das cousas: bole com tudo, toca em todos os sentimentos, entra nos
juizos da cabeça, e enraiza-se nas aspirações da alma.
--Não te entendo, Luiz...
--Entendes, que tens muita intelligencia. E queres que te diga? Nenhuma
mulher de fina educação póde ser feliz, como esposa, se não estiver
possuida de certos sentimentos de tolerancia com as faltas do marido.
--Vou entendendo agora, e admiro a minha ignorancia de ha pouco... Ora
diz, meu amigo, falla, que me encontras em hora de ouvir tudo... Mas
olha, Luiz... Esta noite não te recorda aquella primeira noite, no mar,
quando me dizias: _é mentira approximarem-se os entes que o destino
talhou para se unirem: quando se encontram já a desgraça os traz
desfigurados; vêem-se e não se conhecem; fallam-se e não se
comprehendem_... Era uma noite assim formosa como esta... Se então nos
não comprehendemos, Luiz, hoje comprehenderemo-nos melhor?...
--Eis-ahi um incidente bem romanesco, minha amiga! Vejo que em Veneza ha
de necessariamente conversar-se em linguagem de romance!... A recordação
das minhas palavras o mais que prova é que tens uma feliz memoria...
--Que tu não tens... bem se vê que as esqueceste... Creio que vens
zombar comigo, Luiz.
--Não, Marianna; não venho zombar. Estou capitulando comtigo. Vamos
combinar bases novas sobre que deve assentar a nossa felicidade. Todos
os casamentos são felizes, quando entre marido e mulher se dá uma
perfeita harmonia de vontades. Negas isto?
--Não.
--Da desharmonia resultam a desordem domestica, as contrariedades
pequenas, as desavenças constantes, e tudo isto porque se não entendem,
nem se combinam. Entenderem-se e combinarem-se é fazer uma alliança de
se não importarem reciprocamente das suas acções.
--Não entendi, Luiz; ou entendi uma infamia de que te não considero capaz.
--Pois que entendeste, Marianna?
--Não ouso dizêl-o.
--Eu me explico, e bem vês que o faço com toda a serenidade. Serei muito
teu amigo, não teremos nunca o menor desmancho no nosso bem-estar, se tu
quizeres ser indifferente ao meu procedimento com as outras mulheres.
--Serei, Luiz; mas com uma condição...
--Qual?
--Conduz-me a minha casa, e depois torna para aqui, ou faz o que quizeres.
--E qual é o teu fim?
--Educar os meus filhos.
--Naturalmente, depois, lembravas-me que a tua casa não podia soccorrer
as minhas dissipações...
--Esse receio fica-te bem; mas é vileza que ainda me não lembrou.
--E porque não queres tu ser feliz como eu posso sêl-o? Eu pago
tolerancia com tolerancia....
--Isto não se crê, Luiz! Dar-se-ha caso que tu vens...
--Embriagado?
--Sim...
--Não venho embriagado, Marianna; e a prova de que o não estou, é que se
fosses um homem, n'este momento, tinhas a cabeça partida nas lages da rua.
--Pois esquece-te que sou mulher, e faz-me essa esmola.
--Basta! não lhe soffro nem mais uma palavra, senhora! Recolha-se ao seu
quarto!
Marianna ergueu-se. Tal era a placidez do seu semblante, que nem os
gritos brutaes de Luiz lhe alteraram a pallidez. Passou por diante
d'elle com os olhos no chão. Entrou no seu quarto, onde encontrou
chorando a escrava que a creára, e lhe creára os filhos. Era uma amiga.
Lançou-se nos braços d'ella, suffocando os soluços.
Luiz da Cunha sahira.
--Não se deixe morrer, minha senhora--disse a escrava.
--Deixava-me morrer, se não tivesse os meus filhos. Quero viver para
elles e... é preciso fugirmos, Genoveva.
--Fugirmos!
--Sim, senão, este homem mata-me, ou eu morro de desesperação.
