Estes maliciosos conheciam-lhe o fraco, como toda a gente. Muito mais do

que apaixonado amante dos classicos latinos, era um pescador de canna.

Esta paixão soturna é que lhe enchia a existencia. Por ella esquecia

deveres sacerdotaes, obrigações escholares e a propria comida. Borracha

á cinta, um naco de brôa, azeitonas... e lá andava um dia inteiro, pela

margem do rio, para baixo e para cima, a cocar. Principalmente se o peixe

picava, se enchia o cacifre, o seu gozo era infinito. Só para algum

_Senhor fóra_ é que tinham ordem de o chamar, com tres badaladas no sino

da torre. Esta ideia d’um moribundo se preparar para ir á presença de

Deus, era mais forte. E resmungava ao enrolar a sedela:

—Como é para coisa d’estas, não ha remedio.

N’estes termos, habil foi o estratagema dos discipulos, para se lhe

apoderarem do espirito benevolente, e conseguirem o sueto que desejavam.

O caso, apontado pelo Thomaz, era grave. Havia annos que elle, ao

desafio com o morgado da Torre Velha, procuravam a gloria de pescar a

famosa truta grande! Era um animal matreiro, raramente se mostrava fóra

d’um fundo poço, onde as redes se não arriscavam.

Juncto da pedra branca, só a tinham visto, duas ou tres vezes.

A revelação do discipulo fez com que o padre João desconhecesse

immediatamente os encantos bucolicos de Virgilio, as pompas litterarias

de Tito-Livio. Deante de si, não tinha o criminoso que minutos antes

lhe arrancára berros de colera; só via o individuo, que possuia um

conhecimento para elle inestimavel.

—Então era a truta grande! Tu vistel-a bem?! Tu conhecel-a?!

—Se vi! Se conheço! Estava a serenar muito junctinha á pedra. Quando

vinha á tona algum bichinho a rabear, ella nadava depressa e, zaz,

abocava-o, dando um pulo fóra d’agua.

—Oh! com mil demonios!—exclamou.—Oh! minha Virgem Santissima, que lhe vou

metter o anzol, mesmo na guela!

E depois um pouco mais sereno, no abatimento produzido por uma onda de

gozo considerou:

—Ha quantos annos ando eu atraz d’essa ladra! O dia hoje está quente...

Sol de trovoada, é bom p’ra coisa! Que dirá o D. Luiz, quando souber?...

Mostrava nas palavras verdadeira energia de luctador; o seu campo de

batalha era aquelle.

* * * * *

De entre muitas cannas, suspensas ao longo da parede da varanda, escolheu

a que tinha ponteira mais flexivel e resistente. Da gaveta da sua banca

de professor, tirou uma sedela de côr verde-agua.

Calculava tudo para ficar victorioso, n’esta peleja que durava annos.

Alli não havia mestre, nem discipulos. Os rapazes davam-lhe conselhos,

offereciam-se para ir ás minhocas, e o Thomaz achou muito grossa a sedela:

—És tolo—retorquiu o mestre. Não ves que é uma truta do tamanho d’um

savel! Se a apanho, vocês tem feriado tres dias! Como ficará o D. Luiz?

Ai! que regalo.

O morgado da Torre Velha era o seu competidor na pesca á linha.

Encontravam-se frequentemente n’este desafio tacito. A cada peixe que um

encacifrasse, o outro fazia um cumprimento espalhafatoso, mas odiento.

Ambos se julgavam com eguaes direitos, á creação de todo o rio. A truta

grande, porém, como um e outro tinham jurado apanhal-a, era motivo de

mais grave conflicto. Por causa d’ella tinham feito pesquizas especiaes.

Iam de noite, de dia, nas occasiões das cheias para juncto da azenha;

porque, de vez emquando, o formoso animal vinha-se alli refrescar, nas

aguas correntes.

