Como especimen de uma entrada de abbadia, quasi sempre composta de duas

portas, uma para os carros, a outra para as pessoas, apresentamos a que

pertencia ao priorado de _S. Vigor_, próximo de _Bayeux_. As portas

tinham geralmente um aposento construido por cima d'ellas.

A _pretoria_, onde se julgavam as causas e as prisões (pois os abbades

tinham muitas vezes a alçada judicial), ficavam quasi sempre junto da

porta da entrada, e o _pretorio_ occupava algumas vezes o primeiro

pavimento.

*Dioceses*

As dioceses foram dispostas no seculo XIII como tinham sido no seculo

precedente, havendo-se aproveitado os progressos architecturaes.

Daremos, para exemplo d'isso, a soberba empena da diocese de _Auxerre_,

edificada em 1250 a 1260; os restos que ainda subsistem do palacio do

bispo de _Laon_, e sobretudo a grande sala construida em 1242; o pateo

d'este palacio era quasi quadrado.

[Figura 192: Entrada da abbadia de Saint-Vigor]

[Figura 193: Empena da diocese de Auxerre (1250 a 1260)]

*Mercados*

As casas para os mercados do seculo XIII, apresentavam a mesma

disposição que as do seculo XII. Damos para exemplo a empena do grande

mercado de _S. Pedro-sobre-Dive_, que se assemelha a uma grandiosa

granja. Pode-se attribuir unicamente ao seculo XIII a parte que mostra a

gravura, pois que se fizeram obras nas outras partes e em diversas

épocas.

[Figura 194: Entrada do mercado de Saint-Pierre-sur-Dive]

*Hospicios*

A disposição dos _hospicios_ era a mesma que no seculo precedente, porém

multiplicavam-se e desenvolviam-se bastante n'este seculo. Certos

hospicios estavam edificados junto das cathedraes, e quasi em contacto

com ellas; outros ficavam sempre collocados proximo de um rio, embora

fosse da parte de fóra das fortificações, ou no interior d'ellas e junto

das portas, sendo mais particularmente destinados para os viajantes.

A grande sala do hospicio de Bayeux, reconstruida pelo bispo Roberto de

Ableges, ficou infelizmente destruida em 1823; mas ainda se lembram que

eram as abobadas de fórma ogival, e que tinha columnas monocylindricas

para as sustentar, dividindo longitudinalmente a grande sala. A linda

capella do seminario actual, um dos mais bellos executados no seculo

XIII, formava uma dependencia do hospicio que devia ter tambem claustro.

A sala do hospital da misericordia de _Chartres_, estava dividida por

columnas, e na extremidade oriental tinha um altar onde se dizia a missa

para os doentes: nos outros hospicios mais importantes tambem existia um

altar para o mesmo piedoso fim. Pederiamos citar outros hospicios dos

ultimos annos do seculo XIII com receio de que desappareçam todos d'aqui

a alguns annos, pois é certo que se os municipios continuarem a destruir

tudo o que fôr antigo, para levantar edificios com grandes quantias,

obtidas por meio de emprestimos, unicamente pela pretensão de ser cousa

determinada pelas autoridades da actual geração, nada teremos que seja

digno de considerar-se pelo lado da arte, nem pela veneração dos

monumentos; porque não só não respeitaram as condições architectonicas,

o que é facil de demonstrar tambem nas restaurações dos edificios

monumentaes em Portugal, assim como nas construcções modernas, taes como

a do hospital no Algarve, e o lazareto; mas sobretudo motivado pelo

desprezo e falta de inspecção das antiguidades nacionaes.

*Campanarios e casas da camara*

Quando no fim do XIII seculo a organisação dos municipios veio a ser

geral, então as cidades tiveram um brazão e uma torre ou campanario,

cujo sino servia para chamar o povo a assistir ás deliberações

municipaes.

As casas das camaras foram geralmente collocadas junto das portas das

cidades no seculo XIII. O sino era montado em torre construida por cima

das abobadas do portal, ou nas proprias torres que flanqueavam essa

entrada.

Pelos fins do seculo XIII as casas das Camaras comprehendiam egualmente

mercados cobertos, os quaes vieram depois a ser edificios consideraveis

nas cidades commerciaes, como está representado na gravura do edificio

de _Ypres_, pag. 193 [fig. 195], posto que fosse concluida sómente em

1304, começando a construcção em 1200. É na verdade magnifico palacio.

