O capitão subia ao convez, e olhou com indifferença para os dous

passageiros, que não eram suspeitos a ninguem. Marianna, dizendo-se

influxada pelo ar da noite, desceu á camara, pedindo a Luiz da Cunha que

se recolhesse tambem. Era do plano astucioso obedecer.

Desde o dia immediato, repararam alguns passageiros na frequente

conversação da viuva com o homem mysterioso. O capitão, prevenido por

elles, reparára tambem que os passeios na tolda eram certos todas as

noites. O que elles todos notavam era uma sensivel differença nos

estranhos costumes do companheiro. Já não era preciso instar com elle

para assistir ao almoço. Acontecia muitas vezes encontrarem-no já com

Marianna, conversando em tom que subia uma oitava acima quando entrava

alguem. Viam-os, depois de almoço, ao pé da agulha, fugindo da ré onde

se agrupavam os passageiros. Para admirarem o phenomeno magnetico do

iman com o norte, achavam os criticos que era tempo de mais. Murmurou-se

que havia namoro, e censuravam a leviandade de Marianna, que tanto

chorára, e tão depressa esquecêra o marido. Mas não passava d'isto a

murmuração.

Com trinta e cinco dias de viagem, chegaram ao seu destino. A bordo da

galera vieram os parentes de Marianna. Luiz da Cunha, apresentado por

ella a seus tios, como pessoa a quem devia muitas finezas, foi convidado

para sua casa, e aceitou com arteira difficuldade, que as instancias

convencionadas de Marianna venceram.

O filho de Ricarda recebeu a ordem dos seis contos de reis, fechada n'um

envolucro em branco, qual o padre Madureira a entregara. Dentro d'esse

envolucro, junta á ordem, estava uma carta designada a Luiz da Cunha.

Abriu-a, e leu:

_Luiz da Cunha foi remido da ignominia, do degredo, da fome, e da morte

por Assucena. Se esta certeza lhe não valer um arrependimento nobre,

sirva-lhe ao menos de vergonha perante a sua consciencia._

A perplexidade do promettido esposo de Marianna durou poucos segundos.

D'aquella alma já não era possivel arrancar vergonha nem remorso. O

padre Madureira enganára-se. Queimando a carta, Luiz da Cunha entendeu

que o segredo voava nas cinzas d'ella. Estabeleceu tranquillas

conjecturas ácerca da riqueza de Assucena: d'onde lhe viriam perto de

quarenta mil cruzados?

Occorreram-lhe hypotheses, quasi todas ignobeis, e sordidas. E, como

nenhuma era mais provavel que as outras, Luiz da Cunha resolveu, um dia,

embolsal-a d'esse emprestimo.

Hospedado em casa d'um tio de D. Marianna, a sua vida, posto que

inactiva, era regular, e bem procedida. Não aceitou apresentações nas

salas da boa roda, porque D. Marianna as não frequentava, como viuva.

Visitava-a todos os dias em familia. Escrevia-lhe todas as manhãs, e

recebia de tarde o menino, que era o pretexto para a entrega das cartas.

Viuva de onze mezes, D. Marianna, administradora da sua casa commercial,

declarou, por delicadeza, aos parentes, que, passado o lucto, casava com

Luiz da Cunha. Não se oppozeram estorvos, que seriam inuteis. O noivo

era bemquisto: informações de Portugal era tarde para havel-as: o astuto

soubera dirigir o plano de modo que se não pedissem a tempo.

Casaram.

No dia immediato espalhára-se no Rio que D. Marianna casara com um

infame aventureiro, fugido de Portugal, depois que os seus crimes lá não

cabiam.

Esta terrivel nova fôra levada pelo capitão da galera, que se informára

em Lisboa, para saber se Luiz da Cunha seria o que parecia no primeiro

dia de viagem, ou nos outros.

Era tarde. O mais que podiam os interessados na felicidade de Marianna

era verem desmentida a calumnia, ou confirmado o boato pelo procedimento

do marido.

