Diz a mãe que não posso... não o serei; mas não tenho coragem... não sei
como hei de dizer-lhe que o não sou, porque elle ha de perguntar-me a
razão porque não sou sua irmã, sua amiga, e eu não sei o que hei de
responder-lhe.
--Mas... prometteste-lhe tu essa estima de irmã?... Córas!... responde,
Assucena.
--Prometti...
--Quando?!
--Uma noite que a mãe sahiu, elle veio adiante do pae...
--Porque me não disseste esse encontro, se elle te pareceu innocente?
Assucena baixou, corrida, os olhos, e limpou duas lagrimas, que lhe
tremiam nas pestanas. Ergueu-se impetuosamente, e escondeu a face no
seio de sua mãe, que chorava com ella.
--Foram tardias todas as minhas reflexões, minha filha?--disse a mãe com
a voz cortada, procurando vêr a face de Assucena.
--Não foram... Eu serei o que minha mãe quizer que eu seja; mas não sei
porque devo maltratar um homem, que lhe merece tantas provas de estima.
--Eu não te digo que o maltrates...
--Se elle me procurar, não lhe fallo.
--E porque não?
--Porque... seria peor... seria enganal-o, porque não posso esquecêl-o.
--Desde quando o amas, minha filha?
--Tinha eu dez annos, e elle dezesete...
--Oh filha!--interrompeu a mãe, sorrindo--isso não era amor!
--Não sei o que era... era amizade... nunca o esqueci... E quando o vi,
depois de oito annos, vi tudo que me era mais caro na vida, depois de
minha mãe...
--E disseste-lh'o?
--Nunca... mas, se elle m'o perguntasse, dizia-lh'o. A razão não me
crimina d'este affecto de irmã...
--Quem sabe, filha!... Talvez, mais tarde... outra razão, a da
experiencia, venha desmentir a que te falla hoje...
--Penso que não... Hei de seguir sempre os conselhos de minha mãe. Farei
tudo o que posso. Se é possivel esquecêl-o, empregarei todos os esforços
para isso. Diga-me a mãe quaes elles são.
--Terrivel pergunta!--disse a filha do arcediago, no fundo da sua
consciencia.
--Não me responde, minha mãe?
--Não o evites de todo... Recebe-o, se elle te visitar... Entretanto,
póde ser que Deus permitta um milagre.
--Esquecêl-o?
--Esquecêl-o, ou poder ser sua mulher. Não é esta a intenção de Luiz da
Cunha?
--Não sei. Não temos tido a liberdade de fallar n'essas cousas. Se elle
me tivesse fallado n'isso, eu dizia-lhe que seria sua esposa, sem me
lembrar que é necessario um dote.
--E sem o consentimento de tua mãe?
--Minha mãe quer a minha felicidade...
--Confia-te a mim, Assucena... eu continúo a ser a tua amiga. Hei de
fallar hoje com teu padrasto... Agora mesmo que elle ahi vem... Retira-te.
O visconde de Bacellar entrava, com a penna na orelha, e uma carta
aberta nas mãos.
--Rosa--disse elle, franzindo a testa, e tirando os oculos--lê essa
carta. É chegada agora do Porto. Basta que leias as ultimas linhas.
Senão, eu t'as leio:
_«Em quanto a Maria Elisa, meu caro visconde, sinto dizer-lhe que está
uma perdida. Ultimamente adquiriu um amante que lhe consome a generosa
mesada que a senhora viscondessa lhe dá. Acho prodigalidade despender
cincoenta mil reis cada mez, para sustentar dous viciosos. Ella tafula,
como se tivesse doze contos de reis de renda. Os cinco mil cruzados, que
sua senhora lhe mandou ha um anno, dissipou-os em menos de tres mezes.
Não sei, ainda assim, como ella póde fazer tanto com cincoenta mil reis
mensaes. Disseram-me hoje que ella recebia outros cincoenta; não posso
colligir d'onde venham. Os meus respeitos &c. &c.»_
Rosa Guilhermina estava pallida e fria. As ultimas linhas d'esta carta
eram a denuncia do emprego que ella dava ás suas economias. O filho da
senhora Anna Canastreira, lida a carta, passeou na sala, dobrando-a,
soprando, limpando os oculos, e batendo com a caixa do rapé na palma da
mão esquerda.
--Que dizes tu a isto, Rosa?
--Que hei de eu dizer, José! que Maria Elisa deve muito a Deus, se a
levar d'este mundo.