* * * * *

Estudavam em separado, os estados climatericos, para calcularem o

momento proprio de conseguirem o seu fim. Quando a qualquer d’elles

parecia opportuno, tomava a canna precipitadamente, e ainda que o jantar

estivesse na mesa, abalava para o rio. Muitas foram as desillusões,

fadigas e contrariedades; mas tudo venciam com tenacidade heroica. A

dormir e acordados tinham momentos de subito terror: cada um via o

outro, apparecendo victorioso, com a truta presa do anzol, usando de mil

habilidades para a trazer á margem, sem partir a sedela. Porém n’esta

occasião o mestre de latim (talvez ainda resto do espirito de rigorismo

com que entrára na varanda) entendeu que devia continuar as licções e

disse encostando a canna ao canto:

—Vamos primeiro acabar as licções.

Os discipulos entreolharam-se aterrados! Por esta é que elles não

esperavam. A lembrança feliz não sortira effeito. Uma risonha invenção,

reduzida a nada. O plano de irem roubar n’essa tarde certas uvas

doiradas, completamente gorado! Todos os rostos se voltaram para o

Thomaz, que estava cabisbaixo e confuso. Porém, neste apuro, foi o sonso

do Esteves, que fallou:

—A estas horas, já está por lá o senhor D. Luiz, com a sua canna...

O padre João, deu um pulo na cadeira e perguntou rapidamente:

—O senhor viu-o passar!?

—Não senhor; mas no outro dia pediu ao moleiro que, quando ella por alli

apparecesse, o mandasse chamar.

Era quasi tão terminante como se o tivessem lá visto. Seria mais acertado

partir immediatamente, antes que o da Torre Velha tivesse denuncia.

Tornava-se indispensavel tomar-lhe a deanteira.

—Bem, bem... Essas licções na ponta da lingua para amanhã. E não me

vão para o rio, por causa das lavadeiras. Não gosto da lingua da tal

Lindoria, que vae por ahi badalar... badalar...

* * * * *

Partiu de canna ao hombro e n’um passo diligente. _Deus nobis heac otia

fecit_—segredava comsigo. Os discipulos fugiam para o outro lado, com

medo que ainda lhe desse a tineta, de voltar para traz. Corriam pelos

caminhos, davam saltos, guinchos... O Thomaz relembrou-lhes o que disse

o padre João, porém elles, não se importaram, continuando a correr e a

gritar sem fazerem caso.

Na margem do rio, o sacerdote, armou-se de todos os cuidados para não ser

presentido do esperto animal. Ao dirigir-se á pedra branca, os passos

eram miudos, evitando as folhas seccas, que gemem debaixo dos pés.

Que enorme prazer de vingança! Iria passar á porta do morgado, com

a truta pendente da mão. «Olha lá! rala-te p’ra’hi!»—havia de dizer

mentalmente. Nunca houve bandido que espreitasse com mais sagacidade a

sua victima.

Já de longe levava a canna prestes, a sedela colhida na mão para a lançar

imprevistamente. Estava a pouca distancia, quando estacou, pallido de

colera! O D. Luiz, surgíra n’esse momento da porta da azenha, seguindo

rio acima com o anzol tambem prompto!

—Olhem o excommungado do barbaças que teve denuncia!—exclamou o

ecclesiastico. Bem disseram os rapazes!

O fidalgo, homem edoso, corpulento, tez morena das soalheiras, olhar

emprehendedor, tambem o viu e, provavelmente, faria identicas reflexões.

Comprimentaram-se com sorriso desdenhoso e n’esse instante abriu-se entre

elles uma lucta colossal.

Estavam quasi a mesma distancia. Approximarem-se atabalhoados era

inconveniente. Tanto um, como outro comprehenderam a gravidade do

momento. O peixe era um só e decerto não teria a condescendencia de

pegar nos dois anzoes ao mesmo tempo. O padre João humildou-se. Fez ao

inimigo um signal em que pedia uma tregua, com o fim de parlamentarem.

As circumstancias exigíam prudencia e ambos se afastaram da margem, para

virem á falla.

O padre disse primeiro:

—Assim não póde ser, morgado. Nem p’ra mim, nem p’ra Vossa Senhoria!

—Que quer você que lh’eu faça? O rio não é grande?

—Mas a truta é uma, e se vamos á porfia escapule-se. Vossa Senhoria sabe

que ella está alli.

