No final do seculo XV e no XVI empregava-se quasi constantemente, para

os tumulos arqueados, arcos postos a par, similhante a este exemplo que

damos: collocavam um certo numero de tumulos d'este genero ao correr das

paredes nas grandes igrejas.

[Figura 243: Arco duplo de um tumulo]

No seculo XV, encontram-se as pedras das campas cobertas por uma grande

quantidade de detalhes d'architectura, como se executavam nos tumulos em

vulto. O finado era representado occupando o centro de um historiado

portal, composto de nichos, dentro dos quaes ornam pequenas figuras de

santos em differentes alturas, ou então postas em nicho coberto por um

docel; gravura de pag. 248 [fig. 242].

*Cruz dos cemiterios*

No seculo XV, tinha-se lavrado muitas cruzes em pedra para se porem no

meio dos cemiterios, e o estylo das molduras caracterisa

sufficientemente a época da execução. Em algumas cruzes da Bretanha,

distinguem-se grupos de personagens bastante complicados, e de trabalho

muito mais apurado por serem em pedra muito rija.

[Figura 244: Cruz de Scaeb (Finisterra)]

*ARCHITECTURA CIVIL*

O caracter da architectura civil do seculo XV, emquanto ás molduras com

ornatos, é egual ao empregado na architectura religiosa.

*Architectura monastica*

A architectura civil monastica segue o gosto do tempo e adoptou-se nas

arcadas dos claustros, nas janellas ogivaes, com contornos curvilineos,

como já expuzemos quando fallámos da architectura religiosa.

[Figura 245: Fragmento d'um claustro do seculo XV]

Para comprovar, será sufficiente apresentarmos o desenho de um claustro

do fim do seculo XV, com os seus arcos a compartimentos em labaredas,

ficando como esmagados pelos frontões de ramalhetes, uns a par e esguios

[fig. 245B], os outros separados de varios segmentos, cujas curvaturas

são mui desagradaveis (fig. 245A, estampa da pag. 251).

As folhagens golpeadas com as quaes ornavam as curvaturas dos portaes,

são ás vezes vasadas com exaggeração, mas de aprimorada execução.

As janellas quadradas com pinasios de pedra multiplicam-se nos andares

superiores das construcções civis. Nota-se do mesmo modo tendencia a

pôr-se de parte o arco traçado por tres pontos, adoptando-se as

aberturas rectangulares, que vieram a ser quasi exclusivamente

empregadas um seculo depois.

O portal de entrada das abbadias e priorados ficava sempre collocado em

um pavilhão que tinha superiormente aposentos; emquanto á disposição

geral, era a mesma do seculo anterior.

*Paços de concelho*

Na segunda metade do seculo XV constituiu-se grande numero de novas

municipalidades, afim de enfraquecer cada vez mais o poder feudal e

todas as cidades rivalisaram entre si na edificação dos seus _paços de

concelho_, muito dos quaes subsistem ainda e apresentam uma serie de

edificios extremamente interessantes para se examinarem.

O campanario que lhe pertencia, veio a ser então uma torre elegante e de

extrema delicadeza, ornada de variados contornos, como as que se

executavam nas igrejas. Muitas das cidades applicavam quantias avultadas

para construir e ornar seu campanario, afim de que o vissem a grande

distancia, e tambem para dar maior importancia á sua representação.

A casa da camara de _Douai_, é da segunda metade do seculo XV, sendo

mais notavel pelo seu campanario que pela extensão ou elevação do

edificio municipal. A fachada municipal apresenta no plano terreo tres

portaes ornados de folhagens encrespadas, sendo a do centro maior que as

das duas outras.

[Figura 246: Casa da camara e campanario de Douai]

No segundo andar tem nove janellas em ogiva, ornadas de folhagens eguaes

ás que decoravam os portaes.

A attica, que está por cima do entablamento, é mais moderna, porque

pertence ao seculo XVII.

O campanario parece-se com uma torre de igreja, sendo rematada com uma

agulha elegantissima feita de madeira e coberta de chumbo, apresentando

varias ordens sobrepostas com frontões floreteados, e o maior numero

acabando em grimpas; quatro torrinhas circulares e em sacada occupam os

quatro angulos da torre na base d'essa agulha; e o telhado, de forma

conica, mostra quatro pequenas trapeiras egualmente coroadas por

cataventos.