--Como ha de a gente fugir? Não conhecemos aqui ninguem...
--Pela manhã has de levar ao correio uma carta para o ministro do Brazil
em Vienna. Vou escrevêl-a. Se vires entrar esse homem, avisa-me...
A carta para o ministro brazileiro seguira o seu destino. D.
Marianna, se podésse rehavêl-a uma hora depois, sustaria o seu
desesperado projecto de fuga. A infeliz illudira-se. O coração d'esta
mulher não deixára sahir o amor pelas feridas das incessantes
punhaladas. Luiz da Cunha, o homem de um anno antes, imaginára-o ella
sob a influencia de algum diabolico prestigio da dançarina. Não podia
conceber semelhante mudança! Não podia capacitar-se da ignominiosa
tolerancia que elle lhe offerecêra! Amava-o ainda.
Mas elle não a deixava muito tempo illudida. O seu proceder parecia um
proposito para desenganal-a. Indifferença, desprêso, e até abandono de
dias inteiros, seguiram-se ao ultimo dialogo que lhe ouvimos. Já não
rebuçava a affronta, nem pretextava sahidas. Á hora do dia, embalava-se
com Carlota nas gondolas de Rialto, e mostrava-se com soberba
impudencia, ao lado d'ella, ao fim da tarde, na Ponte dos Suspiros.
Marianna já não ignorava nada. A preta dedicada para apressar a fuga,
como taboa de salvação para sua ama, espreitava Luiz, ou pagava a quem
lhe espionasse os passos, que não careciam de espionagem. Cahira
extenuada de soffrimento no leito, ao pé do qual seu marido passava o
tempo necessario para calçar umas luvas, quando sahia de manhã para vir,
se vinha, jantar á noite. Luiz da Cunha aconselhava-lhe os passeios, e
para isso lhe vestira um jokei que a acompanhasse, e lhe déra plena
liberdade de gosar, na sua ausencia, não só os prazeres do lympido ceo,
mas os da terra que valiam bem a pena de sahir dos amúos que a molestavam.
Uma ironia por consolação! Um escarro nas faces cadavericas da infeliz!
Uma tarde, quinze dias depois que D. Marianna escrevêra ao ministro
brazileiro, chegou a Veneza o primeiro addido d'aquella embaixada, e
procurou no hotel uma senhora brazileira.
Marianna ergueu-se para recebêl-o, e soube que era elle o encarregado de
dispor a sua sahida para o Brazil. O addido, em poucas horas, colhêra
ácerca de Luiz da Cunha as precisas informações: assim lh'o ordenára o
ministro para não annuir imprudentemente ao capricho de uma senhora
casada. As informações eram muito peores do que a ultrajada esposa
fizera saber ao ministro, velho amigo de seu pae, e de seus tios.
Um navio estava prestes a fazer-se á vela para o Rio de Janeiro.
Marianna apenas tinha tres dias para preparar-se. Na sua situação, tres
horas seriam de sobejo. O addido devia retirar-se de Veneza, quando o
navio tivesse sahido. Marianna não hesitou, nem pediu delongas.
Acabava de sahir o addido, quando Luiz da Cunha entrou. A brazileira
estava chorando.
--Minha amiga--disse Luiz--tinha tenção de jantar comtigo; mas, se me
dás môlho de lagrimas, retiro-me.
--Eu é que não aceito o teu convite. Retira-te, se queres, que eu não
janto hoje.
--N'esse caso, não jantarei só... Como estás?
--Boa.
--Optimo. Mas essas lagrimas não se esgotam...
--São lagrimas de alegria.
--Ainda bem. Vê se te reanimas para irmos a Milão, na semana proxima.
--Estou reanimada.
--Melhor. E depois vamos a Turim, a Berlim, a Napoles, _et cetera_.
--Iremos. Estas viagens regalam-me o coração.
--Estou gostando do teu joco-sério! Vaes-me sahindo uma _pretenciosa_
falladora.