*Pontes*

Existem ainda muitas pontes do seculo XIII. Ha outras de que se não

sabem as datas, mas que talvez sejam da mesma época, como a da gravura

da pag. 194 [fig. 196] parece indicar.

A soberba ponte de _Cahors_, defendida pelas suas tres torres, é uma das

mais bellas do XIII seculo, e ainda se conserva a sua solida

construcção.

*Casas particulares*

Nas construcções particulares empregavam madeira ou cantaria. As casas

de madeira, muito mais vulgares que as outras, eram construidas com

madeira apparente: ornavam os paus de prumo, os transversaes, todas as

peças de samblagens; depois enchiam com argamassa os intervallos,

deixando visivel toda a construcção executada em madeira. A base era

quasi sempre feita de cantaria para evitar que a humidade apodrecesse a

madeira.

[Figura 195: Casa da camara e campanario da cidade de Ypres]

[Figura 196: Ponte do seculo XIII]

[Figura 197: Vista geral da ponte de Cahors]

Vêem-se ainda algumas casas de cantaria do seculo XIII nas cidades pouco

povoadas, onde não chegou, felizmente, a mania da destruição ignara.

Damos a vista de uma d'essas construcções para mostrar como eram

executadas as galerias cobertas com alpendres, que cercavam as praças, e

tambem as ruas mais frequentadas.

[Figura 198: Casa do seculo XIII em Arras]

*ARCHITECTURA MILITAR*

Se o genio da architectura contribuira com as suas mais bellas e mais

perfeitas inspirações, na composição d'essas admiraveis cathedraes que

têem justamente appellidado a _grande epopeia de pedra_, o poder feudal

fecundará egualmente o talento dos architectos do seculo XIII.

Se as magestosas cathedraes excitam a admiração e enchem a alma de

commoções religiosas; os castellos de Coucy em França, e os de Leiria e

Palmella em Portugal, com as suas torres colossaes, não deixam menos em

nós esse sentimento, sem duvida contemplando o formidavel aspecto de

taes edificações.

*Forma geral*

A fórma ou disposição geral dos castellos do seculo XIII foi, como

aconteceu antes, subordinado á do terreno conforme se firmasse sobre o

cimo de um rochedo, ou sobre uma planicie cercada de valles e barrancos.

Nos paizes formados por planicies, preferia-se a fórma quadrilonga;

encontrando-se em roda dos dois recintos, os mesmos trabalhos de defeza

que costumavam ter as fortalezas do seculo XII.

[Figura 199: Vista do torreão de Coucy]

*Torre ou torreão*

Se appareceram ainda no seculo XIII torreões quadrados, eram elles mais

restrictos que os construidos nos seculos XI e XII; porém, mais

geralmente, tinham a fórma cylindrica nos que se construiram no centro

da França. Fosse qual fosse o logar escolhido para a torre principal,

ficava sempre isolada e rodeada de um fosso, sendo unicamente accessivel

por meio de uma ponte levadiça.

A contar do XIII seculo, não as erguiam sobre as eminencias das terras

ou pelo menos não as dispunham ali senão raras vezes, e só nos logares

onde a falta de bons materiaes obrigava a recorrer a este meio para

augmentar a altura dos edificios: talvez que os torreões do seculo XIII,

assentes em eminencias, estejam por este modo collocados, pelo menos o

maior numero, porque substituiram as torres mais antigas construidas nos

mesmos terrenos.

*Aposentos*

[Figura 200]

As casas que ficavam proximas do torreão, tomaram nova extensão. O luxo

havia sensivelmente augmentado: foi preciso portanto fazer aposentos

mais espaçosos, vastas salas de recepção, do que se póde fazer idéa pela

gravura da vista geral do antigo castello de Coucy, a pag. 198 [fig.

200]. Algumas d'estas salas eram magnificas, tinham janellas de fórma de

_lanceta_, com vidraças pintadas representando brasões ou espelhos, com

divisões de differentes côres; o chão formado com tijolos vidrados.