--Mas, em quanto Deus a não leva, é preciso pôr cobro a isto. Sabes a
maneira como?
--Diz, meu amigo.
--Levantar-lhe a cesta. Os beneficios que lhe deves estão pagos com
usura. Em quanto esteve comnosco foi tratada como rainha. Deu-lhe o
diabo da asneira na cabeça, e fez tropellias que me obrigaram a sahir do
Porto. Sahiu da companhia do S*** C***, déste-lhe uma casa mobilada de
tudo, e uma mesada que sustentava uma familia. Vendeu casa e moveis, e
andou de amante em amante, até que lhe déste cinco mil cruzados para
ella cemprar uma quinta em Santo Thyrso. Qual quinta nem qual carapuça!
Gastou os cinco mil cruzados, gasta os cincoenta mil reis, e outros
cincoenta, que naturalmente são remettidos por ti. Não te ralho Rosa: o
mal feito não tem remedio; mas reprovo d'hoje em diante o desfalque da
nossa casa, para trazer no galarim uma mulher sem vergonha, uma
libertina de quarenta annos. Se lhe queres continuar a mesada, manda-a
entrar n'um convento, onde a não conheçam, e sustenta-a lá. Assim ha de
dizer-se que o meu dinheiro serve d'alimentar mulheres perdidas, e
vadias. Não estou por isso.
--Eu pensarei no que se ha de fazer: entretanto peço-te que lhe não
suspendas a mesada. Faz isto que te supplíca tua mulher.
--Farei; mas tu não te lembras de fazer economias para essa rapariga que
não tem nada de seu?
--Qual rapariga? minha filha?
--Pois quem?
--É a respeito d'ella que eu desejava muito alguns momentos de attenção.
Tenho pensado no futuro d'esta menina.
--Pois já não queres mettêl-a no convento?
--Quero; mas o convento, sem profissão, não é futuro. Diz-me, meu amigo:
tu dás um dote a minha filha?
--É a quarta vez que me fazes essa pergunta, e eu respondo o que já
respondi. A filha da viscondessa de Bacellar, das duas uma: ha de casar
com grande dote, ou não casar. O grande dote não o dou; com pequeno dote
não serve senão a algum amanuense de tabellião. Pediu-t'a alguem em
casamento?
--Não; mas se tu quizesses, poderiamos casal-a, talvez, com...
--Com quem?
--Com Luiz da Cunha.
--Estás tôla! Deus te livre d'essa asneira! Pois tu acreditas que elle
valha hoje mais do que valia ha tres mezes?!
--Acredito: não tem nada do antigo homem.
--Não terá; mas pelo sim, pelo não, sempre te vou dizendo que para tal
casamento não sáe um pataco da minha gaveta. Tomára eu o que por lá anda
por casa do João da Cunha! Cara me tem custado a amizade do tal fidalgo!
Já não tem bens livres que cheguem para o pagamento de dez mil e tantos
cruzados que me deve, afóra a fiança que eu lhe prestei para um titulo
de divida que o extravagante do filho assignou de um conto de reis. Tem
juizo, Rosa. Não te deixes enganar com apparencias. Alli onde o vês com
ares de convertido, tudo aquillo é hypocrisia. Agora vou entendendo a
razão de tal mudança. Queria um dote, e uma mulher. O dote gastava-o com
a tal dissoluta que levava ao theatro, ou com outra que tal; e a mulher,
qualquer dia vinha, com dous ponta-pés, pedir-te que lhe désses um
bocado de pão. Ás vezes pareces tão esperta... e cáes em cada alhada,
que nem uma cosinheira! Querem vêr que a rapariga está namorada com o
senhor Luizinho?!
--Basta, José... Não fallemos mais n'este assumpto. Fiz-te uma pergunta
muito simples, e respondeste mais do que era necessario. Ficamos
entendidos. Posso contar com a subsistencia de Assucena no convento?
--Paguei hoje seiscentos mil reis de entrada, e estabeleci-lhe seis
moedas por mez, e uma creada de cozinha, e outra do quarto. Se é
necessario mais alguma cousa, é pedir por bôca, em quanto está aberto o
cofre.
--Não é preciso mais nada, meu amigo.
--Poucos padrastos fazem outro tanto...
--Tens razão, José.
--E quando lhe appareça um digno marido, não terei duvida em lhe dar um
dote; mas não para Luizes da Cunha, e outros que taes. Ficas zangada?
