--Sim; é mais facil recebêl-a assim, que aceital-a casada com esse

desastrado galopim, hypocrita, e infame que deshonra a filha da unica

senhora que o não repelliu de sua casa. Eu tenho sentimentos... Bem

sabes que os tenho desde que estudei latim na travessa do Laranjal...

Sei, ha muito, o que é ter nobreza d'alma. Assucena não é minha filha;

mas que me appareça esse vil seductor, e verá quantos dentes lhe ficam

na bôca.

O dialogo prolongou-se n'uma luta de afflicção da parte da infeliz mãe,

e um immutavel proposito da parte do padrasto.

João da Cunha, contra o seu costume, entrava ao meio dia em casa do

visconde.

Vinha em miseravel estado. As veias da face enturgeciam do sangue que

lhe subiu á cabeça em borbotões. O mal aggravou-se na presença de Rosa,

que lhe viera ao encontro, banhada em lagrimas, soluçando palavras

inarticuladas. O visconde, impassivel, encarava João da Cunha com

sobrecenho.

--Tem um excellente filho, senhor Cunha!--disse José Bento, balançando

a cabeça com pungente ironia, e solfando no pavimento com o pé direito.

--Tenho um desgraçado filho, senhor visconde!--murmurou João da Cunha,

cahindo extenuado sobre uma cadeira, e amparando a fronte calcinada na

mão ardente como ella.

--Eis-ahi continuou o inexoravel credor--o que é um fraco pae, que

deixou crescer seu filho á lei da natureza Agora regale-se, senhor Cunha!

--Não me despedace, visconde! Respeite a minha dôr!--murmurou o

atormentado pae, erguendo as mãos na indescriptivel ancia da sua

vergonha.

--E quem é que respeita a dôr d'essa mãe, que está ahi chorando ao pé

de si?

--Sou eu, visconde, sou eu. Somos ambos paes; comprehendemo-nos

chorando....

--Agora!... Remedeiam alguma cousa?

--Venho aqui para combinarmos a maneira de remediar esta desventura.

--De que maneira?--exclamou a viscondessa.

--Esse desgraçado escreve-me uma carta... Eil-a aqui: visconde... Leia,

que eu não posso.

--Nem eu!--disse bruscamente o visconde--que me importa a mim a carta de

seu filho? Não tenho nada com elle: entendam-me d'uma vez para sempre.

--Eu leio...--disse Rosa tomando a carta com soffreguidão.

Lendo-a, fechou-a, e disse a João da Cunha:

--É impossivel.

--Impossivel!

--Meu marido não dota Assucena, e, portanto... minha filha... está perdida!

--Perdida? não!--atalhou João da Cunha--Em minha casa ha umas sôpas; e,

em quanto eu viver, meu filho aprenderá o officio de sapateiro para não

morrer de fome, depois da minha morte. Eu vinha aqui pedir uma esmola

para o futuro de Assucena; não venho pedir o preço da reparação da sua

honra. É preciso que me entenda, senhor visconde. Meu filho é neto dos

Cunhas e Faros. Não mercadeja com a deshonra das suas amantes; não

calculava com as suas migalhas quando arrancou a filha d'esta senhora

aos braços da virtude...

João da Cunha, alteando cada vez mais a voz, e embaralhando as ideias em

desalinhada precipitação, denunciava o ataque periodico de sangue, que

se lhe injectava nos olhos, transpirando na testa em frias bagas de

suor. Nem o visconde o entendia já, nem elle mesmo seguia com

consciencia o curso arrebatado dos pensamentos, quando de improviso

levou as mãos á cabeça, exclamando:

--Senhora viscondessa, se não sou sangrado já, morro, ou endoudeço!

O visconde condoêra-se. Deu ordens prestes, e o facultativo veio

rapido. Depois de copiosa sangria, eram pouco sensiveis as melhoras.

João da Cunha estava febril, e fallava em delirio. Sacudindo os braços

vertiginosamente, pedia que lhe afastassem dos olhos o espectro de Ricarda.

