--Diz bem... não o parece; mas creia que não tive ainda oito dias de

felicidade na minha vida. O mundo julga-me mal. Todas estas vertigens,

que apparentemente me dão o caracter d'um homem embriagado de

felicidade, são misturadas d'uma especie de nausea de mim proprio, d'um

vacuo de verdadeiros prazeres, e tal que, nestes ultimos mezes, tenho

desejado seguir um outro caminho por onde a verdadeira ventura me foge.

E quero perseguil-a. Realmente lhe digo que estou cansado d'este viver.

A sociedade despreza-me, e eu dou razão á sociedade. De certo lh'a não

dava, se eu me quizesse absolver dos meus desvarios. Aqui entre nós:

quem me perdeu foi meu pae. Se me tivesse negado os meios com que se

nutrem os vicios, eu não seria vicioso, ou, se o fosse, o trabalho, como

preço do vicio, ter-me-ia fatigado, ha muito. Olhe: se eu tivesse

nascido n'outro seculo, se é que todos os seculos não tem os mesmos

vicios, seria outro homem. V. ex.ª bem sabe que na sociedade não se

fazem santos. Eu vim por aqui dentro com os braços abertos para receber

todas as immoralidades, e vieram-me todas ao encontro, sem eu chamar

nenhuma.

--Naturalmente--atalhou a viscondessa, sorrindo--foi a filha do

merceeiro que o chamou...

--Isso não foi immoralidade, minha senhora; ou, se o foi, queixem-se

do peccado original, de que tanto me fallou aquelle pobre padre Joaquim,

que, em quanto a mim, foi o unico homem virtuoso que não recebeu a

herança da culpa de Adão, e morreu intacto como algumas virgens das que

se conhecem pelos necrologios. A filha do confeiteiro não soube o que

fez, e eu tambem não. A natureza exerceu sobre nós o seu immortal

despotismo, e foi preciso que os homens viessem desmanchar á pancada o

que ella fizera com beijos.

--Foi a natureza que lhe ensinou a botar a escada de corda ao segundo

andar?

--Nada, não, minha senhora. Foi meu pae.

--Como seu pae!?

--Palavra de cavalheiro, o caso foi assim: debaixo da cama de meu pae vi

umas cordas, que terminavam por dous ganchos. Fiz o meu raciocinio, por

que já n'esse tempo estudava em logica as causas e os effeitos. A escada

era o effeito d'alguma causa. Sem saber nada de mechanica, calculei a

importancia social da escada, e mandei fazer uma semelhante ao meu

criado do quarto. Ora aqui tem com angelica sinceridade a historia da

escada de corda. Agora, pergunto eu: desarranjei eu a felicidade da

filha do merceeiro? Não a tem v. ex.ª visto no theatro, ao lado d'uma

especie de gallego com collarinhos em fórma de panno de falua? Esta

especie de gallego é marido d'ella, tem cem contos de reis em

inscripções, e não sei que no Banco Commercial, e tem a commenda da

ordem de Christo. D'esse peccado da infancia, absolvo-me eu; dos outros

é responsavel a sociedade.

--Não diga a sociedade. V. ex.ª tem zombado de todos os deveres. Tem

reduzido seu pae a um estado de tristeza que faz dó. Tem-se divorciado

de todas as pessoas de bem. Affronta a opinião publica apresentando-se

nos lugares mais frequentados com uma mulher, sem pudor, uma libertina

que nem ao menos o salva de se degradar com ella em publico. Se me acha

ainda uma constante censora dos seus desatinos, é porque sei a historia

triste do seu nascimento, sympathisei com os infortunios de sua mãe, e

tomei sobre mim o inutil zêlo da honra de seu filho. Não tenho

conseguido nada: nada espero conseguir. Deus sabe quantas lagrimas me

tem custado este desvelo quasi maternal. Por vontade do visconde, já

v. ex.ª não entra n'esta casa. Reprehende-me todos os dias a

familiaridade com que o recebo, e é preciso que eu o traga illudido com

a esperança de que um dia será possivel a sua reforma de costumes.