--Porque? Fico-te de todo o coração agradecida. Tudo que fizeres em bem
de minha filha é uma esmola de caridade.
O visconde desceu ao escriptorio a descontar letras do governo, e Rosa
Guilhermina fechou-se no seu quarto com a filha.
Antes de annunciar-lhe o que se passára, tinha dito com as lagrimas o
mais que poderia dizer-se.
Assucena, beijando-a meigamente, dizia:
--Adivinho tudo, minha querida mãe. Não se afflija, que eu para ser
feliz, não preciso do dinheiro de meu padrasto.
--Precisas... precisas...--respondia a mãe, abraçando-a com frenetica
ternura.
V.
UM ANJO CAHIDO.
Luiz da Cunha era estranho ás apressadas solicitudes da viscondessa de
Bacellar com o futuro de sua filha. Como a não pedíra, nem mesmo
significára a alguem intenções de casar-se, da sua parte nenhum esforço
punha para vencer as difficuldades do casamento, quando se déssem.
Votado inteiramente a velar a convalescença de seu pae, as saudades de
Assucena desvaneciam-se-lhe pouco e pouco; mas não tanto que elle não
esperasse com impaciencia, todos os dias, noticias indirectas de sua
«irmã.»
Luiz da Cunha quizera illudir-se. O amor, que a encantadora Assucena lhe
resuscitára nas ruinas do coração, era um sentimento de fantasia, um
impotente esforço da vontade. Depois de onze annos de vida aparcellada
de revezes na alma, de ignominias que entram como habito nas propensões
do homem, que se crê irresponsavel de seus escandalos, acredite-se de
boamente a conversão religiosa como consequencia do remorso como temor
de Deus; mas negue-se a reforma do espirito em cousas do amor, em
nobreza de affectos, em dedicações fervorosas. É impossivel essa
reforma. Não renasce o amor no peito cansado; não mais desabrocha no
tremedal a flôr dos perfumes ideaes, que, só no ar puro de um coração
juvenil, embellece a vida, e promette a felicidade.
O amante de Liberata não podia ser o interprete do coração de Assucena.
Um sahia da innocencia, outro do crime. Luiz, depois das paixões
impetuosas, entrava cansado no amor tranquillo para o qual é necessaria
muita alma. Assucena, com todo o vigor da juventude, abandonava-se,
mais céga do que se imaginava, á paixão impetuosa.
Se a tivessem educado nas salas, a neta do arcediago, aos dezoito annos,
não se apaixonaria por um homem inconveniente, socialmente fallando.
Aprenderia, desde os quatorze, a estremar o apparente do real, o homem
que se namora por entreter, e o que se namora para casar. Rodeada de
lisonjas, qual d'ellas mais impostora, perderia depressa a memoria dos
differentes thuribularios, e, ao sentir no coração impressos os traços
de uma imagem, outra imagem viria desfazêl-os depois. O amor repartido é
o amor sem consequencias perigosas. A razão conserva sempre o seu
dominio. A luta com tres é-lhe menos difficil que a de um só; e a
donzellinha de faces de leite e rosas, se tiver mãe experimentada, leva
a cabo emprezas arriscadas com a sisudez que os quarenta annos não tem.
Antes de amar a realidade, o coração da virgem, na vida êrma, no perfume
innocente dos collegios d'outro tempo, nutria-se, fortalecia-se, e
extravasava d'um amor sem calculo, d'uma aspiração sem condições.
Tal fôra Assucena.
As práticas judiciosas de sua mãe poderiam impressiona-la de passagem;
mas o amor, que vencêra o pejo, que se formára em si, e de tal força que
nem os desdens do amante o aniquilariam, esse amor reagiu contra os
mesquinhos estorvos de um dote, contra a dependencia ignobil das
algibeiras d'um padrasto.
Luiz da Cunha, restaurada a saude melindrosa de seu pae, continuou
regularmente as suas visitas á viscondessa. O trato grosseiro do
visconde era cada vez mais acrimonioso. A affabilidade de Rosa
desmerecêra um pouco; e as maneiras de Assucena pareciam-lhe, em
compensação, mais ternas, mais meigas e insinuantes do que o tinham sido
antes da sua declaração.
E, certo, eram.
Assucena despediu-se de João da Cunha na vespera da sua entrada nas
commendadeiras. De Luiz despediu-se tambem; mas toda a arte foi vã para
esconder as lagrimas do adeus. Os olhos aguados, e as palavras
balbuciantes denunciaram-na, não a Luiz que a adivinhava; mas a João da
Cunha que a não imaginava tão fragil á tentação do filho.