A parle superior do campanario d'_Evreux_ compõe-se de uma torre com

faces arrendadas e de maior leveza, coroada por uma pyramide de madeira

coberta de chumbo.

[Figura 247: Campanario d'Évreux]

A parte inferior d'este campanario é mais antiga, pois que a elegante

pyramide arrendada que corôa o edificio, não pode ser obra além da

segunda metade do seculo XV; talvez trabalho dos artistas que fizeram a

pyramide central da cathedral, que é egualmente arrendada e de madeira

revestida de chumbo.

É util observar como são os feitios das sinetas que ha nos campanarios,

sendo algumas mui antigas; aquella d'_Arras_, é muito curiosa pela sua

bocca ter grande abertura. Tem a inscripção seguinte, que attesta ter

sido fundida em 1434:

LAN: M: CCCC: E: IIII JE: FULS FAIS.

Em muitos municipios não havia nem casa de camara, nem campanarios:

serviam-se do sino das torres da igreja, e era tambem na parochia que se

reuniam as assembléas municipaes.

*Hospicios*

Nas salas dos hospicios encontram-se no seculo XV e no XVI a disposição

que já indicámos na grande sala do hospicio de _Tonnerre_, e em outros;

esta disposição é tambem a mesma nos hospitaes d'esta epoca, em

Flandres. Porém limitemo-nos a citar um dos mais bellos monumentos

conhecidos d'este genero, o hospicio da cidade de _Beaune_, fundado em

1442.

A aza do meio-dia e a de leste eram divididas até a altura do telhado

por uma galeria com dois andares: o primeiro andar d'esta galeria, que

faz lembrar os claustros das abbadias, corresponde ás aberturas do plano

terreo; o segundo dava serventia aos quartos superiores, formando uma

especie de varanda, como era uso construirem-se em um sem numero de

casas de madeira dos seculos XV e XVI.

O telhado que cobre esta especie de attica, fica interrompido por

grandes trapeiras symetricamente collocadas em duas ordens differentes,

cuja disposição dá a esta parte do edificio a apparencia da decoração

oriental. As empenas formadas de tres resaltos com duas, tres e até

quatro aberturas, são compostas de madeiros reunidos de maneira

engenhosa; d'estas especies de frontões recortados se levantam outros

tantos grimpos formados por hasteas de ferro cobertas dos mais delicados

ornamentos de chumbo. Sobre a fileira veste um delicado arrendado do

mesmo metal.

[Figura 248: Especimen da aza meridional do hospicio de Beaune]

Na aza do norte, que tem frente para a rua, está situado o salão para os

doentes. Imagine-se uma espaçosa e magnifica nave com o seu santuario,

os quadros transparentes das suas vidraças de côres, a abobada

aquilhada, as vigas servindo de linhas do madeiramento e guarnições

pintadas com decoração simples, mas accusadas com franqueza; a grande

ogiva da abside, campas tumulares, tres altares do uso oriental,

tribuna, cadeiras do côro em forma de cubiculos com rendilhados, além de

duas filas de camas com docel: eis o quadro magestoso que offerecia á

vista, na origem, esta soberba sala.

Segundo o plano, que dâmos, comprehender-se-ha a disposição e a reunião

d'estas salas. No pateo havia um poço com armação de ferro, tendo uma

graciosa corôa sustentada por tres hastes de ferro, e rampas com ornatos

arrendilhados, as quaes reunidas ao centro formam um telhado conico.

[Figura 249: Plano do hospicio de Beaune]

O portal do hospicio do lado da rua (P), tinha como remate um lindo

alpendre, especie de baldaquino, em cima do qual, sobre pediculos,

estavam as estatuetas de Nossa Senhora, de S. João Baptista e de Santo

Antonio.

*Armazens--Depositos*

Os armazens e depositos continuam no seculo XV a apresentar construcções

extraordinarias e com grande elevação. Citaremos para exemplo o de

Nuremberg. A porta principal d'este vasto armazem é muito elegante; o

tympano tem um escudo de armas e a data da construcção, 1498. O primeiro

corpo d'este edificio, para o qual o portal dá saida para a rua, é o

mais elevado; sendo dividido até ao telhado, em tres andares, e em

quatro se comprehendermos os famosos subterraneos abobadados; depois

apresenta seis andares ou galerias sobrepostas umas ás outras.