--Estarei calada, Luiz!
--É melhor.
--Mas, se me não levas a mal, sempre te farei uma pergunta...
--Não ha pergunta sem resposta... Venha de lá isso.
--Como se póde ser homem tão cruel?
--Como se póde ser mulher tão impertinente?--respondo, perguntando.
--Não tenho mais que te diga.
--Falla, se tens lá mais alguma pergunta de algibeira.
--Não tenho nenhuma; comtudo... se tens paciencia, has-de ouvir-me. Eu
tenho filhos, de cujo patrimonio sou administradora.
--Já sei.
--Os meus filhos podem pedir-me contas d'esta administração.
--Não digas mais nada, que eu já te matei a charada no ar. Queres dizer
que eu gasto mais do que os rendimentos da tua meação. Dir-te-hei que
não consinto que me lances em rosto a minha dependencia da tua fortuna.
Isso é vil.
--Sou vil, é o que se segue; mas repara, Luiz, que te não lancei em
rosto a tua dependencia.
--A cousa bem traduzida lá vai dar. Queres despedir-me do commercio de
bens?
--Não: o peor é se te despedem...
--Quem?! Que quer isso dizer?...--replicou elle, colerico.
--Nada...
--Minha querida senhora, para não irmos adiante, fiquemos aqui... Até
ámanhã...
--Até ámanhã, Luiz.
No dia seguinte, o conviva de Carlota Gauthier não veio a casa. A
escrava soube que o marido de sua ama sahira para Peschiera com a
franceza, que disse, no hotel, voltaria passados tres dias.
O immediato era o dia aprazado para a sahida do navio.
O addido conduzia de madrugada D. Marianna, e sua escrava, a bordo.
Genoveva levou sempre sua ama desfallecida nos braços. Dizia-se a bordo
que a pobre passageira parecia morta, e não desmaiada.
XIV.
CAVAR PARA OS OUTROS A SEPULTURA, E PARA SI O INFERNO.
Luiz da Cunha passeava com Carlota nas margens do lago de Garda, ao pé
do pittoresco Mincio. Deliciavam-se em meigos brinquedos, como duas
creanças, embebidos um no outro, ao que pareciam, suspirando juntos como
a brisa tépida que os arremedava no bulicio da ramagem.
Escurecia, quando divisaram tres vultos. O barqueiro que, a distancia,
os tinha já prevenido contra os perigos do local, ao vêr os vultos
teimou que entrassem no barco. Luiz, instado por Carlota, olhou com
saudade para as deleitosas testemunhas de seus prazeres, e foi, como
arrastado, na direcção do barco.
Mas os vultos acceleravam o passo. Carlota e o barqueiro diziam a Luiz
que fugisse.
--Fugir a que? São tres, e eu só fujo a trinta.
--Foge Luiz, que eu suspeito...
--Que suspeitas?
--Que algum d'elles é...
--O troca-tintas teu patricio? Deixa-me reconhecêl-o.
Luiz da Cunha esperou-os com as pistolas engatilhadas. Os vultos
marchavam para elle tão serenos como se tivessem ouvido o tinnir do
gatilho..
--Parem, quando não mato-os!--exclamou Luiz.
--Pois atira, miseravel!--disse um dos tres.
Os gatilhos bateram duas pancadas surdas. Luiz recuou, aperrando-os
de novo. As pancadas produziram o mesmo som abafado.
--Estou desarmado, covardes!--gritou elle, quando as primeiras pauladas
de «cacetes» curtos lhe estalavam na cabeça, nos braços e no peito.
--Chama os teus sicarios do Brazil!--dizia o antigo amante de Carlota,
sovando-lhe a cara de pontapés, quando elle, já em terra, coberto de
sangue, perdêra o accôrdo.
A dançarina presenceava o espectaculo de dentro do barco, que se fizera
ao largo, graças á prudencia do barqueiro.
