para a alegria primaveral das cores e da luz. O sol glorioso batia de
frente nos anjos, obrigando-os a piscar os olhos. As lentejoilas, os
galões e os adereços faiscavam com ostentação. Todas essas innocentes
crianças iam pomposamente levadas para o Calvario, pelos seus parentes,
que lhes forneciam rebuçados em abundancia. A multidão commentava com
amor a riqueza dos vestidos e as lembranças do martyrio. O som plangente
e dolorido da musica, alastrava-se pelas campinas. O sermão do encontro,
só commoveu algumas antigas beatas, que lagrimejaram encostadas aos
carvalhos do largo. O pregador era um velho de voz pigarrada e bochecha
cahida. Todos o conheciam e não lhe davam valor. N’esse dia memoravel,
quem absorvia as attenções, era o padre Silvestre, que viera de Braga.
Para o ouvir corriam os mais ageis pelo monte abaixo e atulharam a egreja
com enthusiasmo. Para os andores entrarem pediram auxilio ao Cancella
e aos da guarda romana. Á força de muito encontrão é que puderam abrir
caminho. Houve gritos, exclamações injuriosas; mas as confrarias, os
anjos e mais figuras, tiveram os seus logares. Tambem, o Centurião e os
seus, foram logo, alli mesmo, pagos d’esse esforço, bebendo um cantaro
de vinho que veio para a sachristia. Depois que tudo se acommodou como
pôde, a egreja ficou silenciosa. A imagem do Redemptor e da Virgem
destacavam-se com energia, no horisonte do calvario, formado de nuvens
caliginosas. Havia anciedade pelo apparecimento do pregador.
* * * * *
A figura grave do padre Silvestre mostrou-se no pulpito. Circumvagou
a vista, desde o guarda-vento até a repousar na imagem do Christo,
ajoelhado debaixo da cruz. O exordio foi longo, mas habilmente preparado
n’um crescendo de dôr. Seguiu a vida simples do filho do carpinteiro
de Nazareth, levando-o desde a malvadez de Herodes até ao baptismo no
Jordão. Mostrou-o predestinado pelas prophecias, para a sua divina
missão de soffrer o martyrio degradante que soffreu, por amor dos
homens. Anteriormente á vinda de Jesus, a humanidade vivia numa escura
masmorra, com porta, só para o inferno! As palavras da escriptura haviam
de cumprir-se e era preciso o sacrificio d’um Deus, para salvar o mundo.
_Elle_ encarnou, soffreu, demorou-se trinta annos distante da patria
celestial, para nos remir e dar exemplo. Nem que todos os homens vivessem
eternamente em penas afflictivas, poderiam pagar tão infinita bondade!
Por isso, na apaixonada peroração, o pregador, começou por considerar que
estando dentro d’aquella egreja, só miseros peccadores condemnados aos
rigores do inferno, convidava-os a que se prostrassem de bruços, para
pedirem perdão a Deus dos enormes peccados, que todos haviam de ter, no
logar mais intimo da alma.
Os gritos e soluços do povo sommavam-se, como elementos d’uma calamitosa
tempestade. A gritaria das mulheres, que davam bofetadas nos seus filhos
para os obrigar a carpir e conservarem memoria d’este sermão, esfusiavam
no ar como uivos de vento. O pregador, para tomar mais pathetico o
discurso, quil-o ornamentar com a conversão _d’um infiel_. O infiel
era o Centurião, o filho do Cancella, no qual ia experimentar o poder
extraordinario da divina palavra.
* * * * *
Desde o principio se reconhecera, que o José estava casmurro; pois que, a
despeito de todo o povo chorar, elle sempre se mostrára atrevido, olhando
o pregador com altivez. Os seus soldados tambem o acompanhavam no ar
insolente. Algumas pessoas que estavam no segredo do que se passava,
attribuiam aquella chibancia ao ultimo cantaro de vinho. O pregador,
ignorante do facto, antes o julgou muito bem compenetrado do papel. Por
isso começou por pedir aos fieis, que o acompanhassem na exhortação que
ia fazer. Como as toupeiras que não tem olhos para a luz do sol, aquelle
desgraçado não tinha meio de presenciar o encanto da luz da divina graça.