Senhor Luiz da Cunha, pense no futuro. Condôa-se de seu pae, que já não

tem animo de ouvir pronunciar o nome d'um filho que perdeu como seu

amor. Veja que póde ainda remediar o mal que fez... Aparte-se d'essa

mulher. Viva com seu pae. Convença pelo seu procedimento as pessoas, que

já não acreditam na possibilidade da sua emenda. Eu tambem me persuado

de que v. ex.ª deve estar cansado. Creio que deve ter momentos de

envergonhar-se; outros de remorso, e outros de esperança. Não cerre os

ouvidos ao que a esperança lhe promette. Se o instincto do bem lhe

aconselha a virtude, obedeça-lhe, e verá como a vida lhe póde ainda ser

agradavel. Olhe que a virtude tem consolações incomparaveis com os

prazeres momentaneos do vicio. Tenho quarenta annos. Sei o que é o

mundo. Combino todos os desgostos para os saber afastar de mim, e

recebo-os, quando elles são mais fortes, como desvios do errado caminho

em que entrei aos quinze annos. V. ex.ª não sabe que mulher lhe falla,

nem imagina o prazer que me daria se me viessem dizer que a virtude não

fôra repellida d'esse coração que todo o mundo considera fechado para a

luz da honra.

--Fez-me impressão, senhora viscondessa! Tem-me assim fallado tantas

vezes, e nunca me feriu tanto. Eu não sei bem se o que me aconselha é

possivel... Creia que vou empregar os esforços. Se o não conseguir, é

porque não posso, é porque ha em mim um desgraçado condão de força

sobrenatural.

A conversação, n'este sentido, foi demorada.

..........................................................................

No dia seguinte, Liberata recebia de Luiz da Cunha um bilhete que a

eximia dos compromissos de fidelidade, auctorisando-a a dispôr de tudo

que lhe fôra dado. O bilhete foi recebido de manhã, e á tarde o lugar de

Luiz da Cunha estava preenchido pelo primeiro oppositor á vacatura. Na

proxima noite de theatro, Liberata, no camarote, ria, olhava,

requebrava-se do mesmo modo, com a notavel differença de que o seu

companheiro era um capitão de marinha ingleza, que accumulava ás

delicias de uma conquista de tal ordem os gosos d'uma solemne embriaguez

de vinho.

João da Cunha acreditou na regeneração do filho, quando o viu entrar

contrito em casa, tão diverso do que fôra, accusando-se por uma tristeza

silenciosa, e captivando a benevolencia dos familiares com palavras

brandas. Por conselho da viscondessa de Bacellar, orgulhosa do seu

triumpho, João da Cunha não lhe disse uma palavra de reprehensão. O

passado não veio nunca irritar o pae, nem envergonhar o filho.

Os incredulos riram da subita mudança do «mulato.» Os crentes no poder

maravilhoso da conversão explicavam o phenomeno por um toque

sobrenatural. Não faltou quem dissesse que a reforma do peccador fôra

obra d'um egresso varatojano que operára admiraveis conversões nas casas

onde almoçava e jantava. Não sabiam dizer ao certo se tambem convertêra

alguem nas casas onde dormia. Eu tambem não, supposto que acho muito

possivel o caso affirmativo.

O que sei de sciencia certa é que Luiz da Cunha não conhecia o dito

egresso melhor que eu e o leitor. Penso que o varatojano perderia o seu

latim, se tentasse engrossar com a moral franciscana os alicerces

fundados pela viscondessa de Bacellar. A emenda do filho de Ricarda não

tinha nada com a moral christã, pelo menos o atheo não sabia que a moral

de Jesus é o codigo por que se rege a honra sobre a terra, e se

conquista no ceo a eterna bem-aventurança, que não é exclusivo dos

pobres de espirito.

João da Cunha passava algumas noites com seu filho em casa do visconde

de Bacellar. Rosa Guilhermina revia-se na sua obra, e agradecia a Deus

têl-a feito instrumento da sua vontade, para, com braços debeis,

arrancar do abysmo um filho, restituindo-o ao amor de seu pae.

