As pedras tumulares eram tambem ornadas de incrustações de cobre, e

d'este género apparecera no anno de 1875 em Portugal metade de uma campa

pertencente a um tumulo, o qual estava entaipado na parede da igreja de

S. Domingos em Santarem: representava apenas as pernas de duas figuras

de homem e outra de mulher, e uma pequena parte da inscripção já com

falta de algumas letras.[45]

Nas igrejas da Belgica ha grande numero de campas d'este genero com

embutidos de metal.

É de grande auxilio para a historia o estudo de taes tumulos,

principalmente para se conhecer certos brazões e usos do vestuario na

idade-media.

*ARCHITECTURA CIVIL*

As construcções destinadas aos conventos, aos hospitaes, palacios,

mercados, pontes, ás casas particulares, constituem emfim a architectura

civil. As construcções civis dos seculos XI e XII mostram no apparelho,

na fórma das aberturas, molduras e ornamentações, que eram identicas das

construcções religiosas.

[Figura 148: Janellas de diversas construcções civis]

As vergas das janellas de volta perfeita, e ás vezes de fórma recta,

eram subdivididas em duas aberturas, como as usadas nas igrejas.

Aos respiradouros das chaminés davam-lhes a fórma cylindrica na parte

superior, ficando mais ou menos elevados.

[Figura 149]

A frente dos fogões no interior dos aposentos era sustentada com

columnas e pilastras, ou arcos abatidos.

*Edificios monasticos*

As construcções civis mais importantes pertenciam ás casas religiosas. A

sua architectura era simples e severa no seculo XI; porém no XII, o sem

numero de legados destinados aos mosteiros facilitaram o emprego de

quantias avultadas para a construcção de claustros e de casas de

habitação. Existem ainda em Portugal, não obstante a destruição e

abandono que se dá ha cincoenta annos n'esses edificios religiosos, como

em Alcobaça, Santarem e Coimbra, bellos especimens da architectura

monastica do seculo XII. Já dissemos [na pag. 116] que as abbadias

haviam copiado as principaes distribuições das casas de campo, e das

cidades usadas pelos romanos.

[Figura 150: Plano d'uma abbadia do seculo XII (parte central)

1, igreja. 3, sala capitular. 2, 4, 5, salas abobadadas, com os

dormitorios em volta. 9, refeitorio. 11, salas de recepção. 12, pateo

rodeado pela galeria do claustro.]

O claustro representava o peristylo que os romanos tinham nas casas das

cidades, sendo esta a parte reservada para a vida privada; tambem

imitavam as officinas que cercavam a _villa urbana_, ou pateo principal

d'essas _villas:_ o plano que apresentamos mostra as principaes

disposições das casas que guarneciam o claustro.

_Dormitorios_.--O dormitorio ficava quasi sempre contiguo ao claustro e

em frente da igreja: esta sala não acontecia ficar parallela á galeria

do claustro, mas estendia-se do norte ao sul ou do sul ao norte,

conforme a posição do pateo do convento, relativamente ao logar occupado

pela igreja.

_Cosinhas_.--No seculo XII as cosinhas apresentavam em muitas abbadias a

fórma redonda, octogona ou quadrada, formando uma casa em separado,

posto que ficando sempre na proximidade do refeitorio. Estas cosinhas,

de que ha bom exemplo em Alcobaça,[46] tinham em roda muitas fornalhas

com chaminés, e cada uma d'ellas com uma columna ôca de pedra, que saía

do telhado conico do edificio, no cimo do qual havia respiradouros em

fórma de laternins, para darem saída ao fumo e estabelecer a ventilação.

[Figura 151: Cosinha de Saint-Père (Chartres)]

Será comprehendida esta construcção pela gravura acima, que representa

as antigas cosinhas de Saint-Père de Chartres (França), de que já não ha

vestigios.

_Albergarias_.--As casas para hospedes, pois quasi todas as congregações

religiosas exerciam franca hospitalidade, recebendo os viajantes de

diversas procedencias, occupam em muitos mosteiros a parte occidental

das casas claustraes. Na parte de fóra do claustro, encontrava-se a

_area interior_, ou pateo interno, reservado para os leigos ou criados;

a _area communis_, grande pateo onde as carretas circulavam para

descarregarem os productos dos dizimos. Á roda d'este grande pateo

estavam os celeiros, armazens e curraes. A _area communis_ comprehendia

ainda a grande porta da entrada, _porta maior_, o pretorio onde se

julgavam os delictos, a prisão, finalmente o pombal, o forno para cozer

o pão, e n'alguns tambem o moinho.