Vivia em trevas infinitas, d’onde só podia sahir pelo enorme poder do
Senhor. E estendendo-lhe os braços paternaes, pediu suavemente:
—Rende-te Centurião!
—Rende-te Centurião!—acompanharam os circumstantes, n’uma voz chorosa e
precatoria.
O filho do Cancella, que passeava soberbamente no calvario, parou
cofiando a barba com magestade e affirmou resolucto:
—Não me rendo!
O Agrella, que estava alli perto, disse-lhe de modo que elle ouvisse:
—Não te rendes! Isso logo se verá meu pedaço d’asno.
Evidentemente, esta ameaça do alfaiate perturbou a vista do esforçado
Centurião. Por entre a longa barba, sahiu-lhe um bafo enfurecido de
colera, e se não fora a especial situação, era capaz de lhe quebrar a
cabeça com a lança.
O pregador, tendo limpo os beiços ao lenço, segundo a convenção,
continuou exhortando o infiel e pediu-lhe com mais instancia. Pintou,
deante do povo absorvido na sua palavra santa, o triste estado d’aquella
alma obcecada, recusando receber em si a divina luz! Empregou maior
energia de phrase, foi mais caloroso e persuasivo. O povo seguia-o,
supplicando com elle, levantando clamor cheio de lagrimas. Ao segundo
_rende-te_, quando o pregador mudou o lenço para o meio do pulpito, o
Centurião respondeu cathegorico:
—Não quero, não rendo!
—Á terceira nós veremos—afirmou de novo o Agrella, que estava certo do
que se passara entre o José Cancella e o pregador.
* * * * *
O padre Silvestre investiu no ultimo pedido, dando-lhe a forma de
objurgatoria. Para ser mais solemne, começou em tom simples, subindo
gradualmente até ao intimativo.
Já via na fronte do Centurião um principio d’arrependimento. O grande
Deus ia feril-o com um d’esses raios de divina omnipotencia, como ferira
Paulo na estrada de Damasco, como ferira o impio Agostinho, e o proprio
Moisés na montanha. Não podia consentir-se que vivesse entre christãos,
uma alma peccadora e impenitente. A conversão havia de dar-se a preço da
propria morte, porque o Senhor usa de todos os meios, para chamar a si as
almas!
O filho do Cancella, perseguido d’ameaças, não se commoveu. Porém, quando
o pregador o equiparou aos grandes santos, já parecia amollecido no seu
espirito de resistencia. O povo chorava e clamava em altos gritos, o
peito enchia-se-lhe de ternura e arrependimento. Talvez fosse melhor
acabar com aquillo, prostrar-se por terra, como tinha promettido. O
pregador mudou o lenço para a direita e concluiu com voz energica e grave:
—Abre esses olhos peccador! Rende-te Centurião!
—Agora!—intimou o Agrella.
O chefe da guarda romana fixou no pulpito um olhar atrevido. Julgou-se
indigno da fama que tinha de valente se obedecesse á voz do Agrella. O
vinho dava-lhe coragem e audacia. Tomando a lança ás duas mãos, bateu
uma forte pancada no pavimento e respondeu ao pregador:
—Tenho-os bem abertos. Não me rendo! Não e não! Obrigue-me!
* * * * *
Depois d’isto a situação ficou inteiramente perturbada. O padre Silvestre
teve uma paragem de surpreza. Não sabia o que aquillo queria dizer. Teria
havido algum esquecimento ou engano?! Para que o rapaz percebesse melhor,
tornou a pegar no lenço, suspendeu-o no ar e collocou-o á direita. Á voz
imprecativa do sacerdote, juntava-se o clamor plangente e formidavel do
povo. Pois que! O filho do Cancella tinha duvida em reconhecer o enorme
poder da Omnipotencia! em se rojar diante do Senhor dos Senhores, do Rei
dos Reis! em reconhecer que o Immaculado Cordeiro veio morrer fragilmente
na forma humana, só para nos remir e salvar! Estranha e incomprehensivel
cegueira! Empedernido no peccado, devia estar aquelle coração. E
pediu-lhe de novo que se rendesse, que attendesse á commovente voz de
todas aquellas mulheres que o exhortavam e no meio das quaes estaria sua
propria mãe.