XIII.

EXPLOSÃO DA INFAMIA REPRESADA.

Eram passados tres mezes. Não havia razão nenhuma para acreditar a fama,

confirmada por ulteriores indagações. Luiz da Cunha não desmerecêra nada

nas esperanças de Marianna, e vivia á mercê da vontade d'ella, que era a

primeira a lembrar-lhe os bailes, o theatro, e os passeios, que o bom

marido frequentava com ar de aborrecido.

Os que tinham como certos os escandalos de Luiz em Portugal, estavam com

elle em suspeitosa guarda, não querendo acceitar como possivel a sua

emenda. Andava aqui inveja da avultada riqueza que a fortuna da

caprichosa lhe déra; o todo, porém, d'esses cabedaes, em terrenos e

predios urbanos, não podia considerar-se propriedade alienavel da viuva,

que era simples administradora de seus filhos. Ainda assim, a sua meação

avaliavam-na em cem contos de reis.

Como quer que fosse, Luiz da Cunha estava rico. A administração

economica da casa, em poucos annos, podia dobrar o que era legitimamente

seu por mutua escriptura.

O marido de Marianna chegou a acreditar na sua regeneração. Sabia das

suas intimas confidencias que de todas as mulheres a que menos amava era

a sua; mas tambem não sentia os imperiosos estimulos de procurar emoções

nas outras. A paz, as commodidades, o luxo, a consideração, bem-estar

que nunca experimentára, agradavam-lhe. Constavam-lhe as informações

idas de Portugal, e queria, até por capricho, desmentil-as. Signal

era de que a opinião publica alguma cousa valia já na sua. Este symptoma

enganaria o mais sisudo physiologista do coração, quando o proprio Luiz

da Cunha acreditava na estranha reforma das suas tendencias.

Basta dizer-vos que D. Marianna chamava-se feliz, e alardeava com

soberba a sua boa escolha na presença dos que faziam côro com a

maledicencia, mordendo a reputação de seu marido.

Deliciosos tres mezes!

Mas ao quarto.... Porque não morreu aquella pobre senhora no terceiro?

Porque não se aplacou o inexoravel destino d'aquelle homem? Porque ha de

ser tão brutal, tão despota a desgraça atirando abaixo das felizes

illusões a victima a que deu trégoas d'alguns mezes?

Mas, ao quarto, Luiz da Cunha viu uma dançarina no theatro, e fixou-a

com tal curiosidade, que o coração de Marianna palpitou dolorosamente.

Quiz desviar-lhe a attenção da perigosa mulher, e não pôde. Quiz, no dia

seguinte, com um subtil pretexto, sahir para os arrabaldes da capital,

mas seu marido, com pretextos ainda mais subtís, adiou a sahida.

A dançarina era franceza. Tinha a seu favor todos os demonios alados da

seducção. Era fresca como um ramalhete de camelias. Tinha os olhos mais

maliciosos, mais voluptuosos, mais zombeteiros que podem descender de

uma costella do homem, amputado no seu barro primitivo. As pernas tão

expostas á avidez da analyse, não invejavam a correcção proverbial das

de Diana caçadora. Nos braços, d'um setim transparente, destacava-se a

rêde das veias azuladas, onde o sangue buliçoso vos deixaria suspeitar

se eram aquelles os braços roubados á Venus de Milo. O pé, que nenhuma

sevilhana teve nem mais pequeno nem mais arqueado, obedecia ao frenesi

das evoluções, ou encontrava o dente da tarantula, cada vez que tocava o

invejado pavimento do palco. Era a Paquita que Asmodeu inventára para

Cleófas. Era a creatura de Lucifer em competencia com as creaturas de Deus.