_Celleiros_.--Os celleiros, annexos á _area communis_, eram verdadeiros

edificios monumentaes. Os carros entravam carregados com os cereaes por

uma extremidade e saíam descarregados pela extremidade opposta.

Os armazens e adegas eram tambem edificios bem construidos e vastos.

*Mercados*

Os mercados assimilhavam-se no seculo XI aos celleiros que eram formados

de galerias em roda do recinto murado.

*Hospicios*

Os hospicios tinham bastante importancia em certas cidades. A principal

parte do edificio continha o salão destinado aos viajantes, e as

enfermarias para os doentes eram geralmente divididas em tres naves,

ficando a nave central devolúta e as lateraes para as camas. Havia

tambem hospicios com claustros, pouco mais ou menos como os dos

conventos, emquanto ás disposições geraes.

*Casas particulares*

As casas particulares do seculo XII apresentavam, na frente principal,

empenas, isto é, para o lado da rua mostravam a forma do telhado com

duas aguas; as vergas das janellas eram geralmente de volta perfeita nas

casas construidas de cantaria, e quadradas nas casas construidas de

madeira, que eram mais usadas.

[Figura 152: Plano do celleiro de Perrières]

[Figura 153: Perfil longitudinal do celleiro de Perrières]

*ARCHITECTURA MILITAR*

As cidades que tinham sido antigamente fortificadas haviam conservado,

pela maior parte, as muralhas e torres do recinto; porém a creação do

novo systema da defensa feudal, deu origem a se construirem em muito

maior numero os novos castellos, que fizeram mudar o aspecto guerreiro

dos paizes desde o fim do seculo X até o XI.

[Figura 154: Casa do seculo XII, em Chartres]

No seculo XI os castellos compunham-se de duas partes: d'um pateo

inferior e d'um segundo recinto, dentro do qual havia a torre ou o

torreão, como fôra edificado o castello de Leiria.

A extensão do pateo inferior, ou primeiro recinto, ficava proporcionado

á importancia da praça fortificada.

Muitos castellos do seculo XI não tinham senão trincheiras, defendidas

por estacadas e fosso mais ou menos profundo.

N'uma das extremidades do pateo, ás vezes até o centro, faziam uma

construcção muito elevada e circular, ora artificial, ora aproveitando a

altura natural, e sobre a qual estava firmado o torreão.

[Figura 155]

A gravura fará comprehender melhor a disposiçao d'um d'estes castellos,

em mouchão, com estacaria. A torre quadrada, ou torreão firmava-se n'um

mouchão B: o fosso _c c_ formava um circulo na base da eminencia e a

separava do pateo C, ao centro do qual estava collocada. N'este pateo

encontravam-se as construcções E E, que serviam de deposito de guerra, e

cavallariças, ou habitações para o pessoal ao serviço do nobre

proprietario do castello. As estacarias enterradas e muito unidas F F,

formavam um cerrado solido defendido pelo fosso exterior G.

Pode comparar-se este torreão, e na eminencia que lhe servia de base, á

imitação mais ou menos alterada do _pretorio_ dos romanos.

Os castellos, cuja construcção interior era de pedra, offerecem mais

interesse que os antecedentes, quando conservam ainda alguns lanços de

muralha no meio dos recintos. Os torreões de cantaria tinham quasi todos

typos uniformes. O mais commum apresentava torre quadrada separada das

outras edificações da praça, na qual ninguem entraria senão pela porta

alta da muralha, correspondendo ao nivel do primeiro andar, e para esse

fim era mister servir-se da ponte-levadiça, ou escada movel.

[Figura 156: Plano do castello de Grimbosq]

Algumas vezes o torreão ligava-se ás fortificações que cercavam o

recinto fazendo de certo modo corpo com elle: então servia de torre de

observação, e era mais alta que as outras construcções; não ficava por

isso sem communicação, como podiamos demonstrar na construcção dos

torreões de Leiria, Beja e Thomar.

