O doutor procurou immediatamente a sua desforra. Logo que viu _O das

perdizes_, na sua carruagem puchada pela ostentosa parelha de baios,

disse-lhe:

—Ó Pessanha! Se esses teus cavallos fossem differentes era muito melhor,

diz aqui o frei Antonio.

—Pelo amor de Deus! não valiam dois patacos! Uma parelha assim, é muito

mais cára.

O frade resmungou.

—_Variatio deletact_, meu fidalgo. D’essa maneira até fazem mal á vista.

E quando se distanciou a carruagem, disse o sacerdote avulsamente:

—O universo é um.

—Os mandamentos da lei de Deus são dez e reduzem-se a dois.

—Já lhe fiz saber que não gosto de metter n’isto o divino, e lembro-lhe

que a gente faz cada coisa por sua vez.

O doutor apostrophou-o:

—Quantos olhos tem o senhor na sua cara?!...

—E não via as coisas muito melhor se tivesse um só, na testa por exemplo,

como os Cyclopes? Até não havia o perigo de se entortarem.

Leandro insistiu:

—Quantas pernas tem o senhor? quantos braços?

—E por quantas boccas come e diz asneiras o meu amigo! Por quantas

gargantas engole?—arremetteu o frade. O que o senhor tem decerto, é dois

juizos e nenhum d’elles vale tanto, como o casco d’uma cebola podre.

* * * * *

Estava-se nas vindimas. O advogado ía todos os annos para a Feitosa e

acompanhava-o alli durante algum tempo frei Antonio. Era um costume já

antigo. Leandro quiz d’esta vez apertar com _argumentos materiaes_ a

paciencia do sacerdote. «É preciso provar ao latinista—pensou—que vale

mais do que um simples casco de cebola podre, o meu juizo.» Logo que

frei Antonio chegou á Feitosa, onde o doutor já o esperava, feriu-o

uma novidade nos antigos e sustentados habitos d’aquella casa:—era a

existencia de duas mezas de jantar, uma para cada um. O doutor só deu

esta explicação:

—O senhor tem o seu systema, eu cá tenho o meu.

E na meza de Leandro havia dois talheres, dois pedaços de pão e duas

canecas de vinho. Em frente d’um dos pratos estava uma cadeira, com um

travesseiro a fingir de pessoa e esse travesseiro tinha um chapeu na

cabeça, um bigode de sedas de cavallo e conservava-se impertigado, n’um

sentido de troça.

O sacerdote, teve um riso amarello, fingiu que chasqueava e observou com

grandeza de animo:

—Tambem é a unica companhia que merece.

E foi-se sentar á sua meza, que tinha tudo estrictamente para um; mas

em quantidade muito resumida, tanto de vinho, como de pão. Depois de se

ter sugeitado heroicamente a esta prova durante alguns dias, tomou a

resolução de assentar junto de si dois bonecos de palha, pedindo que lhe

servissem os seus companheiros.

* * * * *

O doutor, que se não quiz mostrar vencido, levou ainda mais longe a

premeditada vingança, ordenando que no quarto onde sempre ambos dormiam,

houvesse uma só cama. Frei Antonio, um tanto perturbado, quando á noite

viu isto, perguntou á velha Joanna:

—Quem diabo vem a ficar aqui?

—Os senhores ambos. Ora o demo da brincadeira dos homes!

E o advogado accrescentou:

—Em coisa de cama sou pela unidade. As ultimas chuvas tem arrefecido o

tempo.

Ora, se havia coisa no mundo á qual o sacerdote preferisse a morte, era

a dormir com outro. Homem gordo, d’um suar facil, impaciente no sonho,

gostava de roncar á vontade, de alargar as pernas e deitar os braços

de fóra, quando lhe approuvesse. Antes passar a noite no chão, n’uma

mangedoura, ou sobre tôjo!... Desde que outro padre, n’uma estalagem de

Tras-os-Montes, o atirára da cama ao chão, estando elle a dormir e tendo

por essa occasião ferido a testa e o nariz nos cacos d’um objecto que se

quebrou, nunca mais acceitou companheiro de dormida.

