banhos de Verdes, para os salões P, S, os quaes tem ainda no chão
mosaicos. D'estes dois salões passava-se para o vestibulo B, e d'ahi
para a sala D, cujo piso estava sobre hypocausto.
A sala imediata C, devia ser de temperatura mais elevada á antecedente;
pois o forno collocado em F, no pequeno pateo proximo, recebia d'elle o
calor que circulava primeiro debaixo do piso da referida sala C.
Havia outras casas que não eram aquecidas pelo hypocausto, especie de
saletas pelas quaes se entrava e saía P, A, B, S.
[Figura 67: Banhos de Verdes (França), vistos de alto.]
[Figura 68: Plano dos banhos de Landunum (França).]
Duas bandeiras muito notáveis que serviriam para banhos frios ML,
tinham communicação por uma passagem com a sala D; cada uma d'ellas
tinha em S e em R um reservatorio para agua.
Os pateos H e I serviam de deposito para o combustivel.
Em cada uma das salas O e P havia um nicho para uma estatua.
Nos banhos de Laudunum (pag. 79 [fig. 68]), no vestibulo D, o chão tinha
mosaicos. D'aqui passava-se á bella sala (n.^o 8), tambem com mosaico.
Seguiam-se outras casas com o solo suspenso e aquecido pelo hypocausto;
em uma (n.^o 7) de um lado tem um nicho circular, e do outro, quadrado
_d c_, que serviam para as banheiras.
A sala n.^o 6 seria a reservada para conservar maior gráo de calor,
porque o forno do hypocausto tinha a boca d'elle no centro d'esta casa.
O forno tinha serventia pelo pequeno pateo n.^o 4. Antes de atravessar a
sala n.^o 6 aquecia tres reservatorios revestidos de cimento _f. f._
As salas E, e os n.^{os} 9, 10, 11 eram casas para depositos do
estabelecimento.
*Palacios*
Quasi todas as cidades de pequena importancia tinham palacio destinado
para os aposentos dos imperadores, quando as visitavam; porem antes
serviam para os seus representantes, os intendentes ou funccionarios
encarregados da administração do paiz.
Os palacios que deviam offerecer as disposições analogas ás das casas
nobres dos particulares, differençavam-se principalmente pela extensão,
pelos peristylos, pateos e diversas dependencias. Os de maiores
dimensões, como o de Trajano, eram ligados ao _forum_, junto do qual
havia basilica, onde se julgavam os criminosos, e tambem _thermas_.
Tal era a grandesa do palacio de Diocleciano, em Spalatro (na Dalmacia),
cujas columnas e paredes estão ainda de pé, comprehendendo grandes
divisões: templo, basilica, pretorio, independentemente dos aposentos
imperiaes.
*Casas particulares*
Daremos algumas explicações a respeito das construcções particulares.
Chamavam _prothyrum_, nas casas das cidades, á passagem por onde se
entrava no interior d'ellas.
Era n'esta passagem o quarto do porteiro _cella ostiarii_, e ás vezes a
parte que servia de vestibulo, com habitação de mediana extensão.
O _atrium_ era a galeria quadrada (3)[23] tendo ao centro um pateo
descoberto (_impluvium_), no meio do qual havia um tanque á superficie
do chão (_compluvium_) para receber as aguas da chuva (D).
O _atrium_ era ornado com os retratos da familia; o dono da casa recebia
n'elle os seus clientes. Havia muitas especies de _atrium_.
O _atrium_ toscano, que se encontrou em Pompeia em grande numero de
casas e usado unicamente nos primitivos tempos, tinha o telhado
sustentado por madeiros cruzados em angulos rectos: o telhado tinha
escoantes para todos os lados e para o centro do pateo.
Existia a mesma disposição no _atrium tetrastylo_; apenas quatro pilares
ou columnas, collocadas nos angulos do _impluvium_, sustentavam as vigas
do tecto nos pontos de juncção.
No _atrium_ corinthio, as columnas para ponto de apoio eram mais
numerosas, e o _impluvium_ era também mais espaçôso. Construiram o
_atrium_ só para as grandes habitações.
O _atrium displuviatum_ tinha os telhados inclinados em sentido inverso
dos precedentes, de modo que lançavam as aguas da chuva para fora da
casa, em logar de as conduzir para o _impluvium_.
Finalmente, no _atrium testudinatum_, o pateo central era coberto de
telhado um tanto mais elevado, que os das galerias.