Todavia, no seculo XII, pelas modificações que se operaram tanto na

architectura militar, como na religiosa, adoptaram para o torreão a

fórma cylindrica ou polygonal, de preferencia á fórma quadrada; d'esta

maneira é o torreão de Gisors. Em Portugal não existe nenhum com esta

configuração.

[Figura 157: Torreões do seculo XII]

Esta parte antiga do castello de Gisors, ainda ao presente muito bem

conservada, avulta no cimo de uma eminencia artificial, a sua muralha

com contrafortes cinge a plata-forma disposta n'essa elevação. Ha uma

torre polygonal mui alta que está em contacto com a muralha do recinto,

fazendo frente para a parte da entrada do pequeno pateo, que talvez

podesse ficar rodeado de aposentos, e no qual se notam ainda as ruinas

de uma capella.

[Figura 158: Muralha e torreão de Gisors, vistos de dois lados]

[Figura 159: Torreão de Houdan]

O torreão de Houdan apresenta quatro torres cylindricas ligadas ao corpo

principal.

[Figura 160: Plano do torreão d'Étampes]

O torreão d'Étampes mostra-nos um typo _quadrilobular_ na maxima

perfeição, isto é, quatro _lobulos_ eguaes com divisões symetricas.

Estas diversas experiencias vieram a dar afinal na construcção da torre

cylindrica que no fim dos seculos XII e XIII preferiram nos paizes do

norte. Continuando comtudo a servirem-se, nos do sul, da fórma quadrada

durante o seculo XIII, e no seguinte, como foi construido o castello de

Leiria em Portugal.

[Figura 161: Ruinas do torreão cylindrico de Néaufle (França)]

Damos em primeiro logar o desenho do torreão cylindrico do estylo roman,

pertencente ao castello de Laval, porque conserva ainda o remate do

parapeito de madeira, como era então uso, ficando saliente na muralha, o

que dava logar á guarnição poder percorrel-a sem perigo, e lançar os

projectis sobre os sitiadores pelos intervallos do vigamento. Mui

raramente poderá encontrar-se hoje uma torre d'este feitio, e talvez

seja o unico exemplo que exista de época tão remota.

[Figura 162: Torreão de Laval, rematado por uma cupula do madeira

fazendo saliencia sobre a torre (As duas janellas são de construcção do

seculo XVI)]

CAPITULO IV

*ERA OGIVAL*

Grande revolução artistica se effectuou no fim do XII seculo, tanto pela

applicação do arco descripto de tres centros, e o abandono da volta

perfeita; como pelo novo systema de construcção e decoração, isto é,

pela introducção do estylo ogival.

Todavia, o estylo ogival não substituiu repentinamente o estylo roman; o

emprego da ogiva só veio a ser commum no decurso do seculo XII, e depois

de ter sido applicado conjunctamente á volta perfeita, que lhe era

preferido. Esta época de transformação chama-se tambem de _transição_;

teve por limite o seculo XIII: então o arco com tres centros foi

geralmente empregado, e o estylo ogival completamente formado.

[Figura 163: Duas ogivas encaixilhadas em um arco]

Ainda edificaram igrejas no estylo roman em certas localidades, quando a

architectura ogival dominava em outras. Comtudo, em algumas provincias

do meio-dia, conservaram o estylo de transição durante o seculo XIII. As

causas que determinaram a creação do estylo ogival são complexas. O arco

de tres centros teve a sua origem em a necessidade de tornar mais

solidas as novas fórmas de construcção.

Já vimos como as abobadas se aperfeiçoaram pelo uso do encruzamento dos

arcos. Encontraram logo em seguida ao emprego do arco descripto por dois

centros, novo meio de diminuir o esforço das abobadas, e fazer convergir

todo o peso d'ellas sobre os pontos em que havia os contrafortes. D'esta

innovação derivou um sem numero de outras innovações, que produziram o

estylo ogival tal como se observa nas construcções do XIII seculo.

*ARCHITECTURA RELIGIOSA*

*Forma das igrejas*

Fizeram-se algumas modificações no plano das igrejas edificadas no XIII

seculo; taes como o _côro_, _mais comprido_ que fôra antes; as naves

lateraes, que se prolongavam em roda do santuario (capella-mór), ficaram

depois aformoseadas com outras capellas, excepto quando as igrejas

terminavam na curva da abside; e n'esse caso as naves limitavam-se aos

dois lados do santuario.