As pessoas gradas pareciam irritadissimas. O brazileiro Guimarães
lembrou-se de o mandar prender; mas o desembargador João Xavier,
achou isso improprio do logar. Enviaram o Zé Maximo, que lhe disse com
moderação:
—Rende-te, diabo! Olha que o homem já está rouco.
—Deixe-o estar!—respondeu succintamente o Centurião.
Todos se mostravam inquietos. Semelhante cabeçudo, merecia boa doze de
páu—opinavam.
O pregador estava esfalfado. A sua voz, já pouco distincta, era coberta
pelo alarido que enchia a egreja! Ouviam-se supplicas, ameaças, palavras
soltas, gritos, creanças a chorar...
O filho do Cancella, de cada vez se inculcava mais firme, no proposito de
se não render. Foram pedir ao pae que lhe impozesse a obediencia; porém
o velho, que sempre tivera prosapias, mostrou má vontade de interferir.
Opinou que o rapaz se renderia quando entendesse, que o deixassem lá,
elle sabia bem do seu papel. Não era a primeira vez.
Tudo parecia perdido. O padre Silvestre, exhausto de forças, furioso
contra aquelle maroto, arrancou do peito um grito sublime. Com a colera
estampada no rosto, dirigiu-se ao povo, e apontou vivamente para o
Centurião clamando:
—Aqui d’El-rei! contra aquelle maroto! Prendam-no que foi elle que matou
Nosso Senhor Jesus Christo! Povo! Faz justiça por tuas mãos.
Os das confrarias largaram as tochas e correram em tropel. O chefe dos
soldados romanos preparava-se, juncto com os seus homens, para levarem
tudo á bordoada. Só então é que o velho Cancella se adeantou, agarrando o
filho pelo tronco:
—Eh! Zé. Que diabo é isso! Rende-te que já fizestes a tua figura, home!
Elle então, arrumando a lança para um canto, submetteu-se:
—Como vocemecê pede, vá lá! Se não ia tudo razo!
* * * * *
Depois na sachristia, o Guimarães, furioso, disse-lhe:
—Precisavas que te mettessem um páu, entendes? Culpa tive-a eu em mandar
o cantaro de vinho. Não eras tu que fallavas, não.
O abbade, esse, mesmo d’estola, quiz-lhe esmurrar as ventas. O pregador é
que lhe agarrou n’um braço, socegando-o:
—Deixa-o. Quem lhe hade pôr uma farda ás costas, sou eu. Lá é que ellas
se pagam. Moinante!
O filho do Cancella, ouviu-os com ar sizudo, sem responder. A vista
toldou-se-lhe quando o ameaçaram. N’um impeto de colera, arrancou as
barbas postiças e arrumando com ellas ao chão, disse sahindo para fóra:
—Ainda um raio me parta se eu tornar a fazer de Centurião! Macacos me
mordam, se pozer outra vez isto na cabeça!
E atirou ao meio da herva do adro, o bello capacete prateado, que foi ter
a distancia.
O abbade, ainda se chegou á porta dizendo-lhe deante dos homens que alli
estavam:
—Ah! bom marmelleiro! Levem d’ahi esse odre de vinho, antes que eu lhe
ponha os ossos num feixe.
Em casa do pae, custou muito a socegal-o. Foi preciso deitarem-lhe uma
chapoeirada d’agua fria para o acalmar. O somno que dormiu, foi de mais
de doze horas!
Fevereiro de 86.