Assucena não se maravilhava do presente de Luiz da Cunha por que não lhe

conhecêra o passado. Sabia, por meias revelações de sua mãe, que aquelle

homem desmerecêra no conceito do mundo, por causa do seu mau

procedimento. Os crimes, as infamias, as impudencias nem sua mãe lh'as

explicava, nem ella saberia comprehendêl-as. O que ella via era um

mancebo melancolico, quasi sempre calado, fixando-a com frequencia,

fugindo d'ella se os olhos se encontravam, trocando palavras de absoluta

necessidade, e conversando com viveza, e muitas vezes, com sua mãe, como

se ella só lhe merecesse attenções. Andaria aqui um incentivo de vago

ciume? A manifestação inexprimivel d'um germen de sympathia? O

resentimento do desdem que Luiz da Cunha aparentava por ella?

Se vos digo que sim, não digo cousa nenhuma do outro mundo, e obedeço á

verdade.

IV.

CONTAGIO.

Nem eu nem vós sabemos como nasce o amor. Em physiologia, que é a

sciencia do homem physico, não se sabe. A psycologia tambem não diz nada

a este respeito. Os romances, que são os mais amplos expositores da

materia, não avançam cousa nenhuma ao que está dito desde Labão e Rachel

até á neta do arcediago e o filho de Ricarda.

Dizer que o amor é a sensualidade, além de grosseira definição, é

falsidade desmentida pela experiencia. Ha um amor que não rasteja nunca

no raso estrado das propensões organicas.

Dizer que o amor é uma operação puramente espiritual é um devaneio de

visionarios, que trazem sempre as mulheres pelas estrellas, ao mesmo

tempo que ellas, gravitando materialmente para o centro do globo, comem

e bebem á maneira dos mortaes, e até das divindades do cantor de Achyles.

Eu conheço homens, sem faisca de espirito, que se abrazam tocados pelo

amor como o phosphoro em presença do ar. Eis-aqui um phenomeno

eminentemente importante. Elle, só, sustenta em these que o amor não tem

nada com o corpo nem com o espirito. Eu creio que é um fluido. É pena,

porém, que eu não saiba o que é fluido para me dar aqui uns ares

pedantescos, ensinando ao leitor, mais ignorante que eu, cousas que, de

certo, o não privavam de continuar a comer, e a dormir.

A prova de que o amor não está na cabeça, nem no coração, é que Luiz da

Cunha e Faro tinha uma cabeça incapaz de calcular as consequencias

d'uma acção boa ou má, e um coração desbaratado, verminoso, apodrecido

para nutrir em si uma flôr das que nascem aromatisando a imagem que o

amor lá insculpiu com maviosos traços.

Assucena, pelo habito da convivencia, perdêra a estranheza, e

familiarisára-se com o moço tão bem aceite e tão desvelado por sua mãe.

O sobresenho de seu padrasto com o filho de João da Cunha tornára-lhe a

ella mais sympathico o mancebo. Recordando as asperezas do marido de sua

mãe, com ella sua enteada, sempre carinhosa e humilde, achava ahi a

razão da grosseira indifferença com que Luiz era recebido.

Um dia, acharam-se sósinhos, porque a viscondessa não prevenira o filho

de João da Cunha da sua sahida á noite, nem prohibira, por inadvertencia

talvez, a sua filha a recepção de visitas.

Os embaraços de Luiz, a sós com ella, eram improprios d'um rapaz de

sala, imperturbavel fallador em todas as conjuncturas de que o homem se

salva fallando muito, e prompto improvisador de palavras que não deixam

nunca descahir a conversação nas trivialidades aborrecidas.

Luiz da Cunha imaginou que amava Assucena; e, só com ella, deduziu do

seu acanhamento que a amava muito. Assucena já não córava na presença de

Luiz da Cunha; e, só com elle, percebeu, no ardor da face, que se estava

denunciando.

Era necessario dizer alguma cousa, esgotadas as primeiras palavras d'um

cumprimento, cuja elasticidade se não descobriu ainda.