Em algumas das cathedraes de maior grandeza, as naves lateraes corriam

em fórma de galeria, em logar de uma em roda do côro, como teve a Sé de

Lisboa. Muitas vezes davam á capella central atrás do côro, maior

extensão que ás outras que circundavam a nave, e a qual era consagrada a

Nossa Senhora; todavia foi no seculo XIV que mais se generalisou esta

disposição.

Não se collocavam ainda no seculo XIII capellas nas naves lateraes, e se

algumas cathedraes d'essa época apparecem com esta disposição, foram

construidas nos seculos seguintes (XIV e XV).

[Figura 164: Plano do côro da cathedral de Reims]

As pequenas igrejas do seculo XIII apresentavam sempre um côro de fórma

recta no fundo da nave.

[Figura 165]

Em algumas igrejas adoptaram na edificação, raras vezes, a fórma

circular.

Quando faziam radiar as capellas em roda da abside, não as collocavam

então em as naves lateraes; pois as que existem d'este modo nas igrejas

do seculo XIII, provieram d'uma addicção mui facil de se reconhecer.

Em muitas partes do sul da França, nas igrejas de transição e do seculo

XIII, e até nas maiores não apresentam naves lateraes, mostrando,

emquanto ao plano, uma traça particular, da qual trataremos mais

adiante. Este plano com uma só nave provém do estylo bysantino; pois a

maior parte d'essas igrejas _com cupula_ não tinham naves lateraes e

sómente a principal.

[Figura 166: Arcos da cathedral de Bayeux]

*Apparelhos*

Desapparecendo as construcções com as pedras dispostas em escamas, e com

o pequeno apparelho assim chamado, as pedras foram escolhidas com

maiores dimensões e fórmas mais regulares.

*Contrafortes*

Os _contrafortes_ apparecem com maior sacada. Um rasgo ousado do novo

estylo foi collocar _arcos-bolantes_, fig. 166 (A), sobre os

contrafortes. Estes coroavam-se de _agulhas_ (C), e como os arcos iam

neutralisar a esforço das abobadas no cimo das paredes; tambem se

serviam d'elles para aqueductos dando o escoante ás aguas das chuvas,

provenientes do telhado principal da igreja. As aguas eram encaminhadas

por um canal cavado no extradoz do arco-bolante, depois lançadas fóra

por canos salientes (B), que se chamam _gargulhas_.

*Ornamentos*

Já se não faziam folhas de fórma carnuda, adornadas de perolas e galões,

nem ornamentos com feitios geometricos; como eram os arcos dentados nas

ameias, os zig-zags, os rhombos. Principiaram então a imitar, no seculo

XIII, os vegetaes indigenas, como mostram os seguintes especimens.

[Figura 167: Florões]

[Figura 168: Ornamentação vegetal do portal da igreja de Nossa Senhora

de Trier]

[Figura 169: Grinalda de rosas]

[Figura 170: Ramos de rosas sobre um capitel]

[Figura 171: Folhas de hera]

*Columnas*

As columnas mui delgadas e _enfeixadas_ formam um dos caracteres mais

distinctos da architectura do seculo XIII. Esses fustes, esculpidos

inteiriços na mesma pedra, apresentavam, não obstante, muitas vezes,

faixas ou engrossamentos que os dividiam por partes eguaes. Em muitas

igrejas, a primeira ordem era composta de grossas columnas cylindricas.

As columnas enfeixadas occupavam os corpos superiores.

[Figura 172: Grupo de columnas do seculo XIII]

*Janellas*

As janellas eram _estreitas_ e _esguias_: o seu extremo similhava ponta

de lança; os inglezes deram-lhes o nome de _lancetas_;[47] viam-se

muitas com bastante altura, e outras de acanhadas porporções, nos

monumentos da mesma época.

No meado seculo XIII já as janellas se alargaram e se subdividiram em

muitas aberturas; o cimo da ogiva da empena pôde então ser ornado com um

espelho ou _rosaceo_, R.

As janellas circulares tambem com espelho, no seculo XIII, tiveram

maiores dimensões, que no seculo precedente, e foram muito mais

frequentemente empregadas, até nas igrejas ruraes.