[Illustration]
[Illustration]
A TRUTA GRANDE
Lá está o padre João, a dormir na sua cadeira de braços, debaixo da
fresca lata! Peito ao léo, as abas do amplo casaco de lustrina pendentes,
breviario para um lado, lenço para outro, caixa do rapé na mão, o ventre
arfando pausadamente... É todos os dias assim, depois de jantar, no tempo
dos calores. Para avaliar a tranquilidade de certas almas, é melhor
sentir-lhe a respiração suave, do que ler, tudo quanto pensadores e
casuistas, tem escripto acerca de moral. E julga-se um homem accordado,
o sereno eclesiastico, pois regouga palavras incomprehensiveis! Em
que bello paiz de sonhos trabalhará a sua ideia?! Sorri-se, o labio
papeja-lhe de contentamento... É que está á borda do rio, a canna de
pesca firme, o olho interessado, a respiração silenciosa. Rabea-lhe
em volta da isca e em breve a morderá, o peixe guloso e estupido. A
superficie da agua é serena. A transparencia deixa ver o fundo limoso e,
talvez, a truta grande, com a magestade do seu nadar, passe altiva, a
distancia.
Ah! magnifico padre João, como estaes evidentemente enganado! Os tremulos
e repetidos puxões que vos agitam o corpo, ebrio de goso, não são do
peixe a depennicar na isca, são as gallinhas em cata de moscas. Ellas é
que vos tiram pelas abas sebentas do casaco de lustrina, querido e obeso,
padre João!...
* * * * *
O dia era d’agosto e bem quente. Atmosphera tremula e translucida, como
se fora de crystal fundido. No rio, as lavadeiras entoavam canticos
religiosos aprendidos com os missionarios e modas profanas colhidas
dos cegos que passavam. Nos campos em redor, áquella hora, não havia
murmurios do trabalho, pois já tinham acabado as sachas e as mondas.
As regas, essas faziam-se de noite. Eram duas da tarde e entram no
quinteiro os discipulos do latim. Ao verem o respeitado mestre, tão
docemente adormecido, deixam-no em paz e vão gazear para os lados do
rio. O porco foi menos condescendente. Tardava-lhe a lavagem e principiou
a grunhir em volta do quinteiro, parando com o focinho erguido para a
cosinha. Este barulho espertou o excelente ecclesiastico. Primeiro abriu
um olho, depois outro, conservando-se alguns minutos em contemplação,
mãos crusadas sobre o ventre. Parecia contar detalhadamente os doirados
cachos que formavam um docel sobre a sua cabeça! Por fim ergueu o tronco
considerando:
—Então não me ia deixando dormir?! Pois não é o meu costume. Ó
Luiza!—chamou repetindo tres vezes.
Uma voz de dentro da casa respondeu:
—Não posso lá ir. Estou a arranjar a lavagem. Não ouve o pórco?
—Tem piedade de mim, moça—exhorou o padre João. Tenho esta bocca como um
pau velho.
—Tambem, está sempre com seccuras!
* * * * *
Mas a rapariga compadeceu-se. Primeiro que tractasse do porco foi á
adega, trouxe uma infusa de vinho, collocou-a desceremoniosamente no
chão, juncto do amo que disse:
—Deus t’o pague mulher! Deus t’o pague! Se não fosse isto, nem hoje podia
dar lições.
Com sorriso beatifico, pegou na infusa, repimpou-se na cadeira e começou
_glou, glou, glou_... até um final de saciedade, que consistiu n’um
prolongado ahhh!...
A creada, voltando com a lavagem, disse:
—Já ahi vieram os estudantes, mas como vocemecê estava de papo p’r’o ar,
lá se foram derriçar co’as raparigas p’r’o rio. Não lhe tem respeito
nenhum—censurou.
—Que respeito queres tu que me tenham?! Deixa-os lá, esta vida são dois
dias. Gostam das moças? Tambem eu já gostei... e ainda gosto—concluiu
arregalando olhos bregeiros.
—Um padre velho, sempre falla d’um modo...
—Historias! Velhos são os farrapos. Vae-me chamar esses estudantes. Se
não aprendem latim, não serão nada. Latim é a base. Vae-os chamar, anda.