Leandro sabia que o atacava no ponto mais fraco. O frade disse

simplesmente, em tom resoluto:

—P’ra graçola é de mais! Bem sabe que não durmo com outro. Então monto a

cavallo e vou-me _já, mesmo de noite_, embora.

—Pelo que vejo, a respeito de cama... para dois... duas?!—disse com

ironia o doutor, mostrando-lhe a outra que estava n’um quarto proximo.

E como não concluira ainda a sua argumentação pelos _materiaes_, quando

no dia seguinte, frei Antonio procurava os butes, para ir dizer a missa

conventual, a que se compromettera, encontrou sómente um. Sem ainda

calcular a significação do acontecimento, veio á porta em palmilhas de

meias, e gritou pela frincha que abriu:

—Ó Joanna! O outro bute?

—Pergunte por elle ao senhor doutor.

O ecclesiastico comprehendeu e disse zangado:

—Mau! mau! mau que m’arrenego!

Então Leandro, com ingenuidade fingida, respondeu-lhe do quarto:

—Passou ahi hontem um pobre, descalço d’um pé e dei-lho. O amigo tem na

realidade dois pés?

Frei Antonio, com ar apopletico, em mangas de camisa e em palmilhas,

o grosso tronco batido pela luz da janella do corredor, retorquiu

energicamente:

—Tenho sim senhor e você tem quatro. Ponha cá o bute e deixemo-nos de

chalaças. Já tocou ha um pedaço. Se essa gente fica sem missa por causa

das suas brincadeiras... quero ver.

* * * * *

Isto passava das marcas. O sacerdote procurou um meio de tirar a

desforra. Havia de ir ter-lhe ao bolso, que era aonde doia mais ao

sovina do Leandro. No _Bracarense_ da vespera annunciava-se a proxima

chegada, á cidade dos Arcebispos, da actriz Emilia das Neves, tão

celebre e tão gabada, que alli ia representar no theatro de S. Geraldo.

O padre, encobrindo ruins intentos, convidou o doutor para irem a Braga.

O advogado chasqueou-o por esta manifestação de mundanidade, porém o

ecclesiastico explicou-se com modo circumspecto:

—Não que ella só representa dramas sacros. Nem o senhor Arcebispo,

consentia outra coisa, na sua cidade.

Combinaram-se n’uma apparente harmonia, acceitando ambos este periodo

de tregua. O frei Antonio fazia de bolsa. Como era expedito, sagaz e

conhecia Braga, o seu amigo facilmente lhe entregou a administração das

finanças communs. Porém, mal conhecia o advogado o que podia dar o

rancor d’um frade, que é espicaçado no que elle tem de mais precioso,

o appetite. As humilhações, as zangas, a quasi fome d’alguns dias na

Feitosa, haviam dado ao rotundo ecclesiastico um faro agudissimo de

vingança. Logo na diligencia principiou por comprar tres bilhetes,

entregando dois a Leandro que observou seccamente:

—Na verdade eram bem precisos tres logares, attendendo a que o senhor não

é um homem, é uma pipa.

Em Braga, no Transmontano, o doutor notou que o dono da hospedaria, um

velho coxo e rabugento, que estava sempre a praguejar deante do forno, se

ria descompostamente a tudo quanto lhe segredava o seu velho amigo frei

Antonio e que dissera depois d’um d’esses colloquios:

—Então afinfa-lhe? Trinca-lhe bem e entorna-lhe melhor? Vae valido.

E tambem percebeu que o sacerdote accrescentára:

—Tudo á farta e contas separadas.

Porém Leandro não se deu por achado. Alongou os beiços, sorriu com

esforço e á mesa onde estavam tres talheres, mostrou uma apparencia calma

e de coragem.