Luiz da Cunha não experimentára ainda as paixões tempestuosas do

theatro, a mordedura d'esses desejos enfurecidos pelo ciume de muitos

concorrentes, essa garganta que sorve com o ouro as illusões nobres

do coração; emfim, essa vertigem, que faz de um amor vendido um triumpho

á custa do desdouro em publico, e das lagrimas no recinto domestico.

Era forçoso ao homem de todas as situações conhecer esta.

Marianna não precisava de mais provas; eram desnecessarios os avisos das

suas amigas: uma boa esposa está muito perto do coração de seu marido; a

sombra de uma ligeira infidelidade sente-se logo no escurecer da alegria

tranquilla que se lhe irradia dos olhos enxutos. Vem logo as lagrimas

accusarem o que os labios não accusam. Vem a pallida melancolia enturvar

os sorrisos descuidados da dôce paz.

Era assim que ella se queixava de Luiz da Cunha, que parecia estranho a

essas timidas manifestações de ciume. Se os labios deixavam passar um

gemido, ninguem a consolava, porque não queria testemunhas. Luiz

costumava enrugar a testa com fastiento gesto aos suspiros repetidos de

sua mulher.

Entretanto, o allucinado empregava todos os processos conhecidos para

satisfazer a ancia pertinaz. Fez grandes offertas de dinheiro,

repellidas sempre. Cortejou a bailarina, valendo-se umas vezes da

brandura hypocrita, outras da violencia natural. Nem de uma, nem da

outra maneira. Ao lado da franceza estava um amante, francez tambem,

caprichoso, ciumento, e espadachim. Luiz da Cunha fôra ameaçado por

elle, e conteve-se em quanto as esperanças lhe não falliram.

Marianna já transigia com a infidelidade; mas não queria vêr-se

sacrificada, no coração do esposo, ao amor sensual d'uma mulher sem

alma. Os seus amigos lamentavam-na; os infamadores tenazes de Luiz da

Cunha batiam as palmas. A infeliz tentou uma dolorosa lucta comsigo

mesma. Advertiu seu marido do que se dizia; pediu-lhe que não désse aos

seus inimigos o prazer de o apregoarem tal qual as informações de Lisboa

o pintavam.

Luiz da Cunha riu-se, dizendo com grosseira altivez, que os seus

inimigos podiam ser atados em feixe com um chicote, e mandados de

presente ao diabo.

As promessas redobraram, e a bailarina cahiu do pedestal do

capricho, onde quizera ter-se como em pedestal de virtude.

Cedeu, e com tanto escandalo que na noite de proximo theatro, em pleno

espectaculo, Luiz da Cunha recebeu do rival uma bofetada na face, á qual

respondeu com chicotadas, que lhe deram a primazia na lucta. Tratou-se

um duello, que Luiz da Cunha disse não aceitava, porque era filho de um

dos mais nobres fidalgos de Portugal, e não media o seu florete com um

troca-tintas da França. O francez, dias depois, abandonava o Rio para

evitar um assedio de traiçoeiros punhaes, comprados por Luiz da Cunha.

A bailarina estava sob o exclusivo dominio do novo amante. O seu fausto

centuplicou em grandeza. Prendas d'um valor enorme, arrancadas pela

prodigalidade do ouro a especuladores astuciosos, eram o preço da

escandalosa rival de Marianna.

Os amigos d'esta, finda a estação do theatro, expulsaram a dançarina,

com artificiosa violencia, ou por dinheiro que Marianna deu como se o

restabelecimento da sua ventura dependesse da ausencia da franceza.

Luiz da Cunha foi surprendido pela fuga da segunda Liberata que lhe

tocára o coração. Disfarçou a affronta em publico; mas, de portas a

dentro, desforçou-se do ultraje despresando Marianna. Esta mulher era

sublime! Quiz convencer a sociedade de que era outra vez feliz, para

readquirir o bom nome de seu marido.

Luiz da Cunha comprehendeu-a, deu ares de compadecido, fez sobre si um

esforço, e convenceu-a do seu arrependimento. Vejamos porque.