[Figura 69: Plano de uma casa nobre na cidade romana.]
Nos predios importantes, como é representado no plano junto, havia em
roda da galeria do _atrium_ aposentos destinados a diversos usos, com
saidas para a galeria, e alguns dos quaes serviam de _tribuna_ ou sala
de festim (C, C, C).
Na extremidade do _atrium_, e em frente do _prothyrum_, estavam o
_tablinum_ (4) e duas casas mais pequenas, chamadas _azas_, communicando
com elle (5-6).
O _tablinum_ e as azas encerravam a imagem dos parentes fallecidos, os
livros, archivos e papeis pertencentes aos negocios do proprietario,
assim como os documentos relativos ao emprego que exercia.
O _peristylo_ apresentava, além do _tablinum_, uma galeria ornada de
columnas, como a do _atrium_ corinthio (17-17), cuja extensão porém era
mais consideravel.
Os aposentos eram distribuidos á roda d'estas galerias (18-19); um
espaço quadrado, inteiramente descoberto e plantado de flôres e arbustos
no centro, devia parecer a imitação da parte central de alguns
claustros.
Os _oeci_ correspondiam aos nossos salões.
A _exedra_ era outra grande sala para conversação, tendo n'um dos lados
a parede curvilinea, como se fosse construida para nicho.
Encontravam-se tambem, ás vezes, nas habitações das pessoas abastadas,
jogos de péla, _sphæristerium_, e salas destinadas para outros jogos.
O _banho_ era composto em geral de _apodyterium_, _frigidarium_,
_tepidarium_, _sudatorium_ e _eleothesium_:
A _basilica_;
A _pinacothéca_ ou galeria para quadros;
As _cosinhas_ e as officinas dependentes para o fabrico do pão;
As cavalhariças, cocheiras e armazens;
Finalmente, havia um numero mais ou menos consideravel de quartos para
dormir e para acommodar os creados.[24]
Eis agora o plano de outra casa de muito menor importancia que a
anterior, na qual não encontrâmos nem as commodidades nem a regularidade
das grandes habitações particulares; mas veremos que as residencias se
modificam conforme a necessidade da familia e as suas posses
pecuniarias. Examinemos a disposição de uma das casas descobertas nas
minas de Pompeia.
A entrada ou _prothyrum_ n.^o l, conduz ao _atrium_ n.^o 2, chamado
_displuviatum_, isto é que servia para o despejo das aguas da chuva para
fora da habitação. Tinha na grossura da parede o _impluvium_ n.^{os} 3 e
4, e os alegretes para as flôres.
[Figura 70]
Uma escada de madeira n.^o 5, conduzia ao aposento que occupava o dono
da casa e a sua familia. Posto que a escada estivesse inteiramente
destruida, era facil observar o feitio do corrimão, porque o artista a
riscara na parede que lhe servia de caixa.
Os quartos 6 e 7 eram destinados para receber os estrangeiros e os
amigos. O escravo que guardava a porta da rua devia dormir no quarto
n.^o 8, onde se conservava tambem de dia. Era pequena a cosinha n.^o 9
collocada ao lado do corredor.
*Casa de campo (villæ)*
Suppõe-se que as mais bellas casas de campo romanas tinham só um andar;
tambem não se differençavam essencialmente das da cidade, e continham
pouco mais ou menos as mesmas divisões, mais arbitrarias, conforme
exigia o terreno, a belleza do sitio, a importancia da exploração rural
e outras circumstancias da edificação.
_Columella_,[25] distingue tres partes em uma casa de campo occupando-se
de trabalhos ruraes, e o maior numero das _villæ_ gallo-romanas e
luso-romanas estavam n'este caso. As tres partes eram:
A _villa urbana_, ou habitação do proprietario;
A _agraria_, ou habitação dos lavradores, e dos animaes necessarios para
a lavoura;
A _villa fructuaria_, onde se recolhiam as colheitas e os outros fructos
das terras.
As casas anuesas ao segundo pateo, chamadas _agrariæ_, ou
_fructuariæ_, apresentavam menos interesse com relação á arte, que a
_villa urbana_. Eram pertenças do casal ou dos trabalhos ruraes, _villa
agraria_.
No centro do pateo da villa via-se, como se pratica ainda hoje, um
tanque ou lagôa _compluvium_, para se banhar o gado. Á roda do pateo
estavam dispostos, a cosinha, o abrigo para os escravos, a abegoaria
(_bubilia_), o curral das ovelhas (_ovilia_), as cavallariças
(_equilia_). Achava-se tambem ali o gallinheiro (_gallinaria_) e o
chiqueiro para os porcos (_haræ_).