E acabou de emborcar o resto da infusa, com um beber sereno de
satisfação. A creada reprehendeu-o:
—Todo elle é vinho. Quando não está, p’ra lá caminha.
—O que, bebedo? grandissima cachorra. É coisa que nunca me viste,
mentirosa. Gosto da pinga e de ti; mas não me embebedo com estas coisas.
—De mim! Arreda, que me quero casar.
—Com esse garotaço que te namorisca? Has-de casar sem banhos, nem benção,
eu t’o affianço. Vae-me alli chamar os estudantes, anda.
—Vá você, que tenho a massa a aziumar. Se hade tornar a adormecer...
* * * * *
Luiza subiu a escada de pedra para a cosinha. O padre João levantou-se
sem resistencia, sahiu o portal e foi pelo carreiro abaixo, com o lenço
vermelho a resguardar-lhe a cabeça, do sol. Chegado á margem do rio, lá
viu os discipulos brincando com as lavadeiras. Muitas d’ellas levavam a
coisa de galhofa; outras enxotavam-nos com pragas. O professor não se
encolerisou, apesar de alguns estarem a fumar—o maior de todos os vicios,
e que elle odiava do fundo d’alma. Toda aquella alegria e mocidade lhe
arejou os sessenta annos. Enamorado da juventude, quedou-se a contemplar
o quadro cheio d’animação. Benevolo e risonho, fatiava comsigo mesmo.
—Não querem ver como se arreitam? Ora, ora, já a formiga tem catarrho!...
Levava o lenço ao nariz para enxugar o pingo da distracção. Escondido
por detraz d’um choupo, interessava-se na contemplação d’este quadro
virgiliano. Absorvia a fundos haustos o ar impregnado de terriveis
prazeres, que lhe revolviam os nervos. Recuava quarenta annos, ao tempo
das rapasiadas, dos bons acasos, quando apalpava contornos e sentia na
approximaçâo da carne, coisas de mil demonios. Talvez que ainda recuasse
mais, á famosa edade em que a imaginação trabalha inquieta, creando
gozos, adivinhando extasis e vive de imperiosos desejos, que entumescem.
A physionomia graciosa do padre João, expandia-se á vista do quadro
simples e primitivo—o beiço tremulo revelava o seu interior. A paisagem
era encantadora, a corrente da agua arrepiava-se nos seixos; na mente do
mestre de latim só podia haver quadros pittorescos de antigos faunos, a
rirem juncto de fontes, em florestas edylicas.
—Olha o Esteves—commentava—como repara nas pernas da Clementina!
Grandissimo tratante! Talvez não saibas o _Sum, és, fui_ e estás ahi
com esses olhos. Como já tem malicia! Mas que maliciasinha! mas que
maliciasona!
Limpou precipitadamente outro pingo. Humedecia os beiços com a lingua,
como o guloso de bellos manjares. Tudo aquillo o interessava. Sentou-se
na relva por traz da arvore. Tomou uma abundante pitada, fungada em tres
tempos, com todas as precauções para que o não presentissem.
—Ahh!!!...—respirou.
Queria ver onde aquillo chegava. Não podia ser grande coisa, estava
muita gente, as mulheres velhas são experientes. Alguma apalpadella,
um empurrão, talvez cocegas para fazer cahir as raparigas. Lá adeante,
no meio do salgueiral andava a Victoria a estender a roupa e cantava o
_Afasta_, _janota_, _arreda_. O padre João via-a pelas costas, o tronco
inclinado sobre a relva, as ancas largas, as rijas barrigas das pernas, á
mostra. Rapariga saudavel, muito alegre, amplo seio destinado a fecunda
maternidade. Disiam que namoriscava o filho do sachristão; mas de quem
ella parecia gostar verdadeiramente, era do praticante da botica, que
lhe dava fartura de banha de cheiro, para o cabello. Trabalhava distante
das outras lavadeiras, no coradouro, e para molhar as teias que lhe
estavam confiadas, mettia-se no rio até aos joelhos, atirando agua ás
manadas. O sol faiscando sobre a areia do seixal enlanguescia os corpos,
estonteava as cabeças. A Victoria desappareceu entre os salgueiros, para
os lados onde não havia gente. E pouco depois, o discipulo mais graúdo
do Padre João, o Thomaz do mercador, para lá se dirigiu, assobiando
disfarçadamente.