Por certo que identicas advertencias haviam sido feitas ao Miguel, um

creado bebedo e feio, que jogava a batota com os hospedes, pois que esse

Miguel, ao segredo do frade retroquiu olhando de soslaio para Leandro:

—S’tá dito! Que pandigos!

E apesar da resolução em que o doutor estava de se mostrar digno e

conveniente até ao fim, não pôde deixar de se sentir estrangulado pela

indignação, quando viu que o seu amigo lhe comprára dois bilhetes para o

theatro. Isto não tinha geito nenhum, era atirar dinheiro pela janella

sem necessidade! Na hospedaria, fechado dentro do seu quarto, que estava

preparado para duas pessoas, quando elle era só um, exclamou voltado para

o tecto:

—Este padre é o demonio! Mau raio, se lhe não espeto uma faca n’aquelle

bandulho!

Minutos depois veio pelo corredor frei Antonio que disse, fallando pelo

buraco da fechadura:

—Adeus Leandros, boas noites.

E logo em seguida, o Miguel acrescentou com a sua voz avinhada:

—Com bem passem, senhores _doutores_.

O advogado que já estava na cama e com a luz apagada, ressonou forte,

para não responder. No dia seguinte levantou-se cedo, com o fim de ir

sósinho almoçar debaixo da Arcada. Mas frei Antonio, que o espiava,

seguiu-o de perto, entrando logo depois d’elle e mandando vir para tres.

Leandro ao sair a porta do botequim, pronunciou de si para si:

—Isto acaba hoje! Deixa estar que hoje acaba!

* * * * *

Tinha, porém, urgente necessidade de mandar fazer uma roupa de panno

preto—sobrecasaca, calça direita, collete de ceremonia com uma só ordem

de botões; fazenda boa que lhe durasse o resto de vida, que servisse

para visitas e festas. Frei Antonio conhecia na rua do Souto um mercador

de confiança; o doutor era menos pratico na cidade e por isso não teve

remedio senão entregar-se-lhe. Pareceu-lhe que n’este particular não

podia haver novidade. Foram ambos, ao lado um do outro, silenciosos e

escandalisados.

Em quanto um mestre de _atraz da Sé_ tomava as medidas, fallou-se de

politica... em deputados... e o negociante, homem discreto, de barba em

serrilha opinou:

—Boa asneira! Esfalfa-se a gente para os mandar p’ra essa Lisboa e lá não

fazem mais do que andar na pandiga, com moçoilas e em treatos. Tributos

são de cada vez maiores! No tempo do senhor D. Miguel...

O alfaiate, absolutista sanguineo, parou subitamente e disse n’uma

arremetida, olhando por cima dos oculos, com a medida suspensa da mão:

—E acraditam, que o rei legitimo, não ha de vir pôr fóra do seu reino

esta cambada?!

Todos concordaram em que havia de vir, menos o doutor que já lhe tinha

perdido as esperanças e se fizera liberal.

Quando voltaram á terra, Leandro teve uma viva polemica com frei

Antonio, por causa d’aquellas asneiras fóra de casa. Não era por gastar

mais ou menos uma moeda, porém embirrava com tanta tolice deante de

desconhecidos. O frade respondeu-lhe que bom gado era porcos, levou-o de

troça e continuaram nos seus passeios e nas suas caturrices habituaes.

* * * * *

Quinze dias depois, o advogado recebeu pela diligencia de Braga duas

encommendas. Abriu a primeira e n’ella encontrou a roupa que mandára

fazer. Vinha tudo nos termos e a seu contento. Vestiu-a para ver se lhe

estava bem e a velha Joanna que elle chamou para dar parecer, disse que

estava mesmo um cravo, e recordou-lhe os seus tempos de rapaz, quando

elle vinha de Coimbra e era de todos o mais janota. Fôra n’esse tempo

que... Ella era creada da mãe de Leandro, uma boa senhora, temente a

Deus, confessando-se a miudo e reprehendendo sempre os atrevimentos e

brincadeiras do filho com as moças!... Havia 40 annos que Joanna alli

estava e ainda na memoria se lhe avivavam facilmente todos os quadros

ridentes da mocidade!...