Pode-se citar como pertenças da _villa fructuaria_, que estava ora
separada ora junta da _agraria_, a adega (_cellæ_) o palheiro
(_horrea_), a casa da fructa (_apothecæ_), etc.
Tem-se encontrado numerosos vestigios das _villæ_ ou casas de campo
fabricadas durante a dominação romana. Em 1874 descobrimos em Portugal
uma proximo de Leiria, no logar de Martim Gil, na profundidade de 1^m,
59; havia ali differentes casas com mosaicos, e na principal achámol-o
de cinco côres. Fizemol-o transportar para o museu da archeologia, que
fundáramos em Lisboa em 1866. Não tem acontecido outrotanto com essas
casas antigas edificadas nas cidades, pois foi arrasado o solo que ellas
occupavam, e isso deu logar a aproveitarem-se os alicerces que ficaram
enterrados.
Para darmos idéa mais completa, descreveremos a _villa_ de Bignor em
Sussex (Inglaterra), por ser a mais bem conservada que existe.[26]
Compõe-se de dois pateos: um (A) mais vasto que o outro, rodeado de
muros bastante grossos, não formava angulo recto com os do segundo
pateo. O muro de leste tinha 277 pés de comprimento, o do norte 385 pés,
e o do sul 322.
Este pateo, que representava a _villa rustica_, comprehendia muitas e
amplas construcções, mas nenhuma tinha vestigios de pintura nem de
pavimentos de mosaicos.
O outro pateo (B), que formava propriamente a _villa urbana_, estava
cercado de casas ricamente ornadas e quasi todas tinham mosaicos.
Um corredor ou _crypto-portico_ (1, 2, 3, 4), que era construido á roda
do quadrado do pateo servia para communicar com os aposentos; o
comprimento do corredor era de 160 pés, de leste a oeste.
[Figura 71: Villa de Bignor em Sussex.]
Uma grande parte d'estes corredores tinha mosaicos.
Ao longo do _crypto-portico_ septentrional estavam dispostos os
aposentos (n.^{os} 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13).
No n.^o 14 via-se um mosaico de 8 pés de quadrado dividido em formas de
rhomboides e triangulos.
O n.^o 15, era uma das melhores casas da _villa_, tinha 19 pés por 30,
com uma grande camara de 12 pés, o que lhe dava 32 pés por todo o
comprimento do norte ao sul; o pavimento era formado de mosaico muito
notavel, porque um dos desenhos representava o rapto de Ganymedes.
No meio do aposento, e ao centro da maior composição circular de
mosaico, via-se uma cisterna de pedra branca e de 4 pés de diametro, no
fundo da qual existia um orificio com tubo de chumbo.
Esla sala e o aposento immediato eram aquecidos por um hypocausto, cujo
forno se abria pela parte exterior da casa na base da parede.
O n.^o 19 era um _atriolum_, ou pequeno pateo ornado de columnas. Os
aposentos do pateo do norte e do sul (21, 22, 23, 24, 25), eram em geral
ornados de pinturas, e com o chão de mosaicos.
No n.^o 22 encontrou-se um fogão de 31 pollegadas de boca, e 17
pollegadas de fundo; tijolos ligados com ferro ao fogão formavam-lhe as
paredes lateraes. Outro fogão similhante foi achado no quarto n.^o 23.
Os aposentos menos importantes occupavam o lado sul até o n.^o 35.
Aquelles que se lhe seguiam haviam feito parte de um banho.
Depois da sala das estufas, vinha a que era destinada para o banho frio
(n.^o 40), que tinha 35 pés por 30. O chão estava menos mal conservado e
compunha-se de pedras brancas e pretas de 6 pollegadas em todos os
sentidos, dispostas em xadrez.
O sitio do banho achava-se pouco mais ou menos no meio do aposento. Era
um reservatorio com aproximadamente 18 pés de leste ao oeste, de 3 pés e
2 pollegadas de profundidade. Descia-se por tres degraus do lado de
leste, do oeste e do norte.
A bella sala (n.^o 41), situada a leste da precedente, apresentava um
quadrado de 35 pés, porém era um tanto irregular por causa da direcção
diagonal da parede de leste. Admirava-se um mosaico mais bem conservado
que os restantes.