[Figura 250: Vista exterior d'uma parte do armazem de depositos, em

Noremberg]

*Chafarizes*

Os chafarizes com feitio de urna não eram raros no seculo XV. O pedestal

d'onde saia a agua caia em tanques e apresentava fórmas bastante

variadas; construiam-nos algumas vezes em metal.

[Figura 251: Vista do chafariz de Cully (Calvados)]

Entre as fontes sómente com tanque, podemos citar a de _Cully_, cuja

nascente, corre por duas aberturas circulares, nas quaes se vê um

pequeno nicho com arcada de feitio trifolio.

*Palacios, casas e residencias campestres*

Muitos palacios nas cidades, e as grandes residencias campestres, que

encerravam todo o necessario para um estabelecimento agricola,

offereciam uma importancia tamanha como a dos edificios publicos.

O palacio de Jacques-Coeur, em _Bourges_, era um dos monumentos civis

mais sumptuosos da segunda metade do seculo XV. Citaremos ainda como

exemplo aquelle de _Cluny_, e grande numero de grandes palacios dos

seculos XV e XVI. Damos na pagina seguinte a vista geral de uma casa de

campo, onde a habitação senhorial está junta á propriedade rural.

N'estas residencias campestres onde se occupavam de agricultura, as

diversas casas para esse serviço cercavam o pateo, ora quadrado, ora de

forma irregular; e ahi estabeleciam as cocheiras, as cavallariças, os

celleiros e os curraes, além da habitação do proprietario.

Nos palacios e nas residencias do campo construidas de cantaria, a

escada ficava collocada mui frequentemente em uma torrinha saliente

sobre a fachada do edificio, grav. pag. 262 [fig. 253]. Esta torrinha de

arestas chanfradas era coberta com telhado em duas aguas, e para se

construir esse telhado davam á parte superior da torrinha a forma

quadrada, para o que era necessario fazerem-lhe duas abobadas pendentes,

afim de ligar os lados cortados com o quadrado de telhado.

As inclinações d'estes telhados eram guarnecidas de _crochets_ em

relevo.

Não obstante, havia outras torres que conservavam a mesma forma que

tinham na base até ao telhado.

As casas do seculo XV e do principio do XVI, são ainda hoje muito

numerosas nas cidades das provincias, as quaes não soffreram, como na

capital, transformação completa; apresentam inteiramente os mesmos

detalhes na ornamentação, como havia nos outros edificios da mesma

época. As esculpturas dos cardos postos nas linhas inclinadas, as folhas

de repolho encrespadas, e outras molduras similhantes, ornavam os

portaes em ogivas, e algumas vezes tambem as cornijas. As paredes

divididas em almofadas guarneciam parte d'ellas.

[Figura 252: Grande solar com casas de exploração rural em Cully

(Calvados)]

As janellas, quasi todas quadradas e subdivididas por uma cruzeta de

pedra, tinham em roda muitos renques de nervuras prismaticas; um cordão

descançando sobre caryatides lhe servia de remate.

As janellas abertas no madeiramento, ou trapeiras, eram coroadas por

frontões pyramidaes extremamente delicados e por vezes acompanhados de

contrafortes ou arcos butantes com recortes e pinaculos cheios de

_crochets_ e lavores. Este systema de ornamentação existiu durante a

primeira metade do seculo XVI. Encontramos um bello especimen no palacio

de justiça em Ruão.

[Figura 253: Torre e escada sustentada por abobadas pendentes]

Em certos sitios, onde seria facil achar-se boa pedra, as casas de

madeira foram menos numerosas que as casas construidas de cantaria.

[Figura 254: Palacio de Justiça de Ruão]

[Figura 255: Casa de cantaria em Saint-Pierre-sur-Dive]

N'aquellas que ainda existem, os andares são bastante salientes, ficando

em sacada uns sobre os outros, e as partes reentrantes, que apparecem no

comprimento da edificação, são ornadas com molduras. Nas gravuras das

paginas 266 [fig. 256] e 267 [fig. 257] vêem-se essas sacadas

progressivas dos andares uns sobre os outros; nas cidades de grande

população viam-se muitas vezes dois andares superiores ao rez-do-chão, e

um terceiro andar posto ainda sobre o telhado, o qual recebia luz por

grandes trapeiras. O maior numero das casas particulares tinha a empena

voltada para o lado da rua; esta disposição era menos frequente nos

palacios ou nas habitações das pessoas abastadas.