*Torres nas muralhas das cidades*

A fórma cylindrica prevaleceu para as torres das muralhas da cidade,

como para os torreões; os architectos do seculo XIII mostraram-se mui

habeis na regularidade e na solidez d'essas bellas pyramides que se

elevaram como fortes columnas para consolidar as muralhas e garantil-as

contra os ataques dos estranhos e inimigos. As torres eram divididas em

dois ou tres andares por sôlhos postos sobre vigamentos, algumas vezes

abobadados de cantaria (mas nunca com tijolos), e terminadas por

galerias com seteiras.

As torres cylindricas deviam resistir melhor aos ataques das machinas do

que as torres quadradas; as suas superficies convexas apresentavam em

todos os pontos a mesma solidez; a introducção das abobadas de ponto

subido em ogiva devia além d'isso fazer abandonar esses extensos

torreões com sobrados planos: acharam mais simples abobadar as torres e

consolidar as abobadas servindo-se de arcos apoiados em columnasinhas,

ou em caxorros postos em egual distancia uns dos outros, e formando nos

aposentos uma decoração analoga áquellas das egrejas. Finalmente, os

telhados conicos dos torreões cylindricos apresentavam menos superficie

e menos perigo, em tempo de sitio, que os telhados a quatro aguas dos

grandes torreões quadrados, que eram tambem ás vezes incendiados pelos

fachos lançados da parte de fóra.

A grande transformação que se operára na architectura em geral, pelo

descobrimento do estylo ogival, devia reagir sobre a architectura

militar: foi preciso pois dar maior elevação aos andares, pôr as torres

em harmonia com as outras construcções. Esta mudança, além d'isto,

estava tão intimamente ligada com a introducção do estylo ogival que se

vê a fórma quadrada presistir nas regiões da França e de Portugal, que

conservaram o estylo _roman de transição_, e ao mesmo tempo com o estylo

ogival; foi principalmente no reino de França, onde a architectura

ogival appareceu tão bella no seculo XIII, que os torreões cylindricos

apresentavam as suas agradaveis fórmas e proporções.

*Apparelhos*

O apparelho que se distingue pela denominação de _mediano_ encontra-se

nas torres e nas muralhas do seculo XIII: porém, as pedras variam de

dimensões conforme a natureza dos materiaes empregados. Em _Coucy_, onde

estas pedras são de sufficiente grandeza e perfeitamente apparelhadas,

eram consolidadas as paredes com vigas encastradas na alvenaria, como

fôra uso nos seculos precedentes. Algumas torres, cujos revestimentos

são em pedra tosca, tem todavia fiadas de cantaria em differentes

alturas, como se fossem faixas de tijolos, e mostrando por este modo

especies d'aros na elevação das torres. A gravura junta mostra esta

disposição.

[Figura 201]

*Janellas*

No exterior dos edificios, as _janellas_ mostram muitas vezes o feitio

de simples frestas chamadas _seteiras_, porque se podiam lançar por

ellas frechas sem receiar as que viessem de fóra. Algumas d'estas

janellas, demasiadamente rasgadas na parte interna, são ornadas de

columnas de cada lado, e de molduras com _tóros_ ou _nervuras_, como se

fazia nas das igrejas. Nos logares menos expostos aos ataques, no

interior dos pateos, encontram-se janellas bipartidas, encaixilhadas em

_lancetas_; as grandes salas dos castellos recebiam do mesmo modo

claridade. Ahi a extremidade da ogiva era tapada com cantaria: de

maneira que as aberturas ficavam de fórma quadrada.

*Portas*

As grandes portas flanqueadas de duas torres, na entrada das praças

fortes, tomaram tambem nas arcadas a fórma ogival; estando algumas vezes

munidas de duas pontes levadiças; uma manobrando por detraz da ponte

levadiça A, e a outra collocada na extremidade opposta da passagem de

abobada, para o interior do recinto C. Habitualmente, não se podia

communicar da porta com as duas torres lateraes: a entrada para ellas

estava situada dentro do _baylum_, isto é, no primeiro recinto.

[Figura 202]

As portas das torres e das casas situadas no interior dos castellos,

mais pequenos que os precedentes, eram ornadas de molduras e de

columnas, mas nunca apresentavam as repetidas archivoltas como as das

portas de entrada das igrejas de igual época, e não se via n'ellas

nenhuma ornamentação.

*Molduras*

As molduras, que se usavam nos castellos do seculo XIII, eram do mesmo

feitio que aquellas empregadas na architectura civil d'aquella epoca.