Os francezes retiraram-se a passo moroso, conversando na mais tranquilla
pacatez de tres socios do instituto de bellas-letras, que viessem de
descobrir nas margens do Mincio o esqueleto d'um ichtyosaurus.
Carlota, contra a vontade do barqueiro, chegou-se a terra. Não vendo os
vultos, saltou, e viu em terra o amante, que gemia a cada esforço inutil
que punha para erguer-se sobre os braços macerados. O barqueiro veio em
auxilio da consternada moça. Tomaram-no entre os braços, deitaram-no na
prôa do barco, e lavaram-lhe a face arregoada de sangue.
Luiz da Cunha foi curado em Peschiera, e, logo que as forças lh'o
consentiram, quiz convalescer em Veneza. Carlota seguia-o,
indemnisando-o com extremosos cuidados do desgosto d'uma perigosa sova,
por causa d'ella.
Em Veneza, Luiz da Cunha que não déra, durante quinze dias, noticias
suas a Marianna, com quanto se não doesse muito de tal falta, achou que
era prudente procural-a, que não fosse ella, desesperada, sustar no
Brazil a remessa d'uma importante quantia que elle exigira.
No hotel disseram-lhe que sua senhora com a escrava tinham sahido n'uma
madrugada, havia treze dias, e não voltaram.
Entregaram-lhe as chaves dos seus quartos. Luiz da Cunha encontrou tudo,
menos os bahús d'ella. Nem uma carta sobre as mesas! cousa nenhuma que o
esclarecesse! Chamou o criado, que ficára com as chaves, esperando que
lh'as recebessem:
--Com quem sahiu a senhora?
--Com um cavalheiro.
--Seria de Veneza?
--Não, senhor: vi-o aqui entrar uma só vez, antes d'ella sahir com elle.
--E os bahús, quem os transportou?
--Dous homens que tinham vindo com o tal cavalheiro: pareciam marinheiros.
Luiz da Cunha informou-se. Justamente na madrugada d'esse dia sahira um
navio com carregação de vidros para o Rio de Janeiro.
A sua situação pareceu-lhe embaraçosa! A primeira ideia foi seguir
quanto antes sua mulher. Consultou Carlota, e a carinhosa respondeu
ternamente que o não acompanhava, porque não tornava ao Brazil. Ainda
assim, renunciando generosamente o amante á esposa, a bailarina
aconselhava-o que a seguisse, embora ella ficasse devorada de saudades.
Esta sublime abnegação impressionou Luiz, a ponto de olvidar, surdo aos
gritos do presentimento, as consequencias da apparição de Marianna,
sósinha, aos seus parentes.
Contando com a sua astucia, deferiu a viagem para mais tarde, visto que
ainda lhe restava uma ordem de dez contos, e entretanto Marianna,
forçada pela saudade, poderia de lá chamal-o, pedindo-lhe perdão.
Proseguiu nas suas viagens com Carlota. Saboreou o ouro e a liberdade,
não azedada pelas lagrimas importunas de sua mulher. Gastou francamente
como se uma nova remessa devesse chegar do Brazil, antes de escoar a
ultima libra dos dez contos. Fez, durante quatro mezes, pontuaes
pagamentos á bailarina, de cinco mil francos cada mez. Contava-lhe com
ingenua candura a sua vida, os seus haveres, e até desceu á pueril
pieguice de lhe dizer que era necessario fazerem economias, em quanto
lhe não chegava uma ordem para saccar em Londres um cabedal mais duradouro.
Carlota, á palavra «economias» sentiu que o coração lhe fazia no peito
uma pirueta, e ficava de costas voltadas para o economico amante.
Á maneira do coração, a dançarina resolveu fazer tambem uma pirueta na
primeira occasião.
A occasião veio-lhe ao encontro dos desejos. Um conde austriaco
hospedára-se no mesmo hotel em Roma. O locandeiro tinha poderes
discricionarios para convencer a moça. A proposta foi aceita,
estipuladas as condições, e Carlota desappareceu com o conde na estrada
que devia conduzil-a a Paris.