A fantasia de Luiz deixou-se outra vez levar do enganoso amor. Era o
desejo que o fazia credulo. Era a pergunta, que elle muitas vezes se
fizera depois da emenda: «poderei eu ser ainda feliz, amando?» era essa
pergunta que o fazia procurar a resposta no amor de Assucena.
E sabem, leitores, quanto duram estas illusões em homem que deu da sua
alma tudo quanto podia ás puras ou ás impuras paixões? É devaneio d'um
dia: accesso febril que arrefece no dia seguinte: é o mentiroso
rejuvenescer de algumas horas.
«Se eu podésse lutar com as difficuldades d'uma affeição despresada!...
Se houvesse ahi uma mulher que me ameigasse para me captivar, e, depois
de captivo, me lançasse de si com a ponta do pé, para que ao menos, eu
sentisse aqui no seio de pedra a tarda palpitação do amor proprio!»
Ha homens que dizem isto, que o dizem e o desejam, que o desejam e não o
encontram.
Para esses de que serve o amor sem rebuço, a dedicação espontanea e
descuidosa da mulher que vem procural-os, sem ser chamada? Pobre d'ella,
se a ultima scintilla de piedade generosa se apagou no coração do seu
verdugo amado. E elle que lucraria?... O tedio de si proprio.
O amor angelico de Assucena fôra outra vez recebido por Luiz da Cunha,
esquecido já das primeiras emoções.
A filha de Rosa entrára no convento, onde encontrára faceis amigas que
se interessavam em remediar-lhe com conselhos a profunda tristeza. Os
conselhos lisongeavam-na. Jubiladas no amor, as commendadeiras,
illustres em nascimento, e até illustradas no espirito, olhavam as
cousas d'este mundo, pouco mais ou menos, como ellas são. Menina de
dezoito annos, melancolica, soffre de amor: entenderam as mais
penetrantes. Conhecido o diagnostico da enfermidade, era infallivel a
pharmacia, muito acreditada nas benedictinas. A quem penava do coração
applicava-se-lhe amor a grandes dóses. Ora a barateza da droga nunca
deixou morrer ninguem á mingua de antidoto.
O que se dizia a Assucena era que amasse, que recebesse no lucutorio
quem quer que fosse, que se não deixasse possuir d'uma heroica
abnegação, porque o mundo não valia o sacrificio. A sua mais presada
amiga, secular tambem, que passava tres mezes no convento, e nove na
sociedade, tomou ao seu cargo a voluntaria missão de convidar o filho de
seu primo João da Cunha a tomar chá na sua grade, em dia dos seus annos.
Assucena foi surprendida por Luiz da Cunha, que nunca vira tal prima,
nem entrára em tal convento. Aceitára o convite porque desejava mostrar
que lhe era grato o pretexto de que Assucena se servira para chamal-o ao
convento.
A prima de Luiz da Cunha era uma senhora desempoada. Na sua desprevenida
intelligencia, dous e dous eram quatro, e, segundo ella, toda a mulher
devia ter um amante, e particularmente aquella que reza vesperas n'um
côro em quanto as outras elegem entre dezenas de vestidos o que ha de
realçal-a mais no baile, ou no theatro. Eil-a, pois, em opposição com os
estatutos de todos os patriarchas, que apadroaram conventos.
Desde esse dia as visitas de Luiz da Cunha a sua prima eram quasi
diarias. Na grade de sua prima, as mais das vezes, quem Luiz encontrava
era Assucena.
A viscondessa sabia d'estas visitas, e não as prohibiu a sua filha,
despresando assim as insidiosas prevenções da intriga, que d'este modo
procurava vingar-se de odios domesticos a D. Leonor Machado, a prima
prestadia de Luiz da Cunha. Os reiterados avisos a Rosa Guilhermina
sahiam do convento. Assucena ignorava-os, porque sua mãe, concebendo os
melindres d'um amor contrariado, não fallava de proposito em Luiz da
Cunha, nem consentia que sua filha de proposito lhe fallasse n'elle.
O visconde tambem teve as suas duas cartas anonymas, a respeito dos
_escandalosos_ amores da sua enteada, protegidos pela _escandalosa_
secular Leonor Machado.
José Bento levou ao conhecimento de sua mulher as informações, que
recebera, e Rosa, por assentir a seu marido, de quem dependia o futuro
de Assucena, impôz-se a dolorosa obrigação de prohibir a sua filha
intelligencias com Luiz da Cunha.