A pintura sobre as paredes veio auxiliar a esculptura para a decoração

dos castellos, e as grandes salas tinham muitas vezes cobertas as suas

paredes.

*Recintos urbanos*

Sabe-se que grande numero de cidades e grandes povoações foram elevadas

a municipios nos seculos XII e XIII. Esta instituição, uma das mais

importantes revoluções sociaes da edade média, produziu mudanças

extraordinarias na importancia relativa e no estado material das

cidades.

Pouco depois o espirito da industria se reanimou, o commercio veio a ser

objecto de séria attenção, e principiou a prosperar; a população

augmentou sensivelmente, e a riqueza appareceu nos logares que estiveram

por muito tempo servindo de asylo da pobreza.

Então as cidades se engrandeceram e aformosearam.

A maior parte ficou rodeada de muralhas, e aquellas que as tinham já

alargaram o seu antigo recinto.

El-rei D. Fernando I cingiu Lisboa com uma nova cintura de muralhas de

que existem ainda alguns vestigios. Em Coimbra tambem foram reedificadas

por ordem do mesmo monarcha.

As torres, quasi sempre cylindricas nos outros paizes, foram dispostas

ao correr das muralhas das cidades, seguindo a fórma da construcção

adoptada para esse fim.

Quando estas eram postas em estado de defensa, então viam-se coroadas

por essas galerias salientes feitas de madeira, de que a torre de Laval

[fig. 162] apresenta um bello exemplo. Por meio d'estas sacadas de

madeira chamada _hurdicium_, podia-se dominar o pé das fortificações, e

lançar pedras e outros projectis sobre os sitiantes, pelos intervallos

abertos dispostos entre as vigotas que sustentavam o parapeito em falso.

Esses remates de madeira podiam ser incendiados, e os engenheiros do

século XIII procuraram o modo de substituir a pedra á madeira. Portanto,

a grande torre de Coucy tinha caxorros formados de cantaria em que

apoiava a galeria que seria naturalmente de madeira, ficando

correspondente ás aberturas do ultimo andar; podiam citar-se outros

exemplos de tentativas feitas para substituir a pedra á madeira. Foi

sómente no seculo XIV que este melhoramento veio a ser geral.

O recinto d'_Aigues-Mortes_ apresenta a fórma de um parallelogrammo

rectangular; o maior numero das torres era semi-circular no exterior da

muralha, e quadrada no interior, de maneira que apresentava pouca sacada

sobre o baluarte interior e formava linha com elle, levantando-se a

certa altura acima do parapeito. As portas principaes abriam-se entre as

duas torres; o intervallo que existia entre estas ultimas era occupado

pela sala onde se içavam as pontes levadiças; em cada ponte havia duas:

uma para a porta exterior, e outra para a porta interior.

[Figura 203: Uma das portas d'Aigues-Mortes]

Tinham boas escadas, cujos degraus descançando nas abobadas com a volta

de quarto de circulo, deixavam subir á trincheira de cada lado das

grandes pontes.

[Figura 204: Muralhas e torres d'Aigues-Mortes--Vista do interior da

praça]

As abobadas das torres eram guarnecidas de arcos encruzados. Algumas

chaminés existem ainda nas salas que ficam por cima das pontes de

entrada: o cano por onde saía o fumo tem a configuração octogona.

Sabe-se que estas bellas fortificações foram levantadas por Philippe o

_Ousado_ (1270-1285); pertencem pois ao fim do seculo XIII.

As pontes levadiças moviam-se por meio de vigas servindo de alavancas,

ás quaes o taboleiro estava suspenso. Não se encontraram vestigios das

caixas nas quaes entravam as vigas ou alavancas para ficarem os madeiros

recolhidos: este systema julga-se fôra geral, sómente nos seculos XIV e

XV.

[Figura 205: Uma das portas do recinto da muralha de Laon]

A ponte levadiça, que se abaixava detraz das portas correndo por uma

calha aberta na cantaria, tinha por fim multiplicar os obstaculos;

fazendo-a mover do aposento que ficava por cima d'esta porta, e aquelles

que se deixavam apanhar entre as pontes levadiças podiam ser esmagados

da parte superior, ou trespassados de frechas atravez das grades de

resguardo.

