Quando quizeram reparar similhantes damnos, reconstruiram o que já

estava destruido, e não encontraram, como succedera no V e nos seguintes

seculos, senão fustes de columnas, capiteis, esculpturas provenientes

dos monumentos em ruinas dos gallo-romanos: foi preciso, no seculo X,

cortar nova cantaria, extrahir outros materiaes, executar esculpturas,

ainda que grosseiramente, para os ornamentos com que desejavam dar

realce ás igrejas, aos palacios, e outros edificios publicos, ou

particulares: portanto, nova ordem de cousas devia resultar das novas

exigencias e necessidades. Viu-se, pois, no ultimo quartel do seculo X,

e principalmente no XI, a architectura em via de transformação, depois

caminhar gradualmente para o estado de esplendor a que attingiu no

seculo XII.

As esculpturas provenientes dos monumentos romanos, ou muito bem

imitados, deram certo brilho ao interior das grandes construcções dos

seculos intermediarios: os mosaicos, as pinturas e estuques, occultavam

a pobreza dos materiaes empregados.

No seculo XI dispensaram os ornamentos no interior das habitações, porém

exigiram mais solidez e mais segurança contra os incendios; construiram

mais frequentemente com pedra, pensaram em substituir com abobadas os

tectos de madeira, que haviam sido até então quasi exclusivamente

empregados.

Os frades architectos, e os demais artistas, em plena liberdade para

innovar, construiram as igrejas e os edificios, onde havia necessidade

de taes obras, combinando novos planos e disposições inteiramente

desconhecidas.

As proporções antigas exigidas na architeclura não continuaram a ser

observadas quanto ao _modulo_ das columnas, e suas subdivisões. O

_colorete_ fez então sempre parte do capitel, de certo contrario ás

regras da architectura romana, porque o colorete andava ligado com o

corpo da columna.

As esculpturas mais rudimentares apresentavam series de figuras

repetidas, que se agrupavam, seguindo, conforme as escolas, systemas

differentes.

Estes factos, que o seculo XI apresenta ao observador prespicaz, fazem

de certo modo, d'esta época, que vamos tratar, o ponto de partida dos

desenvolvimentos da architectura tal como se nos apresenta hoje á vista,

examinado o extraordinario numero dos edificios antigos que existem na

Europa.

Passamos portanto a apresentar, seculo por seculo, comparativamente, os

typos dos edificios religiosos, civis, e as fortificações, e indicaremos

successivamente os seus caracteres principaes, por modo que possa

demonstrar-se claramente a marcha e o desenvolvimento da architectura e

das artes accessorias durante o periodo indicado.

*ARCHITECTURA RELIGIOSA*

Descrevendo os caracteres principaes da architectura religiosa do

periodo _roman secundario_, comprehenderemos ao mesmo tempo os seculos

XI e XII.

Os ornatos do seculo XI teem mui pouco relevo, e estão executados com

bastante rudeza; mas os do seculo XII já apresentam os contornos mais

correctos, com ornamentação mais variada, e de acabamento infinitamente

mais superior; pode affirmar-se que a architectura roman chegára á

maxima perfeição.

*Forma das igrejas*

Como já dissemos, as igrejas foram imitadas primitivamente das basilicas

romanas, porém algumas, logo desde os primeiros tempos, tiveram no risco

a fórma da cruz, pelo augmento da parte a que chamamos cruzeiro.

A fórma geral das igrejas um pouco vastas no seculo XI, e nos seguintes,

era a da cruz, cujos braços se estendiam de Norte ao Sul, e cuja cabeça

estava figurada pelo côro voltado para Leste. A entrada principal era do

lado occidental; ás vezes nas paredes lateraes da nave havia frestas. O

comprimento da nave comparado com o do côro e capella mór, o maior ou

menor desenvolvimento dos cruzeiros, estabeleceu nas fórmas geraes das

igrejas mudanças importantissimas. O côro, menos compridó que a nave,

apresentava quasi sempre a terça ou quarta parte do comprimento total do

edificio.

[Figura 98]

Umas vezes as naves lateraes terminavam onde principiava a curva da

abside, como se vê na figura 101, pag. 124; outras vezes prolongavam-se

em volta do côro como na figura 100. Havia tambem igrejas rectangulares,

ou com o fundo do côro recto.