Decorridas horas, progredia mais intensa a febre, mais frenetico o

delirio. As afflicções agglomeravam-se no coração de Rosa, em quanto seu

marido curava serenamente dos seus negocios, sem enganar-se no quebrado

de uma operação arithmetica, em seu prejuizo.

A crise de vida ou morte passára; mas os medicos disseram que João da

Cunha não recuperaria o seu completo juizo por muito tempo, ou talvez

por nunca mais. Era o decimo ataque que soffria.

Entretanto, um criado de Luiz da Cunha esperava no Campo Grande, local

do palacete dos Cunhas, a resposta. Cinco horas depois, vira descer da

carruagem, nos braços de dous medicos o pae de seu amo. Approximára-se,

para ser reconhecido, os medicos disseram-lhe que se afastasse, e os

lacaios afiançaram-lhe a demencia do fidalgo.

Tal foi a resposta que Luiz da Cunha recebeu.

N'essa mesma noite, o filho de Ricarda entrou no quarto de seu pae.

Apertou-lhe a mão, chamou-o tres vezes inutilmente, e, á quarta, ouviu

as seguintes palavras, que pareciam ser ditas ao facultativo presente:

--Diga a meu filho que seja honrado casando immediatamente com essa

menina. Que venha para esta casa, com sua mulher, que será minha filha.

Que aproveite os poucos annos da minha vida para se formar em

mathematica, e assentar praça depois, que foi essa a mais esplendida

carreira de seus avós, valentes generaes, quasi todos mortos no campo da

honra, sem uma nodoa ignominiosa. Em quanto elle vai estudar, sua mulher

poderá mover á piedade o padrasto, e levantar do chão alguma esmola que

elle lhe atire como um osso a um cão importuno. Se lh'a não dér, nem por

isso será menos filha de João da Cunha; porque mais vale ser filha de

João da Cunha, que enteada do filho d'um retrozeiro do Porto. Que venham

ambos vêr-me.

--Eu estou aqui, meu pae.

--E que não se perca em Coimbra como eu me perdi...--continuou elle,

surdo ás interrupções incessantes de Luiz--Foi lá que me atirei a este

fôsso, d'onde não ha sahida, nem pela porta da contrição. Não se segue

do meu crime a expiação em meu filho. Se causei a morte de Ricarda, não

fui eu que a matei; foi seu marido. Se se reconciliaram na presença de

Deus, é bem que eu pague o sangue com o sangue: mas meu filho, esse não...

Luiz da Cunha não decifrava das vagas exclamações de seu pae a resposta

do visconde. Retirou-se para Lisboa, e entrou em uma casa da rua do

Principe. Subiu a um terceiro andar, e recebeu nos braços a inquieta

Assucena, que chorava e tremia.

--Porque choras?

--Estava sósinha, e muito triste, Luiz...

--A tua criada não te fez companhia?

--Ninguem m'a póde fazer... Ou tu, ou ninguem... Agora, não choro, nem

tremo... Que resposta deu minha mãe?

--Não sei: meu pae está effectivamente doudo. Não comprehendi nada do

que elle disse; mas, a acreditar o delirio em que o encontrei, o

visconde não lhe respondeu do modo que suppúnhamos.

--E então?

--E então, minha filha, és o que eras para mim. Bem sabes que te não amo

por calculo, nem te adoro menos se os meus planos falharem.

--Eu bem o sabia, Luiz! O dinheiro não faz a tua felicidade nem a

minha...--disse ella abraçando-o com o acanhamento do pudor.

--De certo não, Assucena. O caminho que temos a seguir é sempre o mesmo.

Rica ou pobre serás minha esposa.