[Figura 173: Janellas com feitio de lancetas]

[Figura 174: Janellas compostas de duas aberturas, tendo no cimo um

espelho]

No interior dos edificios que apresentam tres andares sobrepostos, a

parte média é constantemente occupada pelas tribunas, formando um andar

com a mesma largura que a arcaria inferior das naves lateraes, ou

formando simples galeria. Estas galerias compunham-se unicamente de uma

continuação de arcadas sustentadas por columnasinhas; os antiquarios

inglezes chamam-lhes _triforium_; e designam, pelo contrario, com a

denominação de _clerestory_, a correnteza das janellas que está superior

ao _triforium_, e que effectivamente dão luz á nave principal; gravura

da pag. 175 [fig. 176].

[Figura 175]

*Portas*

As portas das egrejas, com as suas aberturas curvas, são ornadas de

molduras com o feitio de tóros, e ás vezes tem representados diversos

personagens em esculptura; nos lados ordinariamente vêem-se

columnasinhas e estatuetas.

[Figura 176]

No tympano representavam o dia de Juizo; ou Christo, sem que o rodeassem

os symbolos dos Evangelistas, segundo o costume do seculo XII; está o

Christo com as mãos levantadas, tendo aos lados anjos, além de Nossa

Senhora e S. João ajoelhados, como se lhe implorassem clemencia. Os

anjos seguram a cruz, a corôa de espinhos, os cravos e a lança,

instrumentos da Paixão.

[Figura 177: Representação do Juizo Final sobre um tympano do seculo

XIII]

A resurreição dos mortos e a separação dos bons e dos maus, apparece

representada por baixo do Tribunal Celeste.

Nas igrejas dedicadas a Nossa Senhora, a imagem do Christo é reconhecida

pela aureola sobre a cruz, e algumas vezes a corôa na cabeça da Mãe de

Deus, como na igreja de Nossa Senhora de Trèves.

Em alguns portaes estão passos da vida de Jesus Christo, de Nossa

Senhora, sua morte, e enterro pelos Apostolos, e a sua Assumpção;

differentes assumptos do Antigo Testamento, etc. Algumas vezes nos

tympanos representavam Jesus Christo e sua Santissima Mãe, sentados em

duas cadeiras quasi iguaes, o que nunca se vê quando o Salvador preside

ao dia de Juizo.

[Figura 178: Tympano pertencente á igreja de Nossa Senhora de Trèves]

*Torres*

Foi no seculo XIII, principalmente, que os architectos conseguiram

levantar até a grandissima altura essas pyramides esguias, que dão tanta

variedade na architectura ogival.

[Figura 179: Uma das torres da cathedral de Coutances (Sinos collocados

em bastante altura)]

Vêem-se aberturas elevadas e estreitas, e muitas vezes por cima as

agulhas da torre; sobre a base da pyramide octogona estão quatro

campanariosinhos, e as quatro faces do octogono que corresponde aos

quatro lanços da torre, sustentam trapeiras com columnas e pyramides por

adorno.

Quando as torres das igrejas ruraes mostram telhados de duas aguas,

construidos com madeiramento ou de abobada, indicara isso que o telhado

não é o primitivo, mas que o substituiram á agulha, quer de madeira,

quer de cantaria.

[Figura 180: Egreja do seculo XIII]

Geralmente as torres edificadas nos paizes meridionaes no seculo XIII

tem apparencia pesada e acaçapada com o telhado de fórma obtusa. As

agulhas de pedra encontram-se em grande numero em certos paizes.

*Altares, pias baptismaes, tumulos*

Eis alguns typos para servirem de exemplos dos _altares_, _pias

baptismaes_ e _tumulos_ pertencentes ao seculo XII, de igrejas nacionaes

e estrangeiras.