[Figura 99]

Nos paizes do Norte, as igrejas acabavam a Leste e a Oeste, por absides

semicirculares, figura B, como egualmente existem em algumas igrejas

antigas, principalmente em S. Lourenço de Grenoble, como indica a planta

junta; assim como outras muito mais antigas eram compostas sempre d'uma

nave terminando em fórma circular, fig. 98; ou com os lados polygonaes,

cercada por naves lateraes ou galerias; havendo a Leste, um altar

collocado n'um appendice encostado sobre as paredes circulares. Esta

fórma foi imitada pelo imperador Carlos Magno, na celebre igreja de

Aix-la-Chapelle, a qual tambem depois imitaram na igreja d'Ottmarsheim,

na Allemanha.

[Figura 100: Naves lateraes contornando a abside]

[Figura 101: Igreja com duas absides]

[Figura 102: Córte da igreja de Ottmarsheim (Alto Rheno)]

Dava-se em algumas igrejas a fórma redonda ou octogona, para imitar a do

Santo Sepulchro de Jerusalem.

Por baixo do côro de muitas igrejas existiam cryptas ou capellas

subterraneas; quando tinham maiores dimensões, as suas abobadas eram

sustentadas por dois renques de columnas.

[Figura 103: Plano da igreja de Ottmarsheim]

Algumas cryptas prolongam-se por baixo do cruzeiro; desce-se para as

cryptas por escadas que saem das naves, ou da nave principal junto da

entrada[35] para o côro, ou dos cruzeiros.

*Apparelhos das construcções*

Encontram-se nos seculos XI e XII os principaes apparelhos em uso na

architectura _roman primitiva_. O pequeno apparelho e o medio vê-se

frequentemente applicado.

Quando se serviram de cantaria liza para cobrirem as faces das paredes,

assentavam-n'a de lado, com inclinação alternada para a direita e

esquerda (_opus spiscatum_). Os romanos usavam tambem pôr as pedras

d'este modo.

[Figura 104]

No seculo XI, os apparelhos tinham larga facha de cimento nos

intersticios, ao passo que no seculo seguinte, as juntas mostravam menos

espessura.

Em alguns apparelhos medios vêem-se diversas figuras profundamente

gravadas, parecendo signaes dos canteiros, que teriam por este meio

reconhecido as pedras que tivessem preparado para se lhes pagar os

salarios.[36]

[Figura 105]

*Contrafortes*

Os contrafortes tiveram no seculo XI muito pouca saliencia,

comparativamente com a que depois se lhes deu. No seculo XII, apparecem

muitas vezes os pilares ornados de columnas mettidas nos angulos com os

esbarros revestidos de curvas com imbricados [fig. 106].

[Figura 106]

[Figura 107]

[Figura 108]

Na Italia, na Allemanha e em outras nações, os contrafortes são mui

pouco salientes, e só permittem os de ressaltos separados por distancias

eguaes uns dos outros [fig. 107 e 108].

*Ornamentações*

Para abreviarmos as explicações sobre este ponto, daremos os desenhos de

algumas molduras ornamentadas, que eram mais vulgares nas construcções

religiosas dos seculos XI e XII.

[Figura 109: Zigue-zagues oppostos]

[Figura 110: Filêtes desencontrados]

[Figura 111: Zigue-zagues alternados]

Mr. de Caumont emprehendeu repetidas viagens por differentes paizes, com

o louvavel intuito de indagar quaes seriam as modificações que o genio

dos architectos introduzira em tal ou tal provincia; assim como para

examinar se haveria synchronismo entre os edificios, apresentando a

grandes distancias uns dos outros identidade de typos architectonicos.

[Figura 112: Escamas]

[Figura 113: Carrâncas]

[Figura 114: Pontas de diamante]

[Figura 115: Estrellas]

[Figura 116: Torçal]

[Figura 117: Zigue-zagues dentados]

[Figura 118: Folhagem com serpes]

[Figura 119: Entrelaçados]

[Figura 120: Ornamento dentado]

[Figura 121: Molduras entrançadas e carrancas/Molduras com rhombos]

[Figura 122: Florões ornados de perolas]

[Figura 123: Faixas e molduras com perolas]

[Figura 124: Entrançados com perolas]

[Figura 125: Discos e molduras com lavor]

[Figura 126: Palmas e quadrupedes]

Este trabalho scientifico de summo interesse para a historia da arte,

era mais um importante serviço prestado aos estudos archeologicos por

pessoa já afeita por seu saber e dedicação.