Assucena recebeu silenciosa a correcção; mas, em silencio, se
promettia não lhe dar o pêso que sua mãe lhe dava. Era tarde para ella,
e tarde para o filho de Ricarda, que acabava de convencer-se que o amor,
e por ventura o patrimonio de Assucena, alcançado por astucia, faria as
delicias da sua vida.
Luiz continuou sem obstaculo as suas constantes attenções á prima. O
visconde, informado de novo, mostrou ao seu devedor João da Cunha as
cartas que recebêra. João da Cunha, admoestando o filho, encontrou-o um
pouco parecido com o que fôra em tempo, respondendo-lhe que a reforma de
costumes não consistia na renuncia completa dos mais innocentes prazeres
do espirito. Como não fallou em materia, o caso não era tão pavoroso
como o afiguravam os timidos informadores do padrasto.
Luiz da Cunha, ressentido das grosserias do filho do retrozeiro da rua
das Flôres, espaçou as suas visitas a casa d'elle. Romperam-se,
portanto, as hostilidades. O visconde ameaçava a enteada de retirar-lhe
as mesadas. Luiz da Cunha offerecia-se como irmão a Assucena, quando seu
estupido padrasto a desamparasse.
E tudo isto exacerbava a paixão de Assucena, que, agradavelmente
humilde, não sabia resistir ao amante, para obedecer ao tyranno da sua
alma.
A prelada do convento recebeu do visconde poderes, que nunca, até então,
exercêra sobre o coração das professas, e muito menos das seculares.
Animada pela indomita Leonor Machado, a neta do arcediago desobedecia,
correndo pressurosa á grade, quando Luiz da Cunha apeava no páteo. Alli,
a pobre menina alliviava da sua dôr oppressiva, chorando, e bebia a
longos sôrvos o balsamo, que o filho de Ricarda, de antemão, trazia
preparado em estudadas palavras de esperança.
Mas qual esperança era essa? Que planos eram os d'elle?
Muito communs, e muito infames.
Luiz da Cunha, invocando o seu _eu_ d'outros tempos, encontrou-o.
Pediu-lhe conselhos, e recebeu-os. Aventou uma trama que não é nada
extraordinaria, porque não cansam por ahi cavalheiros muito probos, e
exemplares a todos os respeitos que a praticaram com prosperos
resultados.
O filho de João da Cunha sabia que, morto seu pae, os successores do
vinculo viriam desalojal-o do ultimo palmo de terra. O futuro dava-lhe
cuidado. Os poucos bens de livre nomeação estavam hypothecados a dividas
enormes, contrahidas por sua causa, depois que as preciosas joias de
Ricarda foram desbaratadas em desperdicios do pae e do filho. João da
Cunha, segundo o pensar dos medicos, não resistiria a um dos ataques
cerebraes que repetidas vezes o ameaçavam com a morte, annunciando-se
por uma sombria tristeza, e desordem de ideias, á maneira d'aquella em
que o vimos censurar o amor do filho a Assucena. Luiz teve o bom senso
de se julgar desvalido apenas seu pae fechasse os olhos. Precisava
enriquecer-se e grangear com tempo uma fortuna, empregar para isso
esforços e habilidade, embora aconselhados pela desmoralisação.
Entendeu, portanto, que Assucena receberia um bom dote do visconde,
quando esse dote lhe fosse imposto como resgate da deshonrada filha de
sua mulher. Para isso era necessario tiral-a do convento, diffamal-a,
forçar a viscondessa a influir no dinheiro de seu marido.
O calculo parecia-lhe infallivel a elle. Assucena prestava-se
maquinalmente á vontade do amante, por isso que sua mãe acabava de lhe
fazer sentir que o visconde resolvêra fazêl-a entrar n'um convento do
Minho, em Bairão. Era necessario apressar o desfecho. Leonor Machado
abundava nas ideias do seu primo, e prometteu coadjuvar Assucena na
fuga, pela sua casa, que era paredes meias com o muro da cêrca, sobre
que se abria por um postigo. Luiz da Cunha comprou o hortelão, que devia
abrir-lhe a porta travessa do pomar. Animou a timida menina a descer uma
escada que lhe foi içada ao postigo. Recebeu-a nos braços murmurando o
vigesimo juramento de nunca desmerecer a confiança que lhe merecia, e
entrou com ella na mesma sege em que muitas vezes entrára com Liberata.