Dois mezes depois, Marianna era outra vez ditosa. O detrimento que a sua

casa soffrêra, estava remido. As dissipações com a mulher do theatro,

posto que exorbitantes, não doiam no coração da nobre senhora. Esses

calculos deixava-os ella á curiosidade dos mesquinhos louvados dos seus

haveres. O que ella queria era o coração de seu marido, e esse

capacitou-a elle de que fôra sempre seu, até mesmo na embriaguez

vertiginosa d'essa fatal loucura com a franceza.

Chegou a primavera, e Luiz da Cunha projectou com sua mulher uma visita

ás primeiras capitaes da Europa. Marianna desejava vêr Paris,

Veneza, e Londres: não queria, porém, tornar a Portugal. O marido

conveio da melhor vontade na excepção, e partiram.

Em Paris, mal se hospedaram, Luiz da Cunha sahiu a colher informações da

dançarina _Carlota Gauthier_. Fôra escripturada para Madrid. Em breves

dias viu com sua mulher os objectos menos notaveis de Paris. A

impaciencia ralava-o. Inventou uma epidemia para retirar-se, e prometteu

a Marianna voltar.

Em Madrid foi acolhido por Carlota, que não teve pejo de receber o

abandonado amante, phantasiando a violencia com que fôra arrastada a

bordo a uma embarcação.

Luiz propôz-lhe abandonar o theatro, a troco de doze contos de reis

annuaes. O seu desenlace devia ser immediato: nem uma só vez appareceria

no palco. Luiz da Cunha evitava assim que sua mulher visse a bailarina,

e explicasse a viagem á Europa, e a sahida precipitada de Paris.

Carlota aceitou: rompeu as escripturas; e o amante pagou a condemnação.

Marianna não podia comprehender as sahidas frequentes de Luiz,

deixando-a só n'uma hospedaria! Não se queixava para não ser, talvez,

injusta com as abstracções de seu marido. Suspeitou um passageiro namoro

com alguma madrilense d'entre tantas tão seductoras, e cujo garbo ella

não podia invejar. Por necessidade de conviver, relacionou-se com uma

familia portugueza, hospedada no mesmo hotel. Fugia de revelar os seus

pezares; mas uma das senhoras portuguezas adivinhou-lh'os. O marido

d'esta sabia quaes eram as distracções de Luiz da Cunha. O rompimento da

escriptura era sabido de todos. O amante de Carlota era apontado. Só

Marianna ignorava o que em Madrid era materia de ociosa analyse, até ao

momento em que a senhora portugueza lhe aclarou o segredo das frequentes

sahidas.

Marianna adoeceu. Luiz suspeitou a inutilidade dos seus cuidados em

esconder de sua mulher o escandalo, que dava a todo o mundo,

galardoando-se d'elle, e guardando-se apenas d'ella.

Na incerteza, convidou carinhosamente Marianna a continuarem a sua

viagem. A desgraçada, apegando-se ao derradeiro fio da esperança,

imaginou que a dançarina ficaria em Madrid.

A ancia de sahir restabeleceu-a, e partiram; mas, ao dar o ultimo adeus

á dama portugueza, disse-lhe esta ao ouvido:

--Se vão para Paris, saiba minha amiga, que a dançarina já para lá

partiu ha dous dias.

..........................................................................

--Não vamos para Paris...--dizia, depois, Marianna a seu marido.

--Porque, minha filha?

--Porque receio a epidemia.

--Sou informado de que já não ha peste em Paris.

--Ha, ha...

--Como sabes que ha?!

--Não é só a peste, é tambem a morte para esta desgraçada mulher, que

trazes pelos cabellos a ser testemunha das tuas infidelidades... dos

teus desprêsos...

--Isso é uma calumnia, Marianna.

--Não vamos para Paris, meu querido amigo... não vamos, não? Já vi

tudo.... não quero vêr mais nada de lá. Vamos para a Italia... sim?