O amor não se finge. A tibieza das phrases triviaes de Luiz da Cunha

diz-nos que o arrependimento veio, mais cêdo do que devia esperar-se,

manifestar um enthusiasmo sobre posse. Não se acredita, sem ter

experimentado, a subita mudança que transforma o homem, quando a posse

absoluta da mulher, que se lhe dá, é logo misturada de desgostos

imprevistos. Um rapto, de que se espera um dote, é um pêso aborrecido

quando a esperança, fugindo, apenas deixa nos braços do raptor uma

mulher sem illusão, nem prestigio. E, peor ainda, quando o amor é

debil, o coração extenuado não aceita os sacrificios grandes, que, raras

vezes, acrisolam o amor de fantasia, como era aquelle de Luiz da Cunha.

Querem vêl-o tal qual era nas primeiras vinte e quatro horas de

convivencia com a filha de Rosa Guilhermina?

Chegou a conceber o pensamento de fazêl-a entrar no convento em quanto o

escandalo não era publico! Por vergonha, lhe não fez a ella a proposta

reparadora da sua virtude! A virtude, portanto, na opinião d'este homem

era um attributo bem facil n'uma mulher!

Passaram-se alguns dias, sem Assucena desconfiar da frieza do seu

amante. A nudez, e os gestos de impaciencia que elle, ao quarto dia, não

podia esconder, traduziu-os ella como inquietação pela perigosa

enfermidade de João da Cunha.

Luiz sahia de noite, a visitar seu pae. Não o encontrava nunca nos

intervallos lucidos, e sabia que os accessos eram cada vez mais duradouros.

Resolveu, sem consultar Assucena, escrever á viscondessa. A carta foi

ter ás mãos do visconde. O visconde devolveu-lh'a aberta, com estas linhas:

«_Em minha casa não ha quem responda ás infames cartas do senhor Luiz da

Cunha. Se quer dinheiro, trabalhe. Sahiu-lhe errado o seu calculo. Creia

que me não enganou a mim, que tenho experiencia para conhecer os

patifes. O que lhe vale ao senhor é essa mulher não ser minha filha...

De hoje em diante, os seus portadores a esta casa serão corridos a

chicote._»

Estas linhas provocaram toda a irascibilidade de Luiz da Cunha. A ameaça

era feita em termos muito insultantes, e o brio não tinha ainda expirado

no filho de João da Cunha. A carta recebêra-a elle em casa de seu pae.

N'essa noite não veio á rua do Principe, e mandou um bilhete

desculpando-se com a gravidade da doença de seu pae. Assucena viu a sua

desgraça a um raio de razão n'esse bilhete. Eram apenas decorridos vinte

dias, depois da sua fuga! Chorou uma noite inteira, e escreveu a sua mãe

uma longa carta, que rasgou.

Luiz da Cunha apeou no pateo dos Paulistas, esperando o visconde de

Bacellar que era certo ás onze horas de passagem para o Banco, ou para a

praça commercial.

Vendo-o, parou diante da sua carruagem. O boleeiro sustou os cavallos, e

o visconde, sem auxilio de criado, saltou da portinhola com resolução.

O filho de João da Cunha não entreteve o palavriado preliminar n'estes

conflictos. A sua arma era um chicote, e a do filho da Anna Canastreira

eram os braços musculosos. Travou-se a luta. Cada murro bem puxado do

visconde, Luiz recambiava-lh'o na face em chicotada, que se repetia

sobre o vergão da primeira. Os criados do visconde soccorreriam o amo,

se não encontrassem de frente os criados de Luiz da Cunha. Eram dous os

grupos de gladiadores; e o povo, sem ser romano, parecia, pela sua

inercia, gosar o espectaculo curioso entre os dous athletas.

O capitalista fôra ferido na face pelo martello do chicote. Os cabos de

policia, e a guarda do correio, supposto que tarde, empregaram a força.

O capitalista teve logo ahi um fiador, que o salvou de entrar entre

bayonetas. Luiz da Cunha do corpo da guarda foi á administração, e d'ahi

ao Limoeiro, d'onde sahiu afiançado quarenta e oito horas depois. Tudo

isto foi ridiculo a não poder ser mais! Cada qual explicava o caso com

uma anecdota. A fuga de Assucena era acontecimento que não passára d'uma

roda muito restricta; e, portanto, era livre a invenção aos interpretes

do pugilato.