Damos, por exemplo, duas casas do fim do seculo XV, construidas de

cantaria, primeiramente aquella que existe em S. Pedro-sur-Dive, pag.

264 [fig. 255], na margem do rio, e dependentes do mosteiro dos

benedictinos: suppõe-se que serviam de tribunal de justiça d'aquella

ordem. A torrinha octogona que guarnece os angulos encerra um oratorio

muito elegante. As vigas apparentes do tecto das casas, principalmente

as das grandes salas, eram ornadas com obras de talha no gosto da época.

A outra casa é mais consideravel com pateo no interior, o qual mostra

galerias e escadas com corrimões de pedra rendilhados, communicando com

differentes andares, pag. 266 [fig. 256]. A disposição e a parte

saliente d'essas galerias produzem n'essas construcções (como em muitas

outras, em que o risco é quasi egual), o seu melhor e mais pittoresco

efeito. Ás vezes tambem no plano terreo ha arcadas em roda dos palcos.

As duas casas de madeira do _Poids-Royal_, em São Ló, foram construidas

em 1494, e a outra que ainda existe pertence a _Honfleur_.

*Taboletas e esculpturas emblematicas*

Nas casas construidas de madeira, sobre os prumos dos angulos era que

muitas vezes se esculpiam as figuras emblematicas para servirem de

taboleta, como a de _S. Julião do Sault_, em França. Na praça vê-se

outra casa que no seculo XV servia de hospedaria, onde ha esculpluras

symbolisando a applicacão que tem a casa; no cunhal do norte, collocaram

uma figura de rosto jovial e como offerecendo com uma das mãos um

cangirão e com a outra um copo, em que parece convidar a provar do vinho

da adega. Por cima, em duplo nicho, via-se a imagem de S. João com o

cordeiro e a pelle do camello; e tambem a imagem de S. Thiago de

Compostella com o seu bordão e chapêo de peregrino, allusão bem evidenle

ás viagens e aos viajantes.

[Figura 256]

[Figura 257: Casa de madeira do Poids-Royal, em Saint-Lo]

[Figura 258: Casa de madeira, em Honfleur]

[Figura 259: Esculpturas sobre uma casa de madeira, em

Saint-Julien-de-Sault (Yonne)]

No outro cunhal apparece a imagem de Santa Barbara com o livro, a torre

e a palma do martyrio, e na parte inferior a imagem da loucura

representadas em alto-relevo; a presença d'esta ultima figura

equivaleria a ter certamente o seguinte letreiro: _Aqui ha diversões e

abrigo para os viajantes_.

[Figura 260: A cruz de ferro de Saint-Quentin]

Juntemos que as taboletas salientes postas da parte de fora das casas,

estavam seguras a braços de ferro, mais ou menos ornamentados, os quaes

eram bem acceitos no fim do seculo XV. Uma _cruz de ferro_ muito antiga

que servia de taboleta á casa que tinha esse mesmo nome, estava

collocada proximo dos paços da camara de S. Quentin: essa cruz tinha as

extremidades do feitio de ancora, executada no estylo chammejante.

*ARCHITECTURA MILITAR*

Os progressos da civilisação dispuzeram cada vez mais os poderosos e os

nobres para darem ás suas residencias aspecto menos severo, tornando-as

mais commodas, diminuindo-lhes as altas muralhas que as desfeiavam e

pareciam isolal-as das povoações circumvisinhas.

Uma circumstancia bastante poderosa fizera diminuir, além d'isso, a

importancia dos antigos castellos, cuja fortaleza consistia

principalmente na altura das muralhas: queremos fallar do uso da

artilheria e das armas de fogo que veio a ser geral no seculo XV. As

elevadas torres com seteiras, e trincheiras formidaveis, não podiam

resistir ao fogo das peças; conjecturou-se que o systema de defensa

seria transformado em pouco tempo, e que uma revolução ia introduzir-se

na arte de guerra; então devia ligar-se muito menos importancia ao que

dera antes tanta força ás praças fortes e aos castellos feudaes.