*Arcadas fingidas*

[Figura 127: Do seculo XII]

As grandes superficies foram muitas vezes guarnecidas arcadas fingidas,

assentes em pilastras ou em columnas embebidas na parede, e dava-se-lhes

o nome de _arcaturas_: faz-se idéa do effeito que produziriam vendo o

_especimen_ que apresentamos.

[Figura 128: Archivoltas dos seculos XI e XII.]

*Portas*

De todas as partes dos edificios, são sem duvida as portas que tem sido

mais ornadas de molduras no seculo XII, e até em alguns edificios com

aspecto simples. Porém no seculo XI conservam ainda, no maior numero,

grande simplicidade nas fórmas. Foi no seculo XII que mais se

multiplicaram as archivoltas, e o que obrigou depois a proporcionar o

numero das columnas que serviam de apoio á queda d'essas curvas, e dar

maior grossura aos pés direitos interiores: algumas portas não

apresentam nem columnas nem pilastras, apenas tem ornatos desde o cimo á

base, com aformoseamentos de mais ou menos profusão.

[Figura 129: Porta da igreja de Mortain]

Os tympanos (é assim que se chama o espaço semicircular comprehendido

entre a abertura e as archivoltas bem como o espaço triangular entre as

mulduras do frontão e as do entablamento do perystilo), são compostos de

peças symetricas com molduras ou sem ellas; ha outros que estão cheios

de baixos-relevos; como se vê n'este tympano da igreja de S. Miguel,

proximo d'Angoulème (França), no qual o archanjo representa vencer o

inimigo do genero humano, prostrado aos pés sob a fórma de gigante

dragão. É nos tympanos das portas que se encontra principalmente a

representação de Christo entre os symbolos dos quatro evangelistas, o

boi,[37] a aguia, o leão e o anjo.

[Figura 130]

Muitas portas tiveram primitivamente alpendre coberto com telhas; d'este

modo poderam ornal-as com baixos-relevos e molduras, posto que fossem de

cantaria, pois sem o que ficariam expostas á intemperie das estações, e

perder-se-hia o trabalho. Nas igrejas e nas cathedraes existem

egualmente grandes alpendres, que figuram vestibulos diante das portas,

como em Santarem, na igreja de S. Francisco.

[Figura 131: Jesus Christo n'uma aureola, no meio dos symbolos dos

quatro evangelistas]

[Figura 132: Portico-vestibulo em Moissac]

*Fachadas*

[Figura 133]

A disposição das fachadas varia conforme a grandeza das igrejas. Na

representada pela gravura junta de uma igreja rural, a porta tem duas

archivoltas guarnecida de rhômbos e de zigue-zágues, tendo no cimo um

renque de arcadas fingidas; uma unica abertura occupa o centro do

frontão com uma janella de volta perfeita. A outra figura representa uma

igreja, mostrando os lados indicados conforme a posição das naves

lateraes, tendo já maior fachada que a precedente. Por cima da porta

veêm-se tres archivoltas sustentadas por columnas e ornadas de diversas

molduras; mais acima a janella de volta com archivolta e columnasinhas;

e a sua parte superior cornija com modilhões e frontão triangular. Esta

combinação é frequente nas igrejas do seculo XII.

[Figura 134: Fachada da igreja de Jort (Calvados).]

*Janellas*

As janellas de maiores dimensões são estreitas e sem columnas. No seculo

XII, principalmente, são maiores e ornadas de archivoltas sustentadas

por columnasinhas, e por vezes acompanhadas de arcadas fingidas.

[Figura 135]

[Figura 136: Janella guarnecida de duas _arcaturas_]

As aberturas são circulares, e usam chamar-lhes _espelhos_ ou _oculos_;

principiaram a ser empregadas no seculo XII, divididas em raios do

centro para a circumferencia. Apresentavam tal ou qual similhança com as

rodas das carruagens. O logar dos espelhos era escolhido nas

extremidades da nave principal, ficando por cima da porta occidental, e

ás vezes tambem no centro da abside ou do côro.