A maior parte destas _villæ_ teria sido construida nos tres primeiros
seculos da era christã, julgando-se assim pelas medalhas encontradas nas
suas ruinas, e que algumas datam do seculo IV.
*Monumentos funereos*
Depois de descrevermos os edificios, onde os antigos passavam a vida de
confortos da civilisação romana, a ordem natural nos conduz aos
monumentos que encerravam os despojos mortaes.
Ainda que algumas familias mandassem enterrar os corpos, todavia o uso
de queimal-os foi quasi geral em Roma antes da conquista da Gallia, e
n'este ultimo paiz, nos dois primeiros seculos da era christã.[27]
A fogueira funebre (_rogus_ ou _pyra_) era formada de lenha de facil
combustão e faziam-n'a mais ou menos alta conforme a cathegoria das
pessoas finadas. O corpo era posto sobre uma especie de leito de ferro
ou maca, e os parentes do defuncto, depois de lhe terem dirigido o
ultimo adeus, voltavam o rosto e acendiam a fogueira com uma acha.
Quando a fogueira estava extincta, lançavam vinho nas cinzas do
defuncto, e então estas eram cuidadosamente encerradas em uma urna que
mettiam em seguida na terra com certo numero de vasos de differentes
formas e tamanhos, que se collocavam em roda, os quaes estavam cheios de
liquidos ou algum manjar offerecido aos _deuses manes_.
As urnas de barro descobertas em grande numero de cemiterios são em
geral do feitio simples, e muitas apresentam côr cinzenta; comtudo,
notam-se por suas formas perfeitas e graciosas. As mais ornadas tem
filetes, entre os quaes se traçaram riscos parallelos. Algumas tem
estrias ao alto, outras molduras entrelaçadas, em zig-zags, etc. etc.
As formas mais geraes são as das gravuras seguintes _a_, _b_, que se
encontram nos antigos cemiterios.
[Figura 72: Urnas de vidro, do museu de Tours.]
As urnas de vidro, muito mais raras que as de barro, eram reservadas
para os finados de familias abastadas. Tem um tanto o feitio das urnas
de barro, porém o mais é apresentarem a configuração de um grande frasco
com gargallo redondo com uma ou duas azas, sendo o corpo ora cylindrico,
ora quadrado.
As urnas mais notaveis são de cobre batido e lavrado, e tambem estas
difficilmente se encontram.
Em Alcacer do Sal fez-se em 1874 o descobrimento de um necropole romano,
no qual se acharam quatro urnas cinerarias com pinturas, imitando o
genero etrusco, obra executada por artista grego. Eram de differentes
tamanhos, tendo a maior 0,59 de altura, 0,34 de largura; esta rara
descoberta feita em Portugal causou bastante admiração entre os
archeologos estrangeiros.
[Figura 73]
O orificio das urnas era tapado, ou com um prato voltado, ou com um
pedaço de tijolo, ou ardozia, e até com um bocado de lagea.
Encontram-se geralmente junto d'estas urnas, taças de differentes
generos e pequenos vidros com gargallo estreito e sobre o comprido,
especie de galheta com feitios variados; mas o maior numero é de barro
encarnado, e suppõe-se terem servido para conservar o vinho, o leite,
ou algum licor offertado aos _manes_ do finado.
[Figura 74]
A maior parte das urnas, foram mettidas dentro da terra sem caixas de
resguardo; porém muitas tiveram esses cofres para a conservação. Se a
madeira que serviu para isso apodreceu a primitiva existencia parece
provada pelos pregos que ligavam as taboas, que se encontram ás vezes em
roda das urnas. É possivel que as urnas de vidro ou crystal, que
pertenciam a defunctos de cathegoria, fossem mettidas nos cofres de
madeira ou de pedra. Alguns d'estes ultimos, encontrados em varios
cemiterios, eram compostos de duas peças e bastante espaçosas para
conterem a urna _cineraria_, e os vasos accessorios de que já fallámos.
Finalmente, construiam ás vezes, no proprio local, e no momento do
enterro, o cofre ou resguardo que devia conservar a urna _cineraria_.
Em quanto ás cinzas do finado de humilde condição e pobre eram mettidas
em vasos de formas simples, e accumuladas nos cemiterios sem cousa
alguma que as indicasse; as que pertenciam á classe media da sociedade
tinham por cima da urna um _cippo_, e os mais opulentos apresentavam um
monumento ainda mais importante.[28]
Em geral, os monumentos mais sumptuosos estavam postos em fileira nas
_vias_ que davam entrada nas cidades.