--Iremos; mas é necessario fazer escala por Paris.

--Tenho entendido... hei de ser morta por essa mulher!...

--Que mulher?!

--Carlota...

--Ora adeus! quem zombou assim da tua credulidade? Eu não sei d'essa

mulher.

--Desde que te despediste d'ella em Madrid?

--Tem juizo minha creança... Tu já sabes que a parte que tens em minha

alma não póde ser substituida por ninguem, e muito menos por comicas...

--Desgraçadamente tenho a certeza do contrario... Queres dar-me uma

prova de estima? Fazes-me um favor que eu te agradecerei de joelhos?

--Que é, Marianna?

--Vamos para nossa casa.... Vamos ser felizes como temos sido... Eu

esqueço-me de tudo; nunca te fallarei d'esta mulher; mas vamos já...

--Não tem geito nenhum esse contra-senso. É um disparate que faria rir

os nossos conhecidos!

--Pois que riam elles, e não chore a tua amiga. Vamos, Luiz?... fazes-me

a vontade?

--Não posso.

--Não pódes?! Que maneira é essa de responder-me?! Lançaste-me um olhar

que nunca te vi! Santo Deus, que coméço a ter mêdo do teu aspecto! Será

possivel que tu sejas o homem que se disse?

--Não sei o que sou: fica n'aquillo que te parecer.

--Pois bem, Luiz, manda-me para os meus filhos, e fica tu em Paris.

--Não irás, Marianna. Has de ir comigo.

--Hei de ir já para minha casa... Tenho um presentimento que morrerei

longe dos meus filhos... Desliga-te de mim, faz o que quizeres; mas não

sejas tão mau, que me obrigues a acompanhar-te nos teus desatinos.

Esta afflictiva scena passava-se n'uma estação onde parára a diligencia

para os passageiros almoçarem. Luiz da Cunha deixára sua mulher, quasi

de joelhos, e viera para uma janella trautear uma aria. Depois, irritado

pelo imperioso _hei de ir já!_ voltou-se para dentro com arremesso,

crusou os braços, fez um gesto affirmativo de cabeça, e deu uma d'estas

risadas cortadas que significam desprêso e ameaça.

Marianna sentiu-se cahir desamparada, desvalida, na convicção de que seu

marido era um malvado. Vendo-se sósinha, tremeu da sua situação. Forte

em todos os sentimentos, tal terror se lhe incutiu, que receou pela

vida. Como a avesinha, escondendo a cabeça sob a aza para não vêr o

assassino que lhe mede com a pontaria o coração, Marianna escondeu a

face entre as mãos, cambaleou um momento, e recuou sobre um canapé, onde

cahiu desfallecida.

Luiz da Cunha, vendo de um lance de olhos todos os resultados d'um

possivel divorcio, ou mais ainda, da morte de sua mulher, reprehendeu-se

da inconveniente aspereza, intentou reconciliar-se com Marianna, e

começou o seu novo plano, rapidamente concebido, tomando-a nos braços,

chamando-a com ternura, e cobrindo-a de beijos.

Marianna viu com espanto a doçura dos olhos de Luiz, e por pouco

não cede ao impulso de abraçal-o. A que, momentos antes, tremêra de mêdo

diante do malvado, eil-a agora, quasi perdoando, arrependida do

criminoso susto que tivera! Quantas mulheres assim! Quantas

transfigurações da martyr que pena, para o anjo que perdôa! Quantas

lagrimas o homem enxuga com um falso sorriso!

--Não me tenhas odio, Marianna...--dizia elle, inclinando-a sobre o

braço esquerdo, e anediando-lhe os cabellos.

--Odio... não tenho; mas queres que eu não soffra?!

--Quero... farei o que tu quizeres... Não queres que vamos a Paris? Não

iremos. Vamos para a Italia, sim?

--E de lá para nossa casa?