[Figura 137]

Temos ainda felizmente, em Portugal, um edificio religioso que conserva

o typo completo da architectura do seculo XII, e é o que pertence á

profanada igreja de S. João de Alporão, em Santarem. Todas as formas e

detalhes, que caracterisam a architectura roman, se conservam ainda na

dita construcção. Os seus dois portaes com o feitio de volta

semicircular; as columnas sem lavor, sustentando archivoltas; o tympano

liso por cima da verga do portal; os butareos singelos; a cimalha

composta de carrancas; o espelho aberto na extremidade da nave e

radiado; a fachada principal voltada para o lado do poente, conforme a

orientação adoptada no culto christão; apparelho pequeno applicado á

construcção, conservando muita largura nas juntas da cantaria; tudo

emfim nos offerece o completo modelo das primitivas igrejas d'aquella

época, que o fundador da monarchia portugueza mandou construir no reino.

E além de apresentar a mais evidente prova do estylo da architectura do

seculo XII, tambem nos confirma ter pertencido esta fabrica ao reinado

de D. Affonso Henriques, mostrarem igualmente as pedras da edificação

_as siglas com que na idade media os canteiros marcavam o trabalho

executado_,[38] signaes necessarios para reconhecer a qual dos operarios

pertencia, e saber-se tambem quanto se deveria pagar a cada um: pois que

esses signaes são similhantes aos demais gravados na cantaria dos

monumentos coevos do paiz, notando-se esta particularidade não só nas

ruinas dos castellos, mas tambem nos edificios religiosos. A nossa

satisfação aqui sobe de ponto por sermos o primeiro que apresentâmos tal

gravura e tão precioso e completo especimen da archeologia patria da

referida epoca.

[Figura 138: Igreja de S. João d'Alporão (Santarem)]

*Arcadas*

As arcadas, dispostas para communicar a nave principal com os lados da

igreja, eram construidas pela mesma forma como as portas; suas

archivoltas poucas vezes tinham molduras, e por isso ficavam quasi

sempre ligadas.

*Entablamentos*

[Figura 139]

O entablamento que corôa as paredes dos edificios é geralmente posto

sobre modilhões figurando cabeças grotescas, carrancas, ou outras

figuras de feitios variados; como se nota nas fachadas posteriores da sé

velha de Coimbra, do convento de Santa Clara de Santarem, da igreja de

Cedofeita, e capella-mór de Odivellas.

[Figura 140]

Á proporção que nos aproximâmos do fim do seculo XII, as cornijas

mostram-se-nos mais leves, e no seculo XIII apresentam-nos guarnição

imitando dentes de serra.

*Columnas*

Os pontos de apoio que tinham sido muitas vezes _monocylindricos_ no

principio do seculo XII, até quando eram compostos de pilastras, foram

depois, quasi meado este seculo, formados por um conjuncto de columnas

enfeixadas, innovação que devia depois produzir as columnas inteiriças

desde o solo até ao nascimento da abobada, concorrendo assim para a

creação do estylo ogival.

[Figura 141]

*Capiteis e diversas bases das columnas nos seculos XI e XII*

Chama-se capitel historiado ao que é formado por composições relativas a

assumptos religiosos ou historicos, executados em baixo-relevo.[39]

*Abobadas*

Durante o seculo XI, as abobadas de cantaria eram raras, e

principalmente applicadas ás grandes naves; em geral não se viam as

abobadas senão nas naves lateraes e nas absides, ficando visiveis os

madeiramentos, ou então cobertos com taboado.

Foi no seculo XII que os mais ousados architectos lançaram as primeiras

abobadas de cantaria sobre as grandes naves; mas para esta construcção

foi preciso modificar a antiga disposição afim de receber os pontos de

apoio dos arcos encruzados em diagonal, que contribuem tanto para

consolidar essas abobadas.

Nas igrejas do estylo roman, notam-se facilmente estas estructuras, e as

mudanças que isso motivou nas suas construcções.

[Figura 142: Vista interior da igreja de Souillac]

Existe certo numero de igrejas com a abobada construida em cupula.

Representa uma cupula a metade de uma esphera. Para se poderem firmar as

cupulas nas paredes, cujas divisões apresentavam a fórma quadrada, era

necessario collocar entre os seus arcos _abobadas pendentes_

(pendantifs), de maneira a formar com elles (na parte superior) o

circulo horisontal, sobre o qual caia o peso da cupula: este modo de

construir a cupula tirava a sua origem da architectura Bysantina.