Luiz da Cunha--diga-se a verdade--não sentiu muito a ausencia da sua
companheira de quarto. A paixão diminuira na razão directa das libras. A
sensualidade ia-lhe arrefecendo á maneira que o espirito se lhe occupava
em meditações sobre o futuro. O mais que fez foi estudar os pontos de
contacto entre Carlota e Liberata, e viu que eram bustos do mesmo molde.
Teve a imprudencia de chamar Assucena e Marianna a esta galeria, e
concordou, o mais racionalmente que pôde, que aquellas duas eram d'um
estofo muito superior ás outras.
O peor era a pobreza que o ameaçava!
Os dez contos de reis em oito mezes, com quanto economisados, tinham
cahido na voragem dos brilhantes de Ricarda, dos bens livres de João da
Cunha, dos quarenta mil cruzados de Assucena, do incalculavel numerario
com que sahira do Brazil. Restavam-lhe algumas duzias de libras, e
nenhum amigo, nenhum credito, nenhuma esperança que lhe não deixasse
antever o futuro pela face da indigencia. Angustiado no dilemma,
resolveu abandonar a Europa, que tão cara lhe era, e vestir uma mascara
de bronze, como se precisasse de encobrir a vergonha, para lançar-se aos
pés de sua mulher, se é que ella lhe não correria aos braços, banhada em
lagrimas de alegria. O projecto dependia de uma execução immediata,
porque as ultimas libras urgiam.
Luiz da Cunha, protestando vencer, ainda uma vez, a força diabolica que
o empurrava para o abysmo da miseria, refez-se de coragem, confiou-se á
prodigiosa omnipotencia da sua impostura, e embarcou em Civitta-Vechia
n'um navio de escala para Buenos-Ayres.
N'esta viagem, não ha memoria d'alguma aventura digna de menção na
biographia do filho de Ricarda. Contaram, porém, os seus companheiros de
viagem, que tal homem se fizera repulsivo a todos pelo desprêso com que
a todos repellia. Era intratavel, e tinha accessos de frenesi
assustadores. Corria as cortinas do seu beliche durante o dia, e
passeava toda a noite na tolda. Se em noites calmosas os passageiros
tambem subiam a respirar, Luiz da Cunha descia com arremesso a isolar-se
na sua camara.
Vê-se que o cynico não tinha o riso despejado da escola. Soffria; mas
não era a suave melancolia do solitario sem os remorsos: era o assomo
colerico, o concentrado rancor do algoz que não póde estalar os grilhões
que o condemnam a morrer no desespêro da immobilidade.
Pois a hora do remorso não soára para este homem?! Ainda não. Talvez
nunca. O remorso é o triumpho do anjo bom. Luiz da Cunha pactuára uma
alliança insoluvel com o demonio, cuja existencia não é para mim uma
fabula, quando me vejo impellido ao mal, e cêdo com pesar ao impulso,
encarando o bem por que suspiro. A lucta entre as duas potencias existe
no coração humano, em quanto a consciencia sabe estremar o crime da
virtude. Mas, perdidas as noções do dever, raspada de sobre o coração a
palavra «honra» a lucta já não existe, o anjo bom fugiu espavorido, o
remorso é impossivel.
E era-o para Luiz da Cunha.
Esse fugir da sociedade, odiando os homens, era o encovar-se do tigre,
sequioso de prêsas, raivando de fome, e espreitando com olho abrazado a
victima desprevenida.
Luiz contava os dias de viagem com frenetica anciedade. Só, imaginára
todas as hypotheses terriveis do seu futuro. Dava-se como possivel a
vingança de Marianna, privando-se não só da tutella dos enteados para
diminuir os redditos, mas negando-lhe a elle uso-fructo da sua propria
meação. Verificar esta horrivel conjectura era o seu desejo: vingar-se
de qualquer modo era a sua tenção, se uma bem estudada impostura o não
reconciliasse com Marianna.
