a vinte pobres, e sustentar-se com
muito pouco.
Assucena não aceitára nunca uma mealha de casa de seu padrasto,
remira-se com o seu pouco, embora sua mãe esgotasse todos os
subterfugios para melhorar-lhe as commodidades. Que poderia ella fazer
em bem de Luiz da Cunha?
Padre Madureira tinha apenas o seu mesquinho ordenado do cabido, como
beneficiado simples. Tambem não podia.
--Que faremos?--perguntou ella ao padre.
--Tenho pensado n'um meio; e não vejo outro.
--Qual? foi Deus que lh'o inspirou?
--Arranjarei quem empreste quatrocentos mil reis, com juros, e o
pagamento a prazos, hypothecando esta quinta. Com este dinheiro
alcançarei um emprego para Luiz da Cunha, longe de Lisboa.
--Sim, sim, longe de Lisboa.
--Dir-lhe-hei que é o mais que posso fazer-lhe.
--Sem dizer-lhe que eu concorri para isto...
--Farei a sua vontade. É conveniente que elle o ignore.
Dias depois, era despachado João Maria das Neves escrivão do Juizo
ordinario do concelho de Ribeira de Pena, na Provincia de Traz-os-Montes.
João Maria das Neves equivalia a Luiz da Cunha e Faro. O requerente
nunca subiu as escadas da secretaria. O seu agente foram os quatrocentos
mil reis da neta do arcediago.
Na ante-vespera da sua sahida de Lisboa, Luiz da Cunha quiz saber o que
era feito de Liberata.
Ao escurecer, porque não sahia de dia, foi á rua de S. Bento, e parou
defronte da casa n.º 40. Viu as janellas occupadas por um rancho de
senhoras, e deduziu que Liberata já não morava alli.
Accendeu um cigarro na vela do tendeiro, que morava defronte, e como por
mera curiosidade perguntou quem morava defronte.
--É a familia d'um empregado.
--Aqui ha tres annos morava lá uma mulher...
--Era boa rolha! chamava-se Liberata.
--Justamente... Que é feito d'essa mulher?
--Eu lhe conto o que sei. Depois que aqui á minha porta deram umas
facadas n'um tal Luiz da Cunha que morava no Campo Grande, e que lhe
comia a ella a mesada que certo figurão lhe dava, a mulher metteu-se com
um jogador que a trazia nas pontinhas. Chegou a ter duas seges a
bebeda![1] Vai, se não quando, a mulher adoece, e o tal
jogador nunca mais ahi veio. Esteve de cama onze mezes, vendeu tudo
quanto tinha, os trastes até fui eu que lh'os penhorei por cento e
cincoenta mil reis que me devia do grão para os cavallos, azeite, arroz,
&c. &c. &c.
[1] Respeitemos a fidelidade.
--E morreu?
--Qual morrer! A mulher tem sete fôlegos como os gatos. D'alli foi para
o hospital acabar de se tratar, e não ha muito que me disseram que a
viram no Bairro Alto; mas mora á porta da rua, para não ter o trabalho
de subir e descer as escadas. É no que veio parar a tal matrona das
carruagens.
--Sabe em que sitio ella mora?
--Eu, graças a Deus, não ando por essas casas, mas quem me disse que a
vira foi aquelle barbeiro que mora acolá! Se tem muito empenho em
sabêl-o, isso é facil,
--Faz-me muito favor.
O tendeiro voltou, dizendo que Liberata morava na travessa da Agua da Flôr.
Luiz da Cunha agradeceu cordialmente a indagação, e subiu pela travessa
Nova, mais absorvido que nunca na inconsequente trapalhada das cousas
humanas.
Ao voltar na esquina da rua da Rosa das partilhas viu uma mulher de
chale vermelho, saia branca, lenço atado na cabeça com as pontas em
grande laço para as costas, sahindo d'uma taverna abraçada com um marujo.
Pela voz, de certo era ella, cantarolando um landum que outro marujo
arpejava na guitarra. Acabando a cantiga, o marujo phylarmonico, fazendo
um bordo largo de encontro a Luiz da Cunha, grunhiu:
--Ponha-se á capa, quando não vai a pique, sû paralta!
Luiz da Cunha recuou.
--Canta Liberata... se não queres levar com a banza nos rizes!--tornou o
marujo, perfilando-se com o grupo.
E Liberata cantou outra copla das privilegiadas da travessa da Agua da
Flôr.
Ella e os marujos sentaram-se na escaleira d'uma porta.--Vieram depois
outros marujos e mulheres em saia branca batendo as palmas, e saltando
ás costas dos marinheiros, que as indemnisavam dos carinhos com amaveis
pontapés.
O escrivão do juiz ordinario permaneceu encostado á esquina da rua da
Rosa, até ás dez horas. Os marujos debandaram, e Liberata recolheu-se
sósinha.
Luiz bateu á porta.
--Quem nos honra?--perguntou ella.
--Abre.
--Quem és?
--Abre sem receio.