Quando os rios passavam pela parte de fóra das muralhas, e que se tinham

aproveitado para servirem tambem como meio de defensa, as pontes tinham

nas extremidades dois fortes; um para defender a entrada da ponte, o

outro para deter a tropa que a quizesse transpôr; estas obras de

fortificação, chamadas _cabeças de ponte_, compunham-se, ás vezes, de

muitas torres e formavam um pequeno quadrado defendido de todos os

lados. Acontecia tambem, quando a ponte tinha certo numero de arcos, o

ultimo de cada extremidade não era abobadado, havendo uma ponte de

madeira que descançava sobre os seus pilares.

[Figura 206: Porta guarnecida de grades]

Havia em determinadas localidades torres collocadas sobre a ponte, como

se vê na gravura da ponte de _Cahors_.

[Figura 207: Vista de uma cabeça de ponte]

CAPITULO V

ERA OGIVAL SECUNDARIA

*ARCHITECTURA RELIGIOSA*

*Forma das igrejas*

Notavel mudança se introduziu no seculo XIV no plano das igrejas pelo

accrescimo de um renque de capellas ao longo de cada um dos lados das

naves. As capellas, que formam de certo modo o complemento dos templos

da idade média foram, n'essa época, construidas depois das obras

completas da edificação dos templos, grande numero de igrejas e muitas

cathedraes do século XIII; a contar do seculo XIV, deu-se muitas vezes á

capella terminal, consagrada á Virgem, maiores dimensões que d'antes.

Contrariamente ao que se fazia em o norte, no sul e no sudoeste de

França, muitas igrejas do século XIV não tinham naves lateraes, mas só a

nave principal; o côro não tinha, como annos depois, a separação da

galeria no arco triumphal, e as cadeiras do côro que a dividiam do resto

da igreja.

Em logar de naves lateraes, formaram capellas rectangulares entre os

pilares dos contrafortes que recebem os arcos das abobadas. Fez-se

então, por cima d'essas capellas, tribunas correspondendo exactamente a

estas, recebendo luz de compridas janellas com duas ou tres aberturas e

no cimo ornadas de triflorios moldurados; porém, no maior numero de

casos, não tinham ornato algum. Comprehender-se-ha melhor esta

disposição pela gravura da pag. 211 [fig. 210] dos dois vãos da

cathedral de _S. Bertrando de Comminges_ (França).

[Figura 208: Plano da cathedral de Bayeux _a_. Capellas annexas do lado

do norte.--_b_. Capellas annexas do lado do sul.]

[Figura 209: Plano de uma igreja do sul da França sem naves lateraes]

[Figura 210: Dois vãos com arcadas da cathedral de

Saint-Bertrand-de-Comminges]

Portanto, no seculo XIV, as igrejas do meio-dia raras vezes tinham o

_triforium_ e o _clerestory_, que occupavam os dois terços da altura das

paredes lateraes. A mesma disposição foi seguida nos seculos XV e XVI.

*Contrafortes*

A largura consideravel que deram no XIV seculo ás janellas do

_clerestorium_, e a pouca resistência que as paredes com aberturas

arrendilhadas apresentavam então ao encontro das abobadas, obrigou a

fortificar as paredes situadas entre as janellas, empregando maior

esmero no trabalho dos arcos-botantes. O contraforte servia tambem nos

edificios do norte de apoio para dois arcos-botantes, sobrepostos, como

se vê na cathedral de Amiens em França, na Batalha em Portugal, etc.

As torrinhas não tinham sómente por fim formar o remate do contraforte;

serviam tambem pelo _seu peso_ para consolidar ainda mais o esforço das

abobadas e os outros produzidos pelos proprios arcos-botantes.

Nos paizes meridionaes, a falta das naves lateraes, como já mencionámos,

ao correr da nave principal, evitou construirem-se arcos-botantes;

porque os contrafortes elevavam-se verticalmente até ao cimo das

paredes, apresentando muitas vezes grande saliencia. A curiosa igreja

dos jacobinos de _Toulouse_, de que damos a vista lateral, pag. 213

[fig. 211], é um exemplo que faz vêr esta disposição habitual do emprego

dos contrafortes executados no meio-dia em França. Esta igreja,

construida inteiramente de tijolos, é uma das mais ousadas construcções

que se conhecem.