—Mas a outra encommenda?—lembrou.

—É verdade—disse o doutor—isto não é para mim. Ha de haver engano.

Mas pegou n’ella, remirou-a por todos os lados, apalpou-a, cheirou-a

para advinhar o que seria... e nada! Pela terceira ou quarta vez releu

o subscripto, que era do mesmo talho de lettra da do negociante que lhe

remettia a sua roupa e com os mesmos dizeres.

—Só se frei Antonio tambem encommendou alguma coisa e que m’a mandassem

para eu lhe entregar—considerou com o embrulho suspenso nas duas mãos.

Para satisfazer a curiosidade de Joanna, sempre foi desatando os

barbantes, com precauções e cautelas, na convicção de que era coisa que

lhe não pertencia. Encontrou outra roupa, perfeitamente egual á sua. Não

podia presumir brincadeira tão pesada do seu amigo, e, como elle morava

perto, mandou-o chamar.

—Sabe para quem é esta coisa?—perguntou serenamente.

—Eu! Como posso advinhar?!

—Nada de brincadeiras—avisou. Será para si?

—Não gasto d’esses luxos. Nem eu cabia dentro d’este pé de meia—retorquiu

ironicamente o frade, suspendendo as calças no ar.

—Mas com mil demonios!—interroga colericamente o doutor. Sabe ou não

sabe?! Responda.

O frade respondeu com todo o socego:

—É provavel que seja para si. Em Braga, ninguem ignora que o senhor é

dois!

O doutor adiantando-se, poz-lhe diante dos olhos um punho cerrado.

—Sabe o que eu ignorava?—gritou. É que o senhor fosse um pedaço d’asno

como é!... Que o arrebento, seu odre!

O frade escandalisado, escachou as pernas e apresentando-lhe de frente o

seu valente tronco, oppoz-se-lhe com vehemencia:

—Ameaçar-me! olhe que o leva um milhão de demonios, seu cabrito esfolado!

E saiu nobremente da sala. Durante boa meia duzia d’annos, conservaram-se

inimigos e sem se fallarem. Porém depois reconciliaram-se n’um jantar de

boda, onde ambos se emborracharam até á ternura das recordações, e d’alli

ao fim da vida, continuaram a sustentar as suas theorias e a dar os seus

passeios habituaes.

[Illustration]

[Illustration]

A POSTURA DOS OVOS

As de Refuinho foram as ultimas a chegar. Por causa do ar da noite,

traziam as cabeças envolvidas em muitos chailes e só deixavam um

buraquinho para espreitar o creado, que ia adeante com o lampião. D.

Michaela, ao recebel-as no cimo da escada, logo ralhou com as meninas

por causa do agasalho excessivo. Nem pareciam raparigas novas, tantas

eram as cautelas que tomavam. D. Maria justificou as sobrinhas. Fora ella

quem aconselhara taes cuidados, por causa das possiveis dôres de dentes.

Só quem nunca soffreu d’ellas é que pode fallar! Quanto a si, explicou,

tossindo muito, com o seu modo resignado e soffredor:

—Oh! filha! Sempre te ando com uma gosma!...

Logo que entraram na sala, todos vieram comprimental-as. As da Torre

Velha conduziram as primas junto do candieiro, para lhes mostrarem o

retrato do irmão, que era militar e estudava em Lisboa. Tinham recebido

pelo ultimo correio, essa bella photographia d’um rapagão em pé, apoiado

negligentemente na espada e a barretina sobre uma _console_. Assentára

praça em cavallaria por inclinação: todos os presentes se lembravam,

de como era um demonio em pequeno, percorrendo o quinteiro em todos

os sentidos, montado n’uma canna! A carta escripta ás irmãs, era-o

n’um luxuoso papel cor de tremoço cosido e perfumada d’almiscar. Dizia

maravilhas das opulencias da capital, dos seus palacios, dos theatros e

das formosas mulheres que passeavam em carruagens descobertas, para serem

admiradas.