Ha tambem outras abobadas ogivaes _cupuliformes_, que se firmam não nas

paredes lateraes, mas egualmenle na archivolta dos arcos de cada vão, na

direcção longitudinal. De sorte que, se suppozermos uma cupula ou

espheroide, que se transforme com as suas abobadas pendentes,

formar-se-ha a idéa primitiva que produziu o systema que expozemos, e ao

qual o distinctissimo architecto Mr. Viollet-le-Duc deu a seguinte

significação: _É uma cupula hemispherica furada com quatro arcos em

ponto subido traçados por tres pontos_. Fortificavam-se estas abobadas

esphericas achatadas com as nervuras ou arcos cruzados, descançando-as

nos angulos do quadrado, e com outros que se cruzavam no intervallo dos

primeiros, e rematavam no cimo de cada arco maior.

As abobadas esphericas com duplo cruzamento de nervura foram muito

applicadas nos seculos XII e XIII.

Porém, para voltarmos á descripção das abobadas dos seculos XI e XII em

geral, basta dizer que ha muitas que foram construidas da fórma de

semi-cylindros continuos, descançando nas paredes ou pilares, e que se

reforçaram com arcos duplos de cantaria parallelos á dita abobada como

apresentâmos na gravura da pagina seguinte; porém, o peso d'estas

abobadas era muito grande, e causava ruinas frequentes. Então, para

remediar este inconveniente, cruzavam-se os arcos duplos, afim de

dividir a pressão e dirigil-a nos pilares regularmente separados. As

paredes lateraes ficaram por este modo consideravelmente alliviadas do

grande peso que d'antes tinham sobre si, o que se verá perfeitamente na

gravura seguinte. Este systema originou o enfeixarem-se as columnas

conforme as combinações que serão facilmente comprehendidas, e que

tinham por fim sustentar os arcos duplos.

[Figura 143: Abobadas do seculo XII, com arcos duplos cruzados]

*Torres isoladas*

Presume-se que as torres para sinos não foram construidas antes do

seculo VIII, e por muito tempo seriam apenas um simples campanario,

ficando superior ao telhado da igreja e proximo do sanctuario, para

facilitar os toques durante a missa, sem que o acolyto se afastasse do

altar. Depois apparece a torre da igreja entre o côro e a nave

principal. Nas grandes igrejas collocaram uma torre sobre o centro do

cruzeiro, e passado tempo levantaram outras nas extremidades occidentaes

das naves. Esta nova disposição das torres era já usada no seculo XII e

antes dos fins do XI, mas applicada sómente para as igrejas dos

conventos.

[Figura 144: Torre do seculo XII]

As torres romans eram, além da fórma quadrada, limitadas por uma

pyramide de grandes faces, quer fosse construida de pedra, quer de

madeira: esta pyramide terminava muitas vezes com a extremidade de fórma

romba; tal assim foi construida a torre quadrada e isolada da igreja de

N. Senhora das Dôres, em Dornes, na provincia da Extremadura.

O grande numero de pyramides que ornam as torres antigas romans foi obra

executada depois nos seculos XIII e XIV. Ha tambem algumas torres de

fórma octogona e terminando por um telhado que obedece á mesma fórma.

*Iconographia[40] christã*

Ainda que este assumpto nos conduziria muito longe, todavia para não

ficar incompleto, em parte, tão importante estudo da arte n'este

periodo, tambem resumidamente daremos succintas explicações.

*Pinturas decorativas*

As pinturas decorativas foram muito usadas no seculo XII. As ocres

encarnadas e amarellas, o azul, o verde e o branco, formam a escala mais

commum das côres. As figuras eram imitadas das que se executavam na

esculptura da mesma época.

[Figura 145: Pinturas do seculo XII]

*Pavimentos*

Os sanctuarios mais elegantes tinham o piso executado em mosaico, ou

marchetados de côres. Principiaram no século XII a usar nos pavimentos

das igrejas os tijolos;[41]porém os revestidos com cimento, ou lageados,

eram usuaes em as naves.

*Altares*

Os altares e pias baptismaes pertencentes ao seculo XII são raros hoje;

eram de estylo inteiramente analogo ao das igrejas d'esse tempo,

conforme se vê nos especimens que damos.