As pedras sepulchraes, ou _estélas_,[29] tomavam differentes feitios e
algumas apresentavam inscripções e a effigie do finado. [fig. 75]
[Figura 75: Estéla.]
Não se deve cessar de recommendar as explorações dos cemiterios romanos.
Quando se procede a obras publicas, ou particulares, descobre-se a sua
existencia no meio dos campos, principalmente nos terrenos incultos,
onde as urnas tem sido conservadas por faltas de convenientes
excavações.
Algumas sepulturas, destinados á classe inferior, são tambem monumentos
importantes como se vê na presente gravura.
[Figura 76: Monumento de S. Ramiro.]
O monumento pyramidal de S. Ramiro, é um edificio composto de tres
ordens de andares sobrepostos, com aproximadamente 50 pés de altura. O
primeiro andar é quadrado, e serve de pedestal, com baixos relevos nas
quatro faces; pilastras sem pedestaes ornam-lhe os angulos.
O segundo andar é egualmente quadrado com quatro arcos de archivolta que
assentam em pilastras; nos angulos tem quatro columnas corinthias com
estrias; o friso é ornado de arabescos em que se distinguem cavallos
marinhos alados, sereias, etc.
O terceiro de fórma circular, mostra uma cobertura conica sustentada por
columnas corinthias, semelhando d'este modo o lanternim do pequeno
templo circular _monoptero_: debaixo d'esta especie de cupula estão
collocadas duas estatuas em pé, uma de homem, outra de mulher.
Não pode haver duvida de que esta pyramide seja monumento sepulchral;
pois sobre o friso do segundo andar, ficando orientado ao Nordeste,
vê-se a seguinte inscripcão:
SEX L M IVLIEI C F PARENTIBVS SVEIS
que se tem lido d'este modo:
_Sextus Lucius Marcus Julii curaverunt fieri parentibus suis_. As duas
estatuas representariam pois o pae e a mãe de _Julius_, os quaes
erigiram a pyramide.
[Figura 77: Sarcophago do museu de Ruão.]
_Enterramentos_.--Os corpos que não eram queimados, enterravam-n'os em
sarcophago de pedra ou em caixões de chumbo, resguardados em outro cofre
de madeira, ou de pedra, como se vê na gravura da pag. 93 [fig. 77].
[Figura 78: Sarcophago com inscripção e a ascia, (_está collocada por
cima do M_).]
Em numerosos sarcophagos dos pagãos está representada a _ascia_,[30] e o
nivel, em esculptura. Alguns tem uma inscripção na tampa, porém esta
vê-se mais geralmente no meio do cofre, como indicamos na gravura da
pag. 94 [fig. 79].
As inscripções eram mui interessantes por quanto expressavam o maior
sentimento das familias. Os antigos nada tinham que invejar aos povos
modernos a este respeito: e é facil comproval-o. Eis um epitaphio que
patenteia o profundo affecto de uma infeliz mãe chorando a perda da
filha querida:
_Ó dôr! quão amargas tem sido as lagrimas derramadas n'esta
sepultura em que jaz Lucinia... Lucinia, suave alegria de tua mãe.
Sim! aqui está sob este gelido marmore. Prouvesse aos Deuses que o
espirito de novo se animasse porque ella conheceria quão dolorosa é
a minha afflicão. Viveu 27 annos, 10 mezes e 25 dias. Parthenoca,
mãe infeliz, lhe mandou erigir este monumento_.
Os Aliscamps deixaram-nos outros que se distinguem por sua philosophia,
e a cujo sentido se dá muitas vezes a interpretação da philosophia
christã. Taes são as duas inscripções seguintes:
*D. M. FVI, NON SVM; ESTIS, NON ERITIS; NEMO IMMORTALIS*
_Fui, não sou; sois, não sereis; ninguem é immortal_.
Por outra vemos que entre os romanos, _como entre nós_, os herdeiros
eram mais solicitos em apoderarem-se dos bens dos paes, que dispostos a
levantarem-lhes jazigos; de modo que os homens avisados mandavam
construir os tumulos em vida, para terem a certeza de que não se lhes
perdia a memoria.
*D. M. LVCIVS GRATIVS EVTICHES DOMVM AETERNAM VIVVS SIBI CVRAVIT NE
HAEREDEM ROGARET TAVTA*
_Lucio Grado Eutichis erigiu, ainda vivo, esta morada eterna, para
não pedir ao seu herdeiro que lhe prestasse este serviço_.