--Está v. ex.ª em vesperas de recolher-se ás Commendadeiras...--disse

Luiz, cuidando que tinha acertado com a vereda por onde, mais

facilmente, chegaria a um vasto assumpto.

--É verdade...--respondeu ella com mimo e tristeza--D'amanhã a quinze

dias...

--Tão cêdo!... E está desejosa de se vêr lá, não é assim?

--Desejosa, não. Eu antes queria estar com minha mãe...

--E ella não lhe faz a vontade?

--Por vontade d'ella nunca eu sahiria de casa; mas meu padrasto, não

sei porque, acha que eu sou aqui de mais, e mostra-me sempre um modo

aborrecido, que me incommoda, e de certo ha de incommodar minha boa mãe.

--O senhor visconde tem essa singularidade. Por calculo ou por genio,

parece que toda a gente o incommoda, que todos lhe são pezados e

suspeitos. Eu tenho sido bem mimoseado com os seus arremêssos, como v.

ex.ª terá observado. Se encontro francas as portas d'esta casa, favor é

que devo á senhora viscondessa, minha amiga desde a infancia, mais que

minha mãe, porque uma mãe deixa muitas vezes perder um filho, e esta

nobre senhora, este anjo que tem sobre mim uma influencia celeste,

salvou-me.

--Tenho reparado que ella é muito sua amiga. Se v. ex.ª fosse meu irmão,

de certo minha mãe lhe não daria mais estima...

--E porque me não faria Deus seu irmão?--atalhou Luiz com ar infantil, e

meiguice de sorriso. Assucena baixou os olhos, em silencio, tambem

desabrochando um ligeiro sorriso, no nacar dos labios, que pouco

sobresahia á côr purpurina do pejo.

--Esta pergunta--proseguiu elle, com affectuosa tristeza--fez-lhe uma

impressão muito diversa do que eu pensava! V. ex.ª córa, e a pergunta

não é das que ferem a susceptibilidade do coração. Magoou-a o meu

innocente desejo de ser seu irmão?

--Não me magoou...

--Pois então diga-me o que sentiu para eu poder convencer-me de que

ainda lhe não disse uma só palavra indiscreta...

--Não me magoou, senhor Luiz da Cunha... já lh'o disse... O que eu

senti... não foi pezar, nem alegria... Fez-me impressão essa pergunta,

por que...

--Diga, não se arrependa... o seu coração ia fallar...

--Porque muitas vezes tenho perguntado a mim mesma se não seria muito

bom que...

--Eu fosse seu irmão?

--É verdade...

--E córa por isso? Um desejo tão puro e tão santo diz-se, e não se

esconde...

--Dizer-se... nem a toda a gente. Eu disse-o a minha mãe, e ella

perguntou-me cousas estranhas para mim... Se não fosse ella, isto que

lhe disse com difficuldade, não teria duvida em dizêl-o ás minhas

mestras do collegio, por que não sei onde está o mal d'este desejo.

--Não tem nenhum... Diga-me, senhora D. Assucena, sua mãe prohibiu-a de

manifestar o bom conceito que v. ex.ª faz de mim?

--Não, senhor... Só me disse que me não habituasse a pensar no senhor

Luiz da Cunha, por que o coração em se habituando a fantasias, custa-lhe

muito depois a desfazer-se d'ellas quando vem a realidade. E acho que

minha mãe tem razão. V. ex.ª não póde ser meu irmão.

--Mas amigo, mais que irmão, não poderei tambem?

--Amigo... sim...--Assucena córou de novo, e balbuciou estas duas

palavras. Luiz da Cunha viu-a tremer d'aquella quasi imperceptivel

oscillação nervosa, que denuncia o antagonismo da natureza com a arte, a

força expansiva do espirito com os estorvos compressores da educação.

--Pois então... sejamos--continuou elle--sejamos o mais que podêmos

ser... muito amigos, amigos por toda a vida, sim?... Por que me não

responde? Receia que eu algum dia, se se esquecer de mim, a

responsabilise pela promessa? Tambem não serei capaz de mortifical-a, e,

se o fosse, não poderia chamar-me seu amigo. Quando aconteça que a minha

amizade lhe seja pezada...