Todavia, grande numero de castellos pertencentes á segunda metade do

seculo XV apresentava ainda na parte exterior certa apparencia de força;

a entrada era defendida por torres com portas e pontes levadiças; as

muralhas guarnecidas tambem de torres e besteiras.

*Forma geral*

A forma mais geral no fim do seculo XV, foi a quadrada. Havia fortalezas

cujas casas rodeavam completamente o pateo central; em outras

construcções não occupavam mais do que os tres lados do quadrado,

ficando o quarto fechado por um muro. Outros castellos occupavam sómente

um dos lados do recinto. Os fossos, que cercavam estes castellos, sem

agua, tinham geralmente pequena profundidade;--seria pois um obstaculo

mui facil de transpôr.

Na verdade, no seculo XV, _não procuravam já os logares mais eminentes

para se estabelecerem os castellos_; tinham reconhecido os

inconvenientes, de mais um genero, causados por essas elevadas posições,

sempre com entrada dificil, e por isso haviam _descido para as planicies

e os valles_, onde a agua, tão útil ás necessidades da vida, se

encontrava com abundancia.

[Figura 261: Detalhes do castello de Montsereau]

*Ornamentação*

No interior, os castellos não se differençavam quasi nada dos palacios,

das casas nobres construidas nas cidades.

Eram, além d'isso, as molduras inteiramente similhantes áquellas que

apresentamos na archilectura religiosa e civil da mesma época, taes como

nervuras prismaticas muito multiplicadas, arabescos, folhagens

profundamente indicadas, _crochets_, almofadas, arrendados nas pedras,

grandes folhas reviradas, cujo movimento fazia lembrar a forma de uma

cabeça de elephante, pinaculos apoiados na construcção, nichos,

torresinhas pendentes, etc. etc. etc. Até os telhados não ficavam sem

ornatos, sendo o espigão guarnecido de cristas, de _crochets_, ou

diversas molduras executadas em chumbo; acima dos telhados conicos das

torres apresentavam egualmenle pinaculos as espigas imitadas no chumbo,

no ferro ou em argilla.

As seleiras firmavam-se em construcções salientes e em falso, das quaes

podiamos apresentar muitas variedades, além dos exemplos que damos a

pag. 272 [fig. 261].

Melhoraram as construcções antigas, reconstruiram as portas pondo-lhes

pontes levadiças de balanço, cujo uso veiu a generalisar-se; e

augmentaram, melhoradas, as muralhas que eram rematadas por não

interrompida fileira de seteiras, que ás vezes fechavam o recinto.

Todos os castellos existentes nas margens do _Loire_ pertencem á segunda

metade do seculo XV.

As duas torres, de que damos os desenhos na pag. 274. [fig. 262] são

tiradas do castello de _Langeais_, e a outra do de _Plessis-Bourré_,

quasi similhantes; mostrando o gosto d'aquella época, aliás mui

elegante.

A parte cylindrica da torre eleva-se para formar um andar (B), por cima

da galeria das besteiras (A), de maneira que a torre era dividida em

duas partes em logar de ser coberta pelo mesmo telhado. Este systema,

consistindo em estabelecer assim muitos andares de defeza pelas torres e

tambem pelos muros entre os baluartes, fora adoptado desde o XIV seculo;

porém mais geralmente empregado no XVI; posto que, em algumas partes,

sejam vistos os dois systemas de construcções no mesmo castello.

[Figura 262: Uma das torres do castello de Langeais]

[Figura 263: Uma das torres do castello du _Plessis-Bourré_]

Os castellos, que citamos, cujas datas são verdadeiras, apresentam-nos o

typo de muitos outros edificios em diversas localidades, durante a

segunda metade do seculo XV e nos primeiros annos do XVI seculo.

[Figura 264]

CAPITULO VII

*ESTYLO DO RENASCIMENTO*

Chama-se _Renascimento_, a arte que voltou a tomar as fórmas antigas da

architectura, como se a arte tivesse ficado _paralysada_ durante a era

ogival ou roman.