Passára-se uma noite e um dia de solidão para Assucena. Como seriam

entretidas aquellas quarenta e oito horas! Que presentimentos, que

receios, que saudades, que reprehensões da consciencia atormentariam a

pobre menina! Fechada no seu quarto, rejeitára o alimento que a

indifferente criada lhe offerecia. A sua dôr tinha frenesis, que a

extenuavam. Todo o seu esforço em resignar-se era baldado, quando a

esperança lhe mentia nos passos que subiam a escada e paravam no

primeiro ou no segundo andar.

Depois de quarenta e oito horas, sem noticia de Luiz, o desespêro

fortaleceu-a resolvendo-a a procural-o em casa de seu pae.

Á noite, sahiu com a criada, perguntando de rua em rua o caminho do

Campo Grande. Á porta de João da Cunha estava um criado. Pediu-lhe que

chamasse o senhor Luiz da Cunha; responderam-lhe que não estava lá, e

que o mais certo lugar onde o encontraria era no Limoeiro.

--Prêso!--exclamou Assucena.

--Sim, minha menina, prêso pela vigesima vez por causa das suas

patacoadas. Não chore, creaturinha, que o senhor Luiz ha de sahir

brevemente.

--E porque o prenderam?--perguntou a criada.

--Porque deu umas chicotadas no visconde de Bacellar, assim como quem

não quer a cousa.

Assucena sentiu-se arrefecer do gêlo que começa na alma, e vem em

calefrios á sensibilidade exterior. Encostou-se á criada, pedindo-lhe

que não perguntasse mais nada. Atravessou, sem murmurar um gemido, sem

um queixume, parando exhausta de forças a cada instante, a grande

distancia que a separava da rua do Principe. Entrando no seu quarto,

cahira de face sobre o leito, não para repousar, mas para reprimir os

gritos que podiam ouvir-se no segundo andar.

E ouviram-se.

Era meia noite. A criada adormecêra, indifferente aos gemidos da ama,

que lhe não aceitava as imbecís consolações. Assucena, só e ás escuras,

porque a vela se extinguira, abrira a janella do seu quarto; mas a noite

de Janeiro era tenebrosa e frigidissima. A filha da viscondessa de

Bacellar tiritava de frio, de susto, e até de terror de si mesma.

Sentava-se sobre a cama, lançando sobre os hombros o cobertor. Fitava o

ouvido a cada tropel remoto de passos. Desenganada, ajoelhava com as

mãos erguidas pedindo a Deus que lhe désse vida até que a luz do dia lhe

deixasse procurar Luiz. Assucena passava por um d'esses soffrimentos em

que se julga possivel a morte instantanea.

Depois, as trévas da noite romperam-se em relampagos successivos, e o

quarto illuminava-se de clarões azulados. A aterrada menina correu a

fechar a janella, quando uma chuva fria lhe açoitou as faces. A dôr

immensa só tinha expansão nos gemidos. Lançou-se sobre o leito sem

reflectir que a escutavam, invocando Maria Santissima, pedindo

compaixão a sua mãe, chamando Luiz com alarido de demente, e soluçando

de modo que, a distancia, simulava uma mulher que se contorce entre os

braços que a matam pela asphixia.

No andar de baixo morava uma devota senhora, que accendia duzias de

velas, e rezava duzias d'orações a Santa Barbara. O quarto d'ella estava

ao pé do de seu irmão, o conego Bernabé Trigoso, que dormia no quarto,

cujo tecto era o pavimento do de Assucena.

Foi elle o primeiro que ouviu os gemidos, os passos, o abrir e fechar da

janella, o ranger do leito, e ultimamente os gritos.

Chamou sua irmã, e disse-lhe que escutasse. D. Perpetua Trigoso applicou

o ouvido, e affirmou que não era illusão do conego os estranhos gritos

da mysteriosa menina que alli morava.