--Iremos, filha... tornaremos para Madrid; vamos a Cadiz, e de lá

embarcaremos para a Italia... queres?

--Sim, sim, agradeço-te de todo o meu coração o sacrificio...

--Sacrificio! nenhum, Marianna! Tu não crês que és para mim a primeira

mulher, que não tens uma rival que possa mais que a tua vontade?

--Queria acreditar; mas tu...

--Eu que? Sou fraco... sou um miseravel ludibrio do destino; mas tu

vences esse destino, quando queres... És hoje para mim o que eras ha um

anno sobre o mar...

--Oh!... se eu fosse!...

--És, filha. Não me vês arrependido? Queres-me de joelhos a teus pés?

E o farcista fez menção de ajoelhar, quando Marianna se lhe lançou ao

pescoço, beijando-o, banhando-lhe de lagrimas a face, soluçando,

comprimindo-o com a vehemencia de toda a sua paixão acrisolada pelo

ciume, e expansiva pelo prazer do triumpho sobre a rival.

Em Madrid, Luiz da Cunha foi tão caricioso, que Marianna recordava os

primeiros dias do seu noivado, e não os achava mais gratos, mais

ligeiros nas suas rapidas horas do delicioso arrobamento.

Furtando-se poucos instantes á companhia d'ella, Luiz da Cunha escrevêra

a Carlota ordenando-lhe que o esperasse em Veneza, mas desconhecida, com

um pseudonimo, porque assim convinha á tranquillidade de ambos.

Quando, pois, D. Marianna, cheia de jubilo, sahia para Cadiz, a

dançarina, nomeando-se _Julia Lamotte_, chegava a Veneza, e isolava-se

n'um hotel, sacrificando a publicidade, que tão grata lhe era, á

prestação annual de sessenta mil francos, dos quaes apenas recebêra em

Madrid cinco mil.

Em Veneza, um dos primeiros homens que Luiz da Cunha encontrou,

fixando-o com ar provocador, foi o francez, que fugira aos sicarios

escravos do amante de Carlota. O brigão que partira a cabeça ao visconde

de Bacellar, e acutilára o mestre de esgrima, tinha tanta maldade como

bravura. Não se apavorou do gesto ameaçador do francez, rodeado de

francezes. Caminhou para elles, com duas pistolas engatilhadas, na

presença de sua mulher, que permanecêra estupefacta sem atinar com a

causa nem com o desenlace d'este estranho encontro. O grupo dos

francezes, os homens mais delicados do mundo, respondêra com um sorriso

á arrogancia de Luiz. Um d'elles, approximou-se de Marianna, com o

chapéo na mão, e disse-lhe com affectuosa urbanidade:

--Sabemos respeital-a mais que seu marido. Não receie consequencias

tristes. Os aggredidos são cavalheiros.

Luiz da Cunha, depois da ridicula provocação, metteu as pistolas nas

algibeiras, deu o braço a sua mulher, e saltaram na gondola que os

esperava.

Marianna pedira inutilmente a explicação d'aquelle successo. O marido

evadia-se ás perguntas, dizendo que detestava os francezes, e imaginára

que um d'aquelles o escarnecêra.

Deu-se um encontro que respondeu ás apprehensões da brazileira.

A gondola ia abicar na ilha de S. Lazaro, ao mesmo tempo que desatracava

outra gondola com uma dama, e um jokei. A perturbação de Luiz não foi

visivel para sua mulher, que não desviava os olhos pasmados da face da

dama, que se approximava na direcção da sua gondola. Já perto, Marianna

fez-se livida, convulsa, encostou-se, quasi esvahida, ao braço do

gondoleiro, repellindo o de seu marido, e, ajudada a saltar ao caes,

sentou-se, murmurando:

--Como eu sou desgraçada, meu Deus!

Acontece que um mau marido, repetidas vezes surprendido em flagrante por

sua mulher, indignado contra a má fortuna dos planos, volta-se contra

ella, por não poder vingar-se do demonio invisivel que lh'os frustra.