[Figura 181: Altar do seculo XII em Norrey (Calvados)]

[Figura 182: Pia baptismal octogona, ornada com arcos ogivaes]

[Figura 183: Pia baptismal sobre pés formados por columnas]

Os altares não tinham então tabernaculo; as santas particulas estavam

reservadas em armarios fechados com portas chapeadas, collocados nos

lados do santuario, e as arcadas d'esses armarios eram abertas no grosso

das paredes da capella-mór, e geralmente as designavam com o nome de

credencias.[48]

[Figura 184]

Os _tumulos_, mettidos nas paredes, como se vê na gravura junta,

chamavam-se _tumulos arqueados_. A estatua do finado estava representada

debaixo d'estas arcadas.[49]

As _campas_ são grandes lageas, as quaes serviam de piso nas igrejas, e

apresentavam a effigie do finado aberta a traço; eram estes os tumulos

mais communs. Tem-se destruido constantemente um sem numero, para lhe

substituirem lageas lisas sem significação nem caracter funereo. Deviam,

pelo contrario, conserval-as cuidadosamente, porque pelos seus

epitaphios ou inscripções, as campas fornecem documentos mui

interessantes para a historia local, e as effigies esculpidas n'ellas

servem para o estudo dos trajos da época.

[Figura 185: Campa pertencente ao ultimo quartel do seculo XIII]

Em alguns cemiterios existem ainda _fanaes_ formados por columnas ôcas,

no cimo das quaes se accendia um _farol_ para alumiar de noite os

enterros, e tambem para fazer lembrar aos transeuntes que as pessoas

enterradas precisavam das suas orações. Estas columnas tinham na base um

altar, no qual se dizia a missa nas occasiões dos enterramentos. Ficavam

collocados no centro dos cemiterios, nos mais importantes dos seculos

XII e XIII.

*ARCHITECTURA CIVIL*

O arco composto de tres pontos applicado ás abobadas, ás aberturas de

portas e janellas e a todos os detalhes da ornamentação, favorecia o

engrandecimento de diversas construcções civis e monasticas, publicas e

particulares. Os conventos tinham-se então enriquecido com os legados de

numerosos fieis, e pelos lucros obtidos com o aperfeiçoamento que tinham

dado á agricultura. A immunidade dos municipios veio a ser para as

cidades, e para as suas industrias, uma causa de engrandecimento, que

muito contribuiu egualmente para o seu progresso. O seculo XIII foi pois

para a architectura civil como para a architectura religiosa, _uma

grande época_.

*Architectura monastica*

Os claustros com arcadas formando galerias, sustentadas por

columnasinhas de uma extraordinaria finura, com capiteis compostos de

folhas, como se vê na gravura do claustro de Santa Trophina d'Aries

(França), nos conventos de Santa Clara em Santarem, em Thomar[50] e o da

Esperança em Lisboa.

As casas de capitulo, os refeitorios, as casas para os hospedes e os

outros edifícios, dispostos em roda do claustro, geralmente abobadas,

recebendo a claridade por aberturas com o feitio de ponto subido; ainda

se vêem, comtudo, algumas de volta perfeita; porém são de tão

extraordinaria delicadeza, que não pódem ser attribuidas ás construidas

no seculo XII. A vista geral da construcção monastica de _Bonport_ [fig.

187], mostra a disposição geral d'estes edificios religiosos.

[Figura 186: Vista longitudinal do refeitorio de Bonport]

[Figura 187: Vista dos edificios de Bonport, tirada das margens do Sena]

[Figura 188: Vista da empena do lado sul do edificio de Vauclair]

Porém, para exemplo de construcções civis e monasticas, não se póde

apresentar outra mais importante, que a que pertence á abbadia de

_Vauclair_, proximo de Laon; é uma das empenas, e uma das fachadas. Esta

fachada não tem menos de 70 metros de comprimento; o edificio é dividido

em numerosas e bellas salas, e compõe-se de dois andares abobadados,

ficando por cima grandiosos celleiros, cujos madeiramentos são muito bem

combinados.

[Figura 189: Vista do grande edifício de Vauclair]

[Figura 190: Córte longitudinal d'esse edificio]

_Granjas_.--As granjas que estavam annexas ao grande pateo exterior das

abbadias tomavam grandes dimensões, principalmente n'aquellas cujas

rendas mais importantes consistiam em trigos; como se vê no edificio em

_Ardennes_, perto de Caen. Esta granja podia conter 100:000 feixes de

trigo: as naves estavam divididas longitudinalmente por nove arcadas.

[Figura 191: Uma das empenas da granja das Àrdennes]

Algumas abbadias possuiam estabelecimentos industriaes. A de _Citèau_

pertenciam-lhe grandes fabricas de cortume, estabelecidas na margem de

um rio que ali corre proximo.

Noções elementares de archeologia · 第 8 / 13 段