Chegou a Buenos-Ayres, e na lista dos estrangeiros que pernoitavam no
mesmo hotel viu o nome de Francisco José de Proença. Saibamos de
passagem que Proença era um official do exercito portuguez, que seguira
as bandeiras de D. Miguel. Em 1833 expatriara-se para o Brazil. Filho
d'um brigadeiro, visitava-se com João da Cunha, e fôra da roda de Luiz.
O marido de Marianna encontrára-o no Rio de Janeiro, luctando com a
adversidade, pobre, sem emprego, vivendo do trabalho esteril de
amanuense d'um advogado. Soccorreu-o com um emprestimo de dinheiro para
tentar o trafico da escravatura, pensamento dominante de Proença.
O portuguez fôra bem acolhido por Marianna, em respeito a seu marido.
Civil, bem morigerado, e prudente, colhêra muito na escola da desgraça.
Fez-se bemquisto, adquiriu proveitosas relações, alcançou aura de
honrado, apesar do seu plano de mercadejar com pretos. Este trafico não
deshonrava ninguem. Era como qualquer outro, um ramo de commercio, que
germinou illustres vergonteas, as quaes transplantadas depois em
Portugal, bracejaram copadas sombras onde se acoitam em torpel as
mercês, e os sacerdotes da apotheose.
Tal era o protegido de Luiz da Cunha em Setembro de 1840, quando o seu
protector, sahindo do Rio para a Europa, o recommendava aos tios de sua
mulher.
Foi, pois, bem natural o sobresalto de Luiz da Cunha quando viu na lista
o nome _Francisco José de Proença_. Guiaram-no ao quarto d'elle.
Proença, com o coração alvoroçado da surpresa, abraçou Luiz.
--Tu aqui!...--exclamou elle.
--Não imaginei encontrar-te fóra do Rio!
--Vens de lá? Já vejo que não.
--Venho da Europa. Ha que tempo sahiste do Rio?
--Ha tres mezes. Tu ignoras tudo, pelo que vejo.
--Se ignoro tudo!... Sei que Marianna está lá...
--Sabes que ella está lá? E sabes como ella está?
--Doente, talvez...
--Doente, não... morta.
--Homem! isso é extraordinario! Tu não mentes?
--A brincadeira seria de mau gosto. Não minto, Cunha. Pensei até que o
saberias.
--Isso é incrivel! Pois Marianna está morta?!
--E sepultada ha cinco mezes.
--Que infernal vida a minha!
As bagas de suor frio innundavam-lhe a testa. A commoção não se
differençava nada d'uma boa alma surprendida por uma nova terrivel.
--Infernal vida a tua! tambem eu digo, Cunha... Mataste aquella senhora...
--Matei...
--Tardio remorso!...
--Conta-me tudo.
--Pouco tenho que te conte. D. Marianna appareceu no Rio, sem ninguem a
esperar. Foi transportada n'uma rede ao seu leito. Soube-se que tu não
vieras, e correu que tinhas morrido. Marianna não recebia visitas, nem
os medicos. Pedi aos tios que me deixassem vêl-a, não o consegui. Um
d'elles contou-me os teus desatinos, e disse-me que a infeliz era tão
nobre que não pronunciava contra ti uma queixa. Precisava explicar a sua
fuga, e o pouco que disse foi mais amplamente contado por cartas do
ministro do Brazil na Austria. Levantou-se contra ti um brado de
indignação. Contaram-se todos os teus infortunios de Lisboa. Á carga
cerrada, os amigos de D. Marianna pediram que lhe fosse tirada a
administração da casa de seus filhos, para que tu não viesses continuar
a dilapidál-a. Tua virtuosa mulher pediu que a não mortificassem, visto
que a sua morte viria breve emancipar os pobres filhos da sua indigna
tutella. Empenharam-se todos em distrahil-a: o mais que conseguiram foi
mudál-a para uma quinta no Bota-fogo, onde viveu vinte dias. Aqui tens
bem simples a historia, e realmente te digo que é uma historia bem
fertil de lances desgraçados... Déste um pontapé na fortuna, Luiz, e com
esse pontapé arremeçaste tua mulher á sepultura...