—Palavra que não! Porque diabo não está você a dar aula aos seus rapazes?!

O sacerdote, zangado comsigo por lhe ter denunciado a truta, não pôde

supportar-lhe a censura:

—E porque diabo não está o senhor a dormir a sua sesta! Ora é muito fina!

Estavam furiosos um contra o outro; mas a occasião era inopportuna para

se descomporem. N’esse momento, juncto da pedra branca, a superficie do

rio enrugou-se, a agua espadanou e um peixe enguliu um insecto que vinha

nadando.

—Seria ella?—rugiu o D. Luiz, com vontade de matar o padre.

—Ná...—opinou este fazendo-se forte—Ella ha de fazer mais mossa.

No fundo ambos acreditaram que podia ser. «Maldito sotaina!» «Maldito

barbaças!»—insultaram-se mentalmente.

—Bem—disse o padre. Dois ao mesmo tempo é que não póde ser. Quer Vossa

Senhoria que se tire á sorte quem ha-de ir?

—Valeu—concordou o fidalgo.

D. Luiz tirou um pataco do bolso e perguntou:

—Cruzes ou cunhos?

—Cruzes que eu sou padre. Agora trapaceie, se lhe parece.

—Não tenho os seus costumes, seu bebedo!—respondeu o fidalgo, mostrando

na palma da mão as cruzes da moeda.

E atirando ao ar o pataco com força, viram-no cahir a distancia. Os dois

pescadores correram cheios de commoção.

—Cunhos!—gritou o morgado ao ver a papuda efigie do rei D. João VI.

* * * * *

O padre João acceitou resignado a sentença. Encostou a um valado a canna,

tirou prodiga pitada da caixa de prata e foi-se sentar n’uma pedra

trauteando cantochão, talvez pela mesma razão que tem os condemnados á

morte, para pedirem que rufem os tambores, junto do cadafalso. D. Luiz

augmentava-lhe o supplicio, caminhando vagarosamente para a margem. Dois

annos de pesquizas e cuidados iriam terminar n’aquelle instante, pela

victoria do seu adversario? Desappareceria aquelle tropheu de gloria, que

lhe dera tantos sonhos enthusiastas? Principiou a cantar alto, desvairado

por um sentimento de malevolencia. O da Torre Velha advertiu-o:

—Isso é para espantar, padre João?

Callou-se ficando n’um abatimento triste.

Ia presenciar a sua vergonha. O dia estava magnifico. Com ar de trovoada

o peixe pica, que nem mil diabos! E figurava-se-lhe na imaginação a truta

grande de guela aberta, aboccando a minhoca do barbaças. Era horrivel e

desoladora esta possibilidade!

Mas porque é que o cubiçado peixe não havia de fugir? A maior parte das

vezes é o que succede—consolou-se. A elle mesmo não lhe tinha acontecido?

Ella a serenar, a serenar, muito quietinha, deante dos seus olhos,

nem parecia coisa viva... Procurava o lado de cima, lançava o anzol a

distancia para vir nadando pela agua a baixo como um bicho inexperto, e

afinal, a truta que para elle era o animal mais intelligente da creação,

escapulia-se por entre os penedos, que era um regalo! Quantas vezes isto

lhe succedera? Uma infinidade.

* * * * *

Ainda outra consideração:

O morgado não era grande pescador de linha. Ignorava muitos segredos

da arte sublime e não possuia todos os petrechos. Teria elle escolhido

uma sedela bastante verde-agua para não ser percebida, e bastante forte

para resistir aos repellões do valentissimo animal?! A truta é o peixe

mais valente do rio, tem uma força que poucos apreciam. Talvez o seu

antagonista não soubesse calcular essa rijeza—considerou.

Porém a gravidade do caso parecia ter dado ao D. Luiz uma intelligencia

agudissima. Atirou calculadamente o seu anzol e seguia pela margem, com

o olho álerta e prompto a dar a pancada, logo que chegasse o momento.

O padre João teve vontade de fingir uma dôr, só para o perturbar. A

anciedade do seu peito, crescia tumultuariamente, como oceano em furia.