—Isso já por lá tem uma duzia de namoros—disse frei Ignacio, espreitando

por entre as cabeças das meninas.

Mas uma das da Torre Velha, confidente do militar nos seus primeiros

amôres, defendeu-o:

—Quem, o Zésinho?! Não é d’esses!

E encarou Clotilde de Refuinho, que baixou timidamente os olhos,

conservando-se muito tempo triste, encostada á mesa.

Os parceiros do rancoroso voltarete, enremissados da semana precedente,

estavam soffregos sobre o jogo. O desembargador João Xavier, para os

desculpar por se não levantarem, disse de longe, com a auctoridade d’um

marido, que esteve para ser de D. Maria, quarenta annos antes:

—Ó minha prima. Deus lh’as dê muito boas. Dispenso cumprimentos. Esta

remissa de quinze entradas tenho-a atravessada aqui.

* * * * *

Mas quem se aproveitou do reboliço foi o dr. Leandro, que a esse tempo

levava uma reverendissima tunda, ás damas, do seu amigo frei Antonio,

que as jogava na perfeição. O advogado aproveitou o ensejo de atirar

com o taboleiro para o inferno, e fez na sala tal barulho, que parecia

a derrocada d’uma torre. Até ia trilhando o medico Pestana, homem de

grande saber e azedume, que lá estava com o seu esqueleto arrumado a

um canto, a chupar cigarros, todo concentrado no odio ao recebedor da

comarca, por causa da morgada, D. Michaela—mulher soberba, que os dois

ambicionavam furiosamente. O recebedor, o famoso Silveira, n’essa noite

em maré de fortuna amorosa, parecia um redemoinho pela sala, sempre com o

chaile-manta cinzento pendurado dos hombros. Foi elle que ao vêr muita

gente, propôz logo um quino, fallando com o seu ar estarola. Era quem

costumava tirar as bolas e salpicava o jogo de larachas muito apreciadas,

que por vezes lhe deram assignaladas victorias, quando a morgada ria até

ao engasgamento nervoso. Porém, n’essa noite, D. Michaela preferiu antes

ouvir a musica «Ao Luar», tocada no piano, com muito coração e esmero

pela Clotildinha. Ella que era romantica e sentimental, adorava esse

famoso trecho, que já uma vez a fizera suspirar em Barcellos. Era um

idyllio cheio de meiguices dolentes e das suaves fragancias das campinas.

Remurejavam brandamente arvoredos, um regato serpeava pela encosta e o

poetico rouxinol queixava-se no interior d’um loureiro. Frei Ignacio é

quem fazia de rouxinol, munido d’uma gaitinha; mas o famoso Silveira,

que tambem conhecia a musica, aproveitou cruelmente mais esta occasião

de triumphar sobre o medico. Propôz-se a tomar para si a parte do

rouxinol, sem nenhum auxilio de gaita. Os applausos á magnifica lembrança

foram calorosos. Todos sabiam, quanto o recebedor da comarca era eximio

imitador de vozes d’animaes e especialmente das aves. Em certos casos

o engano era completo. Um dia mugiu tão admiravelmente de vacca no

quinteiro de Refuinho, que a velha fidalga veio á janella toda afflicta,

ralhar com o moço, julgando que andava o gado solto. Ao dar com os olhos

no Silveira, que n’esse instante estava mugindo com desolação para o céu,

suppondo uma cria distante, reprehendeu-o:

—Fazer de vacca! Isso é peccado. Não teme um castigo do céu? As vaccas

não tem alma—concluiu agastada.