--Pois sim... agora cala-te. As tuas reprehensões, além de inuteis, não
me soam bem.
--Desculpa-me se te fallo com franqueza tão rasgada. O facto de seres
meu credor não me humilha até ao silencio approvador dos teus crimes.
--Os meus crimes... não são meus.
--Pois de quem?!
--D'um demonio que me perde... E agora vejo que estou irremediavelmente
perdido!...
--Comparativamente ao que perdeste... estás.
--E pobre...
--Quasi pobre. Tens apenas quatro contos de reis que te devo, e o
pouco que tenho acima d'esse capital á tua disposição.
--Minha mulher fez testamento?
--Não. Tudo que tinha pertence aos filhos.
--Mas uma escriptura _causa mortis_ que fizemos?
--É nulla: foi logo annullada. D. Marianna não podia dispôr do que era
dos filhos: podia apenas legar-te a terça; mas não testou. Aconselho-te
que não vás ao Rio, muito menos se tentas questionar os direitos dos
teus enteados. Não vás, que serás morto. O teu nome desperta odios
n'aquelles mesmos que recebeste nos teus jantares. Tens um só amigo, que
se condôa de ti. Sou eu.
--E qual será o meu futuro?
--O que podéres grangear pelo trabalho; mas, no Rio de Janeiro, não.
--Em que negocias?
--Negociei em escravos.
--Tens sido feliz?
--Muito pouco. Tenho repugnancia para esta mercadoria.
--Queres tentar comigo uma empreza d'essas?
--Não. Hoje o meu commercio é menos rendoso, mais pacifico, supposto que
mais laborioso.
--Não sei o que são emprezas laboriosas...
--Tenta; póde ser que a fortuna te dê ainda outro abraço; mas as costas
d'Africa estão coalhadas de negreiros.
--Que dinheiro dispensas?
--Oito contos de reis. Quatro que te devo, e quatro que te dou, ou te
empresto... como quizeres.
--Posso fazer alguma cousa com esse dinheiro?
--Pódes, associando-te a algum negreiro, que farei teu conhecido.
Apresento-te ao que tem maiores depositos na praia dos escravos em
Guiné.....................................................................
..........................................................................
N'esse dia foi conduzido ao escriptorio do negreiro, em Buenos-Ayres, o
adepto com a sua quota parte de oito contos de reis. Quando tratavam as
condições da sociedade, estava presente um mulato bem trajado, com os
dedos scintillantes de pedras, e uma grossa cadeia de ouro no
pescoço. Ouvira, silencioso, o contracto, e seguira-o até á porta do hotel.
Pouco depois, Luiz da Cunha recebia um bilhete anonymo, que lhe pedia
uma entrevista, a sós, atraz da igreja das Mercês, ao escurecer.
Recommendava o bilhete um segredo inviolavel.
O temerario foi, sem consultar Proença, e encontrou o homem que vira em
casa do negreiro.
--O senhor quer ser rico?--perguntou o mulato.
--Quero.
--Ninguem responde com mais concisão, nem mais depressa. Se quer ser
rico, siga outro rumo. A escravatura deu em droga. Metade dos negros
morrem no porão: os outros ninguem os quer a cem mil reis fortes por
cabeça.
--Pois que rumo devo seguir?
--Primeiro; o senhor é capaz de nunca revelar o que eu lhe disser?
--Sou.
--Não o sendo, a sua existencia valerá menos que um preto asmatico.
Segundo: tem coragem?
--Tenho, penso eu.
--Quer entrar comigo n'um commercio que é um pouco menos infame que o da
escravatura? Quer ser pirata?