Aquella alma bondosa, teve a ideia repugnante de desejar uma apoplexia

ao fidalgo! Mas reconhecendo-se criminoso, por este mau pensamento,

poz o coração á larga, tornou-se magnanimo e até, mentalmente, pediu a

Deus, que deixasse o morgado pescar a truta grande. Mas o da Torre Velha

relanceou-lhe um olhar triumphante e o padre João, logo mudou de parecer,

rosnando:

—Ah! ladrão! que se ella te foge muito me hei de rir.

O instante verdadeiramente supremo ia chegar. O anzol já se podia

calcular perto da pedra branca.

Que infernal chamma abrazava o peito do ecclesiastico!? Poz-se de pé,

só para seguir nas minudencias toda a peripecia. O fidalgo, attento e

subtil, empregava o maximo da sua intelligencia.

Afinal, sente a pancada! Curva-se a ponteira! O peixe estava preso!

—Ah! grande maroto, que m’a roubaste—exclamou o ecclesiastico.

O instincto obrigou-o a ser generoso. Gritou ao D. Luiz:

—Agora é não a deixar fugir.

—Elle é o deixa—respondeu com orgulho, o da Torre Velha.

* * * * *

Começou a lucta heroica entre o fidalgo e o peixe. O animal era valente,

podia quebrar a sedela, se o quizesse tirar sofregamente do rio. Tambem

podia acontecer rasgar-se-lhe o beiço ou metter-se debaixo d’alguma

lapa, se não tomasse precauções. Para obstar aos inconvenientes era

indispensavel cançal-o, com paciencia e perspicacia. Por isso D. Luiz

attrahiu-o a um logar conhecido, e alli o deixou rabear, defendendo-lhe o

mysterioso poço, onde a truta se podia enredar n’alguma raiz. Puchava-a

vagaroso e com delicadesa, consentia-lhe prudentes guinadas para o largo,

dava-lhe linha calculadamente.

Ao fim de cinco minutos, tanto o fidalgo como o padre João, reconheceram

que o peixe estava prompto. Condescendia, deixava-se ir para onde o

levassem, mostrava-se fatigado e manso.

O sacerdote, já resignado, seguia todas as manobras sem rancor.

—Ande que apanhou—disse. Puche-a para perto e deite-lhe a mão debaixo

d’agua, se não, ainda a vê por um oculo.

* * * * *

O D. Luiz aproveitou o conselho.

Attrahiu manhosamente o peixe ao sopé do muro, para que lhe ficasse

debaixo d’um terrouço. Depois desceu; deitou-se de barriga, tão baixo

que as barbas lhe tocavam na agua; introduziu um braço, guiando-se

pela sedela; e, quando conheceu que lhe tinha um dedo na guelra, disse

victorioso:

—Esta já não foge, padre! Que bruta que ella é!

Retirou o braço da agua, ergueu-se, ficando com o peixe pendente.

—Olhem o que é! Um barbo!... um peixe reles!—exclamou o sacerdote.

D. Luiz da Torre Velha, assim ludibriado pelo acaso, teve a ideia de

atirar com o barbo á cara do padre! Porem era uma injustiça—considerou.

Que culpa tinha de tudo isto o mestre de latim?! O seu abatimento, gerado

na fatal desillusão era patente. Pegou na canna, na sedela, no cacifre,

no peixe e... zaz!... atirou tudo ao meio do rio.

—Nunca mais! Póde ter a certeza de que nunca mais volto a isto—affirmou

retirando-se.

Abril—85.