Desde esse momento, qual das duas teria um melhor futuro?
Deus! como presenciaes, sereno e tranquillo em vossa magestade tremenda,
a precipitação d'um anjo em cada dia!?
Homem, que crês na effectiva vigilancia da Providencia, responde-me:
Se Assucena vai innocente a resvalar n'um abysmo, quem lhe dará a
consciencia do erro? A perdição? Seja. Mas esse remorso tardio que lhe
presta? A contrição? Seja. E, se ella morrer, blasphemando? O inferno?...
Valha-nos Deus!...........................................................
..........................................................................
VI.
ANJO CAHIDO, MAS AINDA ANJO.
A fuga de Assucena não admittia conjecturas. As commendadeiras
explicaram-na com admiravel promptidão, menos Leonor Machado que, no
auge do seu pasmo, não atinava com a causa de semelhante resolução, nem
podia comprehender por onde ella fugira! Ingenua creatura!
A noticia foi depressa á viscondessa de Bacellar. A pobre mãe desmaiou
sem lêr as ultimas linhas da carta, que a consternada abbadessa lhe
escrevêra. O visconde, encontrando-a desfallecida, lêra tambem a carta,
e passados os segundos da surpreza, déra-lhe para rir com estupida
imbecillidade.
Tal fôra o estridor da gargalhada, que Rosa Guilhermina volveu a si para
contemplar, com os olhos lagrimosos e absortos, o estranho espectáculo
de José Bento, que batia com o pé direito no chão e com a mão direita na
esquerda, exclamando, entre frouxos de riso:
--Não t'o dizia eu? Ahi está o convertido Luiz da Cunha!... Ahi está a
innocentinha Assucena! Sou um criado do senhor convertido, e da senhora
innocentinha! Agora pega-lhe com um trapo quente. E dizem que és
esperta! Os espertos cáem em cada langará, que não sei o que te diga,
Rosa! Ora beija as mãos ao teu Luizinho que t'a pregou na menina do
olho! Isto havia de acontecer tarde ou cêdo! Eu sempre tive quizilia com
tua filha, e com o mulato; por alguma cousa era.
--Está bom, José; tens razão; não me mortifiques mais porque me matas.
Tem piedade de mim que sou mãe. Não és pae; se o fosses, em vez de
gargalhadas, chorarias...
--Choraria! pois não! Se fosse pae, mandava o tal bregeiro de presente
ao diabo. Havia-lhe de arrancar o coração pela bôca. Se fosse
pae--accrescentou o assassino do mestre de latim, morto a garfo--não
descançava em quanto os não arrebentasse a ambos. Como não sou, não
tenho nem quero ter direito algum sobre tal mulher. Lá se avenha.
--Lá se avenha!--exclamou Rosa, estendendo-lhe os braços
supplicantes--Lá se avenha... não é assim, José! Assucena é minha filha,
é filha de tua mulher... sou mãe que tenho de sentir a deshonra d'essa
desgraçada!... Por compaixão, meu amigo, por compaixão não a abandonemos!
--Que queres tu agora? que eu vá buscal-a para casa na minha carruagem?
--Não... Pelo amor de Deus não zombes com a desgraça...
--Pois que queres?
--Que te unas a mim para fazermos com que Luiz da Cunha case
immediatamente com ella.
--E que tenho eu com isso? Eu sou algum padre que os case? Isso é lá com
o prior.
--Jesus! tu não és tão cruel como estás fingindo, meu querido José...
Finges que me não entendes... Paciencia! Queres-me morta.... pois
sim.... eu te farei a vontade.
--Ora percebam este disparate! Que tenho eu com o casamento de tua filha?
--Não tens nada; mas se fallares com João da Cunha...
--Fallarei. Não queres mais nada?
--E te compadecêres de minha filha para que ella tenha um bocado de pão...
--Agora entendi... O tal patife só casará com Assucena dotada...
--Não sei, José; não sei se casará com ella sem dote; póde ser que sim;
mas são ambos pobres, bem sabes que João da Cunha deve tudo que
poderia deixar a seu filho... Não a desamparemos.
--Digo o que disse, Rosa. Não dou nem um pataco para que ella case com o
filho da preta, com o amante das mulheres perdidas, com o infamador das
senhoras honestas, e com o perdulario, que dissiparia n'um anno toda a
minha fortuna, se podésse metter-se em minha casa. É mais facil eu
recebêl-a em casa...
--Deshonrada, infamada, perdida...