O medico Pestana, concordando em que o recebedor não tinha alma,

chasqueou o caso dizendo que o _homem_, fazendo de vacca ou de boi que

era o mesmo, mostrava grande geito para marido.

* * * * *

Porém a novidade de imitar um rouxinol, foi muito celebrada; porque

ninguem lhe conhecia a prenda. O medico emmagrecia a olhos vistos, quando

a morgada dava palmas ao Silveira. Este para melhor o aguilhoar exhibiu

outras habilidades já conhecidas: fingiu o trote d’um cavallo que se

approxima e relinchou com as ventas altas no momento da chegada; o canto

do gallo ao amanhecer, batendo fortemente as azas, foi produzido com

rara perfeição; o coachar das rans em noites primaveraes, a chegada do

cuco em maio, os patos arrebanhados, o pardal, o melro, o perú... tudo

foi representado. Já não havia, nem volturete, nem bisca, nem ideias

de quino. Tinham para duas horas. O medico passeava ao fundo da sala,

sorumbatico e abatido. Frei Ignacio, sempre brincalhão, disse-lhe de

longe:

—Deixe-se d’isso, doutor. Quel-o vêr fazer de porco?

Todos o desejaram e elle não se fez rogado.

Sahiu da sala, para logo voltar silencioso e embrutecido. Vinha

sorumbatico e sorna, como um porco ao recolher. Uma creada chamou para

a comida: «_coxi, coxi, coxi_» e logo o Silveira principiou a correr,

como cevado cheio de fome, dando fortes grunhidos, gritos atroadores,

até que foi para um canto sugar a sua lavagem, com um _xou-xou_

embrulhado e caracteristico. Por fim suppondo-se um porco perseguido

por um cão, correu veloz, ladrando e grunhindo ao mesmo tempo, e sahiu

precipitadamente pela porta, dando um encontrão no medico.

Todos riram com boccas escancaradas. Frei Ignacio agachado a um canto,

já não podia mais, e por fim encostou a barriga á parede, com medo d’uma

colica. As meninas de Refuinho e da Torre Velha gargalhavam no regaço

umas das outras. O desembargador Xavier sorria de longe com dignidade,

olhando firme, com os seus occulos d’oiro.

Um joven poeta, estudante em Coimbra, foi da opinião e disse-o

claramente, que se aquelle phenomeno se exhibisse no _Palacio de

Cristal_, haveria grande concorrencia, porque era, em verdade, admiravel!

D. Michaela, que applaudira até as lagrimas, perguntou ao academico:

—O senhor Penaguião nunca o viu fazer de gallinha e pôr ovos?!...

—Nunca vi, senhora morgada...

—Então!...—concluiu com um entono que significava preço—nunca viu nada!

Todos se levantaram a pedir ao Silveira que exhibisse esta habilidade;

porém elle sentado n’uma cadeira, a limpar o suor do cachaço, não estava

para isso. Sentia-se cançado, ficaria para outro dia, não podia ser tudo

d’uma vez. A morgada, conhecendo o empenho dos seus convivas, disse mesmo

sem se levantar:

—Ande, vá pôr. Quero que o sr. Penaguião veja.

Não hesitou um momento. Um raio de vingança triumphante despediu-se do

seu fulvo olhar contra o medico, que ao vel-o prestar-se, sahiu da sala.

Porém isto, que todos julgaram um signal de covardia não o era de certo;

porque momentos depois o doutor tornou a entrar, com semblante conformado.

Como era uma exhibição mais complexa, tomou cada pessoa o seu logar.

As senhoras em cadeiras, em volta da sala, deixaram o canto livre para

a postura, que devia ser junto do piano. Os homens que se não puderam

sentar, encostaram-se ás entradas e nos vãos das janellas. O medico,

talvez para se mostrar generoso e soffrer deante de todos a propria

humilhação, occupou a cadeira mais perto do logar da postura.