[Illustration]

[Illustration]

UM CORVO E UM PAPAGAIO

(CONTO PARA CREANÇAS, OFFERECIDO AOS MEUS FILHOS)

Isto passou-se no tempo dos animaes fallantes:

Um velho corvo, tendo de edade perto d’um seculo, n’um dia de muita

chuva e vento, veiu, já sem forças, poisar na beira d’um telhado. Este

valente da amplidão dos ares, tinha perdido toda a arrogancia do seu

porte; encolhido e a tremer não se podia já ter nas pernas. A extremidade

amarellada das suas pennas, outr’ora tão negras, mostrava que padecia

de velhice e de fome. Ao habitante eterno dos penhascos sombrios, ao

motejador das tempestades que assustam os homens, coube-lhe o vir dar

o ultimo suspiro da sua longa vida, perto do comedoiro farto e luxuoso

d’um vulgarissimo papagaio real. Este, de papo cheio, e aquecido pelo ar

tepido da cosinha, ao sentir a queda do corpo enfraquecido do corvo,

perguntou d’um modo gracejador:

—Que é lá!? Quem passa?

Uma voz quasi soluçante, conservando a meiguice dum peito corajoso, e o

vigor do suspiro d’um general moribundo nos campos de batalha, respondeu:

—Gente de paz, amigo. Descanço um momento.

—Olha um corvo!—gritou o papagaio cheio de medo. Aqui d’el-rei que me

come! Antonio, acode!

Mas o corvo, com uma voz tranquilla e cheia de bondade, serenou-o:

—Não te assustes... Não tenhas a meu respeito a opinião do povo, que

é errada. Sou meigo e infeliz. Tive filhos, casa, uma companheira de

muitos annos e tudo isto me roubaram os homens. Durante a minha vida d’um

seculo, tenho visto mais barbaridades praticadas pelos corações piedosos,

do que todas as que attribuem á minha raça maldita.

O papagaio, ainda receioso, mas cheio de curiosidade perguntou:

—Então não és feroz e cruel como dizem?

—Não. Tenho affectos; no alto dos meus queridos rochedos, muita vez

escutei com prazer o canto dos passaros nossos irmãos e a alguns quiz

imitar. Amigos meus e meus irmãos viveram entre homens, tornaram-se

familiares, chegando a comprehender a linguagem que se falla. Eu sempre

gostei do ar forte e da liberdade das montanhas. Hoje enfraquecido e

cheio de fome fui arrumado para este telhado, pelo vento que toda a vida

escarneci. Ha muitos dias que não como, dás-me alguma coisa d’isso que

ahi tens?

—Não posso—respondeu o egoista.—O meu arroz mal chega para mim... Tu

tambem o não comias. Do que mais gostas, segundo dizem, é de carne podre.

—Que remedio tenho eu, á falta de melhor? É o unico alimento dos

infelizes que vivem nas solidões. Comemos tudo... a fome é negra. O teu

arroz cheira tão bem... Dá-me um bocadinho? Poucos minutos me restam de

vida. Deixa-me ao menos aproveitar da tua comida, isso que tu deitas fóra

e desprezas.

* * * * *

Fez um esforço para voar; mas não podia. No entretanto esse mesmo

movimento d’azas atemorisou o papagaio que bradou:

—Não te chegues, não te chegues! Tu o que desejas é comer o meu arroz e

talvez engulir-me a mim mesmo. Nada de brincadeiras. Essa tua fraqueza

póde muito bem ser fingida, para me enganares. Não te chegues, senão

chamo o Antonio, o meu amigo cosinheiro, que arranja coisinhas boas para

o meu papinho, e se elle vem, olha que dá cabo de ti.

O corvo, quasi agonisante, soluçava tremendo de frio e de fome:

—Não me odeies, lá por eu ter má opinião em toda a gente. No tempo em que

era forte, quantas vezes não cobri com o meu corpo, muitos passarinhos

que não podiam resistir á tempestade?! Fiz o bem que pude. Soccorre-me

hoje, que estou para morrer.

O papagaio, desconfiado e vaidoso, temendo que o rustico habitante dos

pincaros lhe sujasse a plumagem vistosa, ordenou:

—Então deixa-te estar ahi. Vou pedir ao Antonio que te deite um pedaço

de carne, da que não presta. Talvez a não mereças; mas devemos ser

caridosos—concluiu espanejando-se.

O velho corvo, já sem altivez, agradeceu com ternura na voz:

—Obrigado. Nosso Senhor t’o pague.