O estylo ogival, que percorrêra os diversos periodos de aperfeiçoamento

e de generação, chegava então ao seu termo, durante o segundo quartel do

seculo XV. A arcada traçada por tres pontos ficava abandonada no XVI,

para se reproduzir com a volta inteira, que igualmente fôra antes posta

de lado pela introducção da ogiva desde o seculo XII: portanto, uma

extraordinaria revolução ia pois operar-se na architectura.

As guerras dos francezes na Italia em tres successivos reinados, levaram

a flôr da nobreza áquelle paiz, e ahi recebeu ella o gosto de tudo, que

o renascimento italiano produzira nas artes e nas letras; o genio de

innovação e reforma que tanto agitava a republica, não sómente os

artistas, mas tambem os theologos, preparára os espiritos para esta

grande mudança.

Porém, a architectura chamada do _Renascimento_ não foi geralmente

empregada nas construcções religiosas do XVI seculo. A fórma da ogiva

tinha recebido para estes edificios uma especie de consagração, e muito

tempo depois da adopção do estylo classico para as construcções civis,

fôra preferida depois para os monumentos religiosos, e até do seculo

XVII se encontram exemplos do emprego da ogiva. Na verdade, estava então

o estylo ogival privado dos seus ornamentos, mostrando grande pobreza

decorativa; apparecia apenas o esqueleto do antigo estylo; porém a ogiva

era ainda usada sómente para as janellas e arcadas.

Poderiamos citar centenares de igrejas edificadas n'este estylo, quando

o do Renascimento ostentava já todo o seu brilho nos palacios

acastellados e nas construcções civis.

Como quer que fosse, as construcções do Renascimento foram mais civis

que religiosas: isto é, construiram-se n'este estylo menos igrejas que

palacios e casas.

*ARCHITECTURA RELIGIOSA*

*Plano das igrejas*

O plano das igrejas do seculo XVI foi pouco mais ou menos o mesmo que no

seculo antecedente.

*Monumentos*

As almofadas e frizos, as pilastras e os outros membros architectonicos

foram cobertos de grande profusão das imitações do reino animal e

vegetal. Genios representando amor, figuras diversas, muitas de

phantasia, se entrelaçavam em contornos caprichosos; porém sempre em

combinações graciosas que foram chamadas _arabescos_, denominação

extravagante, porque os arabes proscreveram a natureza animada das suas

obras de imitação.

A igreja de Semur offerece-nos magnificos arabescos. Os arabescos, para

nos servir d'este termo improprio, que tem prevalecido, eram imitação

das decorações a fresco que se acharam em muitos monumentos antigos, e

que se vêem ainda hoje nas galerias e abobadas sombrias dos banhos de

Tito, em Roma.

*Janellas*

Muitas vezes as _janellas_ eram de volta perfeita, e sem cruzetas de

pedra; as portas e arcadas igualmente tinham a fórma semicircular.

[Figura 265]

A janella, que representamos, foi tirada da igreja de S. Pedro de Caen,

apresentando o estylo do Renascimento mais bem caracterisado, não

sómente na sua fórma, mas igualmente nos seus accessorios (contrafortes,

pilastras, campanariosinhos, candelabros, etc., etc.), nas figuras, nos

modilhões, os quaes formam o remate; e nos entablamentos com balaustrada

que corôa o edificio. Esta balaustrada com os seus graciosos

entrelaçados e com as figurinhas nuas, reproduzem um dos typos d'este

genero mais elegantes do XVI seculo.

Do mesmo modo que no seculo XII, uma architectura de transição se formou

quando deixaram o arco ogival: apparecia outra que tornava a usar a

volta inleira, resultando d'ahi um estylo mixto pelas combinações das

fórmas classicas com os ornamentos do seculo XV. A volta perfeita da

architectura romana, ostentava-se então coberta de vistosos enfeites do

estylo ogival, e a ogiva ligava-se aos arabescos e frontões antigos.

A janella da igreja _de-la-Ferté-Bernard_ (França) dá-nos um exemplo

d'este mixto architectonico, apresentando-nos divisões no estylo do

Renascimento, no meio de uma grande ogiva lavrada com molduras no estylo

do seculo XV: pag. 280. [fig. 266]

*Abobadas*

[Figura 266: Uma janella da igreja de la Ferté-Bernard]

Noções elementares de archeologia · 第 11 / 13 段