Esse tal, em quanto uma ardilosa desculpa o póde justificar, transige

com as lagrimas da esposa, e finge serenamente a contrição; mas, se a

contumacia no crime, todas as vezes descoberto, lhe inutilisa as

invenções refalsadas, e o exautora de prometter emendar-se, o que até

alli eram brandas desculpas converte-se depois em odio ás algemas, em

emancipação do jugo, em crime sem pretexto, nem escusas. É o cynismo que

se desmascara. É a impostura que se revolta contra o clarão da verdade.

Para ser-se tal não importa ser menos perverso que o marido de Marianna.

Luiz da Cunha, se n'aquelle instante devia odiar a imprudente Carlota

que não evitára tal encontro, irritou-se contra as lagrimas de sua

mulher, que não proferira uma só palavra offensiva, nem, sequer, queixosa.

--Vamos--disse elle com aspereza.

Marianna ergueu-se, quiz aceitar o braço de Luiz, e não pôde suster-se.

--Não posso.--E sentou-se.

--Se não pode, tornemos a entrar na gondola.

--Pois sim.... Não te zangues, Luiz, que não te fiz mal nenhum. Se é a

minha presença que te impacienta... pouco tempo te enfadarei... Vamos...

Estas palavras, quasi ditas como um segredo, para que o gondoleiro as

não escutasse, não commoveram Luiz. Pelo que no rosto se lhe via, era

mais de crer que lhe exacerbassem a cólera. As contracções da testa, o

morder dos beiços, o arfar das azas do nariz, os impetos das mãos aos

cabellos e ao bigode, denunciavam a subita renascença de toda a

perversidade do coração que lhe atirava golphadas de sangue negro á face.

D. Marianna como dias antes em Madrid, fugia de encontrar semelhante

aspecto. Alguma cousa havia ahi que só póde vêr-se e imaginar na cara

assignalada pela predestinação do patibulo!

Os frageis vinculos de respeito que prendiam marido e mulher estavam

partidos. Desde esse dia, Luiz da Cunha seria escandaloso sem

justificar-se; imporia silencio a Marianna; fruiria todos os direitos da

infamia sem empecilhos, nem covardes explicações dos seus actos.

O programma d'esta nova phase vamos nós ouvir-lh'o no _Albergo di

Italia_. D. Marianna está encostada ao peitoril d'uma janella, com a

face apoiada na mão direita, com os olhos, brilhantes de lagrimas, fitos

na lua que se levanta sobre o Lido, purpureada como os arreboes que

bordam o horisonte das montanhas tyrobanas.

Está só. É meia noite, e seu marido não vem. Depois que a deixou no

hotel, sahiu, e nem sequer lhe disse que voltava. Ha cinco horas que

chora, e sente-se menos opprimida: não sabe ella dizer se deve este bem

ás lagrimas, se ás orações. É que orou muito; e, depois, quando levantou

da taboa os joelhos, raiou-lhe na sua escuridade uma luz, uma esperança,

qualquer cousa divina que não era da terra.

E foi sentar-se, ás escuras, fitando o ceo, com a imaginação mais

tranquilla, com as palpitações mais serenas, com a face aljofrada de

lagrimas suavissimas. Mas a esperança qual seria? Não sabia ella dizêl-a.

Á uma hora entrou Luiz da Cunha.

--Ainda a pé?!--perguntou elle em tom suave.

--É um prazer contemplar este ceo--disse Marianna no mesmo tom.

--Que lindas noites se gozam em Veneza!

--Muito lindas.

--Gosto de te vêr assim, Marianna.

--Assim!... como?

--Sem as impaciencias terriveis do ciume.

--Ah!... Tambem eu gosto de me sentir assim.

--O ciume é cousa que não existe na boa roda. Em Veneza, e em Paris não

ha ciume.

--E amor?

A Neta do Arcediago · 第 9 / 13 段