--Pezada?!

--Sim; quando se dêem motivos fortes para que me esqueça...

--Que motivos?!

--Se lhe derem um marido...

Assucena levou instinctivamente o lenço aos labios, como para esconder o

rubor que lhe assomava.

N'este momento, entrou João da Cunha, e surprendeu ainda o escarlate,

que destacava na tez trigueira de Assucena. Experimentado, comprehendeu

o caso, que não tinha nada de mysterioso senão o facto de se acharem

sósinhos seu filho e a filha da viscondessa. João da Cunha sentiu o

abalo prophetico d'alguma desgraça. A anciedade não lhe concedia

delongas. Como Assucena pediu licença para retirar-se, João da Cunha

perguntou ao filho, ainda absorto n'um silencio muito significativo para

o pae:

--Como venho encontrar-te sósinho com Assucena?

--Entrei n'esta sala, e encontrei-a a receber-me. Se soubesse que vinha

encontral-a sósinha, creia v. ex.ª que eu não subiria.

--Tu comprehendes, Luiz, quanto seria melindroso para a nossa honra um

namoro com a filha da pessoa que tão cara nos é, e tanto por ti se tem

sacrificado?

--Comprehendo, meu pae. E d'onde é que v. ex.ª deduz que eu namore

Assucena?

--Surprendi-a d'um modo que revelava emoções que não são as d'uma

singela conversação.

--Acabava eu de pedir-lhe que fosse minha amiga e amiga como póde sêl-o

uma irmã.

--Luiz, esses rogos não se fazem a uma mulher de dezoito annos. Irmãos

só os faz a natureza. A arte, que approxima o homem da mulher com laços

fraternaes, é uma ficção. Os teus amores tem sido todos faceis,

d'aquelles que a seducção não precisa mascarar com um titulo impostor; e

por isso não sabes ainda prêver as consequencias d'esse improvisado

parentesco. Eu tive muitas irmãs, como esta que tu adoptas, e todas

ellas quebraram o vinculo da fraternidade, quebrando primeiro pela honra.

--Meu pae cuida que falla a seu filho dous mezes antes. Eu devo á

Providencia um novo coração.

--Quero, devo acredital-o: Deus me livre de pensar o contrario. Mas é

preciso que meu filho saiba muitas cousas que não aprendeu na vertigem

da dissolução em que viveu onze annos. Quando o coração é nobre, tambem

ha paixões que principiam nobremente, e acabam pela ignominia como as

outras que começam pela infamia. O amor violento, o amor que deshonra, o

amor que faz victimas, não é o infame privilegio dos homens pervertidos.

Os de nobre coração tambem deshonram, tambem pervertem, e fazem

victimas. O avarento póde viver uma longa existencia sem um remorso, sem

roubar o pão do seu semelhante, logo que elle alimente a sua sede de

ouro com o seu proprio suor. O general, coberto de condecorações,

póde ter sido um barbaro nas batalhas, matando inermes, e incendiando

choupanas que encerram velhos e creanças. É um algôz condecorado, ao

qual Deus não pergunta o que fez de seu irmão; é uma consciencia

tranquilla de remorsos, como a lamina da sua espada está limpa de

sangue. O avarento do ouro, e da gloria caminham ambos por estrada

desempedida: um legalisa a posse do ouro com a astucia e com o trabalho;

o outro, com o poder que lhe foi conferido, e com a bravura sanguinaria.