--Vamos nós lá, Bernabé?--disse ella quando seu irmão lhe pedia o

capote, e a mandava sahir do quarto para elle se vestir.

Subiram ao terceiro andar cada um com sua vela mystica, das que a

senhora D. Perpetua accendêra á santa das trovoadas, e bateram á porta.

Assucena, sem pensar nem discernir, como desintorpecida d'um lethargo,

foi apalpando na escuridade, imaginando que era aquelle o bater de Luiz

da Cunha. Abriu com precipitação, e recuou espavorida ao aspecto um

pouco funebre de Perpetua que lançára um chale de cachemira escura sobre

a cabeça, franjada na testa por cabellos brancos. A figura magra,

macillenta e cadaverica do velho, não era menos assustadora, vista ao

clarão da vela que lhe betava de sombras as rugas profundas do rosto.

--Não se assuste, visinha--disse o conego, entrando--nós somos os

moradores do andar de baixo, e, como ouvissemos gemidos cá em cima,

viemos em soccorro, se é que podemos servir de algum bem á pessoa que

nos cortou o coração com os seus gemidos.

--Era talvez mêdo dos trovões...--accrescentou D. Perpetua, dando tambem

um passo para dentro da porta.

--A menina estava ás escuras?--tornou o conego.

--Sim, senhor.

--E não tem criada?--disse a irmã.

--A criada está a dormir.

--Quer a menina vir comnosco para a nossa casa até ser dia?--disse o

conego.

--Vou... se me concedem esse favor--respondeu sem titubear Assucena.

--Pois então, menina--atalhou Perpetua--cubra o meu chaile, ou vá buscar

o seu, que está muito frio na escada.

--Eu não posso ter mais frio...--disse a filha da viscondessa.

--Nem mais febre--tornou o conego, apalpando-lhe as mãos com singular

carinho--Ora venha, venha comnosco. Anda lá com ella adiante, Perpetua,

que eu fecho a porta.

Perpetua assentou Assucena no seu esteirão; embrulhou-a em cobertores; e

deu-lhe uma chavena de café com um golo de genebra, por conselho de seu

irmão. Depois sentou-se a par com ella, que não cessava de tiritar,

Bernabé veio, melhor forrado contra o frio, sentar-se ao pé d'ellas. As

lagrimas de Assucena eram inesgotaveis. Perpetua queria consolar, mas

não conhecia a dôr. O conego, fixando alguns minutos em silencio o

semblante da pobre menina, fez a sua irmã um gesto significativo, tomou

com paternal ternura as mãos abrazadas de Assucena, e perguntou-lhe:

--Minha filha, porque soffre? Abra o seu coração. Se lhe não podérmos

ser uteis, poderemos ao menos conseguir que o seu soffrimento diminua

respirando pelas palavras. Quem sabe se Deus nos approximou? Diga o que

tem: falla com um padre, que é seu pae espiritual.

VII.

PERDIDO SEM REDEMPÇÃO

Quando Luiz da Cunha era conduzido por dous soldados á administração do

bairro, encontrou Liberata n'uma sege, e respondeu com um gesto de

cabeça á rasgada cortezia que ella lhe fizera.

A sege de Liberata retrocedêra, e vinha a passo lento seguindo Luiz da

Cunha. Quando os soldados pararam á porta da auctoridade, e Luiz, sem

reparar na sege, desapparecêra no interior do páteo, Liberata acenou a

um dos soldados, que se chegou á portinhola. Perguntou por que fôra

prêso aquelle sujeito, e o soldado informou-a com a minuciosidade que

podia. Pagou com um cruzado novo o pequeno serviço do informador, e

pediu-lhe que subisse á sala da administração, e dissesse ao ouvido do

prêso que uma pessoa, que elle encontrára, em uma sege, lhe mandava

offerecer não só dinheiro, mas até a influencia dos seus amigos, se com

isso era possivel a sua immediata soltura.