Ao findar a dominação romana, quando o christianismo estava solidamente
estabelecido na Gallia, _a incineração dos mortos já não se
praticava_.[31]
Os sarcophagos christãos em marmores são faceis de distinguir dos
sarcophagos pagãos por causa das esculpturas symbolicas, ou das scenas
biblicas que os ornam.
*Objectos de barro*
Os objectos de barro são, na maior parte, fragmentos que se encontram
nas localidades habitadas no tempo da dominação romana.
As peças mais notaveis pela fórma delicada e pela conservação, são de
barro vermelho envernisadas com bastante brilho, e ornadas com figuras
em relevo. Encontram-se em grande quantidade nos logares que tiveram
importancia sob o dominio romano. É raro, sem duvida, acharem-se vasos
inteiros; mas pode julgar-se pelos fragmentos encontrados quaes seriam a
forma e as dimensões dos objectos a que pertenciam.
Os vasos de barro encarnado apresentavam quasi o mesmo feitio, vasos
bojudos, tijelas ou gamellas de differentes tamanhos [fig. 79], taças
com pé, compoteiras, pequenas taças, travessas redondas de diferentes
tamanhos com borda saliente [fig. 80], pratos, pires, etc, etc.
Pode suppôr-se que a boa louça encarnada servia principalmente para o
serviço da mesa, e para o de toucador.
[Figura 79]
[Figura 80]
A forma dos vasos era geralmente perfeita: os que tinham figuras eram
fabricados com moldes, e isto explica a apparencia gasta de alguns; o
interior era liso, notando-se apenas alguns circulos concentricos
formados pelo torno. Por baixo do fundo do vaso achava-se, quasi sempre,
o nome do operario ou do fabricante, gravado com uma especie de
estampilha ou sinete.
Estes nomes estão umas vezes no genitivo, outras antecididos ou seguidos
das lettras _o_ ou _of_, para designar _officina_, assim: _of Severi_;
_Bassi_; _of o_, _Croci_, _Crassi o_; o que quer dizer que os vasos
sairam da officina ou da fabrica de Severo, de Basso, de Croco, de
Crasso, etc, etc.
[Figura 81]
A palavra _manu_, escripta com todas as lettras ou em abreviatura, como
nas inscripções de: _Priscilli manu_, _Silvani m_, significa da mão de
Priscillio, de Silvanos, etc.
Alguns d'estes vasos eram inteiriços, não podendo sair do molde senão
depois do barro ter seccado para que o relevo se tirasse sem damno do
concavo do molde.
A maior parte porém era tirada de duas ou mais peças, porque seria
impossivel formar um molde de uma só peça para os vasos bojudos.
Se os fabricantes de louça de barro imprimiam os seus nomes no fundo
d'esses vasos, os artistas que fariam as formas e compunham os assumptos
que deviam apparecer nos relevos exteriores, inscreviam tambem os seus
nomes nos moldes, entre as figuras.
_Barro preto_.--As peças de barro preto são mais raras que as
encarnadas, embora se encontrem misturadas com estas.
Tem-se encontrado cobertas com bom verniz côr de ébano, e mostrando
argila, menos compacta que a dos vasos encarnados; ora cinzenta, ora
esbranquiçada, ou avermelhada.
_Objectos de barro bronzeado_.--Apparecem tambem em muitas localidades
pequenos vasos muito leves, de barro encarnado ou amarellento, misturado
de quartzo cobertos de verniz de furta-côres, suavemente applicado.
[Figura 82]
_Barros avermelhados, cinzentos escuros, ou esbranquiçados_, etc.--São
mais ou menos apurados; a massa ou argila de differentes côres foi
empregada para fabricar travessas, pratos, vasos de diversos feitios
destinados para varios usos, botijas, etc.
[Figura 83]
Nos vasos destinados para os liquidos, como são as nossas garrafas,
encontram-se, quer de barro vermelhado, quer cinzento ou esbranquiçado,
formas mui elegantes, das quaes se conservaram algumas até o presente.
Os vasos, como os que se vêem em seguida, ora de barro encarnado, ora
cinzento, apreciam-se um tanto com as saladeiras, ou tijelas grandes, de
que ainda se faz uso.
[Figura 84]
Encontram-se, egualmente, em terrenos cultivados, onde se acham também
telhas e vestigios de habitações romanas.
*Figurinhas de barro*