Na sociedade ha um homem que vive tambem de ambições, que aspira tambem

ás glorias; mas glorias e ambições do coração, as que elle julga mais

innocentes, as que a sociedade lhe não crimina no seu principio, as que

por fim se lhe convertem em cilicios de remorso, em apertos de coração,

e em tedio de si proprio, no declinar das forças physicas para a

sepultura das chimeras. Este homem fui eu, e és tu. O coração perde-nos,

Luiz. O homem que se dá exclusivamente ao amor, cuida que vai sobre

alcatifas de flôres, e resvala n'um abysmo. Principia, com o proposito

de ser honrado, um commercio de sensações brandas; e acaba enfastiado

d'ellas, ancioso d'outras que não depara. Depois, como indemnisação do

que perdeu, encontra o desprêso dos outros; como companhia das suas

horas solitarias, tem a imagem d'uma pobre mulher que se levanta do

charco, onde elle a lançou, agarrando-se-lhe aos cabellos; e, como

refrigerio das sêdes que o calcinaram na mocidade, encontra na

velhice... um filho, que lhe encrava uma corôa de espinhos sobre o

stigma do crime com que a sociedade o manda á presença de Deus...

--Meu pae!--atalhou Luiz pasmado da desordenada eloquencia.--Eu não sei

o que fiz para merecer-lhe admoestações tão sevéras!

--Isto não são admoestações, Luiz... Não sei o que disse... Lembra-me

que o meu fim era uma cousa muito importante... Não dediques uma

affeição perigosa á filha da viscondessa. Pára aqui. Ama uma mulher, que

possas fazer tua esposa, ou não ames nenhuma, por que eu sei que o teu

amor tem o contagio da morte...

Assucena entrou na sala, desculpando-se da demora, com uma invenção mal

fingida. Se quizesse ser verdadeira, diria que estivera no seu

quarto, saboreando, sósinha, uma felicidade que principiava por lagrimas.

..........................................................................

As confusas recriminações de João da Cunha não cahiram em coração

inerte. Luiz nunca respeitára tanto seu pae. Supposto lhe não

comprehendesse as comparações do ambicioso e do general com os affectos

do coração, achára uma dôr sublime n'essa desordem, um gemido de remorso

n'essa condemnação a si proprio, n'essa tocante ideia d'uma corôa de

espinhos, cravada pelo filho, na fronte de seu pae, onde a sociedade

gravára o lema da deshonra.

Em casa da viscondessa, Luiz da Cunha faltou algumas noites, depois da

ultima em que o vimos, sem grande esforço, erguer o véo do coração de

Assucena.

A causa da falta extraordinaria, e sensivel para a viscondessa, era o

incommodo de João da Cunha, que periodicamente soffria accessos de

sangue á cabeça, ameaços de congestão cerebral, que o debilitam pelas

repetidas sangrias, seu allivio unico. Luiz passava os dias e as noites,

ao pé de seu pae, pela primeira vez. Em tempos de libertinagem, as

doenças do pae eram indifferentes ao filho, e até a formalidade d'um

cumprimento lhe era pezada.

--Que differença!--dizia D. Rosa a sua filha--Quem diria que Luiz da

Cunha passaria as noites ao pé de seu pae! Onde estava um nobre coração!

Á vista d'isto, ninguem deve perder a esperança de salvar um homem

abandonado de todos! A sociedade é a que atira o desgraçado á miseria...

--Á miseria!--atalhou Assucena.

--Sim, minha filha. O desprêso com que são repellidos os infelizes, que

não podem ser bons sem os conselhos d'um bom amigo, é muitas vezes a

causa de se perderem de todo. O mau homem cuida que se vinga redobrando

em malvadez. Deixam-no sósinho, e elle precisa de viver em sociedade.

Procura a unica que o recebe, a dos abandonados como elle. Ahi encontra

irmãos mais perdidos que elle, e acha sempre um amigo. Dizia teu pae,

minha filha, que o ultimo amigo do criminoso era o carrasco... Não

entendes esta linguagem, Assucena... Oxalá que nunca recordes

palavras de tua mãe, ditas como um desafogo a quem lh'as não entende...

Foi talvez com ellas que eu salvei Luiz da Cunha... Servem só para

desgraçados... e tu, filha, és feliz, és innocente, és um anjo.

--Elle é ainda desgraçado?

--Póde ser feliz...

--Eu queria que elle o fosse; mas é tão triste... Elle era assim d'antes?