O soldado não conseguira fallar ao prêso; mas soubera de um official de

diligencias, seu conhecido, que o tal sujeito só podia ser solto com

fiança, e não estava presente ninguem que o afiançasse.

Liberata deu ordens promptas ao boleeiro, e a sege, a grande galope,

correu algumas ruas, e parou á porta de um conselheiro, official-maior

d'uma secretaria de estado. S. ex.ª não recolhêra ainda da secretaria. A

protectora de Luiz da Cunha mandou tocar para o Terreiro do Paço, e

fez parar a sua sege a par da do conselheiro. Chamou um correio de

ministro, que passeava debaixo das arcadas, e mandou-o entregar ao

official-maior o seu _porte-monnaie_. O conselheiro veio rapidamente á

portinhola. Trocou algumas palavras com Liberata, entrou na sua sege, e

partiu para a administração do bairro.

Perguntou por Luiz da Cunha; disseram-lhe que fôra remettido ao juiz

criminal. Foi ao juiz criminal, quando o prêso acabava de sahir para o

Limoeiro. Declarou o amante de Liberata que vinha afiançal-o. O juiz

aceitou respeitosamente a fiança, e prometteu mandal-o soltar o mais

depressa que se lavrasse o auto. Sahia, porém, o conselheiro, quando uma

carta de uma notabilidade do Supremo Tribunal recommendava ao juiz que

não aceitasse fiança, paliando quanto podésse a soltura

inconvenientissima de Luiz da Cunha, que ameaçava a existencia do

visconde de Bacellar.

Liberata, com a certeza da soltura, dada pelo amante, foi á cadeia,

procurou Luiz da Cunha que passeava ainda na sala do carcereiro, e

contou-lhe rasgadamente os passos que déra. O preso agradeceu-lh'os com

aviltante submissão, não sentindo a vergonha de ser unicamente protegido

por tal mulher. Sem o recriminar, a amante do conselheiro perguntou-lhe,

sorrindo, se melhorára de fortuna, despedindo-a do seu serviço. Luiz da

Cunha teve a sinceridade de confessar que tinha saudades do tempo em que

vivêra com ella. Liberata disse que tambem as tinha, e deu como prova

não ter sido fiel a nenhum dos seus amantes, depois d'elle, porque não

encontrára rapaz tão perfeito, nem tão despreoccupado das asneiras

sociaes, como Luiz da Cunha.

Recordaram scenas da sua vida de dous annos, dando tempo a que viesse a

ordem de soltura. Passaram duas horas, e, como ella não chegasse,

Liberata impacientou-se, e sahiu, dizendo que, se entretanto a ordem

viesse, e elle quizesse fazer-lhe uma visita, depois da meia noite, a

procurasse na rua de S. Bento, n.º 46.

Luiz prometteu-lhe a suspirada visita, e apertou-lhe com estremecida

meiguice a mão. Em quanto lhe dava a mão direita, Liberata lançava com a

esquerda no chapéo de Luiz o _porte-monnaie_. Sahiu.

Foi d'uma corrida a casa do conselheiro; obrigou-o a sahir, a vencer

todos os obstaculos que redobraram desde que o proprio visconde peitára

o juiz, e, taes elles eram, que só, no dia immediato á tarde, Luiz da

Cunha foi solto, e o conselheiro veio allegar a Liberata trabalhosos

serviços, que ella pagou com um beijo.

Imaginam que Luiz da Cunha, apenas livre, nem tempo tem de procurar uma

sege, e corre á rua do Principe, onde o espera a atormentada Assucena?