[Figura 146: Altar roman, em Saint-Germer]

*Tumulos*

Posto que a interessante obra que nos serve de poderoso guia não traga

explicações sobre os tumulos do periodo, de que tratâmos, pareceu-nos

conveniente dizer alguma cousa, para não omittirmos as essenciaes noções

ácerca dos diversos trabalhos.

[Figura 147: Pias de baptismo roman de Chéreng (França)]

Foi no seculo IX, que consentiram em que os cadaveres tivessem

sepulturas no interior das igrejas, mas d'esta prerogativa só podiam

gosar os reis, os bispos e os abbades, que por suas virtudes estiressem

no caso de receber canonisação; por quanto os cemiterios christãos, nos

primitivos tempos, eram situados fora das cidades; e no concilio

celebrado em 660 se permittiram os enterros unicamente nos adros das

igrejas.

Os christãos costumavam amortalhar os defuntos com os fatos usuaes e as

insignias do cargo ou profissão; os parentes mais proximos transportavam

os despojos mortaes, que eram depois encerrados em caixão de pedra,

marmore, ou de madeira e chumbo, ficando o cadaver com o rosto voltado

para o céo e os pés para o Oriente. Manteve-se este uso até o seculo

XIII.

Os sarcophagos eram collocados sobre o solo em renques parallelos, na

direcção do norte para o sul. Tinham a fórma de parallelipedo, sendo

mais estreitos aos pés que do lado da cabeça; e alguns tomavam na

cabeceira a fórma curvilinea.

Fazendo investigações archeologicas ainda este anno (1876), em

Alvaizerere, no antigo cemiterio e sitio chamado da _Igreja-Velha_, da

qual já não existem nenhuns vestigios, descobrimos sepulturas d'esse

feitio pertencentes ao seculo XI; o que nos fez conhecer a época da

fundação da remota igreja, de que só se conservou o nome.

N'essa época tambem costumavam collocar dentro do caixão dois vasos de

barro, um com agua benta, e outro com brazas e incenso.

Havia em muitos cemiterios, no seculo XII, além de uma cruz de pedra,

uma columna ôca, ou pilar quadrado, no qual punham de noite uma lanterna

em signal de veneração para o logar sagrado, e como indicação para que

os transeuntes pudessem rezar pelo eterno descanço dos finados.

Os tumulos em vulto ficavam collocados nas cryptas, ou nos porticos ou

em capellas das igrejas, separados das paredes ou mettidos dentro de

arcadas no grosso da construcção; e estas arcadas eram ornadas com

diversas molduras proprias do estylo ao qual pertencia a época do

tumulo:[42] porém, no seculo XIV, acompanhadas dos dois lados por

contrafortes e pinaculos. Emquanto ao feitio do cofre sepulchral,

imitaram a fórma quadrangular da decadencia romana. Os que eram

construidos em marmore estavam decorados por arcadas ou baixos-relevos.

A campa era composta de uma grande lagea horisontal, ou duas inclinadas,

formando um angulo agudo, e ornada de arabescos. No final do seculo XII,

começaram de empregar a fórma das campas com lados inclinados.

Nos tres seculos seguintes, apresentavam a estatua do defunto deitada de

costas sobre a tampa do sarcophago. Viam-se ás vezes o marido e a mulher

ao lado um do outro, no mesmo tumulo.

No museu de archeologia do Carmo, em Lisboa, ha um singular exemplo da

estatua de uma pessoa real _deitada de ilharga_, que podemos considerar

raro, porque ha só outro exemplo no jazigo real de S. Diniz, em França.

Os reis e os fidalgos eram representados com os seus uniformes, os

bispos e os abbades com as suas vestimentas sacerdotaes, com as mãos

juntas, ou os braços cruzados no peito.[43]

Os tumulos mais modestos da idade media, são os rasos, collocados nas

igrejas e nos claustros. Os mais antigos datam do seculo XII. N'essas

campas acham-se gravados em traços concavos, a effigie e o corpo inteiro

do finado, com inscripção em latim; o mais notavel exemplo d'este genero

existe em um claustro de Alcobaça, tendo a campa assente entre a porta

da casa do capitulo e a galeria do claustro.[44]

Noções elementares de archeologia · 第 7 / 13 段