No telhado porém, não podia resistir aos impulsos do vento. Confiado, ou

talvez contra vontade, deu um vôo, do beiral onde estava, para o poleiro,

desculpando-se:

—Tem paciencia. Não posso estar alli. Comerei n’este cantinho a esmola

que me fazes.

Mas a proximidade d’aquelle corpo sujo, volumoso, d’aspecto selvagem,

assustou o timido papagaio real, que logo gritou fóra de si:

—Ó Antonio. Traz o pau!...

E esvoaçava sem querer poisar. Agarrava-se á corrente que o prendia ao

comedoiro. Tremia de verdadeiro medo, elle saudavel e nedio, diante

d’este habitante dos rochedos, que estava a dar o ultimo suspiro.

O cosinheiro, ao ver o corpo immundo e repellente, perto do seu estimado

papagaio, exclamou irado:

—Olha o ladrão de um corvo!...

E dando uma pancada no animal desfallecido, atirou-o sobre o lagedo da

rua, onde o desgraçado morreu logo. Em seguida, o Antonio com o fim de

socegar o seu querido, passava-lhe com brandura a mão na cabeça dizendo:

—Calla-te loiro, não tenhas medo. Queria-te fazer mal? Levou a sua conta.

Coitadinho do loiro, coitadinho do loiro.

Assim se cumpre, muitas vezes, a justiça na terra. Meus filhos, não

se deve acreditar facilmente nas culpas d’aquelles que são infelizes,

principalmente quando precisam de que se lhes faça bem.

Lisboa, Março, 85.

[Illustration]

[Illustration]

A VISTA DO SALGUEIRO

(CONTO PARA CREANÇAS)

Ambrosio era velho e vivia n’uma casa muito pobre, toda esburacada e

de telha vãa. Lá dentro, os ratos eram tantos como as formigas n’um

carreiro; e elle, sentado ao lume, via-os ir e vir, sem mesmo ter medo

d’elles. Por traz da casa havia um pequeno quintal, ao fundo corria o

rio, e pegado estava o moinho, habitado pelo moleiro, homem que elle

odiava mais do que a morte.

Na tarde serena d’um dia d’agosto, Ambrosio, foi visto na margem,

sentado n’uma pedra, o queixo pousado nos joelhos, a olhar fixamente e

pasmado para uma arvore do outro lado. O ceu era dum azul pallido; as

aguas passavam silenciosamente, até entrarem na guela d’azenha, onde

produziam um sussurro; a roda movia-se de vagar; porque a força do rio

era pouca... O pensamento d’Ambrosio voava, n’um mundo de independencia

e maldade, planeando vinganças contra o moleiro seu inimigo. Era um odio

velho, nascido de conflictos diarios, aggravado por muitos nadas de que,

o do moinho, nem tinha consciencia. No corpo d’Ambrosio, magro como de

feiticeira, passava-se no momento em que o viram a olhar para o triste

salgueiro, uma lucta violenta e feroz.

N’esse dia, apparecera-lhe em casa, um bacoro de perna quebrada. Sem mais

reflectir attribuiu logo o maleficio ao damnado visinho e foi para alli

ruminar uma vingança, que o deixasse consolado. Tinha um coração de pedra

este demonio de velho! Se não fora assim, como poderia gozar, inventando

martyrios, n’uma tarde serena de verão, toda silencio e bondade!

Mas não se desprendia do terrivel desejo de matar o moleiro, com os

maiores soffrimentos e castigos, que no mundo tivesse havido! Seria capaz

de se vender ao diabo, só para conseguir o seu fim.

* * * * *

Veio-lhe esta ideia audaciosa e encarou-a resolutamente. Tão firme foi

o seu pensar, que logo o diabo em pessoa alli lhe appareceu deante dos

olhos, offerecendo-se-lhe para tudo, em troca da alma se elle realmente

lh’a queria vender. Era figura bem conhecida, a que estava deante de

Ambrosio:—meio homem, meio cabra; um comprido pello cobrindo-lhe o corpo;

um rabo a dar para um lado e para o outro, como o d’um lobo; os cornos

arrebitados na cabeça; e os olhos a coriscarem como dois carvões accesos.