O emprego do tijolo concorreu para se fazerem modificações nas fórmas

das aberturas e n'aquellas dos ornamentos; e, n'este caso,

principalmente pela influencia dos materiaes, por tal modo, que o

investigador estranho ao paiz ficaria realmente muito perplexo quando

lhe fosse preciso determinar uma data para indicar a época d'estas

construcções, cujas ogivas são tão semelhantes durante muitos seculos.

[Figura 211: Igreja dos Jacobinos de Toulouse, inteiramente construida

de tijolos]

*Ornamentos*

A maior parte dos ornamentos do seculo XII, vê-se que passaram sem

alteração para o seculo subsequente.

As folhagens, de que já apresentámos typos, quando tratámos da flora

mural, e que ornam muitas vezes os monumentos do ultimo meado XIII

seculo, caracterisam de igual maneira as decorações do principio do XIV.

Pondo de parte essas analogias, as molduras apresentam na execução certa

differença no seculo XIV, principalmente na ultima metade. Se por

ventura se nota, em geral, maior perfeição na _pratica_ das esculpturas,

encontra-se tambem alteração nas fórmas: os tóros não tem já a mesma

rotundidade, nem a sacada que os distinguia no XIII seculo; em uma

palavra, já não é a obra feita sob a antiga direcção. Estas differenças

são mais faceis de descobrir com a vista do que em minuciosa descripção.

Eis aqui desenhados alguns capiteis do seculo XIV com a sua ornamentação

vegetal.

[Figura 212: Capiteis do seculo XIV ornados de folhagens]

[Figura 213: Amores-perfeitos e myosotis]

[Figura 214: Folhas de rainunculos]

*Arqueaduras na ornamentação*

Os arcos continuos servem de remate aos frontões triangulares; e ás

vezes são ornados com enfeites de fórma de _colchetes_.

[Figura 215]

Vêem-se tambem as paredes ornadas com estas _arqueaduras fingidas_

collocadas em ponto muito elevado, subdivididas por delicados pinasios

de pedra, tendo o cimo com rendilhados como se executavam nas janellas.

Este genero de decoração foi muitas vezes empregado sobre grandes

superficies lisas, principalmente no fim do XIV seculo e no seculo

seguinte.

Os _colchetes_ eram collocados mais profusamente sobre os logares que já

designámos, ficando menos separados uns dos outros, como se praticava no

seculo XIII. Alguns se transformavam em folhas largas arqueadas.

*Triforium*

No seculo XIV uma alteração muito notavel se manifestou na galeria do

_triforium_: em logar de ficar tapado como era d'antes, veio a ter

claridade por meio de janellas que correspondiam aos arcos da galeria

inferior.

[Figura 216: Triforium transparente]

O especimen acima mostra um _triforium_ tendo luz por baixo de uma

grande janella de _clerestory_: então as paredes ficavam verdadeiramente

rendilhadas, como se vê na cathedral de Strasbourg, no convento da

Batalha em Portugal, ele. Alguns _triforiuns_ com claridade são

attribuidos ao segundo meado do seculo XIII; porém a maior parte

pertence ao XIV e XV.

*Columnas*

A disposição das columnas é a mesma no seculo XIV que no XIII; aquellas

que estão enfeixadas principiam a tornar-se de aspecto mesquinho, e não

se destacam sufficientemente como as precedentes dos pilares quando se

faziam em grupos. Ao principio do seculo XIV não era raro encontrar

ainda capiteis, que faria suppôr pertencerem ao XIII; porém depressa o

açafate se desformou, e as folhagens mudaram de natureza. Não se vêem no

meado do século XIV, esses colchetes que se arqueavam em volutas e que

formavam de certo modo o ornamento obrigado dos capiteis do XIII.

No seculo XIV, as folhagens eram dispostas nos capiteis de modo a formar

dois ramalhetes sobrepostos, e a dividir assim o açafate em duas partes

quasi iguaes. Esta combinação era tambem muito caracteristica do seculo

XV. Succedia, ao mesmo tempo, na forma das bases, um trabalho de

transformação d'onde devia sair um typo novo.

Essas bases não apresentam mais os escapulados tão profundos como no

século XIII; até desapparecerem inteiramente, e os dois toros ficam mui

separados um do outro.

Noções elementares de archeologia · 第 9 / 13 段