--Não. Escarnecia de tudo, convertia tudo em galhofa respondia ás minhas

admoestações com agradecimentos ironicos, e contava-me os seus desatinos

como quem conta acções meritorias. O primeiro dia em que lhe ouvi

queixar-se da sua má estrella, foi no dia em que te viu...

--Em que me viu!?...--atalhou Assucena, sem poder conter as palavras,

que vinham do coração sobresaltado.

--Porque me fazes esse reparo tão admirada?!

--Admirada... não!... É que...

--Não te escondas aos olhos de tua mãe, que é inutil, minha filha. Leio

em todos os corações, e nunca se me escondeu um só pensamento do teu...

Amas Luiz da Cunha?

--Minha mãe!...--exclamou ella, tomando-lhe carinhosamente a mão, e

fazendo um aceno negativo.

--Não te assustes, Assucena. Eu não crimino essa affeição, que é muito

natural. Se o tivesses conhecido, ha dous mezes, de certo o não amarias.

Hoje... era quasi impossivel que o não amasses... Luiz tem alguma cousa

fatal, que o fez querido a muitas mulheres, que se envergonhavam de lhe

apertar a mão em publico. Hoje poucas seriam as que lhe recusassem

affectos. Mas olha, Assucena... tua mãe vai fallar-te como todas as mais

deviam fallar a uma filha que sáe d'um collegio aos dezoito annos. Se

tivesses vivido cá fóra, não era necessario dizer-te que só ha uma

posição que te convém com Luiz da Cunha. Se não fôres sua esposa, que

poderás tu ser para elle?

--Sua irmã.

--Não ha irmãs pelo coração, minha filha. Quererias ser sua esposa?...

Responde, Assucena... Faz de conta que fallas com a tua unica amiga.

Agora não sou tua mãe, visto que é de uma mãe que sua filha de

ordinario se esconde. Querias ser sua esposa?

--Queria...

--Que tristes cousas vou dizer-te... Teu padrasto não te daria uma moeda

de cobre como dote, e eu não posso tambem dar-t'a porque sou pobre como

tu. Luiz da Cunha não tem patrimonio, não póde succeder na herança de

seu pae, é pobre como ambas nós, logo que seu pae lhe morra. Vês o que é

o mundo? Um casamento entre duas pessoas, habituadas a não proverem com

o trabalho ás suas precisões, é uma desgraça. Tu serias muito infeliz,

quando teu marido te dissesse «não temos pão.» Minha filha, eu já soube

o que é não ter pão. Já desfiz um meu vestido para que tu não andasses

nua. Já andei sem lenço na cabeça para que tu não tivesses fome. Já me

ajoelhei comtigo nos braços, pedindo a Deus que nos levasse ambas, antes

que tivessemos de morrer de fome entre quatro paredes. A amiga que nos

valeu a ambas, é hoje uma desgraçada, não de fortuna, porque eu privo-me

de muito para que ella tenha tudo. É desgraçada... pobre Maria Elisa...

porque se deixou arrastar pelos cabellos onde a leva o mau anjo das suas

paixões... Coitadinha! no que deu aquella mulher!...

--Não chore assim, minha mãe...

--Deixa-me chorar... eu preciso de chorar alguma vez na tua presença...

São mais dolorosas as lagrimas, sem testemunhas. Preciso d'uma

confidente, e, se o não és tu, quem o será? Nos salões é preciso rir

sempre. Com meu marido, é necessario ser o que elle é... Comtigo posso

ser o que sou... Minha filha, tua mãe vai pedir-te um favor...

--Favor!... que quer, minha querida mãe?

--Esquece Luiz da Cunha.

--Esquecêl-o...

--Se não pódes esquecêl-o... resigna-te, não alimentes esperanças, não

lh'as dês a elle...

--Isso sim... isso posso fazêl-o... Quer minha mãe que eu me recolha já

hoje ao convento?

--Nem tanto, meu anjo, nem tanto!... Irás quando tens de ir...

--Mas eu não devo vêl-o mais...

--Porque não? Assim o amas?!

A Neta do Arcediago · 第 2 / 13 段