Não foi assim. Sahiu placidamente da cadeia. Desceu á primeira estação

de seges no Terreiro do Paço. Montou a que lhe pareceu mais bem servida

de parelha. Foi jantar ao Matta, no caes do Sodré. Subiu pela rua do

Alecrim. Tomou café no Marrare. Passou na rua de S. Bento para vêr a

casa n.º 46; cortejou Liberata que, por dentro das janellas, lhe fitava

um pequeno oculo de theatro. Foi ao Campo Grande saber como seu pae

estava. Entristeceu-se um momento quando lhe disseram que passára peor,

depois que um imprudente lhe dissera que seu filho batêra no visconde de

Bacellar. Não apeou para lhe não irritar os padecimentos. Veio para o

theatro de S. Carlos, e reparou que o encaravam de lado, voltando-lhe as

costas, se elle os encarava de frente. Achou-se sósinho no salão, e

sósinho no banco em que se sentára. Depois da meia noite, despediu o

boleeiro defronte do palacio das côrtes, e seguiu a rua de S. Bento até

á casa n.º 46.

Dos moveis que Luiz da Cunha deixára á sua amante, nem uma cadeira

existia. A primeira sala, forrada de ricos tapetes, opulenta de luxo e

mau gosto não invejava o apparato da garrida decoração das salas d'um

brazileiro de torna-viagem, que vos deslumbra com o seu baazar de

porcellanas, de relogios, de cães e patos de vidro, de conchas

variegadas, de ricas encadernações em marroquim de livros nunca abertos,

de globos de luzente cobre, de coxins amarellos e vermelhos.

A sala de Liberata tinha tudo isto em prodiga profusão. Um americano,

antecessor do conselheiro, e successor do capitão de marinha ingleza,

tinha sido o intelligente coordenador d'aquella miscellanea em que

despendera contos de reis, pequena paga para os carinhos de sua

amante. Diziam que Liberata seria esposa d'esse americano, se o consul

despoticamente o não mandasse prêso a bordo d'uma embarcação que o levou

a seu pae, desfalcado em boa parte da sua fortuna.

O conselheiro, que substituira o americano, sustentava o luxo de

Liberata com uma farta mesada, de que ella tirava para todos os seus

caprichos, podendo montar sege, sua mais querida ambição.

Luiz da Cunha contemplava estupidamente aquella magnificencia, que não

era nada comparando-a á sumptuosidade d'alcova, onde foi recebido, como

era dever que o fosse, o unico homem que a fizera conter-se nos honestos

limites d'uma fiel amante.

--Achas que estou muito rica?--disse Liberata, puxando-lhe com meiguice

uma orelha.

--As apparencias são d'isso...

--Suppunhas que nenhum outro homem saberia dar-me valor?

--Eu bem sabia que te não faltariam adoradores, Liberata. Para que eu me

separasse de ti, foi preciso que eu entrasse n'uma época de demencia,

que me dura ha quatro mezes.

--Que tens tu feito ha quatro mezes?

--Tenho envelhecido quarenta annos. Quiz-me oppôr á natureza, fazendo-me

pessoa de bem, e perdi o tempo. Acabo de conhecer que era mais feliz

quando a minha sociedade eras tu, e os meus cavallos, palavra de honra!

--Com que então _eu e os teus cavallos_! O diacho da mistura não é nada

amavel! Mas conta-me cá... disse-me o conselheiro...

--Qual conselheiro?

--O actual... não sabes quem ficou por teu fiador?

--Pois o conselheiro é o teu amante?

--Excellente creatura... Pois foi elle que me disse que uma enteada do

visconde de Bacellar fugira das commendadeiras para casar comtigo. Já

casaste?

--Não, nem caso.

--Nem casas? então, tenho mais uma companheira...

Luiz sentiu um ligeiro toque de pundonor, ouvindo tamanho ultraje a

Assucena, que n'este momento se lhe afigurou de joelhos, pedindo a

Deus a morte. Esta visão desvaneceu-se como o raio instantaneo de sol em

ceo revolto de nuvens escuras.

--Diz-me cá, Luizinho--continuou Liberata, lançando-lhe o braço direito

sobre o hombro, e brincando-lhe com os anneis do longo cabello--queres

ser outra vez meu?

--É impossivel.

--Porque? Tens lá a tua fidalga das commendadeiras... Já me não lembrava...

--Não é por isso.

--Pois então?

A Neta do Arcediago · 第 4 / 13 段