Pareceu um acto publico de conformidade. O proprio Silveira assim o

entendeu. No meio d’um silencio valioso, depois de apenados dois

banquinhos para servirem de poleiros casuaes, o recebedor da comarca com

o chaile-manta pendente dos hombros, collocou-se no meio da sala, olhando

solemnemente em redor.

Mostrava-se grave, simples e ao mesmo tempo imponente!

* * * * *

A principio houve um cacarejar avulso e sem grande significação. Andava

em volta dando pulinhos, erguendo a cabeça para ouvir facilmente, e

espanejava-se ao sol. Depois continuou em passo solemne, entoando um

_cá... cá... cá..._ reflectido e de concentração. Passados momentos, a

voz levantou-se gradualmente mais sonora, tinha gritos estridentes e

estendia o pescoço. Andava com vivacidade, os pulinhos eram sacudidos e o

corpo avolumava-se-lhe debaixo do chaile, quando afastava os cotovellos.

Subiu a um dos poleiros e lá do alto produziu um _ca-ca-ra-có_, rapido

e vibrante, como se fora uma sentinella gritando ás armas, para afastar

um inimigo possivel. Mas logo desceu para continuar n’um tom manso e

natural, andando em passo grave, seguro de que ninguem o viria perturbar.

De repente deu-lhe uma especie de furia, uma raiva e começou a correr

e a gritar desesperadamente, muito arrastado pelo chão, significando a

gallinha apertada por uma dôr e com a necessidade urgente de expellir de

si qualquer coisa. Os gritos eram fortes e expressivos, as arremetidas

para o lado do ninho insistentes, sempre com as azas de rasto,

afastando-se um momento para voltar depois mais precisado.

A situação ia-se tornando claramente dramatica.

O interesse dos circumstantes era cada vez maior. Exprimiam o sentimento

de admiração que os possuia, em frouxos de riso apanhados na mão e

muitos, boquiabertos, pronunciavam: «Ora!... Ora!...»

A morgada, que estava mais á vontade e não temia perturbar a

representação observou:

—É tal e qual a minha amarella. Uma coisa assim!...

* * * * *

Vendo-se applaudido pela mulher a quem amava o Silveira foi sublime!

Aproximou-se sornamente do canto da postura. Reconhecia-se-lhe na

lentidão dos movimentos de parturiente, que se approximava o momento

supremo. Já ia arrastando o corpo, d’aza cahida, e um _có-có_...

guttural. Foi enfraquecendo a voz e os movimentos, andando em volta de

si mesmo a procurar o geito. Depois acamou-se acocorado, todo mettido

debaixo do chaile cinzento, n’uma attitude de objecto bruto e informe

que para alli estivesse arrumado. Houve um gemer soturno, como o regougar

d’um gato.

Foi n’este momento que o medico se abaixou fingindo que apanhava alguma

cousa. O Silveira não o percebeu, tão compenetrado estava das suas

altas funções de maternidade. Os assistentes, interessados no final

da comedia, tambem não repararam. Durante o minuto que o recebedor se

conservou agachado, trocaram-se apenas algumas observações em voz baixa.

Mas por fim, mestre Silveira, sahiu do ninho mostrando-se patentemente e

engulindo em secco, como se viesse d’um sonho. Começou a cacarejar com

alegria e orgulho em voz sonora e espantada. Saracoteava-se vistosamente,

espanejando-se, refrescando o corpo, na satisfação de quem cumprira um

dever e se livrára d’uma difficuldade. Esperto, vivaz, altivo, tudo

era _Ca-cá-rá-cá, ca-cá-rá-ki_... para um lado e para outro. E n’uma

reviravolta, quando fazia a ultima visita saudosa ao ninho, o soberbo

Silveira estacou de repente, empallideceu deixando de cantar, os braços

cahiram-lhe n’um assombro!

—Mas eu não fui!—pronunciou inconsciente.

Novos contos 4º volume da Comedia do Campo · 第 4 / 8 段