O velho não se atemorisou, e como desejava vingar-se do moleiro, sentiu o

peito cheio de goso, quando o diabo lhe disse:

—Ouvi a tua voz. Aqui me tens. Acceito o teu contracto. Pede o que

quizeres.

—Então tu é que és o diabo?—perguntou.

—Eu mesmo. Sou o que tudo posso depois lá do _Outro_ (apontou

desdenhosamente para o ceu). No meu reino posso mesmo mais do que _Elle_.

—Fazes-me tudo quanto eu quizer para matar o moleiro?

—Tudo, com tanto que me entregues a tua alma.

—E para que queres tu a minha alma?

—Para a guardar juncta com outras.

Ambrosio observou escarnecendo:

—Não acredito que faças bom negocio. Pelo que dizem os padres, a minha

alma não presta. Dou-ta, mas has-de trazer-me aqui o moleiro pelo

cachaço, e depois de bem amarrado e preso, deixares-me fazer o que eu

quizer. Mas quero-o bem amarrado e preso, porque tenho medo, entendes?

—Se entendo!... E só queres isso?

—Se perguntas é porque estás em maré de franquesa. Então vá lá: Quero

ser rei; ter muito dinheiro, muitos palacios, muitas cidades, muitos

cavallos, coisas ricas para comer.

—Só isso?

—Co’a breca! Muito boa deve ser a minha alma para ti. Olha, já que

offereces, quero uma sanfona, para tocar aos ouvidos de minha mulher,

quando ella estiver a resmungar... Tu sabes; ás vezes leva noites

inteiras ... ron-ron-ron... ron-ron-ron...

—E por quanto tempo desejas tudo isso?

—Essa agora é que nem parece sua, seu diabo! Isso por muito tempo.

—Não posso dar-te tudo por mais de cinco minutos.

—Cá me parece sovinice. Cinco minutos não é nada.

—É tempo bastante de gosares todas as coisas que pedes e de te

aborreceres de todas ellas.

Ambrosio deu uma estrondosa gargalhada, que encheu todo o valle,

repercutindo-se nos reconcavos visinhos. O diabo acrescentou:

—É como te digo. N’esse ponto te mostrarei o meu grande poder. Um

minuto basta para eu fazer passar na tua vida, todas as grandesas da

terra. Outro minuto para percorreres todas as grandes cidades do mundo.

O terceiro minuto para tocares sanfona a tua mulher e ella morrerá de

desespero. O quarto para matares com toda a pachorra o moleiro.

—E o quinto?—perguntou Ambrosio.

—Esse é para te aborreceres.

—Como tu és grande, diabo!—disse o velho enthusiasmado. Acceito.

—Deixa tirar uma gotta de sangue das tuas veias. Com esta penna de mocho,

molhada no teu sangue, has-de pôr o teu nome n’este livro.

O inimigo do moleiro sentiu uma picada no sangradouro e logo o seu nome

appareceu brilhante como o fogo, na pagina onde o escrevera, obrigado por

uma força irresistivel.

* * * * *

Depois um vento infernal levou-o pelo espaço. Tudo quanto via e gosava

eram deslumbramentos e delicias. Corria-lhe o corpo um calor de mocidade.

Ricos manjares eram servidos em pratos d’oiro; as festas mais divertidas

e luxuosas, passavam-se em palacios de marfim e cristal. Camas formadas

de fofas nuvens, appareciam dispostas para um momento de cansaço. Levado

milagrosamente, passou sobre os mares onde ruem tempestades, viu a seus

pés cidades cheias de bulicio e riquesa, os reis da terra offereciam-lhe

homenagem! Os montes de perolas, oiro e diamantes já eram para Ambrosio

coisas sem valor. Por causa d’um mosquito que lhe passou no nariz, teve

uma rajada de colera, que fez tremer toda a terra!

Logo em seguida viu humilde e supplicante o moleiro, que já estava

preparado para o sacrificio.

—Quero matal-o cá á minha moda—disse para o diabo. Hade ser n’um banco,

escochinado, como um porco.

Novos contos 4º volume da Comedia do Campo · 第 7 / 8 段