No momento seguinte estava junto de sua mulher tocando-lhe sanfona aos

ouvidos. A pobre velha, entrevada na cama, havia muitos annos, supplicava

com olhares, que lhe não atormentassem as ultimas horas de vida. Porém o

marido, homem de coração duro, foi implacavel até ao fim e viu-a morrer

no meio de soffrimentos horriveis. Depois é que deu começo á tarefa mais

importante, que era dar morte afflictiva ao moleiro.

* * * * *

Espatifal-o como um porco fôra sempre a sua ideia fixa. Ia realisal-a.

A scena passa-se no quintalito junto do rio. A victima, com a sua

grande estatura sae do moinho. Vem manietado e humilde, ao pé do algoz,

apresentar-se para o sacrificio. Ainda que não ousava levantar os olhos,

o seu porte era digno.

—Ah!—disse Ambrosio com grande satisfação. Vamos lá a isto?

O proprio carrasco, é que foi buscar um banco. Apontando para elle,

mostrou-o á victima, com riso de mau:

—Hade ser aqui.

O pobre moleiro conservava-se calado e triste. Não ousava ter olhares

colericos, talvez, para o suplicio lhe ser menos barbaro. Não pedia;

pois era um homem valente, digno, bondoso e reconhecia a crueldade do

inimigo.

Ambrosio continuou:

—Só para chegar a isto dei a minha alma ao diabo. Se mil almas tivéra,

todas daria, só para te cravar mil vezes uma faca no coração e tirar-te

mil vidas que tu possuisses. Quem foi que me quebrou a perna do bacoro?

quem me fez secar a larangeira? quem me roubou a panella velha, com que

eu tirava agua do rio? quem me estragou o mangericão?

E como a victima dos seus odios, continuava a olhar para a terra, sem

responder, escarneceu:

—Ah! não foi ninguem!... Estas coisas fazem-se por si. Alem de seres o

grande ladrão, que me roubou os feijões, és mentiroso. Pois vaes pagal-as

todas juntas, meu rico amiguinho. Ora deite-se n’esta cama.

E com uma força que não era a do seu braço enfesado e velho, pegou no

moleiro que era um gigante, e estendeu-o como uma arveola sobre o banco,

atando-o fortemente com cordas.

—Agora espere que vou aqui buscar uma coisa.

Logo appareceu com um alguidar e uma comprida faca de matador. Mostrando

estes objectos, acrescentou:

—Isto é um alguidar para receber o teu sangue vermelho e quente. Isto,

uma coisa a que se chama faca para te fazer cocegas no coração. Talvez

ainda tenha tempo para arranjar um serrabulho d’esse sangue e coração.

Vamos á obra que se faz tarde.

Com placidez, gosando á vontade o martyrio do paciente, principiou a

arregaçar os punhos da camisa de estopa. Mostrou a faca reluzente á

victima que estava deitada. E voltando-se para o diabo disse:

—Você muito póde, seu amigo. Como eu tenho aqui este fanfarrão, sem se

mecher? Tenho pena que meu pae me não tivesse feito duas almas, para lhe

dar a você!

O demonio austero e grave não respondeu á lisonja. Ambrosio entrou de

novo no seu pardieiro e trouxe um pucaro d’agua quente. Tinha de molhar

a pelle da victima, para a ponta da faca entrar mais firmemente. E

chapinhando na garganta com a mão molhada, tinha uma respiração d’homem

feroz.

Apontou a faca ao logar apropriado, principiou a enterral-a lentamente,

para a dôr ser mais prolongada, o sangue já sahia em borbotões do peito

arquejante do moleiro.

—Não berra como os pórcos, este maldito!—considerou Ambrosio.

Ia-lhe remexendo cruelmente com o ferro nas entranhas! Gosava a sua

victoria, fazendo soffrer a victima.

Foi prolongando este goso até aos ultimos momentos do moleiro. E quando

reconheceu que alli estava definitivamente um morto respirou:

—Ahhh!... Isto valia bem uma duzia d’almas! Quanto falta senhor diabo?

—Vae acabar o tempo. Já lá te esperam. Olha!

Apontou para a bocca d’um enorme forno, onde entre as labaredas

infernaes, estavam homens e mulheres dando gritos. Todas as velhas ideias

de Ambrosio sobre penas eternas, se condensaram n’aquella realidade.

Affrontou heroicamente um tal espectaculo, deante do qual o seu coração

deshumano, ainda teve coragem para beber do sangue do inimigo! Porém o

mundo infernal das chammas e gritos, crescia rapida e formidavelmente.

O diabo sereno e magestoso estendia-lhe a mão para o agarrar, com as

suas unhas de macaco! O aspecto do demonio era tão medonho e terrivel,

que o velho Ambrosio teve subitamente um grande medo, todo o seu corpo

estremeceu como se oscillasse o mundo, amedrontado e covarde ia a dar um

passo para fugir...

N’esse instante escorregou e cahiu ao rio. Começou a berrar por soccorro

como um possesso. O seu choro era mais infeliz do que o de uma creança

sem mãe.

A agua escaldava-o e sentia-se abrazado como no meio de labaredas

infernaes! Quem lhe havia de acudir n’aquelle instante de afflicção? Foi

o visinho, o moleiro, a sua victima que sahindo fóra do seu moinho o viu

debater-se covardemente, como se estivesse assoberbado, por ondas d’um

mar tormentoso!

—Eh!... diabo de gato!—disse o collosso mettendo-se ao rio e agarrando-o

pela gola da vestia. Como diabo te aconteceu isto?

Levou-o para sua propria casa, metteu-o na cama agasalhado, deu-lhe um

caldo quente para o revigorar. O velho Ambrosio, olhando-o receioso,

batia o queixo de medo e dizia com a cabeça debaixo da roupa:

—Nada, não quero; elle póde deitar resalgar no caldo!

Arcos, agosto, 86.

[Illustration]

INDICE

PAG.

A minha morte 1

Nosso Senhor Jesus Christo 17

O cego de Guardiam 27

A velhice d’um rei 51

A mulher de Lucas 73

Dois caturras 95

A postura dos ovos 115

Rende-te Centurião 129

A truta grande 163

Um corvo e um papagaio 197

A vista do salgueiro 203

Novos contos 4º volume da Comedia do Campo · 第 8 / 8 段