—Olhem o moinante! Não querem ver?—rugiu o mestre do latim.
Porem, mais longe, n’uma clareira, a moça, reappareceu. O padre d’alli
mesmo se pôz a vigiar, que não houvesse qualquer coisa. O estudante
encontrou-se com a lavadeira, quiz effectivamente agarral-a, mas a
rapariga esquivou-se-lhe, correndo adeante d’elle, furtando-se por
entre troncos d’arvores. O ecclesiastico para ver melhor, levantou-se,
seguia-os com prazer, inclinava-se para um lado e para o outro, punha-se
nos bicos dos pés.
A Victoria a dar gargalhadas condescendentes, gritava pelas companheiras,
ameaçava com um gougo o preseguidor. «E pilha-a.» «E agarra-a...»
«Agora... fugiu...» «Lá cahiram ambos...»—ia elle commentando, comforme
os cambiantes da lucta.
—O diabo é o Thomaz! Não escolheu mal o patifão—considerou, quando os
dois, junto um do outro, conversavam sensatamente.
* * * * *
Mas o aspecto de conciliação perturbou-se. O estudante perseguiu de novo
a rapariga que lhe fugia, gritando. A Lindoria ouvindo, correu para o
sitio, cheia de fervor beato.
Ralhou, esbracejando descompostamente. A sua gritaria era para denunciar
o rapaz, ao longe: «Maroto, metta-se com quem lhe der trela, não
ande a desinquietar as almas». Ameaçou o estudante com o pae, com os
missionarios, com uma queixa ao professor, com o inferno.
—Ah! tambem não é coisa para tanto—disculpava o sacerdote comsigo. Elle
não fez mal nenhum.
Mas Lindoria não era d’este modo de pensar. Como Thomaz e outros
companheiros lhe retorquiram com palavras feias, ella enfurecida e
descomposta, subiu pelo carreiro, mesmo direita á casa do padre João. E
berrava pelo caminho:
—Seus tratantes. Hão de dar grandes padres ou doutores. Padres!
Abrenuncio! Eram capazes de dar cabo do reino dos céus. Ah! Vossa
Senhoria já ahi vem? É que ouviu esta pouca vergonha!
Tinha dado de frente com o ecclesiastico, que retrocedera no caminho,
para fingir que vinha de casa. A Lindoria, presumindo-lhe a ideia da
procura dos discipulos, indicou-lhos:
—Estão alli senhor. Tire-lhes a pelle das mãos pelo amor de Deus, pelas
cinco chagas, senhor padre João. Olhe que não sabe os marotos que tem!
A figura do mestre de latim, quedou-se respeitavel no alto da ladeira.
Com um gesto largo de commando, appontou aos discipulos o caminho da
aula.
Vieram todos junctos, como um cardume de peixes. O sacerdote caminhou
adeante, sem os esperar, com o lenço vermelho pela cabeça, as abas do
casaco afastadas como dois remos. E susteve-se um momento voltando-se
para traz, com o fim de os increpar:
—São estas as horas d’aula? Eu ha um rôr de tempo á espera!...
A beata ainda lhe quiz contar tudo, mas o padre João nem a quiz ouvir:
—Não me dás novidade. Conheço-os. Deixa-os por minha conta.
Os estudantes seguiram-no, com semblantes de pouco temor. Já tinham
experimentado mais vezes aquella farronca. Eram, quasi sempre, os dias
mais serenos e benevolos.
* * * * *
Debaixo da varanda alpendrada, onde o ecclesiastico dava lições de verão,
que se iria passar?
O padre João fazia um barulho da breca. Movendo-se com uma presteza
desusada, foi ao quarto buscar a palmatoria, para amedrontar. Não se
queria ver entre os dentes de Lindoria, que era capaz de lhe inventar
a peior fama. Aquellas paredes e aquella figueira, habituadas ás
objurgatorias tytanicas de Tito-Livio, aos versos amplos do melodico
Virgilio, ás palavras conceituosas do velho Horacio e de Esopo, deviam
estar atemorizadas, pela subita colera do professor.
Chegou a parecer iracundo—o sobr’olho carregado, os beiços estendidos, o
rosto afogueado. Os rapazes curvados sobre os livros, já se não riam. O
padre, abrindo o Virgilio, disse desabridamente:
—Tradusa as Eclogas, senhor Magalhães. O senhor Thomaz emenda. Por cada
erro uma palmatoada no primeiro e duas no segundo. Vamos a ver se são tão
fortes em analyse, como na bregeirice.
Os mais pequenos, com as grammaticas abertas sobre os joelhos, estavam
pallidos! Nunca o tinham visto assim! Respirava-se alli uma atmosphera de
terror. O mestre tinha baforadas de colera, batia com a palmatoria sobre
a meza, arrumava os livros com impeto. O seu fim era crear em volta de
si, um ambiente de respeito.
A consciencia gritava-lhe que não seria bastante punidor; mas estava
resolvido a amedrontar a propria consciencia.
Para estabelecer uma intransigencia material entre si e aquelles que ia
julgar; para se recolher absolutamente no grave papel de juiz, cobriu
o rosto com o Virgilio. Não desejava ver os reus. Nenhum aspecto de
humildade ou compuncção o tocaria!
* * * * *
O Thomaz era o melhor dos seus estudantes. Traduzia Virgilio com
elegancia, penetrando-lhe as subtilidades litterarias. Foi elle quem
principiou a licção e não o Magalhães, como ordenára o professor. O
padre João conheceu a manha. Deixou-se enganar, até lhe achou graça. Um
ligeiro sorriso (o primeiro na tempestade do seu rosto), abriu-se como
uma flor de cacto. As paisagens tepidas e enganosas, d’uma suavidade
extensa, principiaram a desenhar-se-lhe deante dos olhos. Tityro e
Melibeu philosophavam na sua linguagem culta e suave, como o murmurio dos
regatos. A pastora das florestas, idyllicamente á sombra das arvores,
dizia do seu peito coisas ternas ao pegureiro amado, que tangia frauta
rude, juncto d’um ribeiro. O verso sahia claro, levantando-se n’uma
cadencia adormecedora. Havia as messes côr de manteiga, enchendo de
riqueza o valle; na encosta estendiam-se rebanhos de cordeiros, que
balavam por suas mães. Esta completa abstracção de materialidade, foi
gradualmente enternecendo o mestre encolerisado.
Ao fim de poucos minutos, já respirava uma atmosphera de bondade
natural; havia descoberto o rosto incauto. Não déra pela transição.
Foi acompanhando em voz alta o discipulo que em breve o deixou só,
limitando-se a ouvil-o. Pouco depois, o professor estava de pé, no
meio da varanda, lendo com enthusiasmo, elevando-se nas maravilhas da
comtemplação egoista do poeta! Desapparecera o mestre iracundo, não havia
palmatoria. Boquiaberto, deante dos discipulos, exclamava:
—Como isto é bello! Como isto é bello!
Foi-se á caixa do rapé, tomou farta pitada, fungou-a sem rebuço, de
pernas escachadas. Cahiu extenuado de prazer, na sua cadeira magistral.
O Thomaz, que era velhaco, aproveitou o momento para dizer:
—Não sabe o senhor padre João, o que nós vimos ha boccado?
—Que foi?—perguntou.
—A truta grande, a serenar, encostada á pedra branca!
Tornou-se pallido e extatico! Endireitou-se na cadeira e disse,
esforçando-se por se mostrar tranquillo:
—A truta grande, que anda ahi no rio!?
—Vi-a com estes.—insistiu o discipulo. É assim!— designou o comprimento
d’um braço.
* * * * *